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Rachel Valença: bailes infantis e Império Serrano inspiram sua lista de 10 sambas de carnaval

Pedro Paulo Malta

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“Como escolher só dez?! Que critérios adotar? Que aflição!”

Assim reagiu a escritora e pesquisadora Rachel Valença ao receber nosso desafio, de fazer uma lista com seus dez sambas de carnaval preferidos consultando o site da Discografia Brasileira. Reação plenamente justificada, pois, além da quantidade de exemplares no nosso banco de dados (são 14.647 fonogramas identificados como “samba”), a própria relação dela com o carnaval é uma história à parte. Isso porque Rachel, que na vida civil coordena a área de Literatura do Instituto Moreira Salles, é um nome de referência quando o assunto é samba – não à toa é jurada do prêmio Estandarte de Ouro e colunista de carnaval do portal SRZD.

“Logo que aprendi a ler, me interessei por aquelas revistinhas que vinham com as letras das músicas de carnaval. Assim que saía uma nova, corria pra banca de jornais pra comprar a minha”, relembra Rachel, carioca nascida em 1944, que aprendia as melodias pelo rádio e, assim, se garantia para o que interessava no fim das contas: os bailes infantis do Cassino Atlântico, do Jockey Club e do Fluminense. “Para mim, era motivo de orgulho estar nos bailinhos sabendo aquelas músicas todas”, conta a pesquisadora, que brincava acompanhada da irmã, de duas primas e tia Iracema, a mais festeira da família. Até que veio a adolescência e os pais passaram a organizar viagens para longe da perdição momesca.

Rachel só voltou ao carnaval no começo de 1972, em grande estilo: durante um ensaio do Império Serrano, sentiu-se à vontade para abordar um veterano sambista da escola, de chapéu, quieto num canto da quadra: “Eu gostaria de ouvir meu samba preferido, ‘Os cinco bailes da história do Rio’. O senhor poderia pedir para cantarem?” Só depois foi saber que tinha falado com o grande Silas de Oliveira, parceiro de Dona Ivone Lara e Bacalhau na composição daquele samba. Início promissor de sua relação com o Império Serrano, onde passou a desfilar, depois tocou na bateria, dirigiu o departamento cultural, foi vice-presidente em dois mandatos e, atualmente, participa da “Velha Guarda Show”.

No entanto, o principal serviço prestado à escola do coração foi o livro “Serra, Serrinha, Serrano”, que lançou em 1981, em parceria com o filólogo Suetônio Valença, seu marido à época. Esgotada em pouco tempo, a obra logo virou uma raridade caçada por colecionadores. Até que foi relançada em 2017, numa edição revisada e ampliada que confirmou sua importância como livro de referência sobre a história não só do Império Serrano, como também do samba.

E assim, entre memórias imperianas e dos bailinhos da infância, Rachel fechou sua lista, não sem antes lamentar ter deixado de fora sambas queridos, como “Meu consolo é você” (Nássara e Roberto Martins), “Não tenho lágrimas” (Max Bulhões e Milton de Oliveira), “Quero morrer no carnaval” (Luiz Antônio e Eurico Campos) e “Está chegando a hora” (versão de Henricão e Rubens Campos para a cantiga tradicional mexicana “Cielito lindo”).

Agora é cinza (Bide e Marçal), por Mario Reis (1934)

Sempre fui louca por esse samba, mesmo quando era criança, nos bailinhos. A melodia, a letra... Já achava – e ainda acho – tudo lindo, perfeito. Considero este o samba dos sambas.

Praça Onze (Herivelto Martins e Grande Otelo), por Castro Barbosa e Trio de Ouro (1942)

Me lembro das primeiras vezes que ouvi esse samba, ainda criança, ali pelo começo dos anos 50. Toda vez que eu ouvia sentia uma certa tristezinha, afinal iam acabar com esse lugar, que ainda por cima era o lugar das escolas de samba. Mal sabia eu que, nessa época, a praça já tinha acabado. A Praça Onze já era.

Não me diga adeus (Paquito, Luiz Soberano e João Correa da Silva), por Aracy de Almeida (1948)
Madalena (Ari Macedo e Aírton Amorim), por Linda Batista (1950)

Uma das coisas que mais me chamavam atenção nos bailinhos de carnaval era o contraste entre a tristeza de sambas como esses e aquele clima do salão, com gente fantasiada, maquiada, sorridente... Todo mundo brincando enquanto cantava “Pense nos sofrimentos meus” ou então “E ela me abandonou, diminuindo no jardim uma linda flor...” Versos tão tristes e tão bonitos que não condiziam com a alegria presumida do carnaval.

A Lapa (Herivelto Martins e Benedito Lacerda), por Francisco Alves (1950)

É um samba brejeiro, por isso gosto tanto dele. Ao contrário de “Praça Onze”, que me deixava triste por causa do fim, “A Lapa” me deixava feliz, pois era um lugar que estava voltando a ser o que um dia tinha sido. É curioso que conheci esse samba já no fim da década de 50, antes de conhecer a Lapa, que no meu imaginário era uma mistura de coisas. O lugar que tinha todos aqueles símbolos profanos do mais alto grau, como as mulheres da vida, os boêmios, Madame Satã... E também os poemas do Manuel Bandeira, o convento... Contrastes na Lapa que eu imaginava.

Se é pecado sambar (Manoel Ferreira), por Marlene (1950)

Um samba lindo! E o que mais gosto nele é o trecho em que a letra diz “Eu não posso evitar a tentação”, explicando em seguida o que seria a tentação: “um samba dolente que mexe com a gente fazendo endoidecer...” E eu, no bailinho infantil, muito criança ainda, me perguntava como era possível considerarem pecado aquela coisa tão bonita?!

Império do samba (Zé da Zilda e Zilda do Zé), por Coro (1954)

Este samba é a consagração do Império Serrano, que tinha sido campeão em quatro carnavais seguidos, de 1948 a 51. Daí esse nome, o “Império do samba”, que quando tocava nos bailes era uma coisa! E olha que nessa época eu não tinha noção do que era o Império Serrano...

Tiradentes (Estanislau Silva, Penteado e Mano Décio da Viola), por Roberto Silva (1955)

Foi o samba do desfile do Império Serrano no carnaval de 1949. Só seis anos depois é que foi gravado para ser lançado comercialmente, o que é um atestado da qualidade dele, numa época em que samba-enredo não era gravado em disco. É também um atestado da popularidade deste samba, “Tiradentes”, que já era muito cantado antes dessa gravação.

Rádio Patrulha (Silas de Oliveira, Marcelino Ramos, J. Dias e Luizinho), por Heleninha Costa (1956)

Gosto desse samba desde que eu era criança, mas a inclusão dele na nesta lista é minha homenagem a Silas de Oliveira, com quem tenho uma dívida impagável, por tudo que fez pelo Império Serrano. E o curioso é que virou ponto religioso, o que é muito bacana, por demonstrar a relação direta entre esses dois universos: do samba e das religiões de matriz africana.

Madureira chorou (Carvalhinho e Júlio Monteiro), por Joel de Almeida (1957)

Samba que ficou muito marcado pra mim, pela história por trás dele: a história de Zaquia Jorge, a vedete que tinha feito um teatro no subúrbio e morreu afogada na Barra da Tijuca. Foi uma comoção geral na época, uma tristeza coletiva. Eu me impressionava muito com esse verso, “Madureira chorou”, ou seja: um bairro inteiro vivendo aquela consternação toda. Era muito forte pra mim.

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