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Sambas na quarentena: diretamente de 1954, os dez mais de Ary Barroso

Pedro Paulo Malta

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Em tempos de distanciamento social, confinar-se com livros pode ser uma boa saída. Se a leitura levar à música, então, a providência pode valer tanto quanto um frasco de álcool em gel.

E assim baixei da prateleira a “Coleção Revista da Música Popular”, livrão querido lançado pela Funarte em 2006, reunindo as 14 edições da referida publicação, que circulou entre 1954 e 56, editada pelo pesquisador Lúcio Rangel, que o jornalista Tárik de Souza define – na apresentação da coleção – como talvez “o principal formador do pensamento crítico da MPB na metade do século passado”. Nas 776 páginas do tijolão estão – em grandes textos de Lúcio e seus companheiros de geração – histórias fundamentais do samba, da música folclórica, do jazz americano, das escolas de samba, do blues e do choro, gênero escolhido para a capa da primeira edição, ilustrada com uma foto de Pixinguinha. A edição de número 1, aliás, é um festival de boas companhias para qualquer confinado.

Tem Manuel Bandeira relembrando o enterro de Sinhô, em 1930 – “Os amigos repetem piadas do morto, assobiam ou cantarolam os sambas (tu te lembra daquele choro?)”. Tem Rubem Braga escrevendo sobre Noel Rosa – “me pergunto se não foi, tanto quanto sambista, um cronista e um poeta”. O compositor Evaldo Rui revisitando um bar no Estácio da década de 20 – “eu gostava de me postar diante de suas portas, quase todas as tardes, porque ali se reuniam os meus ídolos...”  E Aracy de Almeida respondendo de bate-pronto um questionário de Lúcio Rangel: “Gosta de cantar? Não. E de homem? Adoro!”

Já entre as páginas 8 e 10, a conversa se dá entre outros dois mestres: o cronista Paulo Mendes Campos e o compositor Ary Barroso. Realizada “em um bar do centro da cidade”, como descreve o primeiro (referindo-se possivelmente à Casa Villarino, onde ambos batiam ponto, juntamente com outros boêmios vespertinos), “essa entrevista durou três uísques”. A voracidade do compositor foi a mesma no que diz respeito à ingestão de sólidos, como descreveu Paulo Mendes Campos: “Ary Barroso comeu com as próprias mãos um frango inteiro – o prato de sua especialidade”.

Ilustrada com caricaturas assinadas pelo cronista e compositor Fernando Lobo (outro ilustre colaborador da Revista), a entrevista tem seções dedicadas às outras atividades de Ary além de música e do rádio. No trecho dedicado ao futebol, o compositor – que também foi um dos principais narradores de seu tempo – elegeu “o maior jogador de todas as épocas” (Domingos da Guia) e revelou que, se não torcesse pelo Flamengo, seu clube seria “o Clube da Chave”, em referência a uma das boates mais badaladas da época, em Copacabana. 

Mais adiante, o papo enveredou pela política e Ary, que havia sido vereador atuante (1947 e 50) e concorria a uma cadeira de deputado federal na eleição daquele ano, listou suas prioridades caso fosse eleito: nove ao todo, entre elas “tirar os 7 fedores da cidade” e “a arregimentação em classe das manicuras”. Com apenas 1.047 votos, Ary Barroso seria derrotado na eleição – realizada no mês seguinte ao lançamento da Revista.

Quando a entrevista passou à música, Ary foi chamado a dizer qual o melhor compositor brasileiro (escolheu Ataulfo Alves, mineiro como ele) e o pior (“O falso compositor: o que assina sambas sem compô-los”). Falou também sobre a própria obra, apontando sua composição preferida (“Terra seca”), a que mais o chateava (a marcha “Chiribiribi qua-quá”, parceria com Nássara) e as interpretações de que mais gostava: Aracy de Almeida em “Camisa amarela” e Elisinha Coelho em “No rancho fundo” (parceria com Lamartine Babo). Já “Aquarela do Brasil” foi mencionada pelo compositor como a música mais bem-sucedida em termos de direitos autorais.

Depois disso, não falou mais de suas composições. Nem ao ser chamado por Paulo Mendes Campos a dizer os dez sambas que considera “de primeira qualidade”.  E assim a lista das dez mais de Ary Barroso é devidamente aberta pelo Rei do Samba, Sinhô, com “Gosto que me enrosco”. A lista continua com o maior sucesso de seu compositor favorito, Ataulfo Alves (“Ai que saudades da Amélia”, em parceria com Mário Lago) e segue com “Feitiço da Vila”, da dupla Vadico e Noel Rosa. 

Nas duas músicas seguintes, são lembrados quatro compositores atuantes no teatro de revista: Hekel Tavares, Joracy Camargo (parceiros na composição de “Favela”), Henrique Vogeler e Luís Peixoto, criadores de “Ai ioiô (Linda flor)”, que Ary, graciosamente, chama de “Iaiá de ioiô”. Em seguida vem outro samba-canção, “Nervos de aço”, de Lupicínio Rodrigues. 

Já os quatro números seguintes são grandes sucessos carnavalescos, sendo três deles assinados por compositores do Estácio: “Se você jurar” (Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves), “Agora é cinza” (Bide e Marçal) e “Deixa essa mulher chorar” (Brancura e Maciste da Mangueira). Completando a seleção está um sucesso do carnaval daquele ano, 1954: “A fonte secou”, composição de Monsueto Menezes com Tuffic Lauar e Marcleo.

Uma seleção de respeito que aproveitamos para transformar em playlist aqui na Discografia Brasileira, trazendo um pouco de samba (“que mexe com a gente”, nas palavras do próprio Ary) para amenizar estes dias de quarentena.

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