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As 10 mais do pesquisador Miguel Angelo de Azevedo, o Nirez

Pedro Paulo Malta

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Nome de referência na pesquisa musical, o cearense Miguel Ângelo de Azevedo (mais conhecido como Nirez) é personagem central na história do banco de dados que está disponível para consulta aqui no site da Discografia Brasileira. Foi ele, colecionador de discos desde a década de 1950, que começou a articulação com outros pesquisadores para a construção de uma base de dados única sobre os discos brasileiros: primeiro com o potiguar Gracio Barbalho, depois com o paulista Alcino Santos e, por fim, com Jairo Severiano, cearense radicado no Rio. 

O trabalho conjunto deles resultou na primeira publicação trazendo esta base unificada: o livro “Discografia Brasileira em 78 rpm (1902 - 1964)”, editada em 5 volumes, em 1982, pela Funarte. Atualizada desde então por Nirez e seu filho, Otacílio de Azevedo, foi ela que serviu de base para o conjunto de 55.834 composições e 63.324 fonogramas (dos quais 46.660 podem ser ouvidos) que compõem o banco de dados da Discografia Brasileira.

Um universo tão vasto e eclético quanto a própria música popular brasileira, mas que, se filtrado segundo as preferências sonoras de Nirez, pode ser resumido numa só parte: a seresta. “Quando eu era rapaz, com meus 20 anos, gostava de fazer serenatas nas janelas das amigas. Atualmente, já não se pode cantar na rua depois das 22h, né?”, diz o pesquisador de 85 anos, que refuta o rótulo de saudosista. “Quando aprendi essas músicas e me encantei por elas, já eram todas antigas. O que faz de mim um seresteiro é mesmo a dor-de-cotovelo: me acostumei a curar as tristezas nas serenatas.”

Prova disso é sua lista das “dez mais” entre as músicas da Discografia Brasileira: um verdadeiro receituário sonoro pros que vivem com os cotovelos doídos.

Beijos divinais (Zequinha de Abreu), pela Orquestra Típica Victor, 1934:

“O Zequinha de Abreu é muito conhecido pelo ‘Tico-tico no fubá’, mas tem valsas lindíssimas, como ‘Branca’, ‘Primavera de beijos’, etc. A minha preferida é essa, ‘Beijos divinais’, que é uma valsa sem letra. Queria que a minha lista tivesse uma instrumental e por isso escolhi essa.” 

Meu destino (José Maria de Abreu e Carlos Rego Barros de Sousa), por Januário de Oliveira, 1935:

“Essa é uma valsa romântica, bem no estilo que eu gosto. Logo nas primeiras notas da melodia ela cativa quem está ouvindo. Aliás, na minha opinião, é a valsa mais bonita que existe no repertório brasileiro em todos os tempos. São perfeitas melodia e a letra.” 

Quanto durou o nosso amor (Saint-Clair Senna), por Gastão Formenti, 1936:

“Saint-Clair Senna é um mestre nas canções. Compôs também sambas e marchas, mas para mim o forte dele eram as canções, lançadas pelos principais cantores da época: Francisco Alves, Orlando Silva, Silvio Caldas e, principalmente, o Gastão Formenti – cantor surgido nos salões, por volta de 1927, já com uma voz forte, melodiosa. Cantava naquele estilo dos cantores paulistas, os cantores seresteiros, como Jaime Redondo, Januário de Oliveira, Paraguassu...”

Ciúme sem razão (João de Barro e Alberto Ribeiro), por Orlando Silva, 1937:

“É outra valsa linda, melodia e letra, mas escolhi mesmo pela interpretação do Orlando Silva, que está magistral nesta gravação: ele realmente sentiu o que estava cantando. E isso era uma especialidade dele, que na minha opinião era mais intérprete do que cantor. Ia além do básico – melodia, harmonia e ritmo – trazendo um pouco de teatro pras interpretações que fazia.”

Iracema (Benedito Lacerda e Aldo Cabral), por Nuno Roland, 1937:

“Essa valsa era o prefixo do Gilberto Milfont, embora tenha sido lançada pelo Nuno Roland – um grande cantor de carreira longeva (1932 e foi até a década de 60), mas que estranhamente não é lembrado como um dos grandes de sua época. Era um cantor excepcional, com uma tessitura formidável, graves lindíssimos. Até mesmo nas últimas gravações que fez estava cantando lindamente, mas não se sobressaiu como merecia.”

Meu samba é triste (Saint-Clair Senna), por Gastão Formenti, 1937:

“Música sentimental que tem característica de canção, de valsa. E os versos são lindos, aliás, como tudo que o Saint-Clair Senna fazia. E olha que era dentista de profissão...”

Eu sei (Antônio Almeida e Paulo Medeiros), por Orlando Silva, 1941:

“Eu conheci esta valsa em 1952, quando fui deixado por uma namorada e sofri um bocado, sabe? E essa música me marcou muito: ‘Eu sei que nunca mais terei felicidade...’ Depois me curei dessa dor, namorei muito, me casei e tive meus filhos, mas ficou a lembrança dessa valsa.” 

A mulher que eu tanto adoro (Georges Moran e Mário Rossi), por Carlos Galhardo, 1942:

“Esta é praticamente uma resposta a ‘Eu sei’, como uma declaração de amor à esposa: ‘Mulher, que eu tanto adoro neste mundo... Que sabe os meus erros perdoar...’ Essa eu conheci na época em que foi lançada, ouvindo com meu pai no gramofone da nossa casa. Esse gramofone, aliás, era o meu brinquedo preferido. Meu pai comprou esse disco e ouvimos juntos essa gravação excepcional do Carlos Galhardo, que era um mestre nos agudos. A título de curiosidade: do outro lado do disco está uma valsa do Mário Lago chamada “Que importa”, que o Galhardo – num vício de dicção – gravou errado. Ele canta: ‘Qui emporta...’”

Célia (José Rodrigues de Rezende e Augusto Calheiros), por Augusto Calheiros, 1945:

“O que me chama atenção nessa valsa é que ela é muito bem-feita, bem-feitíssima, quase como um quebra-cabeças. Cada sílaba musical corresponde e uma sílaba literária, sem qualquer sobra. Até um trecho do acompanhamento melódico, que normalmente ficaria sem versos, foi letrado. Não sei se o letrista é o Calheiros ou o José Rodrigues de Rezende, que aliás não conheço. Seja quem for o letrista, é um mestre. ‘Célia’ é uma aula de composição.”

Quixabeira (Humberto Teixeira e Cícero Nunes), por Sólon Sales, 1949:

“Essa é a única música dessa seleção que não faz parte do repertório seresteiro. Mas entrou pela beleza melódica – por isso ficou entre as minhas dez. É também a única da lista que tem um compositor cearense, Humberto Teixeira, mais conhecido pelas parcerias com Luiz Gonzaga. Não à toa fala do meu Ceará, quando cita Assaré, terra do Patativa (apelido de Antônio Gonçalves da Silva, poeta popular e compositor).”


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