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Discografia Brasileira em 78 rpm: era uma vez o disco no Brasil

Pedro Paulo Malta

Ao todo, são 63.324 fonogramas catalogados, dos quais 46.660 podem ser ouvidos online. Números expressivos que traduzem o tamanho e a abrangência do site Discografia Brasileira, plataforma lançada pelo Instituto Moreira Salles conectando seu acervo fonográfico a uma das maiores bases de dados sobre música popular brasileira: a que deu origem à “Discografia Brasileira em 78 rpm (1902 - 1964)”, lançada em cinco volumes, pela Funarte, em 1982.

Primeiro catálogo no país a reunir informações sobre lançamentos fonográficos de todos os gêneros musicais, graças à dedicação e aos esforços dos pesquisadores que assinam a publicação: Alcino Santos, Gracio Barbalho, Jairo Severiano e Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez. Após o lançamento, coube ao último a tarefa de minuciosamente digitar todas as informações impressas e durante anos atualizá-las, resultando na base de dados que, licenciada ao IMS, torna-se acessível através do site Discografia Brasileira.

Nesta base está a história das seis primeiras décadas do disco no Brasil, ainda no formato 78 rotações por minuto (rpm) que vigorou do início da indústria fonográfica no país (1902) até a década de 1960, quando foi suplantado pelos discos de 33 rpm (longplays e compactos). O período inclui marcos fundamentais da memória musical brasileira, como o disco pioneiro lançado no país (“Isto é bom”, em 1902), o primeiro samba de sucesso (“Pelo telefone”, 1917), o primeiro frevo gravado (“Borboleta não é ave”, 1923), o disco pioneiro do sistema elétrico de gravação (com “Passarinho do má” e “Albertina”, em 1927), as marchinhas que estouraram na década de 1930 (em meio a sucessos eternos como “Carinhoso”, “Aquarela do Brasil” e “O que é que a baiana tem”, entre outros), o início da era do baião (“Baião”, 1946), o primeiro rock brasileiro gravado (“Rock n’ roll em Copacabana”, 1957) e o início da bossa nova (com “Chega de saudade”, em 1958).

Para encontrar estas e outras ocorrências, o internauta tem à disposição a busca avançada do site, que pode ser feita em nove campos diferentes, separadamente ou combinados: título da música, autor, intérprete, acompanhamento, gênero musical, formato do disco, gravadora, os números do disco e da matriz e os anos de gravação e lançamento. As 46.660 gravações disponíveis pertencem a coleções fundamentais que compõem o acervo do IMS, como as dos pesquisadores José Ramos Tinhorão e Humberto Franceschi, e, claro, a do próprio Nirez.

No site o internauta poderá montar suas próprias playlists e compartilhá-las com amigos através do Facebook, do Twitter ou do WhatsApp. Já para as ocorrências sem áudio, instituições e colecionadores particulares estão convidados a contribuir com o site, no desafio de completar o imenso “álbum de figurinhas” da Discografia Brasileira em 78 rpm.

Um levantamento que, na origem, se confunde com a própria história da pesquisa musical no Brasil, uma vez que a construção da base de dados que hoje é acessível através do site Discografia Brasileira só foi possível graças à formação de uma rede de pesquisadores, como relata o texto de apresentação da versão original impressa, publicada em 1982:

“Já nos anos 30, Almirante fazia uma discografia de maneira simplificada, anotando, apenas, o número do disco, repertório, gênero e data do lançamento; em 1956, Nirez (em Fortaleza) iniciava seu levantamento, incluindo, além dos dados acima, o nome do intérprete; na mesma época, Gracio (em Natal) e Alcino (em Taubaté) passariam a se interessar pelo assunto, reunindo-se a Nirez num intercâmbio de dados; finalmente, em 1968, seria a vez de Jairo (no Rio de Janeiro) – com a valiosa colaboração de Almirante e seu arquivo – que iria integrar-se ao grupo em 1973. Residindo em região onde se localizam as melhores fontes de pesquisa, Jairo teria condições de elaborar um trabalho mais completo, o qual, acrescido do item 'número de matriz', sugerido pelo Nirez, resultaria no catálogo em sua forma definitiva.”

A consolidação das pesquisas paralelas teve como culminância o I Encontro de Pesquisadores de Música Popular, realizado em Curitiba, entre fevereiro e março de 1975. O evento foi marcado pela criação da Associação de Pesquisadores de Música Popular Brasileira e pelo primeiro anúncio – feito por Nirez – sobre o trabalho de catalogação que vinha sendo feito. Em novembro de 1976, quando o Rio de Janeiro sediou a segunda edição do Encontro, a “Discografia Brasileira em 78 rpm” foi um dos temas apresentados ao público, também pelo pesquisador cearense.

Já em abril de 1982, o III Encontro de Pesquisadores de Música Popular – realizado também no Rio de Janeiro – terminou com a divulgação de um documento datado de 17 de abril de 1982: a “Carta dos Pesquisadores”, que traz entre suas recomendações a publicação do trabalho, solicitando que “a Discografia da Música Popular Brasileira em 78 rpm seja devidamente editada, quer sob a forma impressa ou xerografada, e incluída em um banco de dados”. Coube à Funarte – instituição federal em atividade desde 1976, então ligada ao Ministério da Educação – a publicação do trabalho, em novembro de 1982, com apoio da Xerox do Brasil, que imprimiu 200 exemplares, primeira e única tiragem da publicação.