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Cartola inesquecível: amigos relembram histórias do mestre nos 40 anos de sua morte

Pedro Paulo Malta

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Nesta segunda-feira, dia 30 de novembro, completam-se 40 anos da morte de um dos grandes nomes da história da música brasileira: o compositor e cantor Cartola, falecido numa clínica no Humaitá, na zona sul do mesmo Rio de Janeiro em que nascera 72 anos antes, no bairro do Catete. Entre os dois extremos, fez história como fundador da Estação Primeira de Mangueira e compositor de sucessos como “O mundo é um moinho”, “As rosas não falam”, “Acontece”, “O sol nascerá” (com Elton Medeiros) e “Não quero mais amar a ninguém”, este último em parceria com o poeta Carlos Cachaça, seu grande amigo e concunhado – a esposa de Carlos, Menininha, era irmã de Dona Zica, companheira de Cartola desde 1952, quando o trouxe de volta para o Morro da Mangueira, de onde estava afastado desde a década anterior, sendo dado como morto por alguns. 

Incentivado a retomar a carreira artística pelo jornalista Sérgio Porto, que o encontrou guardando carros numa garagem em Ipanema, voltou à ativa emprestando seu nome à casa de samba mais famosa dos anos 60 – o Zicartola, no Centro do Rio – e gravando quatro discos, todos na década de 1970. Vitimado por um câncer no estômago, foi velado na quadra da Verde-e-Rosa, tendo sobre o caixão as bandeiras da Estação Primeira e de seu time de coração, o Fluminense. O sepultamento de seu corpo, no Cemitério do Caju, foi acompanhado por fãs e amigos como Nelson Sargento, que disse à época: “Foi meu professor de vida.”

Nos 40 anos de seu falecimento, convidamos alguns de seus amigos – Nelson entre eles – para compartilhar suas memórias no site da Discografia Brasileira e nos ajudar a montar uma playlist afetiva de composições de Cartola lançadas em discos de 78 rotações.

Nelson Sargento / Foto: Pedro Paulo Malta

Nelson Sargento, 96 anos, parceiro de Cartola no Samba do operário e em outras composições

Em primeiro lugar vem o compositor: o grande compositor que Cartola foi, com sambas que estão aí até hoje. Além disso, fundou a Mangueira, deu cores à Mangueira, compôs a parte mais bonita do repertório da Mangueira e ainda fez muita coisa pelo samba. Está bom ou quer mais? Eu o conheci bem de perto, em casa mesmo, pois ele era muito amigo do meu pai adotivo, o Alfredo Português.

Numa dessas visitas, num dia 1º de maio, Alfredo propôs de fazer um samba: meu pai adotivo escreveu os versos e Cartola fez a música. Era o “Samba do operário”, que ficou só na primeira parte. Algum tempo depois, o Alfredo resolveu continuar a letra e me pediu para levar pro Cartola musicar. Só que, em vez de levar, eu mesmo completei o samba, entrando naquela parceria por minha própria vontade.

Mas aprendi muito com ele – aliás, só eu não. Todos os que estiveram por perto e souberam prestar atenção, por exemplo, na maneira de compor do Cartola. Só sambas bonitos, bem feitos e bem acabados. Por isso eu digo, como está na biografia dele, que Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve.

>> Dos sambas de Cartola lançados em 78 rotações, a escolha de Nelson Sargento é “Grande Deus”, gravado pela primeira vez na voz de outro grande mangueirense, o cantor Jamelão.

Marília Trindade Barboza, 73 anos, autora do livro “Cartola: os tempos idos”, com Arthur L. de Oliveira Filho

Não sou biógrafa do Cartola, mas amiga dele. Uma relação que se estreitou em meio às pesquisas que fiz sobre os compositores de sua época, para as biografias que escrevi em parceria com Arthur Loureiro de Oliveira Filho, meu mestre e grande amigo. Quando concluímos a do Silas de Oliveira, pedi ao Cartola para escrever a apresentação do livro e ele escreveu. Ao me entregar o texto, me disse: “Queria que fizessem uma coisa honesta assim sobre mim.” Perguntei se aquilo era um convite e ele disse: “Pode ser.”

