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Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez

Fernando Krieger

O jornalista, colecionador e pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo nasceu em Fortaleza, em 15 de maio de 1934, filho de Tereza Almeida de Azevedo e do funileiro, fotógrafo, pintor, escritor e poeta Otacílio Ferreira de Azevedo. Otacílio foi membro da Academia Cearense de Letras e um dos grandes paisagistas cearenses, tendo sido um dos fundadores, em 1934, do primeiro ateliê de pintura na capital do estado. Batizado em homenagem ao pintor renascentista Michelangelo, foi ainda bebê que ele recebeu o apelido Nirez: por ser muito corado, as pessoas o chamavam de “inglês”, mas sempre num tom de voz infantilizado, típico de quem fala com crianças pequenas. Com o tempo, “inglês” virou Nirez.

A paixão por discos de 78 rotações também começou cedo: em 1939, Otacílio, após fazer um retrato para o pai de um amigo, recebeu como pagamento um gramofone e uma pilha de discos. O menino – então com cinco anos – começou a escutar aquelas músicas e ficou encantado.

Aos 20 anos o jovem Nirez ganhou um toca-discos de presente de um vizinho e a primeira coisa que fez foi percorrer o comércio atrás de exemplares de 78 rotações. Desde então não parou mais de colecionar. O pai, Otacílio, ajudou no crescimento do acervo: sempre perguntava aos amigos se tinham algum disco velho em casa para a coleção do filho. Tamanha dedicação resultou nos mais de 22 mil itens que compõem o seu acervo fonográfico, hoje um dos maiores e mais importantes do país – composto integralmente por discos nacionais, como ele gosta de frisar. Do pai, Nirez também herdou o gosto pelo jornalismo.

A vida profissional começou em 1951, aos 17 anos, na Cooperativa Banco do Estado, como contínuo e cobrador. Tornou-se desenhista publicitário do jornal O Povo, onde ficou até 1954, indo trabalhar numa tipografia. Seguiu neste ofício até 1962, quando foi chamado para ser desenhista técnico do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS). Através de concurso interno, passou a técnico em Comunicação Social dessa mesma instituição, onde trabalhou até 1968. Conseguiu transferência para a Universidade Federal do Ceará (UFC), onde atuou como jornalista na Rádio Universitária e se aposentou em 1992.

Em 1956, com 22 anos, teve início sua colaboração como autor de textos para jornais de Fortaleza, como Tribuna do Ceará, Correio do Ceará e O Povo. Dois anos depois, em 1958, começou a formar em sua própria casa uma espécie de "museu da imagem e do som", juntando discos (especialmente os de 78 rotações), livros, revistas, fotografias, aparelhos sonoros, máquinas de registros de imagens, projetores, rótulos, figurinhas, etc. Passou a gravar depoimentos de personalidades diversas, divulgando-os através dos jornais e das emissoras de rádio.

Casou-se em junho de 1959 com Maria Zenita de Sena Rodrigues, sua grande companheira e incentivadora. Da união nasceram quatro filhos: a bibliotecária Terezinha de Azevedo (1960), o radialista e técnico de som Otacílio de Azevedo Neto (1961) – responsável pela digitalização de todo o acervo sonoro do pai –, o escritor e produtor Nirez de Azevedo (1963) e Mário de Azevedo (1970), colaborador do museu do pai, como os demais filhos.

Em junho de 1963, Nirez passou a apresentar na Rádio Uirapuru o programa “Arquivo de Cera”, assim chamado em alusão ao famoso “Museu de Cera” do radialista Héber de Bôscoli. A atração passou por outras emissoras – Ceará Rádio Clube, Rádio Dragão do Mar e Rádio Cidade – até chegar à Rádio Universitária FM (da UFC), onde é apresentado semanalmente desde 1991. É o mais antigo programa da rádio cearense, tendo completado 56 anos em junho de 2019.

Graças à Uirapuru, sua coleção de discos cresceu ainda mais: quando a “Emissora do Pássaro” resolveu atualizar sua discoteca com LPs, se desfez de seus exemplares de 78 rotações, doados ao Acervo Nirez por intermédio do político e radialista Cid Carvalho, ex-funcionário da emissora. Outra aquisição de peso foi a de um grande número de imagens históricas de Fortaleza e de outros municípios do estado, quando o estúdio fotográfico Abafilm não quis mais os arquivos de sua sede, no centro de Fortaleza.

É coautor, juntamente com outros três pesquisadores (Alcino de Oliveira Santos, Grácio Guerreiro Barbalho e Jairo Severiano), da “Discografia Brasileira em 78 rpm (1902-1964)”, publicada pela Funarte, em 1982. Dividida em cinco volumes, a obra é até hoje a maior referência para pesquisadores e interessados no assunto, tendo recebido, em 1983, o Prêmio Almirante, concedido pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Nirez escreveu ainda outros livros fundamentais para a história da cultura brasileira e, em particular, do Ceará. Entre eles, estão “Fortaleza de ontem e de hoje” (1991), “O balanceio de Lauro Maia” (1991), “Humberto Teixeira – Voz e pensamento” (1995), “Cronologia ilustrada de Fortaleza” (2001) e “A história cantada no Brasil em 78 rotações” (2012).

Por seu trabalho como pesquisador e colecionador, Nirez recebeu diversas distinções, entre elas a Medalha do Mérito Cultural da Fundação Joaquim Nabuco (do Recife), em 1982; o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1994; e o Prêmio Sereia de Ouro, também em 1994. É membro do Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico). Em 4 de maio de 2011, tomou posse na Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, ocupando a cadeira de número 26, que tem como patrono perpétuo seu pai, Otacílio de Azevedo. Entre 2009 e 2015, foi diretor do Museu da Imagem e do Som do Ceará.

Em 2002, seu arquivo sonoro foi contemplado no concurso da Petrobras (através da Lei Rouanet, do Ministério da Cultura), recebendo apoio para ser reformado e digitalizado. O projeto “Meio Século de MPB – Disco de Cera” consistiu na digitalização de todo o acervo de discos de cera (78 rpm) do Arquivo Nirez e a disponibilização dos dados na internet. Foram três etapas – higienização, catalogação e digitalização – realizadas entre 2004 e 2005.

Colecionando antiguidades desde criança, Nirez mantém hoje mais de 141 mil peças em seu arquivo. Um conjunto que é um verdadeiro museu, com raridades procuradas por interessados de outros estados brasileiros e até do exterior. O Arquivo Nirez funciona no bairro de Rodolfo Teófilo, próximo à reitoria da UFC. Com mais de meio século de existência, tem sob sua guarda, entre outros itens, aproximadamente 22 mil discos de 78 rotações, revistas, partituras e objetos variados, além de farta memória iconográfica, com cerca de 26 mil fotos que ajudam a contar a história do Ceará. O próprio Nirez não consegue chegar a números exatos, pois continua adquirindo itens – especialmente discos – através de compras pela internet e em leilões ou por meio de troca com outros colecionadores.

O Instituto Moreira Salles adquiriu, em 2015, a versão digital da coleção de discos de 78 rotações e o banco de dados do Arquivo Nirez. Este conjunto, com mais de 40 mil gravações, está sendo disponibilizado ao público através do portal “Discografia da Música Brasileira”, projeto antigo do setor de Música do IMS que, enfim, torna-se realidade. Os registros sonoros do Arquivo Nirez somam-se agora aos milhares de fonogramas das diversas coleções pertencentes ao Instituto e já viabilizados há mais de uma década para audição via internet, como os dos pesquisadores e colecionadores José Ramos Tinhorão e Humberto Franceschi.