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A malandragem segundo Ismael Silva e Nilton Bastos: os 90 anos de um samba histórico

Pedro Paulo Malta

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“Quem trabalha é que tem razão”, diz, sem medo de errar, o samba com que os compositores Wilson Batista e Ataulfo Alves exaltavam os “trabalhadores do Brasil”, do então presidente da República Getúlio Vargas. Mais do que uma apologia à labuta, a composição, de 1940, era quase como um antídoto para um fenômeno que nas duas décadas anteriores se instalara no Rio de Janeiro: a malandragem, então praticada no Estácio, na Lapa e onde mais andassem (de viés) os “filhos dos escravos urbanos alforriados” que, a exemplo dos senhores brancos de seus antepassados, não queriam um “trabalho formal, com horários rígidos e obrigações definidas”, como definiu o folclorista Câmara Cascudo, segundo Nei Lopes e Luiz Antonio Simas, no “Dicionário da História Social do Samba” (Civilização Brasileira, 2015).

Sim, pois é: sua excelência, o malandro. O tal que não só escapou de ser domesticado pelo Estado Novo, como virou personagem da nossa cultura, perpetuado no figurino de zé-pelintra, na mitologia das ruas e esquinas cariocas e também no teatro, na literatura, no cinema e, claro, no samba – onde prevalecem não os marginais pintas-brabas que assombravam a sociedade nas páginas de jornal, mas o outro tipo: o malandro charmoso e elegante que, poxa vida, só não queria trabalhar.

Como o do samba lançado em disco há exatos 90 anos, em abril de 1931, co-assinado por Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves: “O que será de mim”, composição definida pelo crítico e jornalista José Lino Grünewald (Correio da Manhã, 28-07-1967) como “um dos clássicos da jactância do malandro”, com seus versos abusados:

Se eu precisar algum dia
De ir pro batente
Não sei o que será
Pois vivo na malandragem
E vida melhor não há...

Era o próprio malandro, em primeira pessoa, desafiando a ordem, como em tantos outros sambas da época, como destaca Grünewald no mesmo artigo no Correio da Manhã: “Enquanto a nossa música popular, em sua fase-vertente mais espontânea, jorrava direto do morro ou do bas-fond urbano (formado este, em especial, por aquelas camadas que Marx chamou de lumpen-proletariado) para as orquestras ou gravadoras, a figura do malandro era uma dominante”, escreve. “Em toda música popular autêntica, isto é, nas composições não cultas, feitas pelo povo, a figura do marginal sempre se impõe.”

Gravado em 28 de fevereiro de 1931, “O que será de mim” foi lançado nas vozes de Francisco Alves e Mário Reis no lado B do disco Odeon nº 10.780, que trazia no lado A o samba romântico “Arrependido”, também assinado por Ismael, Nilton e Francisco Alves. Nas duas gravações o acompanhamento é da Orquestra Copacabana com a direção de Eduardo Souto e músicos como “o trompetista Djalma Guimarães, o trombonista Ismerino Cardoso, o pianista Romualdo Peixoto (Nonô), o baterista Valfrido Silva, o violonista Artur Nascimento (Tute) e o cavaquinista e bandolinista Luperce Miranda”, como escreveu o cronista Lúcio Rangel na contracapa de um LP com regravações de Francisco Alves e Mário Reis (Odeon, 1957).

Um dueto, aliás, proposto pelo primeiro como uma reação às “novidades” do samba que pareciam ameaçá-lo, como o recém surgido conjunto Bando de Tangarás. “Um dia, sentindo que seu prestígio estava abalado, Chico chegou na Odeon e me propôs fazer um dueto com ele num samba do Brancura, ‘Deixa essa mulher chorar’”, contou Mário ao jornalista Lúcio Rangel em depoimento transcrito por Luís Antônio Giron na biografia “Mário Reis: o fino do samba” (Editora 34, 2001). “Respondi que sim, pois tudo faria para melhorar a nossa música popular. Francisco Alves tinha outra música, esta do Gradim, ‘Quá-quá-quá’, que ia gravar sozinho. Fizemos então um disco com as duas. O primeiro em dueto.”

Pois fez sucesso o encontro do vozeirão empostado de Francisco Alves com o canto coloquial (às vezes quase falado) de Mário Reis. Tanto que, enquanto saía este primeiro disco, em dezembro de 1930, eles já gravavam o segundo, a ser lançado no janeiro seguinte, com os sambas “Não há” e “Se você jurar”, este último um sucesso instantâneo. Era a primeira vez que um disco trazia composições da parceria de Ismael Silva com Nilton Bastos – sambas que também eram assinados por Francisco Alves, conforme combinação com Ismael, que desde 1928 tinha composições lançadas pelo cantor.

“Como de costume, Francisco Alves entrava nos créditos de carona, em troca de alguns mil-réis e da visibilidade garantida a tudo que gravava”, conta Lira Neto no livro “Uma história do samba: as origens” (Companhia das Letras, 2017). O trato – segundo o qual o cantor era voz exclusiva não só das criações de Ismael Silva, como também de outros sambistas do bairro carioca do Estácio – era vantajoso para ambas as partes, como o próprio compositor contou ao professor Arthur Oliveira Filho em trecho transcrito no mesmo livro: “Ele recebia e prestava contas. De maneira que, quando eu precisava de algum vale, ele não se opunha, porque era coisa garantida, no fim do mês ele descontava.”