Estávamos em julho de 1980 e o Cartola, sabendo que estava doente, apressou os trabalhos comigo e com o Arthur. Assim, nossa convivência, que já era forte desde 1976, passou então a ser diária. Eu e Arthur não saíamos da casa dele e de Zica em Jacarepaguá: acompanhávamos o dia-a-dia, fazíamos refeições juntos e passamos a acompanhá-lo nas consultas médicas... Quando ele foi internado, comprei um pijama pra ele: um pijama vinho, chique, como aqueles dos filmes.

Só no dia 26/11, na Casa de Saúde São Carlos, onde ele estava internado, no Humaitá, me dei conta de que o Cartola já estava se desconectando. Quando Hermínio chegou para visitá-lo, ele começou a agir como se estivesse em casa: “Já comeu, meu filho? Vai lá na cozinha que a Zica põe um prato pra você.” Em outros momentos, limitava-se a dizer: “Estou indo, estou indo...” Em certo momento, segurei a mão dele e pedi que não fosse no dia 29: “É meu aniversário, Cartola. Nunca mais vou poder comemorar...” Ele só me respondeu que ficasse tranquila.

No dia 29 acabei não conseguindo ir à clínica, mas fui no dia seguinte e fiquei até tarde da noite. Estava já chegando em casa, com a chave na porta, quando o telefone tocou: era Regina, filha da Zica, com a notícia da morte. Ou seja, até mesmo em circunstâncias tão extremas, ele cumpriu a palavra comigo.

>> “Festa da Penha” (Cartola e Asobert) é a pedida de Marília entre as composições de seu biografado lançadas na época dos discos de 78 rotações: “Além de ser um samba nos moldes dos que eram feitos na época, para aquela festa, é um retrato do Cartola naquele tempo, de sua preocupação em estar bem vestido naquele domingo.”

Cartola na praia de Guaxuma, em Maceió, durante o Projeto Pixinguinha / Foto: Cláudio Jorge

Cláudio Jorge, 70 anos, violonista e parceiro de Cartola nos sambas Dê-me graças, senhora e Fundo de quintal

São muitas as lembranças que guardo do Cartola, especialmente de quando o acompanhei no Projeto Pixinguinha, em 1977 e 78. Memórias dos aeroportos, das idas à praia, do perfume que ele me deu no meu aniversário, de uma carta de amor que ele recebeu de uma jovem fã, envaidecendo não só o próprio Cartola como também Dona Zica. Lembro também das entrevistas que ele dava por onde passávamos – contando histórias com aquela leveza na voz, mas sempre sério. Ele era sério, não sisudo.

Um seriedade de gente vivida, né? Se você imaginar o que era a Mangueira na juventude do Cartola e do Carlos Cachaça, você pode ter uma ideia da força deles. Uma sobrevivência diária, um teste permanente no qual só sobrevivem os fortes. Tem os que não vivem pra contar a história, os que acabam indo pelo caminho errado... Sem contar a perseguição da polícia, tão presente na história do samba e dos sambistas. Esses coroas tinham que se virar e não era pouco.

>> A escolha de Cláudio Jorge entre os sambas de Cartola lançados em 78 rotações é “Não posso viver sem ela”, da parceria dele com Alcebíades Barcelos, o Bide. “Sensacional uma parceria dele com esse outro grande baluarte, o inventor do surdo”, justifica. “Sem contar que é um fruto dessa ligação fantástica entre Mangueira e o Estácio.”  É dele, Cláudio Jorge, a foto acima de seu depoimento: Cartola na praia de Guaxuma, em Maceió, durante o Projeto Pixinguinha.

