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Radamés Gnattali: de 'Aquarela do Brasil' a 'Chapeuzinho Vermelho', uma seleção de arranjos emblemáticos do maestro

Pedro Paulo Malta

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Quem sintonizasse a Rádio Nacional nas décadas de 1940 e 50 podia pensar que Radamés Gnattali não era uma pessoa só, tantas eram as vezes que seu nome era dito na programação: como diretor de programas, arranjador, pianista, regente de orquestra e compositor de músicas que volta e meia eram interpretadas pelas grandes vozes da emissora ou por conjuntos instrumentais liderados... pelo próprio Radamés. Não à toa, é considerado um dos personagens centrais da chamada “era do rádio”, não só pelo trabalho na popularíssima Nacional, como também pelos arranjos que escreveu para discos. Entre as gravadoras em que trabalhou destacam-se a Continental (então dirigida pelo compositor João de Barro) e, antes dela, a RCA Victor, onde começou a fazer arranjos orquestrais para música popular por ordem do diretor artístico da empresa, o estadunidense Mr. Evans, que queria que a sonoridade dos discos brasileiros fizesse frente à dos estrangeiros que chegavam por aqui.

E assim Radamés participou diretamente de diversos sucessos da época – como os que selecionamos nesta postagem, por ocasião dos 115 anos de seu nascimento, completados ontem, dia 27 de janeiro. O mais notável de todos é o samba “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), cantado por Francisco Alves nos dois lados do 78 rotações que a Odeon lançou em outubro de 1939. No selo preto e dourado do disco pode-se ler que a primeira gravação do famoso samba-exaltação foi feita “com Radamés e sua orchestra”: pista fundamental num tempo em que não se costumava dar crédito a arranjadores. Outra maneira de se chegar a esse tipo de informação é por meio de matérias e entrevistas que fazem menção aos arranjos – no caso da gravação original de “Aquarela do Brasil”, são muitos os textos que destacam o “tan tan tan” que teria sido criado por Radamés Gnattali. O próprio maestro diz que a ideia foi de Ary Barroso, cabendo a ele, Radamés, destinar a frase para o naipe de sopros (e não para o baixo, como havia pensado o compositor).

Outros lançamentos de Francisco Alves nessa mesma época – todos pela gravadora Columbia – contaram com arranjos de Radamés Gnattali, a começar por outro samba-exaltação feito na esteira da obra-prima de Ary: o ufanista “Onde o céu azul é mais azul” (João de Barro, Alberto Ribeiro e Alcyr Pires Vermelho), que saiu em disco em dezembro de 1940. Já para o carnaval daquele ano “Radamés e sua orchestra” aparecem nos selos dos discos de outros dois sucessos do Rei da Voz: a marcha-rancho “Dama das Camélias” (João de Barro e Alberto Ribeiro), lançada em setembro de 1939, e o samba “Despedida de Mangueira” (Aldo Cabral e Benedito Lacerda), que saiu em disco em janeiro de 1940.

Antes de Francisco Alves, outro grande cantor da “era do rádio” fez sucesso com arranjos de Radamés Gnattali: Orlando Silva, que em 15 de março de 1937 foi ao estúdio da RCA Victor gravar as duas faces do disco 34.157. Diante do microfone soltou a voz em duas composições de J. Cascata e Leonel Azevedo: as valsas “Juramento falso” (que seria lançada no lado A) e “Lábios que beijei” (no B). Neste disco – considerado o marco inicial do sucesso de Orlando – o acompanhamento é creditado à Orquestra Victor Brasileira, tendo como principal novidade proposta por Radamés o acompanhamento feito com orquestra de cordas. “Até aquele tempo, música brasileira só se tocava com regional. Eu então comecei a fazer os arranjos para o Orlando Silva usando violinos nas músicas românticas e metais nos sambas”, disse o arranjador ao Jornal da Tarde em 19-03-1979. “Aí começaram a reclamar, até por cartas, dizendo que música brasileira só podia ter violão e cavaquinho.”

Entre os sambas gravados por Orlando Silva nesta leva um dos destaques é “Errei, erramos” (Ataulfo Alves), lançado em agosto de 1938 com crédito de acompanhamento no selo do disco para a “Orquestra Carioca Swingtette, Radamés (Direção)”. Outro foi “Meu consolo é você” (Nássara e Roberto Martins), que saiu também em agosto de 1938 – com acompanhamento creditado para a Orquestra Victor Brasileira – e venceu o concurso de músicas carnavalescas daquele ano promovido pela Prefeitura do Distrito Federal. No caso deste último samba, a popularidade foi tanta que criou-se até letra para uma frase musical do arranjo: após os versos iniciais (“Meu consolo é você, meu amor / Eu explico por quê”), o povo cantava o enxerto: “Que tem iaiá nas cadeiras dela?” No depoimento que deu ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (28-07-1985), Radamés comentou o caso com satisfação.

Já na Continental, outro destaque de sua carreira de arranjador veio em outubro de 1946, quando a história infantil “Chapeuzinho Vermelho” ganhou sua versão fonográfica adaptada por João de Barro e interpretada pelo Elenco Continental. Nesse caso, a partitura de Radamés se destinou não só às cantigas da história como também ao fundo musical e à sonoplastia da narração. O sucesso deste lançamento inspirou João de Barro e a gravadora a seguirem adiante na produção de novos discos com historinhas infantis, dando origem à série que dali a alguns anos receberia o nome de “Coleção Disquinho”.

Outro trabalho notório de Radamés Gnattali na Continental foram os arranjos que fez para uma série de discos de Aracy de Almeida com sambas de Noel Rosa, entre 1950 e 1951. Nesta leva de gravações – fundamental para a retomada da obra do Poeta da Vila (esquecida desde a morte dele, em 1937) – há tesouros como a primeira gravação de um clássico póstumo de Noel: o samba “Três apitos”, que saiu em maio de 1951 com Aracy acompanhada por “Radamés e sua Orquestra de Cordas”. Outro clássico romântico gravado pela Dama do Encantado com arranjo escrito pelo maestro foi o samba-canção “Se eu morresse amanhã” (Antonio Maria), que saiu em disco pela Continental em maio de 1953. Nesse selo, o crédito do acompanhamento é dado a “Vero e seu Conjunto”: pseudônimo que Radamés usava desde os anos 1930 (inspirado no nome de sua primeira esposa, Vera), inicialmente para gravar discos de música popular quando ainda buscava seu espaço no universo da música de concerto.

Também como “Vero” Radamés contribuiu com sucessos carnavalescos da década de 1950 lançados pela Continental: como o samba social “Lata d’água” (J. Junior e Luiz Antonio), gravado por Marlene em 1952, e a marchinha saliente “Vai com jeito” (João de Barro), que a rival Emilinha Borba lançou em 1957. Já a dor-de-cotovelo contou com a caneta de Radamés em criações de Ary Barroso como “Risque”, que saiu em 1952 na voz de Aurora Miranda, e “Ocultei”, que Elizeth Cardoso cantou em 1954 – ambas lançadas pela Continental com acompanhamento de “Vero e Seu Conjunto”.

Nossa seleção de arranjos importantes de Radamés Gnattali termina com um clássico do samba: “A voz do morro”, composição de Zé Kéti lançada em disco em novembro de 1955, no vozeirão de Jorge Goulart com acompanhamento orquestral – no caso, de “Vero e Sua Orquestra”. Também de Radamés é o arranjo da obra-prima de Zé Kéti em outro grande momento: a abertura de “Rio 40 graus”, filme de Nelson Pereira dos Santos que é considerado um dos precursores do Cinema Novo (confira aqui).

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