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Documentário celebra a música moderna e os multi-instrumentos do virtuose Garoto

Pedro Paulo Malta

Tocar fonogramas

Boa surpresa num ano sem muito a ser comemorado, o documentário “Garoto – Vivo sonhando” (Rafael Veríssimo) é uma ótima lembrança a se levar deste 2020. Primeiro porque é ótimo tanto para os ouvidos (como era de se esperar) quanto para os olhos – as fotografias e outras relíquias valeram ao filme a menção honrosa pela pesquisa e pela documentação no festival In-Edit Brasil, no qual estreou (de maneira virtual) em setembro. Pois além das qualidades cinematográficas, o longa cumpre o papel fundamental de dar o devido destaque ao compositor do choro “Gente humilde”, mais conhecido como canção, com versos de Vinicius de Moraes e Chico Buarque. 

Nascido Annibal Augusto Sardinha, em 28 de junho de 1915, Garoto não chegou a completar 40 anos – foi vitimado por um infarto em 3 de maio de 1955. Dos feitos colecionados entre as duas datas destacam-se o talento surgido na infância, as gravações que fez com Carmen Miranda, a influência de sua música para a bossa nova e o virtuosismo com que dominava múltiplos instrumentos: o violão, o cavaquinho, o bandolim, o banjo, o violão-tenor, as guitarras elétrica e havaiana e o que mais fosse instrumento de cordas.

“Qualquer instrumento que ele pegasse tocava bem”, afirma em áudio o cavaquinista Waldir Azevedo, para quem Garoto “era bom em tudo”, “o maior que eu conheci”. O grande violonista Raphael Rabello aparece definindo-o como “um anjo”, com papel decisivo para as gerações seguintes: “Se não fosse ele a gente não estava aqui.” Já Paulinho da Viola comparece destacando Garoto pela habilidade como solista: “Talvez o maior talento pra instrumentos de cordas na literatura da música brasileira.”

Das composições do personagem-tema, Paulinho destaca “Quanto dói a saudade”: “Todo mundo ouvia esse choro e sabia que ali tinha um compositor especial, tinha uma pessoa diferente de outros compositores geniais também.” Outro que ressalta a composição é o pesquisador Jorge Mello, autor do livro “Gente humilde: vida e música de Garoto”, lançado em 2012 pelo selo Edições Sesc. “Esse choro o representa em seu estilo romântico, melódico, saindo da fase de velocista dos instrumentos para uma fase mais introspectiva”, disse o escritor e pesquisador em entrevista para este post. “É o Garoto em todo o lirismo dele, tanto como compositor quanto como instrumentista.” Outro choro que sintetiza este lirismo é “Tristezas de um violão”.

Jorge Mello tem papel central no documentário, como consultor, depoente e responsável pela pesquisa, ao lado de Rafael Veríssimo e Lucas Nobile – outro que entrevistamos sobre o filme e seu personagem central. Entre os fonogramas de Garoto selecionados para o longa-metragem, Lucas relembrou uma história sobre “Desvairada” contada pelo violonista Dino Sete Cordas, que participou da gravação. “Dino contava que o Garoto ia gravar este choro de violão-tenor, mas foi para o estúdio sem o instrumento”, conta o pesquisador. “Ele então atravessou a rua e comprou um bandolim qualquer, o primeiro que viu, que estava longe de ser espetacular. E assim foi feita a gravação, que é mais uma prova da versatilidade dele como multi-instrumentista.”

Entre os destaques da pesquisa para o documentário, estão depoimentos de grandes músicos relembrando seus encontros com Garoto. Como o cantor Paraguassu, que foi acompanhado por ele em gravações como a da embolada “Bem-te-vi” e, numa turnê, precisou ser o tutor do multi-instrumentista, então com 14 anos: “Era um gênio!” O cantor e compositor Luiz Gonzaga foi outro que teve a companhia de Garoto num disco, no caso o primeiro do famoso sanfoneiro, em 1941, quando saiu o 78 rotações com a instrumental “Vira e mexe”, do próprio Gonzagão: “Eu até hoje acredito que o sucesso foi por causa dele. Será que foi?”

Já Carmen Miranda foi acompanhada por Garoto na embolada “Bambu bambu” (Donga e Patrício Teixeira), lançada nos Estados Unidos tanto em disco de 78 rotações (pela gravadora Decca) quanto no primeiro filme estrelado por ela, “Serenata tropical” (1940), no qual o instrumentista aparece tocando seu violão para os requebros da Pequena Notável. O trecho do documentário dedicado à temporada estadunidense do músico – iniciada em outubro de 1939, com 40 dias de detenção em Ellis Island (Nova York) – também é sonorizado com “Cavaquinho boogie”, híbrido de choro e boogie woogie gravado pelo próprio compositor em 1953.

Do ano seguinte é o dobrado “São Paulo quatrocentão”, dedicado ao quarto centenário da fundação de sua cidade natal e composto em parceria com Chiquinho do Acordeom, que no filme relembra a criação da música. “Um dia eu sentei em casa e saiu um pedaço”, relata o acordeonista, que em seguida telefonou chamando o amigo para ouvir. “Toquei pra ele. Ele aí pegou e fez a terceira. Saiu assim! E vendeu 700 mil discos.” Também em áudio, o violonista e compositor Luiz Bonfá relembra a alegria com que o amigo lhe contou que, com o sucesso do dobrado, tinha conseguido comprar um carro: “Ele ficou tão feliz!”

Em outro trecho do filme, a bossa nova presta suas homenagens àquele que é considerado um de seus precursores. Através de João Gilberto, que recorda a maneira como Garoto tocava violão (“Nasceu pra aquilo!”) e interpreta “Sorriu para mim” (Garoto e Luiz Cláudio). E nos depoimentos de Carlos Lyra e Roberto Menescal, que definem o samba-canção “Duas contas” (Garoto) como um dos pontos de união entre os jovens músicos que experimentavam novas harmonias no Rio de Janeiro da década de 1950. Já para o violonista Yamandú Costa, o compositor é “muito mais moderno que a bossa nova”, estando acima de qualquer gênero musical: “Garoto é a música e é o Brasil mais bonito que pode haver.”

Foto: Acervo IMS / Coleção José Ramos Tinhorão

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