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Cem anos de Lindolfo Gaya: as primeiras gravações do maestro-enxadrista que fez história na MPB

Pedro Paulo Malta

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Sabe o “Canto das três raças”, lançado por Clara Nunes em 1976? Chico Buarque e o MPB-4 cantando “Roda viva”, em 1968? A gravação de “Balança pema” por Jorge Benjor, em 1963? E o primeiro registro de “Dança da solidão” (1972), por Paulinho da Viola? Pois é... Além de serem sambas de sucesso lançados nas décadas de 1960 e 70, eles têm em comum o fato de terem o mesmo arranjador: Lindolfo Gaya, maestro nascido há cem anos (6 de maio de 1921) na cidade de Itararé (SP), sobre o qual pode-se dizer – sem exagero – que é um dos formatadores do som da então nascente “MPB”.

São também de Gaya os arranjos de discos fundamentais, como o primeiro de Nara Leão (1964) e o último de Mário Reis (1971), além da direção musical do célebre “Clube da Esquina” (1972), LP de Milton Nascimento e Lô Borges que é o marco inicial do movimento musical homônimo. Discos e gravações fundamentais na história da música brasileira, mas que, por terem saído já no formato de 33 rotações (como os LPs de vinil), infelizmente não podem ser ouvidos – ainda – no site da Discografia Brasileira.

Já no capítulo anterior da história fonográfica de Lindolfo Gaya, todo registrado nos discos de 78 rotações, podemos ouvi-lo em múltiplas funções. Como compositor, é o ecletismo em pessoa, como se pode ver nas 23 ocorrências como “autor” no site da Discografia Brasileira: tem bolero, valsa, choro, samba-canção, guarânia, toada e até samba. Já no campo “intérprete”, a busca resulta em dez ocorrências, sendo duas como organista e as outras como regente: Gaya e Sua Orquestra. Pois é assim também que o encontramos em boa parte das 26 ocorrências de seu nome quando a pesquisa se dá no campo “acompanhamento”. 

Nesse caso, é amplo o espectro de sonoridades dos diversos conjuntos dirigidos por Gaya. Tem rock na voz de Celly Campelo, tangos derramados por César Galvão, samba-exaltação com Anísio Silva e Hebe Camargo preludiando Baden e Vinicius, entre outras variedades. Além de uma dezena de interpretações da cantora Stellinha Egg, conhecida como “A Brasileiríssima” ou “A Maior Intérprete do Folclore Brasileiro”. Não à toa, é também o nome mais frequente na discografia de Gaya: ela e o maestro eram um dos casais mais notórios entre artistas do rádio. Namoro que começou em meados de 1944, nos intervalos da programação da Tupi, e deu em casamento, em junho de 1945.

Entre as gravações de Stellinha com o marido estão o baião “Catolé” (motivo do folclore arrematado por Lauro Maia e Humberto Teixeira), acompanhado pelo Conjunto Típico Brasileiro de Gaya. E também uma gravação do samba-canção “Terra seca” (Ary Barroso), com a Orquestra de Gaya. Sem contar a toada “Sodade matadera” (Dorival Caymmi), que ela canta com acompanhamento de Gaya e Seu Conjunto. Outras composições de Caymmi receberam gravações emblemáticas de Stellinha com arranjo e acompanhamento (não creditados) do marido, como as canções praieiras “O mar”, “O vento” e “A lenda do Abaeté”.

Assim como nas músicas do baiano, a ambiência sonora criada pelo arranjador Gaya é o destaque de outro trabalho de sua autoria que pode ser ouvido no site da Discografia Brasileira: o conto infantil “Aladim e a lâmpada maravilhosa”, lançado em dois discos da RCA Victor em julho de 1953. Nesse caso, a obra é co-assinada pelo maestro e pelo radialista Lourival Faissal, com a interpretação creditada ao Elenco Rádio Teatral e o acompanhamento a Zaccarias e Sua Orquestra.

