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Diários de Garoto: anotações do músico levam a 'achados' na Discografia Brasileira

Pedro Paulo Malta

Tocar fonogramas

Não foi sem razão que o documentário “Garoto – Vivo sonhando”, de Rafael Veríssimo, recebeu menção honrosa pela pesquisa e pela documentação no 12º Festival In-Edit Brasil, no qual estreou em setembro. Além do prazer de ouvir a música de Annibal Augusto Sardinha, o Garoto (1915-1955), na maior parte de seus 100 minutos de duração, o filme proporciona outros grandes prazeres ao espectador: apresentando amostras de como era o rádio de antigamente (através de gravações raras do instrumentista ou trechos de programas), trazendo depoimentos preciosos sobre ele (a começar pelos de suas duas companheiras, Dugenir e Cecy) e exibindo farto material fotográfico do personagem-tema.

Jorge Mello por Pedro Paulo Malta

Outro achado do documentário são os diários de Garoto: agendas manuscritas nas quais vemos (com a ajuda de uma lupa) o dia-a-dia do músico descrito a lápis, em sua própria caligrafia. São ao todo oito caderninhos – com dimensões de 8 por 11 centímetros – desencavados do acervo do músico por seu biógrafo, Jorge Mello (na foto acima). “Quando soube da morte da segunda companheira de Garoto, Cecy, que cheguei a conhecer, consegui contato com uma sobrinha dela, que então me entregou os guardados da tia”, conta Jorge, que encontrou as pequenas agendas entre fotografias, partituras e outras relíquias. “Isso era 2009 e eu já tinha terminado a primeira versão da biografia dele (‘Gente humilde: vida e música de Garoto’, lançada em 2012 pelo selo Edições Sesc). Lógico que precisei revisar e reescrever o texto quando tive acesso a esse material tão rico.” 

As agendas foram prontamente escaneadas por Jorge e, em seguida, repassadas aos filhos de Garoto. Graças às anotações, o documentário “Garoto – Vivo sonhando” tem o personagem-tema descrevendo em primeira pessoa não só os compromissos profissionais, como também anotações meteorológicas, os amigos que encontrou pelos caminhos e outros aspectos de seu dia-a-dia. As agendas perfazem oito anos da vida do grande multi-instrumentista (de 1944 a 46 e de 1950 a 55), sendo que apenas uma parte delas é rica em informações. “No primeiro grupo ele descreve, com riqueza de detalhes, os acontecimentos de cada dia, até além do aspecto musical”, conta Jorge Mello, que assina a pesquisa para o filme juntamente com Lucas Nobile e o diretor, Rafael Veríssimo. “Já no segundo grupo, dos anos 50, ele é muito econômico nas palavras e a descrição se dá de forma lacônica.”

Agenda de Garoto / Reprodução feita por Jorge Mello

Sempre solícito, Jorge Mello foi um de nossos entrevistados para o último post na Discografia Brasileira, sobre o documentário, no qual fizemos uma playlist a partir do repertório. Passada a entrevista, ele veio com uma surpresa: tinha percorrido as anotações nas agendinhas e, cruzando as datas com as do nosso site, chegou a 20 gravações de seu biografado, sendo duas como solista e as outras 18 fazendo o acompanhamento – nestas sem crédito. “Cabe destacar que nestas músicas Garoto atua de forma discreta, sem protagonismo, seja como membro de um conjunto, como o de Abel Ferreira, ou de uma orquestra, como a de Fon-Fon”, ensina Jorge, que tem 71 anos e é professor universitário aposentado, além de violonista e compositor informal. “Garoto era muito requisitado para este tipo de gravações, em que ele ‘reforçava’ o conjunto ou orquestra em questão.”

Agenda de Garoto / Reprodução feita por Jorge Mello

A seguir reproduzimos as anotações de Garoto (em negrito) e as gravações selecionadas por Jorge Mello (reunidas na playlist deste texto), que assina os demais comentários, em itálico.

1944

Quinta-feira, 1º de junho – “Tempo ótimo. Duge já está fora de perigo, só um pouco fraca, é natural. Gravo hoje quatro músicas: duas com Moreira da Silva, duas com os Trigêmeos. Violão tenor e banjo.”

Um dos discos gravados em 01/06/1944 é o de Moreira da Silva, na qual Garoto participa como integrante do Regional de Abel Ferreira. Disco feito na Odeon e lançado em agosto.

>> Lado A: “Foi-se meu azar”, samba-choro de Zé Ferreira e Valdemar Pujol.
>> Lado B: “Jurací boca de sirí”, samba-choro de Zé ferreira e Norberto Martins.

O outro disco, gravado na Odeon na mesma data (e lançamento em agosto), é dos Trigêmeos Vocalistas.

>> Lado A: “Lá no Texas”, marcha de Santos Rodrigues e Nelson Trigueiro.
>> Lado B: “Carioca”, passo doble de Georges Moran e J. G. de Araújo Jorge.

Obs: Duge é forma carinhosa com que Garoto tratava sua esposa Dugenir, que tinha adoecido na véspera.

Quinta-feira, 22 de junho – “Tempo: calor. Acordei mais tarde. Gravo duas músicas com Marilia Barbosa. Apresento no programa Gessy solo de Czardas e Orlando Silva lança o meu fox ‘Felicidade’.”

