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Causos de Sérgio Malta: com Dalva, Elis, Hebe e grande elenco

Pedro Paulo Malta

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E quando as histórias não estão nos livros, nem no YouTube, nem na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional, mas na própria família...?

As que vou contar agora ouvi num telefonema pro tio Sérgio, irmão caçula do meu avô e contador entusiasmado de tantas anedotas: da carreira de publicitário, dos trabalhos como desenhista, da coluna que assinava no jornal O País, das peripécias de aviador amador e dos sets de filmagem – entre seus trabalhos como ator estão novelas pioneiras na TV Tupi e filmes como “Rio Zona Norte” e “Roberto Carlos em ritmo de aventura”. Neste último, são dele os desenhos de Roberto que abrem a película.

Aqui no site da Discografia Brasileira, são 19 ocorrências com seu nome, Sérgio Malta, que é carioca do dia 15 de março de 1933 e sexto filho de Zizi, professora de música do Conservatório Lorenzo Fernandez, e do comerciante Paulo Souto Malta. “Aprendi piano em casa mesmo, de tanto ouvir meu pai, que era primo do maestro Eduardo Souto e passava o tempo tocando maxixes, valsas e outras coisas daquele tempo. Eu me escondia embaixo do piano sempre que ele ia tocar.”

O aprendizado ajudou no ganha-pão quando tio Sérgio começou a fazer jingles – entre eles o da campanha de Juscelino Kubitschek ao Senado Federal, em 1961, cantado por Jorge Veiga: “Eu vou votar no JK / É no JK que eu vou votar...” Num sentido menos prático, era no piano que tirava suas músicas preferidas, como “Misty” (Erroll Garner) e “The man I love” (Gershwin), entre outros standards americanos que volta e meia tocava em canjas na noite carioca.

Numa dessas, na boate Fred’s, em Copacabana, aproximou-se do cantor Tito Madi, que se tornaria o intérprete de sua primeira composição gravada: o samba-canção “Palavras ao vento”, que existia desde 1957 mas só foi lançada em disco em janeiro de 1959. Em novembro daquele ano já tinha outra música gravada: o samba “Ainda mais desafinado”, interpretado pelo cantor Carlos Penha, no embalo do sucesso de Tom Jobim e Newton Mendonça.

Embalo igualmente importante foi o da música “As estações do amor”, que Hebe Camargo gravou em 1960. “Eu estava no escritório da Philips, que ficava na Avenida Rio Branco, e lá pelas tantas me entra a Hebe pelo meio da reunião. O Ismael Correa, sujeito corpulento que dirigia a gravadora, me perguntou se eu tinha alguma música para ela e cantei essa marcha-rancho, batucando na mesa. Ela gostou e começou a cantar e batucar comigo”, recorda. “Nessa dei uma sorte danada: a música foi gravada do outro lado do ‘Samba em prelúdio’ e vendeu pra cacete – eu de carona!”

Outro encontro fortuito foi o que aconteceu em “Manhã do amor”, samba-canção que começou com uma letra escrita por Joluz, apelido de João Luzze, funcionário da Continental, onde trabalhava como copista. “Ele sabia que eu tocava piano e me veio com essa letra, pedindo que eu musicasse”, recorda. “Dali a uns dias, me chamou à gravadora pra mostrar a música a uma cantora que estava lá: uma gaúcha novata chamada Elis Regina, que ouviu uma vez e disse: ‘Gravei!’” A gravação de Elis (ouça aqui) saiu no LP “O bem do amor”, de 1963 – mesmo ano em que saiu também o registro de Agnaldo Rayol, num 78 rotações da gravadora Copacabana.

E essa música “Felicidade”, tio Sérgio? Esse Al Marine, seu parceiro na composição, era estrangeiro de onde? “Que nada, meu filho. Era daqui mesmo. Al Marine era o Altamiro Carrilho, que usava esse pseudônimo não sei por que razão.” O que se sabe é que a composição nasceu no cafezinho da gravadora Copacabana: o flautista trouxe o tema inicial e os dois completaram juntos.

Helder Câmara é outro parceiro digno de nota: sobrinho homônimo do arcebispo emérito de Olinda e Recife, era conhecedor profundo da obra de Noel Rosa e enxadrista multicampeão. “Nos conhecemos no clube Olímpico, em Copacabana, na época em que me meti a jogar xadrez”, conta tio Sérgio. “A música foi outro ponto de contato entre a gente. Um dia ele me trouxe a letra de ‘Ficou saudade’ e criei a melodia. Foi ele que entregou a canção à Tita, uma cantora que eu não conhecia e tocava um violão ótimo.”

