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Conhecido por ‘Amor’, Getúlio Marinho fez história como pioneiro da ‘macumba’ nos discos

Pedro Paulo Malta

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Entre tantas carmens, dolores, lamartines, antônios e joões que podem ser ouvidos ou ouvidas no site da Discografia Brasileira, nada mais natural que alguns nomes – inclusive do primeiro time da música popular – passem batidos por quem acessa nossa busca. É pouco provável, no entanto, que a visitante ou o visitante não sinta alguma curiosidade ao se deparar, por exemplo, com alguém que atenda por... Amor. Isso mesmo: Amor, apelido singelo de um dos grandes personagens da história do samba e do carnaval, Getúlio Marinho da Silva, cantor, compositor e percussionista que, pelos serviços prestados à cultura brasileira, já passou da hora de sair da sombra – ainda mais no Dia da Consciência Negra.

Getúlio Marinho da Silva foi um dos responsáveis – ao lado de Elói Antero Dias (o Mano Elói) – pelas primeiras gravações de cânticos rituais afro-brasileiros em disco. Isso em 1930, quando suas vozes se fizeram ouvir em dois discos lançados pela Odeon: um em setembro (com “Ponto de Ogum” e “Ponto de Inhansan”) e o outro em outubro (com “Canto de Ogum” e “Canto de Exu”). Identificadas no selo dos discos como “macumbas” e acompanhadas pelo Conjunto dos Africanos (de Amor e Elói), as gravações alcançaram “grande sucesso de vendagem, graças à difusão fartamente feita pelas vitrolas das casas do comércio de discos”, como contou o cronista Jota Efegê num texto dedicado a ele (O Jornal, 07-04-1963).

Nascido em Salvador, negro e pobre, precisamente no dia da Proclamação da República (15 de novembro de 1889), Getúlio tinha seis anos quando se mudou para o Rio de Janeiro – sua família entre tantas outras nordestinas que migravam para a então capital do país no ano seguinte à Abolição da Escravatura. “Convivendo com os africanos praticantes das religiões e ritos do continente negro e com os baianos a eles ligados”, relata Jota Efegê, “os pontos de macumba que levou para o disco tiveram, ambos, perfeita autenticidade melódica e interpretativa.” O cronista segue no verbete: “Filho de Antonio Marinho da Silva (conhecido como Marinho-Que-Toca) e de Paulina Thereza de Jesus, Getúlio ganhou o apelido de Amor desde menino, na Bahia, onde nasceu, na Rua de Baixo.”

Para entender a origem do apelido pitoresco fomos a uma especialista em sua trajetória, a historiadora Fernanda Epaminondas Soares, que dedicou seu mestrado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) a estudar o sambista. “As pessoas vinham pra mim perguntando se ele era mulherengo, mas eu já sabia que era um apelido da infância. Até que, de fonte em fonte, encontrei uma entrevista em que ele, já velhinho, contava que esse apelido foi dado por uma prima de Salvador”, relata Fernanda, que começou a se interessar por Getúlio Marinho ainda na graduação em História, também na UFF, durante um seminário que preparava. Ao procurar gravações de pontos afro-brasileiros, viu que o nome dele era recorrente: “Como é que uma pessoa naquele contexto histórico do Rio de Janeiro dos anos 1920 e 30, quando a repressão era tamanha, estava gravando essas ‘macumbas’ em disco?”

A seguir vieram anos de estudos e uma dissertação, defendida em 2016 no Programa de Pós-Graduação em História da UFF, intitulada “Fui o criador de macumbas em discos: Macumba, Samba e Carnaval pela trajetória de Getúlio Marinho da Silva”. Vencedora do Concurso Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular (CNFCP/IPHAN), a obra será lançada em breve como um livro, pela editora CRV.

Lá estarão também as histórias de Amor no carnaval, iniciadas ainda na infância, em ranchos carnavalescos cariocas como o Dois de Ouros, onde o menino saía como “porta-machado”, como se ensaiasse para a fama que teria mais adiante, conforme define o compositor e pesquisador Nei Lopes no livro de referência “Sambeabá”: “O primeiro mestre-sala famoso foi Getúlio Marinho, o Amor, ainda no tempo dos ranchos, seguido de Marinho da Costa Jumbeba, neto de Tia Ciata, falecido em 1978, e de Bicho Novo, nos primórdios das escolas de samba.” Segundo Jota Efegê, foi “mestre-sala disputado, tendo participado de ranchos importantes: Rei de Ouros, As Jardineiras, Flor do Abacate e Reinado de Silva”, enumera o cronista. “Graças ao seu virtuosismo foi convidado para tomar parte na revista ‘Dança de Velho’, encenada em 1916 no Teatro São José, na qual se exibiu com fartos aplausos.”

Ainda sobre seu bailado, o pesquisador Humberto Franceschi conta – no livro “Samba de sambar do Estácio” – que foi empunhando o estandarte do rancho Quem Fala de Nós Tem Paixão que Getúlio Marinho “influenciou todos os mestres-salas que vieram depois, tanto nos ranchos como nas escolas”. Além de dançar, Amor também comandava sua agremiação, como se lê num depoimento do sambista Alcebíades Barcelos (o Bide) ao jornalista Francisco Duarte transcrito no mesmo livro: “Havia um rancho, o Quem Fala de Nós Tem Paixão, liderado por Getúlio Marinho – o Amor –, que não era incomodado pela polícia. Tinha sede e tirava licença para sair na rua, deixando a gente com uma inveja danada.”

