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Os 120 anos de Paulo da Portela: histórias do mestre segundo seus maiores admiradores

Pedro Paulo Malta

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Neste 18 de junho de 2021 completam-se 120 anos do nascimento de um dos grandes personagens da história do carnaval: Paulo Benjamim de Oliveira, o Paulo da Portela, fundador da escola de samba que faz parte de seu nome. Aqui no site da Discografia Brasileira, ele pode ser encontrado como intérprete de três sambas de Heitor dos Prazeres lançados em 1930: “Trapaiada”, “Vou te abandonar” e “Tia Chimba”. Já o compositor Paulo aparece como autor de “Cantar pra não chorar” (com Heitor), “Arma perigosa” (com Paquito), “Não pode ser” (com Carlos Xavier de Andrade) e “Quem espera sempre alcança”.

Números que, se por um lado comprovam sua participação no mercado fonográfico da época (o que não era pouca coisa, ainda mais para artistas ligados a escolas de samba), por outro não traduzem o protagonismo que teve. Não à toa é definido praticamente como um herói pelo compositor e escritor Nei Lopes, em seu livro “Guimbaustrilho” (Dantes, 2001):

“Uma das maiores personalidades do mundo do samba em todos os tempos foi, em sua época, como compositor e dirigente, e a seu modo, um dos grandes defensores e propagadores da cultura dos negros. Movimentando-se entre as fronteiras que separavam as classes mais favorecidas da sua e, assim, levando políticos e artistas e intelectuais burgueses até o mundo do samba e conduzindo as escolas até a proximidade do poder, foi um dos maiores alavancadores do processo de aceitação do samba pela cultura dominante.”

Esse cruzamento entre fronteiras se dava também geograficamente. Quando se mudou com a mãe, por volta de 1920, para Oswaldo Cruz, bairro da zona norte carioca onde fundaria a Portela, Paulo trazia o olhar e a experiência da região da cidade onde vivera até ali, a Pequena África, que englobava a Praça Onze, a Gamboa e a Saúde – seu bairro de origem. Assim, era grande o contraste entre o ambiente rural de seu novo destino (onde carros de boi transitavam por ruas de chão, entre roças e estábulos) e as práticas e costumes que trazia do “berço”, onde viviam também as quituteiras e ialorixás baianas Hilária (mais conhecida por Tia Ciata), Amélia e Persciliana (as duas últimas mães, respectivamente, de Donga e João da Baiana) e o marinheiro João Cândido Felisberto, o “Almirante Negro” da Revolta da Chibata (1910), entre outros grandes personagens negros da história do Rio de Janeiro.

Se vinham da Pequena África a régua e o compasso que Paulo usou para colocar em prática – em Oswaldo Cruz – seu projeto de inserção do samba e do sambista no mundo “do asfalto”, também foi preciso lidar com os imensos contrastes entre esses dois universos tão diferentes, como observa sua biógrafa, a pesquisadora e escritora Marília Trindade Barboza, co-autora do fundamental “Paulo da Portela – Traço de união entre duas culturas” (com Lygia Santos), livro editado pela Funarte em 1979: “O Paulo aprendeu com o grupo de Tia Ciata que a produção musical deles podia ter valor de mercado, podia ser um meio de vida, como era pro pessoal do Estácio, enquanto o pessoal de Oswaldo Cruz via aquilo como arte folclórica, para ser produzida e consumida pelo mesmo grupo.”

Uma das novidades que se apresentaram para os sambistas de Oswaldo Cruz foi justamente a possibilidade de ter suas composições gravadas em disco – o que era impensável até o fim da década de 1920. Foi por essa época que juntou-se a eles Heitor dos Prazeres, compositor e pintor que já tinha passagens pelas rodas do Estácio e da Mangueira antes de chegar ao subúrbio, levado pelo amigo Paulo. Aproveitando-se de suas conexões com o mundo artístico, empenhou-se em levar aos discos a produção daqueles compositores. Só que uma “surpresa” fez com que a relação desandasse já no primeiro disco com um samba de lá, “Vai mesmo”, lançado na voz de Mário Reis em maio de 1929 (clique para ouvir). No selo do disco não se via o nome do compositor, Antonio Rufino dos Reis, mas o do próprio Heitor dos Prazeres.

