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A ‘baiana’ Carmen, os balangandãs e outras histórias da estreia de Dorival Caymmi

Pedro Paulo Malta

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Recém-chegado ao Rio de Janeiro, em 4 de abril de 1938, carregando uma mala e um violão embrulhado em papel, o baiano Dorival Caymmi tinha planos de estudar Direito. Foi o paraense José Lago da Rocha, seu primeiro amigo no Rio, que o incentivou a apostar no talento musical, afinal o Rio era “terra de futebol e rádio”. Caymmi, então, desembrulhou o violão e foi correr as emissoras da época: primeiro a Mayrink Veiga, depois a Nacional, a Tupi e a Transmissora. Nesta última, calhou de se apresentar no mesmo dia em que estreava na emissora a Orquestra do Maestro Fon-Fon – grande atrativo para os presentes no auditório, entre eles o radialista e cantor Almirante e os compositores Mário Lago e Alberto Ribeiro. A orquestra deve ter agradado, mas o trio gostou mais ainda do cantor novato e o samba apresentado por ele: “O que é que a baiana tem?”.

Segundo Stella Caymmi, neta e biógrafa de Dorival, “O que é que a baiana tem?” era uma das composições inacabadas que o avô trouxe de Salvador e retomou no Rio de Janeiro, durante as caminhadas noturnas e solitárias que fazia pelo Centro da cidade (onde morava), especialmente pela Avenida Rio Branco – outras músicas completadas durante essas noites foram “A preta do acarajé”, “Noite de temporal” e “O mar”. Já o início da composição, ainda em Salvador, remete à relação de Dorival Caymmi com o tio materno Álvaro Benvindo, vulgo Nonô, cuja casa frequentava com os irmãos e de onde lembrava especialmente da oficina de ourivesaria e restauro de antiguidades. Foi nessa oficina que viu pela primeira vez um balangandã.

“Eu quero dizer que o balangandã nasceu desse contato com o Tio Nonô. E tinha um jeito que se falava: ‘Ah, aquelas mulatas do partido alto!’, ‘só se ia ao Bonfim, meu filho, levando o luxo’”, relata Dorival em depoimento a Stella Caymmi transcrito no livro em que ela esmiúça a presença do avô na chamada era do rádio, intitulado justamente “O que é que a baiana tem”. “Ele (Tio Nonô) dizia rindo assim: ‘Quem não tem balangandãs não vai ao Bonfim.’ Isso era um ditado da época. E eu fui urdindo na cabeça, a forma de autenticar a mulata de saia, mas sem a coragem de classificar minha mulata, natural da minha terra, com o nome, entre aspas, de baiana. Era uma coisa que acontecia, uma coisa natural no Rio de Janeiro, de chamar assim: ‘Vem uma baiana aí. Você viu aquela baiana cheia de coisa?’”

O samba de Caymmi foi lembrado quando a produção do filme “Banana da terra”, gravado naquele ano de 1938, se viu sem seu principal compositor, Ary Barroso, que teve seu pedido de cachê recusado pelo produtor do longa, o norte-americano Wallace Downey. Com a decisão, o filme – que já tinha prontos os cenários e figurinos de inspiração tropical – perdia os dois principais números musicais, que seriam cantados por Carmen Miranda: “Na Baixa do Sapateiro” e “Boneca de piche”. Downey propôs que o novo samba fosse composto por Alberto Ribeiro e João de Barro (roteiristas do filme, com Mário Lago e J. Rui), mas Alberto se lembrou da apresentação de Caymmi na Rádio Transmissora e respondeu que o tal samba já existia. 