Além da boa relação com as autoridades, o trânsito com a imprensa era outra prática de Amor, como relata Fernanda Epaminondas Soares no artigo “Getúlio Marinho da Silva comemora com a República”, publicado no site Humanas – Pesquisadoras em Rede (leia a íntegra aqui): “Getúlio Marinho, ao mesmo tempo em que era famoso por ser um múltiplo artista e estreitar laços com os jornais, sendo bastante comum encontrá-lo circulando pelas redações cariocas, em sua vida privada, diferente do glamour dos holofotes, era também um homem comum que trabalhou como funcionário público no cargo de servente da Inspetoria dos Serviços de Profilaxia do Departamento Nacional de Saúde Pública durante muitos anos.”

Ainda no carnaval, participou da fundação da União das Escolas de Samba, em 1934, tendo atuado como primeiro secretário na diretoria que abriu os trabalhos na entidade. E em 1940 teve a honra de ser eleito Cidadão Samba – título que era conquistado através da votação dos próprios integrantes das escolas de samba e que Amor ostentou com vitórias consecutivas até 1946. 

Quanto a sua produção de sambas no bairro do Estácio, Humberto Franceschi o coloca ao lado de Ismael Silva, Bide e Heitor dos Prazeres como “os únicos compositores a deixar obra significativa pelo número, unidade e qualidade de suas composições”. Apesar de assinar a autoria de sambas como “Era meia-noite”, “Molha o pano” (com Cândido Vasconcelos) e “Apanhando papel” (com Ubiratan da Silva), seus maiores sucessos foram curiosamente em ritmo de marchinha: a satírica “Gegê” (parceria com Eduardo Souto dedicada ao xará Getúlio Vargas, presidente da República) e a junina “Pula a fogueira” (com João Bastos Filho), do famoso refrão: “Pula a fogueira iaiá / Pula a fogueira ioiô / Cuidado para não se queimar / Olha que a fogueira já queimou o meu amor...”

Mas o principal destaque em sua obra – tanto pela quantidade quanto pela expressividade – são mesmo os cânticos religiosos afro-brasileiros, muitos deles identificados simplesmente como “macumba” nos selos dos discos. São os casos de “Ererê”, “Rei de umbanda” (gravadas por Moreira da Silva em 1932), “Caboclo do mato”, “No fundo do mar” (parcerias com João da Baiana lançadas em 1937 por J.B. de Carvalho) e “Sereia”, que saiu em 1938, na voz de João da Baiana. Há ainda as que ele - babalorixá respeitado - classificou como “ponto de macumba”, como “Quilombô” e “Pisa no toco”, gravadas em 1932 por um certo João Quilombô – que seria um pseudônimo do próprio Getúlio Marinho, segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão.

No site da Discografia Brasileira, Amor também pode ser ouvido como integrante do já citado Conjunto Africano, que é creditado pelo acompanhamento em oito gravações – entre elas as quatro “macumbas” na abertura deste post. O Conjunto também figura como intérprete dos sambas “Não quero teu amor” (de Getúlio) e “Não vai no candomblé” (de Elói), lançados pela Odeon em dezembro de 1930. Recém inseridas no site, essas duas gravações chegaram a nós pelas mãos do pesquisador, cantor e percussionista Barão do Pandeiro, sempre disposto a colaborar com o nosso acervo e o acesso aos antigos fonogramas.

“O Conjunto Africano, na realidade, foi uma criação do Getúlio Marinho para as gravações dessas ‘macumbas’”, relata Barão. “Além dele e do Mano Elói, participavam outras figuras interessantes. Como o atabaqueiro Mistura, que era uma figura lendária. E também Maria e Rosa, filhas-de-santo do terreiro que era comandado por Luís Cândido Jonas em Vaz Lobo, bairro da zona norte do Rio.”

No último aniversário de Amor, em 15 de novembro de 1963, o Jornal do Commercio publicou matéria saudando a data. “A República e Getúlio Marinho fazem 74 anos”, dizia o título do texto assinado pelo pesquisador Ary Vasconcellos, que no entanto não menciona um dos costumes do veterano sambista, que em suas entrevistas costumava dizer-se “um republicano”. Para Fernanda Epaminondas Soares, a fala de Getúlio não era uma mera alusão à coincidência de datas. 

“Ser republicano para ele era ser a favor do novo sistema, o mesmo em que o negro não era mais escravizado e não era obrigado às sujeições de um senhor”, argumenta a historiadora em seu artigo publicado no site Humanas – Pesquisadoras em Rede. “Ser republicano correspondia a defender a liberdade e ser contra à escravidão. Mesmo já beirando os anos de 1960, era importante, pela sua trajetória familiar e de vida, afirmar-se politicamente em prol da República.”

Amor morreu em 1964 (outro ano emblemático na História do Brasil), sem no entanto testemunhar o início do regime militar. Seu falecimento, em 31 de janeiro daquele ano, aos 74 anos, quase passou batido na imprensa, resumindo-se a anúncios discretos da família convidando para a missa de sétimo dia e um obituário tardio em O Jornal (05-04-64) assinado por – sempre ele! – Jota Efegê: “Foi, de fato, um dos autênticos valores da ‘bossa velha’”, pois, segundo o cronista, “a ‘nova’ não conseguiu torná-la superada”.

Foto: Acervo IMS / Coleção José Ramos Tinhorão

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