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'No rancho fundo': com 'treta' e muitas regravações, os 90 anos de um grande sucesso

Pedro Paulo Malta

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Na história da música popular brasileira, nem sempre um grande sucesso é sinônimo de um mar de rosas. Que o diga “No rancho fundo”, composição de Ary Barroso e Lamartine Babo que se tornou uma das músicas mais regravadas do nosso cancioneiro e por artistas tão diversos: do samba, da seresta, do choro, da bossa nova, da música sertaneja... Em 1999, foi selecionada por um júri formado pela TV Globo para escolher as 30 canções mais importantes da música brasileira no século 20. Mesmo assim, não foi exatamente o “céu melhor que tem no mundo” a trajetória do famoso samba-canção – lançado em disco há 90 anos, em agosto de 1931.

Uma história que começa um ano antes, em 13 de junho de 1930, quando entrou em cena o espetáculo “É do outro mundo”, uma revista em dois atos que tinha como autor o grande desenhista J. Carlos, estreante no teatro ligeiro. No jornal A Notícia, foi saudado como “o consagrado artista do lápis” que “executou um trabalho original”, compondo “uma peça de fina espirituosidade”. Já sobre a estrela do elenco, Araci Cortes, o texto informava que “reapareceu aureolada pelos aplausos da plateia”.

No repertório da grande atriz-cantora, um dos destaques era o samba-canção “Esse mulato vai ser meu” (subtítulo “Na grota funda”), com versos de J. Carlos sobre melodia de Ary Barroso, autor das músicas do espetáculo. 

Na grota funda
Na virada da montanha
Só se conta uma façanha
Do mulato da Raimunda...

O jornalista Sérgio Cabral, em seu livro “No tempo de Ary Barroso”, informa que o sucesso de crítica não animou a bilheteria e, assim, “É de outro mundo” não passou de 16 apresentações. Um dos que estiveram na plateia do Theatro Recreio (Praça Tiradentes, Centro do Rio) foi o compositor Lamartine Babo, que adorou a melodia daquele samba-canção – a ponto de achar que merecia versos melhores que os de J. Carlos. 

Mangas arregaçadas, tratou então de trocar a história episódica e pitoresca imaginada pelo desenhista (com elementos do espetáculo teatral) pela nova letra, carregada de melancolia e saudosismo. As primeiras apresentações foram no programa “Horas lamartinescas”, que Lalá comandava na Rádio Educadora, recebendo atrações como o Bando de Tangarás, conjunto de seus amigos Noel Rosa, Almirante e João de Barro, todos iniciantes. 

Assim, o samba-canção de sabor rural já não era totalmente desconhecido quando, em 14 de maio de 1931, reapareceu no espetáculo “Brasil do amor”, no mesmo Theatro Recreio, com a nova letra cantada por outra diva do teatro de revista, Margarida Max.

No rancho fundo
Bem pra lá do fim do mundo
Onde a dor e a saudade
Contam coisas da cidade...

Já no mês seguinte – precisamente em 15 de junho de 1931 – foi a vez de “No rancho fundo” ganhar sua primeira gravação, na voz da cantora gaúcha Elisa Coelho. O acompanhamento foi feito por um “piano e dois violões”, como informava o selo preto com letras douradas do disco em que a música foi lançada: o 78 rotações de número 33444 da Victor. Só faltou informar também que o pianista da gravação era o próprio Ary Barroso.

“Poucas músicas do gênero chamado popular têm agradado tanto quanto esta”, escreveu o Correio da Manhã (19-07-1931). “Com a sua original melodia, que sabe permanecer nos ouvidos dos que a ouvem insinuante e singela, vai 'No rancho fundo' conquistando simpatias merecidas. Em muito tem concorrido para este sucessozinho a interessante srta. Elisa Coelho, cuja maneira de cantar esta música tem agradado muitíssimo ao público apesar de, no nosso modo de ver, melhor convir à obrinha uma interpretação simples, espontânea e macia, em que haja canto.”

Outro veículo que fez ressalvas à cantora foi a revista O Cruzeiro. “A artista tem boas qualidades de sentimento e afinação, mas seu modo de frasear – acentuando a primeira nota – torna-se um tanto monótono”, avaliou a revista semanal (em texto não assinado), na edição de 18-07-1931. “Estamos certos que um pouco de atenção fala-á perceber o bem fundado de nossa observação, que lhe será facílimo modificar se quiser.”

Já na edição de 16-06-1934, O Cruzeiro afirmava (em outro texto sem assinatura) que “a voz de Elisinha Coelho foi a razão principal do grande êxito da canção”, afinal “os acentos melancólicos e bem tristes de sua voz emprestaram ao 'Rancho fundo' um certo quê de doçura e encantamento".