E assim despontaram os sambas do Estácio, especialmente os de Nilton Bastos e Ismael Silva. Do primeiro, carioca de São Cristóvão, sabe-se que era bom de dança, de bola e briga (temido pelo soco de esquerda) e que trabalhava como torneiro mecânico do Arsenal de Guerra. Segundo o pesquisador Humberto Franceschi, no livro “Samba de sambar do Estácio” (IMS, 2010), também vivia “da exploração de prostitutas no Mangue”, assim como outros sambistas daquele bairro carioca. Foi o “letrista de alguns dos maiores sucessos de Ismael Silva”, mesmo ser ter concluído o primário – atual ensino fundamental. Falecido em 1931 (aos 32 anos), tuberculoso, teve o enterro pago por Francisco Alves.

Não chegou a ter o reconhecimento do parceiro, o niteroiense Ismael, que viveu a tempo (73 anos incompletos) de regravar suas músicas, lançar novas composições (como “Antonico”, de 1950) e de relembrar, em inúmeras entrevistas, seus feitos na história do samba – como a fundação da Deixa Falar, considerada “a primeira escola de samba”, em 1928. Entre as homenagens que recebeu destacam-se uma de Vinicius de Moraes, que o classificou “como um dos três maiores sambistas de todos os tempos” (Revista da Música Popular, fevereiro de 1955) e outra de Chico Buarque: “É meu verdadeiro pai musical”, disse, num depoimento gravado para um show do veterano em 1973.  

A vadiagem foi tema de outros sambas de sua obra, como “Amor de malandro” (com Freire Júnior e Francisco Alves), de versos que não sobreviveriam à Lei Maria da Penha: “Se ele te bate é porque gosta de ti / Pois bater em quem não se gosta eu nunca vi...” Mas o malandro preferido de Ismael era mesmo o vagabundo, como no primeiro samba que ele compôs, aos 14 anos, como informa a escritora Maria Thereza Mello Soares na biografia “São Ismael do Estácio: o sambista que foi rei” (Funarte, 1985). Deste samba, o inédito “Já desisti”, só restam os quatro primeiros versos:

Já desisti de mulher
Já desisti do trabalho
Agora só me falta
Desistir do baralho 

Ismael Silva ainda voltaria ao tema em 1933, com Noel Rosa, de quem se tornou o parceiro mais frequente após a morte de Nilton Bastos. É deles com Orlando Luiz Machado o samba “Escola de malandro”, mais uma ode à vida mansa.

Enquanto existir o samba
Não quero mais trabalhar
A comida vem do céu
Jesus Cristo manda dar 

Nenhum deles, no entanto, marcou como “O que será de mim”, eternizado nas vozes terçadas de Mário Reis e Francisco Alves, que até o fim de 1932 fariam um total de 25 gravações. O samba de Ismael Silva e Nilton Bastos ainda seria regravado algumas vezes nestes 90 anos, como por exemplo pelo próprio Ismael, no disco “O samba na voz do sambista” (Sinter, 1955). Mais adiante, foi relançado também pelo conjunto Os Satélites (Odeon, 1957), no LP “Rosa de ouro, volume 2” (Odeon, 1967), pelo conjunto Família Roitman (Dubas Música, 1995), por Paulinho da Viola (BMG Brasil, 1997) e pelo duo de Augusto Martins e Claudio Jorge (Mills Records, 2015). Até o autor deste texto, em dueto com Alfredo Del-Penho, teve a alegria de cantar este samba no musical “É com esse que eu vou” (Biscoito Fino, 2010).

Malandragem e Ismael encontram-se mais uma vez em Lúcio Rangel, numa crônica de novembro de 1971 publicada na coletânea “Samba, jazz & outras notas” (Agir, 2007):

“Tomávamos o nosso chope em um bar da velha galeria Cruzeiro: Prudente de Moraes, neto, Ismael Silva e eu, quando se aproxima um comissário de polícia, amigo ou conhecido do Prudente: ‘O senhor, doutor Prudente, e este seu amigo, tomando chope com um malandro?’

O malandro, evidentemente, era Ismael Silva, o grande sambista de ‘Nem é bom falar’, ‘Novo amor’, ‘O que será de mim’, ‘Antonico’, parceiro de Nilton Bastos e Noel Rosa. Que eu saiba, nunca Ismael ‘pegou no pesado’, como então se dizia. Era músico, é músico, e fez dezenas de obras-primas da lírica popular, até hoje vivas, cantadas, admiradas. E, fiquei pensando, alguém, algum dia, chamou Irving Berlin ou Cole Porter de malandro? No entanto, eles fizeram, toda a sua vida, o mesmo que Ismael: música, excelente música popular.

Felizmente, os tempos mudaram. Já ouvi muita gente boa chamar o Tom ou o Chico Buarque de Dr. Jobim e Dr. Francisco Buarque de Holanda.  Antes assim.”


Clique aqui para acessar uma playlist com todas as gravações da dupla Francisco Alves e Mário Reis.

E aqui para acessar outra playlist, com as parcerias de Ismael Silva e Nilton Bastos.

 

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