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Há 80 anos, um samba ensinava que ‘coração não tem cor’

Pedro Paulo Malta

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Ferida exposta nos quatro cantos do mundo, não é de hoje que o racismo é tema na música brasileira. Seja como lágrima na voz de Elza Soares, em versos convocatórios de Candeia, num jongo de Wilson Moreira e Nei Lopes que revisita a história ou no papo-reto de Emicida e dos Racionais MCs, entre tantas outras músicas que fazem parte desta luta.

Punhais afiados que talvez ainda não fossem possíveis no tempo dos discos de 78 rotações (1902-1964), mas nem por isso o tema passou em branco no repertório daquela época. Assim, foi de maneira lírica, graciosa e até dengosa que os compositores Wilson Batista e Marino Pinto transformaram o assunto em samba: um samba romântico que (não à toa) recebeu o nome “Preconceito” e saiu em disco há 80 anos – a uma década da Lei Afonso Arinos, que seria promulgada só em julho de 1951, incluindo “entre as contravenções penais a prática de atos resultantes de preconceitos de raça ou de cor”. 

A tarefa de lançar aquele samba coube a Orlando Silva (já então consagrado como “o Cantor das Multidões”), que no dia 28 de julho de 1941 compareceu ao estúdio da Victor, na Rua do Mercado, nº 22 (Centro do Rio), para gravar a composição de Wilson e Marino, ambos estreantes em sua discografia. Wilson teria mais oito sambas lançados por Orlando, entre eles outras preciosidades, como “Lealdade” e “Louco”, ambos de 1943. Já Marino teria outros seis sambas gravados pelo cantor, entre eles o famoso “Aos pés da cruz” (com Zé da Zilda).

O disco de Orlando com “Preconceito” chegou às lojas em outubro de 1941, mas já no mês anterior a letra vinha estampada na revista Carioca (edição de 27-09-1941): uma pista de que o samba já andava bem cotado no repertório que Orlando Silva vinha apresentando na Rádio Nacional. “Um triunfo indiscutível”, afirma o texto (não-assinado) da coluna “Por trás do dial”, informando em seguida que a publicação do “poema da composição” se deu após a “solicitação de dezenas de leitores”.

É provável que já estivessem enfeitiçados por aquele samba “lírico, melancólico, contestador, desafetado e bem-humorado”, como bem define o escritor e pesquisador Rodrigo Alzuguir no livro “Wilson Baptista: o samba foi sua glória”. O biógrafo ressalta ainda, entre as características daquele samba, “um charme carioca que tornava incrível a procedência campista e bonjardinense de seus autores”, escreveu, numa referência às cidades fluminenses onde nasceram Wilson (Campos) e Marino (Bom Jardim).

Ainda segundo Alzuguir, “Preconceito” parecia feito sob medida para Orlando, “mulato, nascido em família humilde no Engenho de Dentro, ex-entregador de marmitas, estafeta, operário, aprendiz de sapateiro e trocador de ônibus”. Na época, o cantor vivia um romance tórrido com Zezé Fonseca, “melhor salário de radioatriz da Nacional, temperamental, ilustrada e louríssima”. “Orlando amava mais do que era amado, diziam. Era o sapo namorando a lua.” 

Embora não se saiba o que cada um dos compositores de “Preconceito” fez no samba, o jornalista e pesquisador Jairo Severiano tem um palpite. “Aquele toque contra o preconceito racial que tem na segunda parte, aquilo é puramente Marino Pinto. ‘Sapo namorando a lua / Numa noite de verão’, aquela coisa toda”, aventou o veterano numa entrevista ao jornalista e poeta André Luís Câmara. “Já a primeira parte é puramente Wilson Batista: ‘Eu nasci num clima quente...’”

As aspas de Jairo foram publicadas por André em sua tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade do Departamento de Letras da Puc-Rio, intitulada “Eu faço sambas de ouvido pra você: Marino Pinto, um compositor modesto”. No texto, publicado em 2017 (leia aqui), o autor salienta que Marino nem sempre é citado como co-autor de “Preconceito”, muitas vezes atribuído apenas a Wilson Batista.

É o caso da participação da cantora Nara Leão, em 1973, no programa MPB Especial, da TV Cultura, no qual anuncia que vai cantar “uma música do Wilson Batista” (veja aqui). Já o cantor Roberto Ribeiro, que participou do programa em 1991, não se lembrava do parceiro de seu conterrâneo Wilson, tendo a memória refrescada pelo entrevistador, Fernando Faro. “Grande Marino Pinto!”, exclamou o cantor, pedindo desculpas em seguida pelo lapso de memória (veja). 

Entre as regravações de “Preconceito”, a mais conhecida foi feita por João Gilberto em 1985, no registro ao vivo de sua apresentação no Festival de Montreux, na Suíça – o cantor e violonista baiano incluiu o samba em outro show gravado em disco: “João Gilberto in Tokyo”, de 2004 (ouça aqui). Outros registros marcantes foram os de Ari Cordovil (a primeira regravação, em 1959), Roberto Silva (1968) e Emílio Santiago (1989).

“Preconceito” também foi o maior sucesso da pequena obra que resultou da parceria entre Wilson Batista e Marino Pinto, que assinam juntos mais uma dezena de músicas lançadas em disco entre 1939 e 1949. Da produção dos dois juntos destacam-se ainda o samba histórico “Largo da Lapa”, lançado por Carlos Galhardo em 1942, e o saliente “A morena que eu gosto”, gravado em 1944, na voz de Déo.

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