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Antes da bossa nova, o vozeirão de João Gilberto em seis gravações

Pedro Paulo Malta

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João Gilberto foi a principal novidade da música brasileira em 1958, quando sintetizou em seu violão e sua voz o minimalismo transformador da bossa nova – samba estilizado inaugurado com a gravação de “Chega de saudade” (composição dos igualmente fundamentais Tom Jobim e Vinicius de Moraes), feita por João nesse mesmo ano. Uma novidade que abriu caminho para incontáveis músicos – não só brasileiros – na mesma medida em que incomodou a ala mais tradicionalista, cultora dos cantores de vozeirão. Para muitos, o canto coloquial e “baixinho” de João Gilberto decorria de suas limitações: ele não “tinha voz”, não conseguia cantar como os outros gogós da época. Certamente, desconheciam sua história pregressa.

João havia trocado sua Bahia natal pelo Rio de Janeiro em 1950, para ser um dos Garotos da Lua: conjunto vocal criado em 1941, no Recife (com o nome de Garotos da Melodia), e estabelecido na então capital do país desde 1946, quando estrearam em disco – na formação estavam os baianos Acyr Mello, Alvinho Sena e Toninho Botelho e os pernambucanos Milton Silva e Jonas Silva, esse último o principal cantor do conjunto. No livro “Chega de saudade: a história e as histórias da bossa nova”, o jornalista Ruy Castro conta que Jonas, com sua voz “anasalada e sem vibrato”, cantava num volume mais baixo que o padrão da época, fazendo com que os demais Garotos tivessem que praticamente sussurrar as melodias.

Para evitar que perdessem o contrato que tinham com os Diários Associados, Alvinho propôs que Jonas fosse substituído pelo cantor que tinha ouvido na Rádio Sociedade da Bahia: João Gilberto. “Canta como o Lúcio”, escreveu Alvinho numa carta (segundo Ruy Castro), numa referência ao cantor Lúcio Alves, preferido dos Garotos da Lua. Poderia ter mencionado também Orlando Silva ou Roberto Silva, ambos admirados pelo iniciante João e, de certa maneira, inspiradores do vozeirão que se pode ouvir em suas gravações anteriores à bossa nova.

São dois os discos de 78 rotações dos Garotos da Lua gravados com ele, ambos pela gravadora Todamérica. O primeiro é lançado em julho de 1951, com acompanhamento da orquestra do Maestro Cipó: no lado A está o bolero “Quando você recordar” (Valter Sousa e Milton Silva) e o lado B traz o samba “Amar é bom” (Zé Kéti e Jorge Abdala). Já em dezembro desse mesmo ano, a Todamérica põe no mercado o disco seguinte dos Garotos da Lua, com dois sambas acompanhados por Astor e Seu Conjunto: “Anjo cruel” (de Wilson Batista e Alberto Rego) no lado A e “Sem ela” (Raul Marques e Alberto Ribeiro) no B.

Em agosto de 1952, saem pela gravadora Copacabana mais dois registros do João Gilberto pré-bossa nova, esses já separado dos Garotos da Lua – que, segundo Ruy Castro, haviam dispensado João após atrasos e faltas em sequência. Nestas primeiras gravações solo estão os sambas “Quando ela sai” (Alberto Jesus e Roberto Penteado) e “Meia luz” (Hianto de Almeida e João Luiz), reunidos num mesmo disco de João, como se vê num anúncio na Revista do Rádio (19 de agosto de 52) em que sua foto – de bigodinho – está lado a lado com a foto de Orlando Silva. Já no Diário Carioca (edição de 29 de agosto de 52), o disco foi tema da coluna do cronista Sérgio Porto: “Esse é outro cantor que estreia. O antigo solista dos Garotos da Lua, um conjunto vocal, está bastante desembaraçado nos dois sambas do seu primeiro disco.”

A pré-história de João Gilberto pode ser lembrada não só pelo vozeirão anterior à bossa nova, como também por sua primeira composição gravada: o samba “Você esteve com o meu bem” (co-assinado por Russo do Pandeiro), lançado no disco de estreia da cantora Marisa (no futuro, Gata Mansa), pela RCA Victor, em setembro de 1953. No mesmo mês, a Revista do Rádio e a Manchete anunciaram sua contratação como cantor pela Todamérica, mas não há registro de nenhum outro lançamento de João por essa época. Os capítulos seguintes de sua história – como conta Ruy Castro no livro “Chega de saudade: a história e as histórias da bossa nova” – dão conta de sua retirada, entre 1955 e 57, do meio musical carioca, onde já se considerava esgotado.

Nesse período, João Gilberto revisita sua cidade natal (Juazeiro, no norte da Bahia), vive uma temporada em Porto Alegre e duas em Diamantina (MG). Foi nessa última cidade que, hospedado num quartinho de fundos da casa de sua irmã Maria da Conceição – vulgo Dadaínha – bolou seu ressurgimento e, por que não, da própria música popular brasileira.

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