O descontentamento foi geral entre os sambistas de Oswaldo Cruz, em sua realidade distante de artimanhas que eram correntes no mercado fonográfico da época, como se entende por uma frase dita pelo compositor Sinhô, que aliás era parceiro de Heitor: “Samba é que nem passarinho: é de quem pegar primeiro.” O azedume evoluiu para as vias de fato (por impulso do valente local, Manuel Bambambã) e culminou com o afastamento imediato de Heitor, que no entanto manteve a amizade com Paulo da Portela. 

Até que veio o carnaval de 1941 e, com ele, o capítulo fundamental dessa história: Paulo voltava de uma temporada de shows em São Paulo com Cartola e Heitor dos Prazeres. Haviam combinado no trem de seguirem direto da Central do Brasil para a Praça Onze, onde desfilariam nas escolas dos três. Só que na Portela pararam em Manuel Bambambã: como os três vestiam preto e branco (cores da roupa usada nos shows em São Paulo), só Paulo poderia desfilar no meio da escola; os outros dois teriam que sair atrás da bateria. O fundador portelense não aceitou, retirando-se do desfile e, mais tarde, da própria escola.

Nas palavras do atual presidente da Portela, Luís Carlos Magalhães, trata-se do “maior drama da história da Portela e, por que não, da história dos desfiles das escolas de samba”. O tema é uma das paixões do dirigente, que em 2001, quando completou-se o centenário do nascimento do sambista, se juntou a outros portelenses para produzir o documentário “Paulo da Portela: o seu nome não caiu no esquecimento”, dirigido por Demerval Neto (clique aqui para ver).

Embora ainda frequentasse esporadicamente a sede da Portela, Paulo Benjamim de Oliveira nunca mais desfilou ou participou do dia-a-dia da escola. Encontrou abrigo na Lira do Amor, agremiação modesta de Bento Ribeiro, bairro vizinho a Oswaldo Cruz. Mesmo assim, seguiu no papel de líder do samba, como no carnaval de 1945, quando o assassinato de um folião durante os desfiles – o salgueirense José Matinadas – fez com que a imprensa se referisse ao ambiente das escolas como um antro de vagabundos, malandros e assassinos. Quem respondeu foi Paulo da Portela, no jornal O Radical, como informa o jornalista Sérgio Cabral em seu livro “As escolas de samba do Rio de Janeiro” (Lumiar, 1996).

“É doloroso que um incidente, embora de funestas consequências, tenha dado margem a tão errôneos conceitos contra nós. Entretanto, somos atingidos agora pelos piores adjetivos e pelas maiores humilhações”, afirmou o sambista, que trabalhava como lustrador. “Suo o dia inteiro para sustentar a minha família. Como eu, Cartola, Carlos Cachaça e todos, enfim, não vivem de marmita. Trabalhamos de sol a sol. A polícia sabe muito bem que os verdadeiros malandros ficam lá embaixo, batendo calçada pela Rua do Ouvidor, Rua Gonçalves Dias, Avenida Rio Branco, etc.”

Quando morreu, às vésperas do carnaval de 1949, tinha 48 anos. Além de tributos em forma de samba (entre eles “Paulo da Portela”, de Aníbal Silva e Éden Silva, e “Chorou Madureira”, de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira), as maiores homenagens que recebeu foram do povo, que compareceu em massa a seu velório, realizado em sua própria casa (na Rua Carolina Machado, 950, em Oswaldo Cruz), e ao cortejo até o cemitério de Irajá – estima-se que 15 mil pessoas acompanharam o caixão.

Um que infelizmente não conseguiu participar das despedidas ao grande sambista foi um jovem morador de Oswaldo Cruz, Hildemar Diniz, que dava expediente na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), onde trabalhava como contínuo, e não conseguiu ser dispensado. O garoto, então com 15 anos, nem podia imaginar que um dia também faria história no samba e, com o nome artístico de Monarco, se tornaria um dos principais divulgadores da obra de Paulo da Portela. À frente da Velha Guarda da escola, o aprendiz não só se tornaria parceiro póstumo do ídolo em composições como “Quitandeiro” e “Linda borboleta”,  como incluiria seu nome em incontáveis sambas, entre eles o histórico “Passado de glória” (ouça aqui).

A Mangueira de Cartola, velhos tempos de apogeu
O Estácio de Ismael dizendo que o samba era seu
Em Oswaldo Cruz, bem perto de Madureira
Todos só falavam Paulo Benjamim de Oliveira


Post produzido com as participações fundamentais de Marília Trindade Barboza, Luís Carlos Magalhães e Monarco, aos quais agradecemos pela disponibilidade e pela gravação e envio dos vídeos.

Foto: Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

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