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Um papo com Alaíde Costa: a estreia fonográfica, a bossa nova e algumas rumbas involuntárias 

Pedro Paulo Malta

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“D. Alaíde Costa, estou ligando para conversar com a senhora sobre seu primeiro disco, aquele de 1956...”

“Ih, meu filho. Já faz tanto tempo! Com você me chamando de senhora, então, fica num passado ainda mais distante!”

Assim começa a história deste texto, que, se pudesse, pediria traje de gala aos leitores, tamanha é a honra de conversar com esta que é uma das maiores cantoras da música popular brasileira. 

A mesma que, menina ainda, no Méier (seu bairro de origem), cantou pela primeira vez num circo, empurrada pelo irmão caçula. Que depois não perdia um concurso de calouros e, ao vencer o principal deles, o de Ary Barroso na Rádio Tupi, largou o emprego de babá numa casa de família. Que depois de abafar em outro programa de novatos (“Pescando Estrelas”, na Rádio Clube do Brasil) virou crooner do Dancing Avenida, na Cinelândia.

“A noite é aquela escola, né? Com aquele repertório bem diversificado: música de todo mundo, do mundo todo e ritmos variados. Do samba-canção pro fox, do fox pro bolero, depois vem samba... Eu cantava de tudo – até baião.” O importante era movimentar o salão, em torno do qual ficavam as dançarinas, à espera dos fregueses. A cada música dançada, as próprias moças faziam um furo no cartão do cliente, que no fim da noite pagava pela quantidade de danças.

Numa dessas noites veio o convite para gravar o primeiro disco, em fins de 1955: um 78 rotações da Mocambo que sairia no começo do ano seguinte com dois petardos românticos. No lado A, o samba-canção “Tens que pagar”, composição da própria cantora em parceria com Aírton Amorim. “Foi uma música que fiz assim, de estalo, a partir daquela história que eu contei nos versos. O Aírton, que era discotecário da Rádio Clube, me ajudou nos arremates da letra.” 

Já no lado B Alaíde gravou “Nosso dilema”, que tinha como compositor um fã de suas cantorias no Dancing Avenida, chamado Hélio Costa. “Combinamos de nos encontrar na casa da parceira dele nessa composição, Anita Andrade, que morava perto de mim. Eles cantaram a música e gostei na mesma hora.”

Só que, por problemas da Mocambo, a distribuição do disco acabou prejudicada e nem Alaíde recebeu seu exemplar do disco de estreia. “Sabe que até hoje não tenho esse 78 rotações?”, conta a veterana. “Acabou que ele ficou meio apagado na minha memória, sabe? Tanto que eu sempre considerei que minha estreia em disco mesmo foi no trabalho que eu fiz depois.”

Esse veio no ano seguinte, novamente por meio de um pé-de-valsa do Avenida que lhe entregou um cartão, desta vez pedindo que o procurasse na gravadora Odeon, onde trabalhava como técnico, no prédio vizinho ao Dancing. Dali a algum tempo chegava às lojas – em agosto de 1957 – o segundo 78 rotações de Alaíde. 

No repertório vinham mais duas canções lacrimosas: outra de Hélio Costa (o bolero “Tarde demais”, dele com Raul Sampaio) e “C’est la vie”, uma versão de Nelly Pinto para a canção original de Edward White e Mack Wolfson. “Aí, sim, o disco aconteceu: tocou bastante, vendeu também. No fim do ano me elegeram cantora revelação de 57: não teve troféu nem dinheiro. Só o título, os parabéns, uma visibilidade maior e pronto.”

Prêmio mesmo veio no disco seguinte, que a Odeon lançou em abril de 1958 com Alaíde acompanhada de Léo Peracchi e Sua Orquestra, interpretando o samba-canção “Conselhos” (Richard Franco e Hamilton Costa) e o bolero “Eu sem você” (Edson Borges e Fausto Guimarães). “João Gilberto me viu gravando ‘Conselhos’ e foi falar de mim ao diretor artístico da Odeon, Aloysio de Oliveira: disse que eu tinha tudo a ver com ‘aqueles meninos que estão fazendo uma música diferente’. Era a bossa nova, que ainda nem tinha esse nome.”

Alguns dias depois, João convidou Alaíde para uma reunião dos tais “meninos” no apartamento do pianista Bené Nunes, na Gávea. “Você não faz ideia de como demorava! Saí a pé de Água Santa, onde eu morava, e andei até a Chave de Ouro. Fiquei no ponto até passar o ônibus pra cidade (Centro). Na cidade, peguei outro ônibus e só então segui pra Gávea. Era tudo muito longe, até porque não existia ainda o Aterro do Flamengo.”