Afonso Machado, 66 anos, bandolinista e compositor

Cartola fez o terceiro LP dele em 1977, pela RCA Victor: mesma gravadora em que nós, do conjunto Galo Preto, fizemos o nosso disco de estreia, no ano seguinte. Assim, nos reunimos numa temporada no Teatro da Galeria, na Rua Senador Vergueiro, onde os dois discos foram lançados num mesmo show, nós acompanhando Cartola. Imagina a nossa alegria, todos músicos na faixa dos 20 anos, tocando com um artista desse tamanho! E ele também gostou da gente, ficou louco de fazer um show com tudo escrito em partitura. Sem contar que adorava ensaiar, fazia tudo direitinho.

E a temporada foi um sucesso. Me lembro de um show em que foram vendidos mais ingressos do que o teatro comportava e, assim, tiveram que colocar uma parte do público no palco, sentado no chão, em volta da gente - perto de mim estava o Egberto Gismonti, ali, sorrindo, ouvindo aqueles sambas. E assim fiquei amigo do Cartola, com quem viajei fazendo o Projeto Pixinguinha, onde pudemos conviver e conversar mais, embora ele não fosse de falar muito. Aliás, ele me dizia: “Gosto de você porque você é assim, como eu. Só falamos o necessário.”

>> Seu samba preferido de Cartola é “Fiz por você o que pude, mas a escolha em 78 rotações é “Quem me vê sorrindo”, parceria com Carlos Cachaça lançada originalmente com o nome de “Quem me vê sorrir”.

Hermínio Bello de Carvalho, 85 anos, poeta, produtor e parceiro de Cartola em Alvorada, Camarim e outros sambas

Uma vez o Pixinguinha quase me matou de emoção ao me propor de virar parceiro dele para participar do Festival Internacional da Canção, em 1967. Com o Cartola foi um pouco assim também: um dia ele me aparece no meu apartamento na Rua Benjamin Constant, na Glória, com o Carlos Cachaça. Traziam a primeira parte de um samba, querendo que eu completasse, me tornando parceiro deles naquela composição.

Imagina só o meu estado, ali, diante daqueles dois e com aquela incumbência. A segunda parte começou a ser composta naquele instante, eu fazendo versos pra melodia que o Cartola ia criando, na hora. O resultado foi “Alvorada”, samba nascido daquele gesto bonito deles dois comigo. É uma lembrança que ainda hoje me comove, embora eu não goste tanto assim desses versos que fiz...

>> Entre os sambas de Cartola em 78 rotações Hermínio escolhe “Fita meus olhos”, que classifica como “lindíssimo”, embora sua composição preferida do mestre mangueirense seja "As rosas não falam, com destaque para os versos “Simplesmente as rosas exalam / O perfume que roubam de ti”.

J. C. Botezelli, o Pelão, 78 anos, produtor do primeiro disco de Cartola, em 1974

Eu e Cartola éramos amigos desde o início dos anos 60 e eu não me conformava que ele não tinha um disco. Um artista daqueles! Comecei a correr atrás de resolver isso e passei a percorrer as gravadoras, onde só ouvi respostas negativas, além de algumas barbaridades - teve um que me disse: “Isso aqui não é asilo.” Até que cheguei ao Marcus Pereira, que topou o projeto. E fiquei muito feliz com o resultado, porque depois daquele disco (lançado em 1974), a vida do Cartola deu uma melhorada com os outros três discos que ele fez e mais os shows que ele passou a fazer, agora como artista reconhecido.

Quando ele morreu, eu estava com o Adelzon Alves na Bahia, onde íamos fazer uma palestra no Dia Nacional do Samba, 2 de dezembro. Minha mulher me ligou dizendo que tinha uma notícia ruim: “Teu amigo partiu.” Tentei remarcar a passagem de volta pro dia seguinte, mas não ia adiantar, pois a chegada seria na hora do enterro. Assim, ficamos lá naquela tristeza, eu e Adelzon, ele com aquela espiritualidade dele, me dizendo assim: “Chora não, Pelão... Isso é bobagem. O Cartola tá aí.”

>> Ao ser convocado a escolher um samba de Cartola lançado em 78 rotações, Pelão respondeu cantarolando os versos iniciais de “Divina dama”: “Tudo acabado e o baile encerrado, atordoado fiquei / Eu dancei com você, divina dama...”

Foto do post: Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

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