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O samba, a prontidão e outras bossas do Brasil segundo Noel Rosa

Pedro Paulo Malta

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Volta e meia há quem defina Noel Rosa como um visionário, tamanha a atualidade dos sambas que fez retratando o Brasil, há mais de 80 anos. Talvez não percebam que é o país – tema recorrente na obra do Poeta da Vila – que insiste em não se livrar de mazelas que já eram habituais em seu tempo (1910-1937), como a desigualdade social, a falta de honestidade da classe política, a prontidão do povo e outras bossas, entre elas a malandragem, as trapaças e outras brasilidades que não escaparam ao olhar crítico de compositor-cronista.

Como em sua primeira composição que fez sucesso, o samba “Com que roupa?”, que ele apresentava aos mais chegados como “o Brasil de tanga”. A ligação com o país era reforçada por um artifício curioso: originalmente, a primeira frase musical de “Com que roupa?” era idêntica à do “Hino Nacional Brasileiro” (“Ouviram do Ipiranga às margens plácidas...”). Só não ficou assim graças ao maestro Homero Dornellas, a quem Noel cantou o samba para que fosse escrito em partitura e que reagiu, preocupado: “Essa música não pode ser publicada!” O próprio maestro propôs uma adaptação na melodia, invertendo as notas da primeira frase melódica e chegando à forma definitiva de “Com que roupa”, grande sucesso em 1930, na voz miúda e gaiata de Noel Rosa.

No ano seguinte, teve o “Samba da boa vontade”, outra crônica de sua autoria dedicada ao Brasil, esta em parceria com João de Barro, com quem dividiu a gravação original. “Um samba que vale como uma aula de economia, Noel deixando claro o que pensa do capitalismo que acaba de se confirmar como o sistema escolhido pelos neo-republicanos para administrarem o Brasil: os ricos podem gastar seu dinheiro à vontade, pois ele sempre acaba voltando às suas mãos”, escrevem Carlos Didier e João Máximo em “Noel Rosa: uma biografia”. “Um estranho país que espera alcançar o grau de desenvolvimento dos europeus atirando o seu café ao mar. E que – como pede Getúlio Vargas, conservando seu sorriso – exige de seu povo não apenas sacrifícios, mas acima de tudo boa vontade.”

Do mesmo ano de 1931 (mas lançado em 32) é “Coisas nossas”, leitura bem-humorada que o Poeta da Vila compôs – segundo seus biógrafos – depois de assistir, no Cine Eldorado, ao longa “Coisas nossas”, primeiro filme sonoro de sucesso produzido no Brasil, dirigido pelo norte-americano Wallace Downey. A composição é como uma resposta à película, na qual Noel faz sua própria seleção de brasilidades: “o samba, a prontidão e outras bossas”, inaugurando num verso de samba a palavra que, tirada de seu significado original (“protuberância anormal”, “corcova”, “calombo”), será mais conhecida 30 anos depois, com Tom Jobim, João Gilberto, Vinicius de Moraes e companhia. Já os versos iniciais de “São coisas nossas” (“Queria ser pandeiro pra sentir o dia inteiro / A tua mão na minha pele a batucar”) encantaram o cronista Paulo Mendes Campos, que os selecionou entre os mais bonitos da música brasileira: “As imagens passam a ficar cosidas, casadas.”

Outro samba-crônica de Noel Rosa que não envelhece – embora lançado em 1933 – é “Onde está a honestidade?”. Composição que não tem dedicatória explícita, mas nem precisava: em três estrofes bem-humoradas, o sambista espeta a avareza e a riqueza suspeita de integrantes da elite brasileira (especialmente a política) que, mesmo “sem ter nenhuma herança ou parente”, vivem a esbanjar suas joias, criados e automóveis.

Já o samba “Positivismo”, também de 1933, é outro que questiona uma particularidade do país, nesse caso o lema positivista estampado na bandeira do Brasil. Nesse caso, são de Noel a melodia e uma das cinco estrofes da composição, sendo as outras quatro de Orestes Barbosa, também autor da ideia de fazer aquele samba “misturando mulher com Augusto Comte: o amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim”, como se lê em “Noel Rosa: uma biografia”. Foi no lendário Café Nice, ponto de encontro dos músicos na chamada era do rádio, que o jornalista e poeta propôs parceria a Noel, que completou a composição, que – a propósito de um romance pretendido – ressalta da ausência do amor no mote do pavilhão nacional.

Outro samba do Poeta da Vila que tira partido de um símbolo pátrio é “Vitória”, mais um da safra de 1933 – esse feito em parceria com o pianista Romualdo Peixoto, o Nonô. Gravado por Sílvio Caldas em arranjo de Pixinguinha (que participa do acompanhamento com o conjunto Diabos do Céu), o samba faz referência ao grito do Ipiranga para dar o recado a um desafeto: “Aguentei muita indireta / Mas andei na linha reta / Não maldigo a minha sorte / Vou agindo com cadência / Sei que a minha independência há de ser a sua morte.”

Também de 1933 é “Escola de malandro”: outra composição de Noel (essa com Ismael Silva e Orlando Luiz Machado) que faz referência à História do Brasil, sem ser exatamente um samba histórico. “Tomo vinho, tomo leite / Tomo a grana da mulher / Tomo bonde e automóvel / Só não tomo Itararé...”, diz o malandro retratado no samba, numa menção a um episódio pitoresco da Revolução de 1930, que é a Batalha de Itararé: grande confronto que era esperado entre governistas e revolucionários mas acabou não acontecendo, devido à queda do presidente Washington Luís e a tomada do poder por Getúlio Vargas.

Capítulos da nossa História presentes nesta obra marcada por tantas histórias de malandragem, hipocrisia, moralismo, boemia e falta de dinheiro, entre outras “coisas nossas, muitos nossas”.


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