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Aconteceu no Natal: numa suíte infantil, a noite em que Papai Noel deu plenos poderes a um preto-velho

Pedro Paulo Malta

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Conta-se que a história de Papai Noel começa no século 3, com a figura de São Nicolau de Mira, um bispo turco conhecido por ajudar os pobres. Antes disso, já circulava pela Europa a lenda do Velho Inverno: o ancião que batia de porta em porta pedindo comida durante a estação fria - aqueles que o ajudassem tinham a garantia de um bom inverno. Transformado em personagem natalino, passou séculos representado como um andarilho das florestas (por vezes quase um duende), até que chegou a sua representação mais conhecida: o bom (e roliço) velhinho criado pelo ilustrador Haddon Sundblom para estrelar anúncios da Coca-cola na década de 1930.

Outra história pitoresca de Noel foi a de quando aterrissou seu trenó em terras brasileiras e veio parar na casinha de um certo Pai João. Enredo bolado pelo maestro Hekel Tavares e pelo dramaturgo Joracy Camargo, parceiros na composição da suíte infantil “Aconteceu no Natal”, lançada pela RCA Victor em dois discos de 78 rotações reunidos em um álbum de mesmo nome. Não há nos discos ou na capa qualquer referência ao ano de seu lançamento, mas as ocorrências na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional não deixam dúvidas: foi em 1952 que se ouviu pela primeira vez a historinha musicada do bom velhinho passando plenos poderes natalinos a seu novo amigo brasileiro.

Com música interpretada pela Orquestra Sinfônica Brasileira, regida por Eleazar de Carvalho, a conversa entre Noel e João se dá na maneira como buscam contornar suas enormes diferenças. O primeiro, recém-chegado da “Europa muito fria”, é o professor sorridente que traz ensinamentos: “Fique olhando com atenção lá de cima da montanha / Pra criança que faz manha não se dá brinquedo não!” O outro, preto-velho originário “das Costas da Guiné”, se admira em seu linguajar matuto (“vancê”) e traz a ingenuidade típica deste tipo de representação  retrato de nosso velho racismo estrutural. Entre seus saberes estão a cantiga que entoa para ninar a sinhazinha e as danças com que responde à “polquinha do Natal” do mestre hegemônico: o coco, o batuque e o cateretê.

Ao contrário do Vovô Índio (personagem inventado na década de 1930 para tentar – em vão – destronar Noel), Pai João termina a história vestido a caráter, de gorro e tudo, acenando em despedida ao bom velhinho, que decola em seu trenó trajando roupa de baixo. É o que se vê entre as gravuras do encarte – outro destaque do álbum – assinadas por Monteiro Filho (clique aqui para ver as imagens). O encarte traz ainda créditos para a regência do coro (Martinez Grau), sonoplastia (Waldyr Finotti) e o solo de oboé (pelo francês Camille Deschamps), além, claro, das vozes dos dois personagens: os grandes dubladores Allan Lima (interpretando Pai João) e Magalhães Graça (Papai Noel).

O resultado é o álbum que, se na época circulou menos do que deveria (conta-se que sua circulação teria ficado restrita a São Paulo), pode agora ser ouvido na íntegra aqui no site da Discografia Brasileira. Registro valioso não só de seu tempo, como também de mais uma tentativa de se abrasileirar o Natal, como fica explícito no texto de apresentação: “Pretendemos que todas (as crianças) nos ajudem a criar mais uma tradição brasileira, respeitando as tradições dos outros povos.” 

Como se vê, a tarefa ficará para o sucessor de Vovô Índio e Pai João.

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