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Os 70 anos da maloca mais famosa do Brasil

Fernando Krieger

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O tema dos desabrigados, expulsos de suas casas humildes devido à expansão imobiliária e abandonados à própria sorte pelo poder público, calava fundo na alma de Adoniran Barbosa, autor da pungente “Despejo na favela”, composta em 1969 e lançada em 1971 pelos Titulares do Ritmo: “Minha mudança é tão pequena que cabe no bolso de trás / Mas essa gente aí, hein? Como é que faz?”. O grito do compositor em favor dos desvalidos surgiu muito antes, em 27 de julho de 1951, com a gravação – um lado B que passou praticamente despercebido na época – do samba “Saudade da maloca”, na voz de Zé Conversa, um dos personagens bem paulistanos nascidos da criatividade de João Rubinato/Adoniran, assim como os famosos Charutinho, Perna Fina e Barbosinha dos programas de rádio.

Lançado em outubro de 1951, só veio a despertar interesse quatro anos depois, graças à versão dos lendários Demônios da Garoa – foi a quarta composição de Adoniran gravada pelo grupo. O resto, como se diz, é história: virou um clássico da MPB, dos mais queridos do público até hoje, conhecido no país de Norte a Sul.

O título, o arranjo e a letra sofreram mudanças significativas: “Saudosa maloca”, seu nome verdadeiro, havia sido escrito de maneira errada no selo da gravação anterior; o arranjo de 1951 remetia a um samba-choro, o de maio de 1955 tinha a acentuação bem marcada de samba; com relação à letra, sutis modificações: “nem quero me lembrar” / “nós nem pode se alembrá”; “espiá a demolição” / “apreciá a demolição”; “que tristeza que eu sentia” / “que tristeza que nós sentia”; “o hômi está com a razão” / “os hômi está com a razão”; “onde nós passemo” / “din-din-donde nós passemo”.

Tais alterações transformaram a música, agora no lado A do selo do disco, num sucesso imediato: segundo o “Diário da Noite” de 28/07/1955, em 45 dias foram vendidas 30 mil cópias somente em São Paulo. Em 1958, de acordo com a “Radiolândia” de 22 de novembro daquele ano, o número chegava a 230 mil no país inteiro.

Mérito de Adoniran, graças ao linguajar matuto e cheio de erros que colocou na fala de Zé Conversa – incorporado às suas futuras composições, como o “Samba do Arnesto” e “Conselho de mulher”, ambas de 1952, e também à sua própria vida –, a uma melodia muito bem trabalhada e à maneira singular, tragicômica, de tratar de um tema tão espinhoso. Mérito incontestável dos Demônios da Garoa, grupo paulistano que entendeu a proposta de Adoniran e aprimorou o “caipirês” da letra, além de criar o inconfundível “cas cas cas cas culá” do início e do final – uma brincadeira fonética que o povo transformou em “joga as cascas pra lá, joga as cascas pra cá”. Foi a partir desta regravação que o cantor-radioator-humorista-criador de tipos se consagrou definitivamente como compositor: até então ainda não havia obtido o devido reconhecimento como tal, embora atuasse como autor musical desde 1935.

Dos dois personagens citados na letra – o terceiro é o próprio narrador –, Adoniran conheceu Mato Grosso. Joca foi inventado “para rimar com maloca”, diria mais tarde aos periódicos cariocas “Manchete”, edição de 15/10/1955, e “Tribuna da Imprensa” de 26/04/1956, revelando que a maloca também existiu de verdade: ficava na Rua Aurora, demolida para dar lugar a um edifício (cuja fotografia foi publicada na já citada revista “Manchete” de 15/10/1955). Numa entrevista à “Radiolândia” de 07/04/1956, assim falou sobre a criação do maior sucesso musical de 1955:

“‘Saudosa maloca’ nasceu da vida. Veio ao mundo há quatro anos, inspirado na existência miserável de alguns maloqueiros, amigos meus de boemia (...). Mato Grosso existiu mesmo. Joca deve ter existido, encarnado no negro Mário da Rua Aurora. Muitos desses já morreram. Tuberculose como ponto final à abundante cachaça e à comida pouca. Não havia botequim, cortiço e gafieira da Barra Funda e Bexiga que não conhecíamos. Ainda hoje ando com muito maloqueiro. Boa gente. Leal e sincera”.

Para a “Revista do Rádio” de 16/05/1959, fez outras revelações – talvez verídicas, talvez fantasiosas, já que aqui ele confirma a existência de “Joca”:

“Moro em um apartamento pequeno. Toda manhã saio para passear com o meu cachorro, à procura de um poste amigo. O cachorro gostava do jardim de uma casa, que ia ser demolida e onde moravam marginais famosos, como Mato Grosso, Joca, Corintiano. Esses marginais verdadeiramente existiram e já morreram. Ali tive a inspiração. Logo, o verdadeiro parceiro que encontrei para compor ‘Saudosa maloca’ foi o meu cachorrinho”.

Cabe uma explicação à fala do sambista: quando chama os moradores da maloca de “marginais”, Adoniran não estava se referindo a eles como foras da lei, mas como pessoas que vivem à margem da sociedade, periféricas, excluídas, segundo a definição literal da palavra.

O estouro do samba gerou em 1956 um show homônimo na boate African e, na Record paulista (PRB-9), o programa radiofônico “Bangalô de maloca”, do produtor Osvaldo Moles – um dos parceiros musicais de Adoniran –, transformado no ano seguinte em “História das malocas”. Para aproveitar o sucesso, Adoniran compôs, ainda em 1955, uma continuação, “Arranjei outro lugar”, em parceria com Raguinho (Antonio Rago), lançada no Carnaval seguinte, novamente pelos Demônios da Garoa. Com direito à reaparição de Mato Grosso e à repetição na íntegra dos últimos versos da canção original.

A saga dos três maloqueiros iria ter um fim em 1958, em mais um registro dos Demônios da Garoa. Em “Abrigo de vagabundos” – samba regravado em 1974 por seu autor no LP “Adoniran Barbosa” e em 1979 por Clara Nunes no álbum “Esperança”, com participação do próprio Adoniran no lindo videoclipe da música, onde ele recebe um emocionado abraço da cantora no final –, o narrador-protagonista, depois de passar um ano trabalhando, consegue construir “lá no alto na Mooca” uma maloca legalizada, graças à ajuda de João Saracura, fiscal da prefeitura. Sem notícias dos amigos Joca e Mato Grosso – “andarão jogados na Avenida São João, ou vendo o Sol quadrado na detenção?” –, o personagem termina oferecendo sua maloca “aos vagabundos que não têm onde dormir”.

Foto: Adoniran Barbosa / Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

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