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Nem bossa nova, nem afro-samba: Vinicius de Moraes estreou em ritmo de fox

Pedro Paulo Malta

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Conservador e nacionalista, o Vinicius de Moraes de 1932 nem de perto parecia a figura que marcou época na música brasileira das décadas de 1960 e 70: o senhor grisalho e sorridente que, entre goles de uísque, cantava sambas, dizia poemas e distribuía saravás à plateia. Aos 19 anos incompletos, o rapaz frequentava o curso do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) e a Faculdade de Direito do Catete, onde chegou a assistir palestras do líder integralista Plínio Salgado. O primeiro livro publicado viria só no ano seguinte (“O caminho para a distância”), mas já não era um poeta inédito: a revista católica A Ordem publicou por essa época, de sua autoria, “A transfiguração da montanha”, poema bíblico de 152 versos.

O ano de 1932 é um marco também para o Vinicius compositor, pois é desse ano o primeiro disco trazendo composições de sua autoria – um 78 rotações da gravadora Columbia que saiu no mês de julho com duas parcerias suas com Haroldo Tapajós: “Loura ou morena” (cantada em dueto por Haroldo com seu irmão, Paulo Tapajós) e “Doce ilusão” (solada por Paulo). O gênero musical das duas também não tinha qualquer semelhança com samba, bossa nova ou afro-samba: ambas foram feitas em ritmo de fox, gênero norte-americano que se popularizava pelo mundo graças aos discos de jazz e, sobretudo, ao cinema.

Pois era cinéfilo o jovem Vinicius de Moraes. A ponto de ter criado, com os colegas de faculdade, o Chaplin Club – primeiro cineclube sul-americano dedicado ao grande ator e diretor londrino. Também com eles criou a revista “O Fan”, feita pelos rapazes de maneira artesanal e que durou oito edições. E é provável que tenha vindo do cinema a inspiração para fazer “Loura ou morena” – nome com que chegou ao Brasil o longa-metragem “Blonde or brunette”, produção da Paramount em 1927 estrelada pelo norte-americano Adolphe Menjou, a loura Greta Nissen e a morena Arlette Marchal.

As composições teriam sido feitas no ano seguinte, 1928, e são frutos de uma amizade – de Vinicius com os irmãos Tapajós – propiciada pela música. Em depoimento a João Máximo (para a série “Vinicius: poesia, música e paixão”, produzida pela Rádio Cultura AM em 1993 e hoje acessível pela Rádio Batuta), Haroldo Tapajós conta que o futuro poeta tinha aulas de violão com Paulo e por aí estreitaram a amizade. Os três então formaram um conjunto musical para se apresentar em casas de amigos e festas no Colégio Santo Inácio, em Botafogo, onde Vinicius estudava – os Tapajós eram alunos do Colégio Andrews, no mesmo bairro.

O passo seguinte foram as composições do trio adolescente – Vinicius e Paulo tinham 14 pra 15 anos, Haroldo era dois anos mais novo. Além das duas músicas já citadas, vieram outras seis, todas em ritmo de fox e com letras de Vinicius. Paulo foi parceiro em duas (“Canção da noite” e “Honolulu”), enquanto Haroldo compôs a música das outras quatro: “Diga, moreninha”, “Namorado da lua”, “Nosso amor de criança” e “O beijo que você não quis dar”. Todas devidamente cantadas em dueto pelos irmãos Tapajós nos discos em que foram lançadas, ao longo de 1933, pela Columbia – delas, apenas duas ainda não têm registro de áudio no site da Discografia Brasileira: “Honolulu” e “Diga, moreninha”.

Mesmo com as oito músicas lançadas comercialmente, Vinicius ainda levará mais de duas décadas até considerar a composição seu ofício principal. Seguirá carreira diplomática, será crítico de cinema e de discos e lançará seus livros de poesia – alcançando sucesso especialmente a partir da década de 1940, quando publica, entre outros poemas, o “Soneto de fidelidade”, o “Soneto de separação e “O dia da criação”, do verso “Porque hoje é sábado”. A música se manifestará de maneira pontual (como em aventuras esporádicas com Antônio Maria e Cláudio Santoro), mas só até 1956 – quando a peça “Orfeu da Conceição” abre o capítulo mais conhecido na trajetória camaleônica de Vinicius de Moraes.

foto: Acervo Tinhorão / IMS

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