O produtor se convenceu e o passo seguinte foi apresentar o samba a Carmen, num disco de acetato produzido às pressas: a cantora não gostou do que ouviu e então levaram o próprio Caymmi à casa dela, na Urca, onde tudo se resolveu. “Ah, Almirante, assim é outra coisa”, teria dito Carmen, segundo o compositor, em depoimento à neta. “Quando ela ouviu, ao vivo, cantado por mim, com ritmo do violão, eu tocando e ela vendo, ela então começou a sentir a brejeirice da coisa, que entrou no jeito dela.” O entusiasmo da cantora foi tanto que Caymmi foi convidado a dividir com ela a interpretação do samba no filme – o que não era pouca coisa, ainda mais se considerarmos que ele era um artista amador completamente desconhecido e ela, uma cantora de sucesso há quase uma década. A sonorização do filme foi gravada pouco depois, nos estúdios da Tupi (no bairro do Santo Cristo), com Carmen, o conjunto Bando da Lua e o próprio Dorival, que disse a Stella Caymmi: “Me senti assim como o sujeito que entra na história, que entra na fama com dois pés direitos.”

Já a cena – que na época era feita à parte do som – foi gravada sem a figura de Dorival, que ficou por trás das câmeras dirigindo a cantora no gestual das mãos e no jeito de revirar os olhos. Ele já tinha sido decisivo também na montagem do figurino usado por ela na cena, acompanhando-a ao ateliê do figurinista J. Luiz e à Casa Turuna, para ajudar na compra dos adereços da baiana: brincos de argola, sandálias enfeitadas, gargantilha dourada, rosários e balangandãs. O tipo caiu tão bem em Carmen que, além de ser o momento mais marcante do filme, seguiu com ela para os shows que fazia no Cassino da Urca.

O filme foi lançado no dia 10 de fevereiro de 1939 e fez bonito nas bilheterias – 208 contos de réis só nos três primeiros dias de exibição, segundo carta de João de Barro a Almirante transcrita por Stella Caymmi em seu livro. No dia 27 do mesmo mês, foi feita a primeira gravação de "O que é que a baiana tem", na gravadora Odeon. Mais uma vez, fazia-se o dueto do compositor com Carmen, acompanhados pelo Regional da Rádio Mayrink Veiga (Garoto e Laurindo de Almeida entre os músicos) e a participação do trompetista paulista Antônio Sergi, um dos destaques da gravação, dando ares caribenhos ao intermezzo do samba. Aproveitaram a sessão para gravar, também em dueto, outro clássico de Caymmi, “A preta do acarajé”, lançado no lado B do disco de 78 rotações. O resultado agradou tanto à gravadora, que ela propôs um contrato de exclusividade a Caymmi, que por sua vez recebeu a responsabilidade de criar seis sucessos em um ano. O compositor, que dez meses antes nem sonhava ser artista, topou o desafio, mesmo sentindo-se pressionado.

Dorival Caymmi recordou a repercussão do samba no texto que escreveu em seu livro “Cancioneiro da Bahia”: “Com o sucesso de ‘O que é que a baiana tem?’ a palavra ‘balangandãs’, pouco conhecida no Sul e quase nunca empregada, ganhou enorme popularidade, voltou novamente, por assim dizer, a incorporar-se ao dicionário das palavras vivas. Balangandãs diz-se hoje de todas aquelas pequenas coisas de prata e ouro que pendem da pulseira, colares e torsos das baianas. Em verdade, ‘balangandãs’ é uma penca de pequenos fetiches negros, feitas em prata e ouro, usadas pelas baianas de ‘partido-alto’ nas grandes festas populares da Bahia.”

Um início de carreira e tanto para Caymmi, que partiu para suas primeiras gravações solo e, no rádio, ganhou do apresentador Cesar Ladeira o epíteto de Colombo dos Balangandãs. Já Carmen Miranda seguiu em seu ritmo frenético de gravações e shows no Cassino da Urca, mas só até a noite em que, vestida de baiana, encantou um certo Lee Schubert – empresário do show business de Nova York – e mudou de vez sua trajetória artística: a cantora mais bem-sucedida da música brasileira logo seria uma grande estrela internacional de cinema.


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