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Hino de Brusque, uma história em 78 rotações

Fernando Krieger

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Vem da cidade de Brusque – 160 anos completados neste mês de agosto – uma rara gravação que junta um dos expoentes da arte de Santa Catarina com alguns dos maiores instrumentistas do Rio de Janeiro, unidos na comemoração de uma efeméride: o centenário daquela cidade, localizada no Vale do Itajaí, considerada o “Berço da Fiação Catarinense”, por ter sido um dos primeiros polos da indústria têxtil no país, e – aqui reside o detalhe pessoal e afetivo deste texto – terra natal de meus antepassados paternos.

Chamada originalmente de Colônia Itajahy, a cidade, fundada em 4 de agosto de 1860, recebeu a atual denominação em 1890, homenageando o presidente da província de Santa Catarina quando da fundação da colônia, Francisco Carlos de Araújo Brusque. Em 1958, dois anos antes do seu centenário, organizou-se um concurso visando à escolha de uma letra para um hino comemorativo. O vencedor – sob o pseudônimo “Mário Augusto” – foi o professor, poeta e diácono Eduardo Mário Tavares (1919-1978), o Edu, natural de Itajaí.

Um dos integrantes da Comissão Organizadora dos Festejos – no cargo de presidente da Subcomissão de Canto e Música do Centenário – era o brusquense Aldo Krieger (1903-1972), compositor, multi-instrumentista autodidata, regente coral, mestre de banda e agitador cultural atuante em todo o estado. Aldinho, como era conhecido, foi um dos precursores do choro em Santa Catarina, tendo fundado em 1929 o Jazz Band America, que, apesar do nome, viajava por várias cidades executando a música popular brasileira da época: choros, valsas, polcas, mazurcas, sambinhas etc., de sua própria autoria ou dos compositores mais em evidência no momento.

De posse da letra do professor Edu, Aldo compôs a melodia do hino. Ainda em 1958, visitou o Rio de Janeiro, onde morava seu filho, o também brusquense Edino Krieger, já um renomado compositor, crítico e produtor musical, morando na então capital federal desde 1943. Aldo e Edino encontraram-se com Altamiro Carrilho e expuseram a intenção de que ele participasse da gravação do disco, incumbência que o flautista e compositor aceitou prontamente; mas, como andava muito “abafado” – expressão usada por ele – com vários compromissos, Altamiro sugeriu a Edino que ficasse responsável pela orquestração.

Edino fez o arranjo e produziu a gravação, que foi feita em 9 de julho de 1959. Ele alugou um estúdio na Avenida Rio Branco, quase esquina com a Visconde de Inhaúma, e arregimentou os músicos. O rótulo do disco traz Altamiro Carrilho e sua Bandinha como intérpretes – a bandinha em questão era formada por seis ou sete músicos, entre eles o próprio Altamiro Carrilho (no flautim), Chiquinho do Acordeom, o trompetista Formiga (José Luís Pinto, da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do RJ) e o percussionista Bituca (Edgar Nunes Rocca).

Após o registro da parte instrumental, feito em fita de rolo, o Orfeão Francisco Manuel – formado por integrantes do coro da Universidade Gama Filho, regido por Abelardo Magalhães – gravou a parte cantada, juntada à melodia mais tarde em estúdio. Ambas as versões – com e sem coro – foram transferidas da fita de rolo para um disco de prova, e este foi enviado para Aldo, que o escutou e deu o ok final.

O 78 rotações foi lançado em 1960 pela gravadora Som (número 100, em edição especial) contendo a versão cantada no lado A e a instrumental no lado B. Foram prensadas 700 cópias; grande parte se perdeu com o tempo. Um dos poucos exemplares originais restantes encontra-se em Brusque, no Instituto Aldo Krieger – localizado na casa onde morou o maestro –, dirigido por Carmelo Krieger, filho caçula de Aldo, que, 60 anos após o lançamento deste registro fonográfico, gentilmente cede agora os áudios e rótulos para o site Discografia Brasileira.

Apesar de a letra do professor Edu para o Hino do 1º Centenário de Brusque remeter a esta data específica – “cem anos atrás um pugilo (grupo) de imigrantes surgiu destemido”, “já passados que foram cem anos” –, a música acabou, daquele momento em diante, sendo constantemente executada nas cerimônias e nos eventos da cidade, transformando-se numa espécie de hino não-oficial – semelhante ao que ocorreu com Cidade maravilhosa, marcha de André Filho que virou a “marcha oficial” do Rio de Janeiro, até atingir legalmente o status de hino oficial. No dia 26 de abril de 1993, através da Lei 1.769, a composição de Aldo Krieger e Eduardo Mário Tavares finalmente tornou-se o hino oficial de Brusque.

Altamiro Carrilho apresentava-se periodicamente com o conjunto Os Boêmios num programa de música brasileira na Rádio MEC. Naquele mesmo ano de 1960, o grupo decidiu incluir, numa das edições, algumas músicas do compositor catarinense. Enquanto Os Boêmios ensaiavam para esta apresentação, num estúdio da rádio, passava pelo corredor um dos grandes expoentes da nossa música, chorão da velha guarda. O que se seguiu foi contado mais tarde a Edino pelo violinista Homero Gelmini, líder do conjunto. Ao ouvir a polca Espanta mosquito – feita em 1924 –, Pixinguinha colocou a cara para dentro do estúdio e perguntou: “De quem é essa composição?”. Gelmini respondeu: “Do Aldinho Krieger, compositor de Santa Catarina, pai de um colega nosso” – Edino trabalhava na MEC à época. “Estamos ensaiando algumas músicas dele para apresentar no próximo programa”. E Pixinguinha então declarou, com entusiasmo: “Muito bom! Esse é dos meus!”.

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