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Niterói em ritmo de samba – e marcha, mambo, maxixe e outros gêneros musicais

Pedro Paulo Malta

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A Unidos do Viradouro conquistou pela segunda vez o título de campeã do Grupo Especial das escolas de samba do Rio de Janeiro. Assim como em 1997, quando a agremiação alvirrubra venceu a disputa pela primeira vez, neste ano o prêmio máximo do carnaval carioca atravessou a ponte e foi parar em Niterói. Nada mal para a cidade natal de sambistas históricos, como os compositores Ismael Silva e Alcebíades Barcelos (o Bide), ambos fundadores do bloco (depois, escola de samba) Deixa Falar, no bairro do Estácio, zona central do Rio de Janeiro.

Niterói - que vemos neste post em foto de Marc Ferrez de 1876 - também serviu de musa ou cenário para sambas e outros gêneros musicais gravados em 78 rotações, como se pode ver aqui na Discografia Brasileira. Um dos compositores de destaque nessas referências é Wilson Batista, com duas músicas em que a Cidade Sorriso é o destino de seus personagens. No samba “Eu não sou daqui”, feito em parceria com Ataulfo Alves e gravado em 1941 na voz chorosa de Aracy de Almeida, ouvimos uma pequena que dispensa seu pretendente dizendo ter compromisso: “Na Terra do Arariboia é que eu tenho quem me quer...”

Também lançada por Aracy de Almeida (1945) é a marchinha gaiata “Não sou Manoel”, feita a partir da anedota sobre o sujeito que, chamado às pressas para acudir a esposa em Niterói, escapa da viagem ao lembrar que não se chama Manoel, não mora em Niterói e nem sequer é casado. Citada por Carlos Drummond de Andrade (“O homem e suas negativas”) e Guimarães Rosa (“Tutameia”), a historinha popular ganha uma nova versão na composição de Wilson Batista e Roberto Martins: o sujeito, que na verdade se chama Joaquim, cruza a Baía de Guanabara, mas não perde a viagem. Aproveita para fazer a barba e dar “umas voltinhas”, “pois lá em Niterói é tudo mais barato”.

Outro grande compositor que versou sobre a Terra de Arariboia foi Lamartine Babo. Se bem que, na primeira menção, Niterói é apenas a cidade de onde se vê e se adora o Corcovado – atração turística do verdadeiro homenageado da marchinha de Lalá: “Rio”, lançada em 1936, na voz de Francisco Alves. Mais divertida é a outra citação da Cidade Sorriso na obra de Lamartine: isso na “Marcha do Canto do Rio”, que ele compôs entre outras marchinhas que homenageavam os times participantes do Campeonato Estadual de 1943. Nesta, lançada em 1950 pelo Trio Melodia com acompanhamento de Francisco Sergi e sua orquestra, Lalá escolhe como protagonista uma morena imaginária, “queimada da praia” e que sofre pelo Canto do Rio: “Basta o clube empatar e ela chora que dói... Foge de Niterói!”

Já de 1960 é a “Marcha da Cantareira”, gravada por Gordurinha no fim daquele ano mirando o carnaval de 61. Na verdade, a música era uma adaptação rítmica do “Mambo da Cantareira” (Barbosa da Silva e Eloide Warthon), gravado em julho de 1960 pelo mesmo cantor: “Só vendo mesmo como é que dói / Trabalhar em Madureira, viajar na Cantareira e morar em Niterói...” O meio de transporte que fazia a travessia da Baía de Guanabara quando ainda não havia ponte entre Rio e Niterói (a inauguração foi em 1974) também serviu de assunto para a marchinha saliente “Barca da Cantareira”, lançada em 1956 por Linda Rodrigues – co-autora da música, com Arnaldo Ferreira: “Atraca, atraca, atraca, seu Moreira... Que a gente vai na onda da Barca da Cantareira...”

A mesma travessia marítima é lamentada em “Jandira”, samba carnavalesco de Geraldo Queiroz e Claudionor Martins no qual o sujeito se queixa à amada sobre a distância entre ele, morador do Rio, e ela, de Niterói. “Quando chego atrasado, você se zanga, meu bem / É que a barca do horário não espera por ninguém”, canta Jorge Veiga, em gravação de 1950.

As paixões e amores também são o fio condutor de três sambas dedicados ao bairro mais cantado de Niterói: “Icaraí” (Célio Ferreira e Raimundo Flores), gravado em 1948, por Dircinha Batista; “Garota de Icaraí” (Cícero Nunes e Sebastião Fonseca), que Luiz Bandeira lançou em 1955; e “Sereia de Icaraí” (Geraldo Ramos e Oliveira Santos), que chegaram ao disco em 1960, na interpretação de João Negrão e sua Orquestra. Já a região oceânica da cidade é representada na Discografia Brasileira pelo samba romântico “Itaipuaçu”: composição de Alberto Ribeiro lançada em 1953 por Rui de Almeida.

Se rebobinarmos até as primeiras décadas do século 20, também há homenagens a Niterói – como, por exemplo, duas gravações instrumentais da pioneira Banda da Casa Edison: uma com o tango “Icaraí” (Francisco Antônio dos Santos), em 1908, e outra com o maxixe “Niterói” (Antenor Borges Teixeira), em 1913. Outra música batizada com o nome da cidade é um tango-maxixe de 1928 interpretado no violão-solo por Américo Jacomino, o Canhoto, também compositor da obra. Já de 1921 é o ragtime “No Saco de São Francisco”, que é uma composição de O. Silvares lançada em disco pelo Grupo do Louro.

Na Discografia Brasileira, Niterói também é encontrada como cenário de canções românticas, como duas ambientadas no bairro mais querido dos compositores. Uma delas é o bolero “Icaraí”, composição de Silvio Viana gravada em 1954 pelo cantor Carlos Augusto com acompanhamento da orquestra de Lírio Panicalli. A outra, gravada no ano seguinte por Carlos Galhardo, é “Lembrança de Icaraí”, versão de Palmeira para “Recuerdos de Ipacarahy” (Ortiz e Mirkin), clássico do cancioneiro paraguaio.

O repertório dedicado a Niterói em 78 rotações também tem relatos tristes como os das duas composições inspiradas na tragédia do Gran Circo Norte-Americano, incendiado no dia 17 de dezembro de 1961, vitimando 503 pessoas. Tino Reis compôs e gravou a canção “Niterói de luto”, enquanto a dupla Charanga e Chará deu voz à toada “Tragédia de Niterói” (composição deles), ambas lançadas em disco em 1962.

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