O Jornal do Brasil foi outro a aplaudir a cantora, “pela cor genuinamente local que soube dar à dolente e ótima peça de Ary Barroso com expressiva e bem cuidada letra de Lamartine Babo”, conforme publicado na coluna Discolândia do dia 12-07-1931. Também digna de nota foi a gravação realizada pela Victor, resultando num registro especial: “um dos mais bem acabados que realizou a fábrica até agora”.

O sucesso de “No rancho fundo” só não agradou mesmo a J. Carlos, que não perdoou o parceiro por ter permitido a substituição de sua letra original, como conta Sérgio Cabral no livro “No tempo de Ary Barroso”: “Ary fez o possível para explicar ao antigo parceiro que tudo ocorrera por iniciativa de Lamartine Babo, que não tinha nada a ver com isso. Em vão. J. Carlos não quis saber de conversa.”

Numa matéria escrita mais de três décadas após o fato (O Cruzeiro, 29-06-1963), o jornalista Mário de Moraes afirma que J. Carlos (falecido em 1950) “morreu certo de que o autor de ‘Aquarela do Brasil’ o atraiçoara”. No mesmo texto, o jornalista conta que Ary, incomodado pelo estremecimento com o autor da letra original, “o procurou diversas vezes para explicar-lhe o que tinha havido. Visitando, inclusive, com esse fim, a família de J. Carlos, depois da morte do caricaturista.”

Já na biografia “Tra-la-lá – Vida e obra de Lamartine Babo”, o pesquisador Suetônio Soares Valença relata que o filho de J. Carlos, Eduardo Augusto de Brito e Cunha, minimizara a desavença, afirmando “não ter sido do temperamento do pai, artista de gênio, guardar queixas ou rancores de colegas”.

Pode ser que com o tempo J. Carlos tenha superado a chateação. Mas, a julgar por uma declaração do próprio Ary Barroso ao Correio da Manhã (na edição de 22-01-1932), a relação ficou de fato estremecida na época do lançamento de “No rancho fundo”:

“Esta música foi usada com grande sucesso pela querida estrela Araci Cortes na peça do meu amigo o talentoso e sutil caricaturista J. Carlos, com letra deste e com o nome de ‘Este mulato vai ser meu!’. Isso há dois anos atrás, mais ou menos. Nunca quis gravar nem imprimir, porque as percentagens que me ofereciam eram ridículas. Um dia o Lamartine Babo, sem que eu o autorizasse, fez a letra do ‘Rancho fundo’ e pelo rádio começou intensa propaganda. Resultado: a música pegou. Todo mundo canta e conhece e eu fiquei mal com o meu amigo J. Carlos. Também pudera. Se ele me dá uma letra, eu musico, e a música sai com outras letras. O golpe de Lamartine foi de inteligência, não resta dúvida, e eu não o censurei por isso. O que eu não quero é que ele tome para si a exclusividade deste samba-canção. Se ‘Rancho fundo’ fosse ‘Esse mulato vai ser meu’, juro, teria a mesma aceitação, porque, modéstia à parte, a música não desagrada.”

Segundo o jornalista Sérgio Cabral, seu biografado, “cá entre nós, bem que gostou da mudança da letra. Afinal, nenhum compositor é obrigado a aceitar um parceiro, e muito menos um parceiro-substituto. Não seria Ary Barroso, com sua fortíssima personalidade, que iria admitir uma parceria clandestina. Que se saiba, nunca brigou com Lamartine por causa de ‘No rancho fundo’”.

Após a gravação de Elisa Coelho, o samba-canção de Ary Barroso e Lamartine Babo foi regravado outras vezes em discos de 78 rotações: as duas primeiras em 1939, sendo uma pelo próprio Ary (ao piano) e outra – de grande repercussão – por Silvio Caldas. Outra voz a relançar “No rancho fundo” foi a de Isaura Garcia (acompanhada de Pixinguinha, Benedito Lacerda e regional, em 1948), seguida de duas gravações instrumentais: uma por Zaccarias e Sua Orquestra (1950) e outra com o trompetista Laerte Rezende (1953), com acompanhamento de Radamés Gnattali e sua orquestra.

Já em outros formatos que não o disco de 78 rotações, o samba-canção foi regravado muitas vezes. Destas, destacam-se registros como os de João Donato (1955), Garoto (1957), Elizeth Cardoso (o primeiro em 1958 e o segundo em 1991, com o violonista Raphael Rabello) e o de Chitãozinho e Xororó (1989), que renovou a popularidade da música e inspirou outras regravações sertanejas – todas, infelizmente, com as mesmas modificações de melodia criadas pela dupla. 

“No rancho fundo” também recebeu regravações estrangeiras, como a do acordeonista belga Rud Wharton (1955), a do pianista francês Richard Clayderman (1992), da orquestra popular do band leader estadunidense Ray Conniff (1999) e a do guitarrista japonês Hiroki Koichi (2007).

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