As gravações de 22/06/1944 foram feitas com Marilia Batista e orquestra na RCA Victor, que lançaria o disco em agosto. Em “Salão azul”, inspirada e inspiradora composição, Garoto faz a introdução no violão tenor.

>> Lado A: “Liberdade”, samba de Pereira Bastos e Manoel Vieira.
>> Lado B: “Salão azul”, samba de Marília Batista e Henrique Batista.

Obs:  O programa a que Garoto de refere é o “Espetáculo Gessy”, programa da Rádio Nacional, que ia ao ar às 21 horas. Nesse dia, participaram do programa os seguintes artistas: Orlando Silva, Mesquitinha, Brandão Filho, Carmen Costa, Garoto e as Três Marias. Atuava neste programa a orquestra do Maestro Carioca.

Obs 2:  O fox “Felicidade”, música de Garoto com letra de Haroldo Barbosa, foi lançado por Orlando Silva neste programa. 

1945

Terça-feira, 12 de junho – “Tempo ótimo. Hélio Rosa vem cedo para passar músicas comigo. Gravo na Odeon duas músicas com Francisco Alves. Faço programa às 19h30 com a All Star. Vou à casa do Zé Mauro, onde há uma ótima audição de violão por dois bons violonistas. Volto tarde.”

Gravações realizadas na Odeon, em 11/06/1945 (o disco seria lançado em agosto), com Francisco Alves acompanhado por Fon-Fon (Otaviano Romero Monteiro) e sua orquestra.

>> Lado A: “Mato verde”, tango de H. A. Esposito e D.S. Frederico, versão de Haroldo Barbosa.
>> Lado B: “Coração iluminado”, fox de H. Carmichael e M. Parisch, versão de Lamartine Babo.

Sexta-feira, 27 de julho – “Tempo bom. Levanto-me cedo em casa de Hélio Rosa. Vou à Continental para gravar quatro choros com Coruja, Sandoval, Fernando, Deoclydes, Luciano e Radamés. Faço programa às 20h30. Visita-me Odilon, de Curitiba. Badeco vem comigo para casa, para ficar a noite.”

Dos choros gravados em 27/7/1945 dois saíram num dos discos de Francisco Sergi e sua orquestra. Lançamento da Continental em setembro. 

>> Lado A: “Fumaça no meu cachimbo”, choro de Radamés Gnattali.
>> Lado B: “Num dos meus calmos dias”, choro de Miranda Pinto “Coruja”.

Os outros dois, também lançados em setembro pela Continental, foram gravados pelo cantor Nuno Roland com acompanhamento de conjunto.

Lado A: “Mulata Risoleta”, choro de Alberto Ribeiro e Radamés Gnattali.
Lado B: “Olha bem para mim”, choro de Alberto Ribeiro e Radamés Gnattali.

Terça-feira, 2 de outubro – “Tempo bom. Levanto-me cedo. Às 10 horas vou à Continental para gravar com meu conjunto Bossa Clube três músicas minhas e uma de Bittencourt. Faço programa de violão às 18h30 e, às 21h30, novo programa. Bato papo no Internacional com a turma e volto para casa. Estou cansadíssimo.”

Em duas dessas gravações realizadas com o Bossa Clube em 02/10/1945, Garoto é o solista, tocando guitarra havaiana. O disco, da Continental, é lançado em novembro.

>> Lado A: “Sonhador”, choro de Garoto.
>> Lado B: “Celestial”, choro de Garoto.

Nas outras duas gravações feita em 02/10 (e lançadas também em novembro, pela Continental), Garoto e o Bossa Clube acompanham a cantora Emilinha Borba. Em “Outro palpite”, Garoto faz, ao violão tenor, citações ao samba “Palpite infeliz” (Noel Rosa). Em “Divagando”, ele usa a guitarra havaiana.

>> Lado A: “O outro palpite”, samba de Garoto e Grande Otelo.
>> Lado B: “Divagando”, choro de Nelson Miranda e Luiz Bittencourt.

1946

Terça-feira, 11 de junho – “Frio. Acordo cedo e vou ao Ministério da Guerra para tirar carteira de identidade, porém não houve expediente. Gravo na Continental duas músicas com Dick Farney. Vou à noite ao Belas-artes.” 

Nas gravações com Dick Farney (feitas na Continental, com lançamento em setembro), Garoto participa como integrante do Regional de Abel Ferreira. O “Belas-Artes” mencionado por ele era um ‘dancing’ na Avenida Rio Branco (Centro do Rio), bem próximo ao famoso Café Nice.

>> Lado A: "Era ela". Samba de Oscar Belandi e Luís Machado Filho. 
>> Lado B: "Ela foi embora ", samba de Djalma Ferreira e Oscar Belandi.

Quinta-feira, 13 de junho – “Tempo bom. Almoço. Vou à Odeon para gravar duas músicas com Moreira da Silva. Volto para casa às 20 horas. Toco violão até as 23h30 e depois vou dormir.” 

Nas gravações de 13/06/1946, o Regional de Abel Ferreira (com Garoto na formação) acompanha o cantor Moreira da Silva na Odeon – que lança o disco em agosto. 

>> Lado A: “Amigo da onça”, choro de Henrique Gonçalez.
>> Lado B: “Noiva da gafieira”. Samba de breque de Ludovico Guimarães e Valdemar Pujol.

Foto de destaque: IMS / Coleção José Ramos Tinhorão 

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