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Há 80 anos, estreava em disco o sanfoneiro Luiz Gonzaga

Pedro Paulo Malta

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No calendário musical brasileiro, é no dia 13 de dezembro que se comemora o dia nacional do forró. Nada mais justo, afinal foi nesta data – em 1912 – que veio ao mundo o artista mais popular da música nordestina (quiçá do país), Luiz Gonzaga. Era o segundo dos nove filhos de Dona Santana (apelido de Ana Batista de Jesus) e de Januário dos Santos, sanfoneiro afamado de Exu, cidadezinha pernambucana, quase na divisa com o Ceará. Foi lá, no sertão do Cariri, que o moço viveu até 1930, quando, sem poder namorar sua amada, enfrentou o pai da moça e se deu mal. Surrado pela própria mãe, decide pôr o pé na estrada: tinha só 17 anos quando se alistou no Exército, tornando-se soldado do 22º Batalhão de Caçadores, de Fortaleza.

Já a carreira artística de Luiz poderia ter como marco inicial o dia 14 de março de 1941, quando ele fez suas primeiras gravações como solista. Nesse dia, o artista compareceu ao estúdio da Victor – no terceiro andar do edifício localizado na Rua do Mercado, nº 22, no Centro do Rio de Janeiro – para gravar quatro músicas instrumentais, sendo três de sua própria autoria: a mazurca “Véspera de São João” (em parceria com Francisco Reis), o chamego “Vira e mexe” e a valsa “Numa serenata”. A outra música, também uma valsa, foi “Saudades de São João Del Rei”, composição de Simão Jandi, este conhecido também como Turquinho. 

Exceto pelo chamego (espécie de choro ligeiro com sotaque nordestino), os outros gêneros musicais gravados por Gonzaga passavam longe do Cariri. “Não sei de onde vieram as referências para ele compor uma mazurca como ‘Véspera de São João’, com aquelas quatro partes, ou mesmo as valsas, que aparentemente não têm qualquer ligação melódica ou harmônica com o que se sabe da música nordestina desse tempo”, diz o acordeonista e arranjador Marcelo Caldi, organizador do livro de partituras “Luiz Gonzaga: tem sanfona no choro” (IMS/2012). “Talvez tenham chegado pelo rádio, talvez no contato com sanfoneiros anteriores a ele, como Antenógenes Silva.”

O fato é que 1941 é o ano em que se consolida a transição de Luiz Gonzaga, que havia deixado a farda de soldado no início de 1939 e veio parar no Rio de Janeiro. Apresentou-se inicialmente na zona do meretrício, onde certa noite um grupo de estudantes cearenses fez com que repensasse seu repertório, até ali predominantemente estrangeiro. “Você é cabeça chata que nem a gente!”, teriam dito os rapazes, segundo Gonzaga. “Pois então deixe de lado essas músicas estrangeiras e toque uns forrós, que é a nossa música!” Em 1940 veio o rádio: Luiz faturou o primeiro prêmio no programa “Calouros em desfile”, de Ary Barroso, e foi contratado pela Rádio Transmissora.

Até que voltamos a março de 1941, com a primeira vez de Luiz Gonzaga numa gravadora, a própria Victor, antes mesmo da estreia fonográfica como solista. No dia 5 daquele mês, compareceu ao estúdio da Rua do Mercado com sua sanfona para acompanhar os cantores Genésio Arruda e Januário França na gravação da cena cômica “A viagem do Genésio”, de autoria da dupla. Segundo a biógrafa de Gonzaga, Dominique Dreyfus (“Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga”, Editora 34/1996), sua performance caiu nas graças do chefe de vendas da Victor, Ernesto Augusto Matos, o que lhe valeu o primeiro contrato com a gravadora que o acompanhará por toda a carreira.

O primeiro disco de Luiz Gonzaga chegou às lojas em maio de 1941: o 78 rotações de número 34.744, trazendo as gravações de “Véspera de São João” (no lado A) e “Numa serenata” (B). Já no mês seguinte veio o segundo disco – nº 34.748 – com as outras duas gravações da sessão de 14 de março: o lado A com “Saudades de São João Del Rei” e o B com “Vira e mexe”. Primeiras gravações de Gonzaga, que até abril de 1945 lançou apenas discos instrumentais: ao todo 48, com sua sanfona acompanhada de conjunto regional.

“Assim como depois o forró teria Dominguinhos como seu modernizador, aqui nesse momento – do começo dos anos 40 – Luiz Gonzaga se firma como o sanfoneiro de referência. Como o cara que botou a sanfona dentro do choro”, afirma Marcelo Caldi, que relembra as barreiras impostas pelas gravadoras e emissoras de rádio que o artista precisou transpor. “Foram alguns anos trabalhando como sanfoneiro, fosse gravando como solista ou acompanhando os artistas da época, batendo ponto de terno e gravata. Só depois ele conseguiu cantar, furando o bloqueio que havia para esse tipo de estética. Não queriam seu sotaque forte, possivelmente por conta de algum preconceito, mas ele estava ali, pronto, com sangue nos olhos de nordestino batalhador.”

Só em maio de 1945 sairá a primeira gravação cantada de Luiz Gonzaga, da mazurca “Dança Mariquinha” (parceria dele com Miguel Lima), arrombando a porta dos padrões vigentes e abrindo caminho para os sucessos que viriam a partir do ano seguinte, mudando a história não só do filho de Dona Santana e Seu Januário, como também da própria música popular brasileira.

Foto: Coleção José Ramos Tinhorão / IMS 

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