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Brazilian Discography: a ‘gente bronzeada’ mostra seu valor interpretando Gershwin, Cole Porter e cia. 

Pedro Paulo Malta

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Eleição presidencial nos Estados Unidos é sempre notícia de primeira página. Que dirá num ano como 2020, com pandemia, crise econômica, desastres ambientais e discursos de ódio confrontados por marchas antirracistas e antifascistas, entre outras turbulências. Por essas e outras há quem defina o pleito de 3 de novembro - quando será escolhido o ocupante da Casa Branca nos próximos quatro anos - como “a eleição mais importante de todos os tempos”.

Enquanto eles se decidem entre a continuidade de Donald Trump ou a renovação com Joe Biden, de longe acompanhamos apreensivos (nós e o mundo todo), na torcida contra a xenofobia, o supremacismo e outras pautas reacionárias. Na expectativa pelo resultado, há os que tentam entender o sistema eleitoral estadunidense. Os que seguem de perto as pesquisas de opinião em Ohio, Iowa e Flórida. E até os que, para entrarem no clima, só precisam de música.

E eis que chegamos à Discografia Brasileira, que, como vamos ver, não é feita só da produção nacional, mas também de composições estrangeiras que foram gravadas nas vozes, instrumentos e orquestras daqui. Pois é assim a playlist que apresentamos neste post: uma seleção de grandes sucessos de lá interpretados pelos de cá. Como a conexão Brooklyn-Paraíba que abre nosso repertório, com a “Rhapsody in blue”, de George Gershwin (na foto deste post), tocada pela Orquestra Tabajara de Severino Araújo numa gravação de 1947.

De outro mestre da música estadunidense – o cancionista Cole Porter – vêm os dois números seguintes, cantados em inglês: “I love Paris”, na voz de Maysa (1961), e “You do something to me”, com Marisa Gata Mansa (1958). O trio de interpretações na letra original se completa com “My melancholy baby” (Ernie Burnet e George Norton), refeita por aqui no inglês impecável de Dick Farney, com acompanhamento da Orquestra de Paul Baron, em 1954.

Nossa playlist segue com sucessos de lá tocados por dois grandes instrumentistas brasileiros. Um deles é Laurindo de Almeida, que em 1950 lançou, em solo de guitarra, sua leitura da dançante “Tea for two”, uma composição de Vincent Youmans e Irvin Caesar. Já a romântica “Tenderly” (de Jack Lawrence e Walter Gross, lançada em 1947 pelo já citado Dick Farney) trazemos numa gravação de 1953, do disco de estreia do então acordeonista João Donato.

A seção de versões brasileiras é aberta no vozeirão de Carlos Galhardo entoando “Fascinação”: composição do italiano Dante Marchetti que se popularizou nos EUA na década de 1930 e só em 1943 recebeu os versos de Armando Louzada gravados por Galhardo – e depois por Elis Regina. Já de 1957 é “West side story”, famoso musical de Jerome Robbins do qual selecionamos “Tonight”: uma composição de Leonard Bernstein e Stephen Sondheim que, na versão de Renato Corte Real, foi transformada em “A noite”, como gravou o cantor Sílvio Ribeiro em 1962.

Assim como no teatro musical, o cinema também rendeu incontáveis sucessos estadunidenses que seriam cantados em português. Do filme “O mágico de Oz” (1939), por exemplo, vem o standard “Over the rainbow”, que por aqui virou “Sob o arco-íris” (em versão do jornalista e sambista Arlindo Marques Jr.), como se pode ouvir na gravação de 1954, por Carlos Carié. Também de 1939 é o filme “Serenata tropical” (dirigido por Irving Cummings), estreia cinematográfica de Carmen Miranda, que deu voz a “South American way”, cantando a letra brasileira de Aloísio de Oliveira (não creditado) para composição de Jimmy McHugh e Al Dubin.

Aloísio é o autor também dos versos em português de “In the mood”, composição de Joe Garland e Andy Razaf que fez sucesso no Brasil com o nome de “Edmundo”, em gravações como a de Elza Soares, em 1960. Por essa época, o mundo todo já dançava freneticamente no ritmo do rock: invenção estadunidense de 1952, quando “Rock around the clock” (Max Freedman e Jimmy de Knight) estourou com a banda Bill Halley and His Comets. No Brasil, a música foi rebatizada como “Ronda das horas” (com versão de Júlio Nagib), sendo gravada por Nora Ney, a mesma de “Ninguém me ama”, “De cigarro em cigarro” e outras fossas.

Mais identificada com o “ritmo alucinante” era a boa-moça paulistana Célia Campello Gomes Chacon, mais conhecida por Celly Campello, que entre outros rocks lançou em 1959 a dançante “Estúpido cupido”, versão de Fred Jorge para “Stupid cupid” (Neil Sedaka e Howard Greenfield).

Há também as canções que chegaram por aqui com os chapéus e botinas do velho oeste, como a “Canção do vaqueiro”, que no original atendia por “Oh Suzana” (Stephen Forster) e ficou conhecida dos ouvintes brasileiros numa gravação de 1944, na voz de Nelson Roberto Perez, o Bob Nelson, também autor da versão. No mesmo pocotó, chegamos a “Ghost riders in the sky” (Stan Jones), que no Brasil foi gravada por Nilo Sérgio com os Garotos da Lua (1950), com o nome de “Cavaleiros do céu” e letra do multiartista Haroldo Barbosa.

Assim como Haroldo, outro grande compositor, redator e radialista era Lamartine Babo, que comparece em nossa seleção como autor dos versos brasileiros de “Stardust”, standard do jazz da década de 1920 co-assinado por Hoagy Carmichael e Mitchell Parish. Só em 1945 ele veio parar na voz de Francisco Alves, com o nome de “Coração iluminado”.

João de Barro foi outro que, entre suas múltiplas atividades, se especializou em fazer versões para sucessos do cancioneiro estadunidense. Como “Limelight”, que Charles Chaplin compôs para seu filme “Luzes da ribalta” – também nome da canção gravada por Alcides Gerardi, com versos em português de João de Barro em parceria com Antônio Almeida. Já sozinho ele escreveu a letra brasileira de “Smile”, que Chaplin fez – com John Turner e Geoffrey Parsons – para o filme “Tempos modernos” (1936) e que por aqui ficou conhecida como “Sorri”, sendo gravada quatro vezes em 1955, uma delas por Jorge Goulart.

Também assinada por João de Barro é “Deus salve a América”, versão brasileira da patriótica “God bless America”, que é uma composição de Irvin Berlin lançada por aqui na voz de Francisco Alves em junho de 1945 – mês seguinte à derrota nazista na Segunda Guerra Mundial. 

Os ânimos de democratas, republicanos e observadores distantes se acalmam no encerramento da nossa seleção musical, com este clássico romântico dos bailes que é “Moonlight serenade” (Glenn Miller), que trazemos numa gravação de 1954, com Raul de Barros e sua Orquestra.

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