“Cravo vermelho” teve caminho inverso: chegou como um tema instrumental do pistonista e arranjador Pernambuco (apelido de Ayres da Costa Pessoa), que lhe apresentou a melodia no piano da Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música, a Sbacem. “Peguei um ônibus no Centro e comecei logo a fazer a letra, que já estava concluída quando saltei em Copacabana”, relembra. “Assim que cheguei no bar Jangadeiro, encontrei Helena de Lima. Foi dela a primeira das vinte gravações que essa música teve (ouça).” Destas, quatro saíram em discos de 78 rpm: nas vozes de Celinha Alves e Dalva de Andrade, na gaita de Rildo Hora e com Moacyr Silva e Sua Orquestra.

E teve o samba “Volte pra casa”, inspirado nas notícias que vinham saindo na imprensa sobre o drama amoroso de um famoso jogador de futebol da época. “Essa compus em pé, num boteco da Rua Prado Junior, em Copacabana, depois de ter tomado umas e outras. Levei na Philips e na mesma hora ligaram pro Noite Ilustrada, que veio de São Paulo conhecer a música. Pouco depois, eu é que fui até lá acompanhar a gravação, de primeira, com acompanhamento da orquestra do Portinho. Das minhas composições foi a que mais tocou no rádio.”

Outra que acabou em São Paulo foi “O carrinho”, samba lançado num LP de 1963 da cantora Isaurinha Garcia (ouça), com seu canto doce: “Quem me dera ter / Um Volkswagen pra fazer / Uma viagem pelos campos infinitos da imaginação...” Essa valeu algum dinheiro, tio Sérgio? “Que nada, Pedro! Fiz porque era o carro do momento. Sem contar que adoro fusca – tenho dois!” Adorou também ouvir a gravação de Roberto Audi – lançada em 1964, pela Copacabana – que toquei pra ele. “Sabe que eu nunca soube dessa gravação em 78 rotações...?”

Também do primeiro time era Dalva de Oliveira, a quem tio Sérgio dedicou a canção “A minha voz”, como uma homenagem a ela, que cantaria em primeira pessoa. “O pessoal da Odeon me pediu que adaptasse a letra, para que ela pudesse gravar com o filho, Peri Ribeiro, e a música virou ‘A tua voz’”, assim lançada num 78 rotações de agosto de 1962.

No ano seguinte Dalva ainda defenderia uma composição dele no festival “Um Milhão Por Uma Canção”, realizado pela Prefeitura do Rio no Copacabana Palace. A música, chamada “Sempre te amarei”, terminou em 5º lugar e recebeu elogios de Tom Jobim, que estava no júri (ouça). Deve ter sido lindo, hein, tio Sérgio? “Nada, meu filho! Deu tudo errado. Dalva não conseguia decorar a letra e acabei escrevendo os versos em letras grandes, numas cartolinas que eu segurava da coxia”, recorda, aos risos. “Ficou a nossa amizade, além das reclamações que ela fazia, pelas notas altas que teve que cantar na minha música: ‘Maltinha, você ainda vai me matar!’”

A frase de Dalva de repente serviu para mim, que me vi morto de saudade do meu avô, primeiro que me falou dos multitalentos de seu irmão caçula: “Pedrinho, você precisa se sentar um dia com seu tio-avô para ouvir as histórias dele. É cada uma!”

Tinha razão o velho Zé Malta. Foram duas horas no telefone e ainda faltaram histórias: da amizade com Marino Pinto, dos bastidores das telenovelas ao vivo, da dedicatória que recebeu do cineasta japonês Akira Kurosawa, dos encontros com Haroldo Lobo, Pixinguinha e Donga.

Conversas para quando pudermos nos encontrar com segurança, como combinamos, na chácara em Vargem Grande (bairro da zona oeste carioca) onde ele vive com a querida Irma – sua companheira há 46 anos e autora da foto desta postagem. “Me avise quando vier, que eu coloco as cervejas pra gelar.”

Que não demore!

 

Na foto: Sérgio Malta e o piano: sobre ele, retratos dos pais, Paulo e Zizi. Fotografia de Irma Moura.

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