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Roberto Carlos em 78 rotações: banquinho e violão na estreia fonográfica

Pedro Paulo Malta

Tocar fonogramas

Foi em ritmo de rock e canções românticas que Roberto Carlos se tornou um dos maiores sucessos da indústria fonográfica brasileira. Nenhuma das duas vertentes, no entanto, foi escolhida pelo cantor e compositor quando ele estreou em disco, em 1959, como se pode perceber aqui na Discografia Brasileira.

Roberto, que completa 79 anos neste domingo (19/04), naquela época era um dos tantos jovens músicos brasileiros que andavam enfeitiçados pelo violão e pela voz de João Gilberto – revelados ao mundo em meados de 1958, com o lançamento de “Chega de saudade” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) na interpretação minimalista do artista baiano.

Tinha 17 anos quando ouviu aquele som pelo rádio, no apartamento em que morava com a família, no Lins de Vasconcelos, bairro da zona norte do Rio. “A forma de ele cantar, a colocação da voz, a emissão, a afinação, a divisão, tudo ali era perfeito”, disse o aspirante a cantor, como se pode ler na biografia “Roberto Carlos em detalhes”, de Paulo Cesar de Araújo. “Quando ouvi João Gilberto, eu fiquei parado, porque aquilo era algo simplesmente maravilhoso.”

Assim, deixou pra lá Elvis Presley e outras inspirações estadunidenses que vinham fazendo sua cabeça e as de outros jovens da turma da Tijuca (da qual também faziam parte Tim Maia e Erasmo Carlos), com quem vinha se apresentando desde 1957, em clubes e salões paroquiais da zona norte carioca. No lugar dos requebros de Elvis, passou a cantar igual a João Gilberto, imitando “até o sotaque baiano”, como observou o produtor Roberto Côrte Real, segundo o livro de Paulo Cesar de Araújo.

Começou, então, frequentar as reuniões de bossa nova, geralmente nos apartamentos da zona sul carioca, quase sempre censurado em suas tentativas, como conta o jornalista Ruy Castro em seu livro, “Chega de saudade”: “Em certo momento, Roberto Carlos ficou mesmo insistente e o mínimo de que o chamavam era de ‘chato’. Numa dessas, na casa do empresário Lauro Boamorte, no Flamengo, (Roberto) Menescal levou-o a um canto: ‘Olha, bicho, não dá pra você. Você quer cantar igualzinho ao João Gilberto – e nós já temos o João Gilberto.’”

Outro figurão da bossa nova que tentou freá-lo foi o letrista Ronaldo Bôscoli, que após um show coletivo de novos talentos no Liceu Franco Brasileiro, em 1959, abordou Roberto na saída do palco, enquanto este encapava o violão. Segundo Paulo Cesar de Araújo, Bôscoli não tergiversou: “Bicho, quer um conselho? Para. Reformula. Muda de estilo. O destino de imitador tem caminho curto. Não há lugar para dois João Gilberto.” Segundo Bôscoli em seu livro de memórias (“Eles & eu”), Roberto concordou e lhe disse que estava pensando em mudar para o rock.

Mesmo assim, continuou fiel ao banquinho e ao violão. Seguiu cantando bossa nova na boate do Hotel Plaza, em Copacabana, onde já era atração fixa desde o início de 1959, alternando-se no palco com a cantora Geny Martins – no número de abertura da atração principal, o saxofonista estadunidense Booker Pittman. Foi lá, onde o próprio João Gilberto havia se apresentado antes da fama, em 1957, que Roberto reencontrou o produtor Carlos Imperial, que inicialmente gargalhou ao ver o ex-roqueiro se arriscando na bossa nova, mas depois gostou da ideia.

Imperial logo compôs sambas estilizados para o amigo e, com ele, passou a percorrer as gravadoras atrás de uma primeira oportunidade fonográfica. Foram primeiro à Chantecler, depois à Copacabana, de onde seguiram para a Continental. Até que bateram na Polydor, onde foram recebidos pelo diretor artístico, Joel de Almeida (o Joel, da famosa dupla vocal com Gaúcho), que avalizou o primeiro disco de Roberto Carlos: um 78 rotações de bossa nova gravado em julho de 1959, com lançamento no mês seguinte.

No repertório, duas composições de Carlos Imperial: no lado A, uma parceria com o próprio Roberto chamada “João e Maria”, propondo – na mesma linha de “Lobo bobo” (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli) – uma releitura atualizada do famoso conto de fadas. Já no samba “Fora do tom”, os versos cantados por Roberto parecem se queixar à própria turma da bossa nova, com direito a citações de sucessos recentes do gênero musical.

Tentei ouvir a voz que existe nesse seu olhar
E pra beijar alguém os peixinhos fui contar
Responda, por favor, se isto é natural
Não durmo há mais de um mês por causa de vocês

Cheguei, sorri, venci... depois chorei com a confusão
No tom que vocês cantam eu não posso nem falar
Nem quero imaginar que desafinação
Se todos fossem iguais a vocês

“Saí da gravadora com o disco debaixo do braço, feliz da vida. Tomei um trem para Lins de Vasconcelos e quando cheguei em casa dei o disco de presente para minha mãe”, disse Roberto, que segundo Paulo Cesar de Araújo, não pôde ouvir as gravações com D. Laura, já que não tinha toca-discos em casa. A biografia traz também a primeira crítica ao disco publicada na imprensa, na coluna “Discos”, do jornal Ultima Hora: “Agora é que a coisa vai piorar. Vão aparecer mil e um cantores tipo João Gilberto e ninguém vai aguentar mais. João sozinho é bom demais. A sátira de Carlos Imperial é interessante. Porém, falta alguma coisa ao jovem cantor.”

Mesmo assim, a bossa nova seguiu com Roberto, que, acompanhado por Carlos Imperial, seguiu em busca de uma gravadora onde pudesse continuar fazendo discos. Depois de novas negativas – da RCA Victor e da Philips – chegaram à Columbia, onde o diretor artístico, Roberto Côrte Real, propôs que o jovem fizesse um teste no estúdio. Primeiro, sugeriu que cantasse “Menina moça” (composição de Luiz Antônio, sucesso na voz de Tito Madi). Depois, pediu que ficasse à vontade para interpretar o que quisesse, ao que Roberto sacou mais uma bossa nova de Imperial. 

Brotinho, toma juízo 
Ouve o meu conselho
Abotoa esse decote
Vê se cobre esse joelho...

Côrte Real gostou tanto de Roberto cantando “Brotinho sem juízo”, que chamou à técnica o maestro Lírio Panicalli, a quem encomendou arranjos para o disco do novo contratado da Columbia. O samba malicioso de Carlos Imperial foi lançado no lado B daquele 78 rotações, que saiu em agosto de 1960 trazendo no lado A “Canção do amor nenhum”, do mesmo compositor, com título fazendo referência à “Canção do amor demais” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes). Desta vez, nem mesmo uma aparição do cantor no programa de Abelardo Barbosa – o Chacrinha – na TV Tupi, onde apresentou “Brotinho sem juízo”, evitou que o disco passasse em brancas nuvens, encerrando-se aqui a fase bossa-novista de Roberto Carlos.

No disco seguinte, feito em 61, na mesma Columbia (sua gravadora pelo resto da carreira), ele já estaria de volta ao rock, para se tornar – a partir da metade dos anos 60 – um dos cantores mais populares do país.

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