Já o compositor Lindolfo Gaya tem como destaque na discografia em 78 rotações o samba “Brasil”, herdeiro tardio (1957) das aquarelas, céus azuis e outras exaltações ao verde-amarelo na virada entre as décadas de 1930 e 1940. Foi com este samba que ele venceu a “I Semana da Música Popular Brasileira”, concurso promovido pela revista Radiolândia em fins de 1956 e que valeu ao maestro uma premiação de 115 mil cruzeiros – também é de sua autoria o choro instrumental “Champanhota”, classificado em terceiro lugar:

“Devemos acentuar, no momento, que a vitória do maestro Gaya teve espetacular repercussão na onda da nossa música popular e das hertzianas”, escreveu o crítico Claribalte Passos na coluna Discoteca do jornal Correio da Manhã, em 3 de dezembro de 1956. “Trata-se de um justo prêmio ao talento de um arranjador emérito, artista de refinada sensibilidade, que tem propiciado muito ‘cartaz’ a compositores famosos que têm brilhado em turnês ao exterior, através de apresentações dos seus brilhantes trabalhos de orquestrador.”

Gaya não podia imaginar que o certame antecipava em uma década um dos momentos de maior visibilidade de sua carreira: a era dos festivais transmitidos pela televisão, na qual atuou fartamente como arranjador e regente. Entre seus arranjos mais marcantes destacam-se os que fez para a vencedora do I Festival Internacional da Canção (FIC), “Saveiros” (Dori Caymmi e Nelson Motta), interpretada por Nana Caymmi em 1966, e para “Andança” (Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós), com Beth Carvalho e Golden Boys, no III FIC, de 1968. E era de Gaya o arranjo da canção campeã do Festival da TV Record em 1969, “Sinal fechado”, de Paulinho da Viola.

Também era competitivo o dia-a-dia do maestro em sua outra atividade além da música: ele foi um dos bons enxadristas de sua época, tendo disputado competições pelo Fluminense Football Club (onde chegou a dirigente) e participado do time campeão – pelo Olímpico Clube – do Torneio de Equipes da Guanabara em 1966. Tanto que seu nome podia ser lido também nas páginas esportivas, como as do Jornal dos Sports de 6 de dezembro de 1959, quando serviu de mote para a coluna de um rival, o cearense Helder Câmara (homônimo e sobrinho do arcebispo), que discorre sobre as semelhanças entre as partituras e os tabuleiros:

“Assim como a música é considerada a linguagem dos anjos, o xadrez é a música do tabuleiro”, escreve Câmara, em seguida abrindo aspas para o famoso violinista russo Mischa Eiman, que traça um paralelo entre as dinâmicas de uma peça musical e uma partida de xadrez: “Na fase inicial, verificam-se movimentos introdutórios, preludiando o tema principal. Em seguida, após o prelúdio e semelhante ao andante, aparece o meio jogo, com suas variações, ora elegante e gracioso como ocorre nas sinfonias de Haydn, ora vibrante e envolvente como nas páginas imortais de Beethoven.”

O mesmo Jornal dos Sports, mas numa edição de dali a quase três décadas, trazia informações sobre outra faceta esportiva de Lindolfo Gaya. “Ele quase se tornou profissional de futebol, como bom de bola que era, e chegou a jogar no Santos, Portuguesa, São Paulo, Palmeiras e Fluminense”, revelou o colunista Milton Salles, na edição de 14 de novembro de 1987, num texto que registrava a morte do maestro, dois meses antes.

Lindolfo Gaya faleceu na noite de 14 de setembro de 1987, em função de um quadro de insuficiência pulmonar aguda que agravou seu estado de saúde, já comprometido por um acidente vascular cerebral sofrido em 1985. Tinha 66 anos e vivia em Curitiba, cidade natal de Stellinha Egg, onde seu corpo foi sepultado, no Cemitério São Francisco de Paula. Entre as informações do obituário publicado no jornal Correio de Notícias (16-09-1987), estão a iniciação no piano aos sete anos, a estreia artística como calouro na Rádio Transmissora (1941) e os feitos no exterior, como a turnê europeia que fez com a esposa, em 1956: “Em Varsóvia, regeu a Orquestra Filarmônica local e, em Moscou, a Grande Orquestra do Teatro Strada, tendo participado ainda do filme ‘Folclore de Cinco Países’, tocando chorinhos de sua autoria.”

Foto: Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

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