Assim que entrou no apartamento da Rua Osório Duque Estrada, Alaíde Costa foi logo perguntando por João, o que provocou risinhos entre os presentes. “João não veio, Alaíde”, explicou Bené. “Mas sinta-se à vontade. Já te ouvi na Rádio Nacional e sei o quanto você canta. A casa é sua!” Lembra-se de ter conhecido nessa noite Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra, Chico Feitosa e Oscar Castro Neves (“meu favorito”).

O entrosamento com “a turma” levará Alaíde a gravar músicas importantes da bossa nova em 78 rotações, como “Fim de noite” (Chico Feitosa e Ronaldo Bôscoli), “Lobo bobo” (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli), "Minha saudade" (Donato e João Gilberto), “Chora tua tristeza” (Oscar Castro Neves e Luverci Fiorini) e “Dindi” (Tom Jobim e Aloyisio de Oliveira), entre outras. Fez também com que fosse escalada para shows históricos do período, como o “1º Festival de Samba Session” (em setembro de 1959, na Faculdade de Arquitetura da UFRJ) e a “Noite do Sambalanço” (em maio de 1960, na PUC).

A nota dissonante dessa história é o apelido de Alaíde que circulava entre uma parte da turma. Segundo o jornalista e escritor Ruy Castro, em seu livro fundamental “Chega de saudade”, alguns se referiam a ela – por trás – como “Ameixa”. “Eu também soube disso pelo livro e me chateei. Mas mesmo que tivesse sabido na época, é provável que não me incomodasse, que achasse esse apelido até carinhoso, como a Ângela Maria era a Sapoti”, avalia. “Eu era de uma ingenuidade tão grande naquele tempo que eu não percebia nada.”

Com sua voz delicada e firme, Alaíde segue no tema. “Antigamente era velado, agora está cada vez mais escancarado. Uma coisa horrorosa. Não tenho palavras para traduzir o que sinto quando penso nisso”, afirma. “Por que você acha que vivem me pedindo para cantar algo ‘mais animadinho’? Ou seja: olham para mim e eu tenho que cantar samba. E eu gosto de samba, mas não é exatamente a minha praia, né? Gosto mais de outras coisas, nunca fui de cantar o que empurrassem pra mim.”

A convicção sobre os rumos artísticos de sua própria carreira foi decisiva para que, ainda em meados de 1958, Alaíde decidisse deixar a Odeon, onde se sentia “jogada para escanteio”. Transferiu-se então para a maior rival, a RCA Victor, onde recebeu luvas de 200 mil cruzeiros para ser “a primeira cantora moderna” do cast da gravadora.

Aí sim, Alaíde! E deu tudo certo na nova casa, né?

“Que nada!!! Se arrependimento matasse... Não me deixavam gravar com os meus músicos, tinha que ser tudo com a orquestra da RCA. Resultado: tudo ficou parecendo rumba. ‘Lobo bobo’, ‘Minha saudade’ e o que mais tivesse de bossa nova. Presta atenção nas gravações e vê só como parece rumba.”

E quem eram os músicos que você queria levar, Alaíde? 

“Você acredita que levei o João Gilberto, que tinha acabado de lançar ‘Chega de saudade’, e eles não o deixaram tocar na gravação?! O João, que já era difícil pra caramba e foi comigo pro estúdio às dez da manhã!”, conta a cantora, ainda incrédula, mesmo mais de 60 anos depois. “Eles não sabiam tocar samba. E não acreditavam na bossa nova.”

Desta fase na RCA Victor Alaíde Costa não gosta de quase nada. “A única exceção é o LP ‘Joia moderna’, que gravei com os músicos que eu queria comigo. Só que tive que arcar com todos os custos, exceto o estúdio e o técnico – providenciados pela gravadora. Mas aí não teve nada parecido com rumba.”

Das doze faixas de “Joia moderna” (ouça aqui) apenas duas foram lançadas também em 78 rotações: os sambas “Se foi passado” (William Duba, Aldacir Loro e Linda Rodrigues) e “No mundo da lua” (Ana Maria Portella). Comercializadas num mesmo disco de abril de 1961 (o 80-2285 da RCA Victor), são as duas últimas gravações de Alaíde lançadas no formato 78 rpm.

Depois disso, seguiu lançando suas gravações em outros suportes, como um compacto simples da Audio Fidelity em 1963, no qual o público conheceu um de seus maiores sucessos, a canção “Onde está você”, de Oscar Castro Neves e Luverci Fiorini (clique aqui para ouvir). No mesmo ano – e pela mesma gravadora – saiu o LP “Afinal...”, um de seus mais cultuados, com arranjos de Lindolfo Gaya e Cesar Camargo Mariano (ouça neste link).

Alaíde é daquelas pessoas com quem se quer conversar ad eternum, tanto pelas histórias, quanto pelo olhar lúcido para o mundo e também pela voz tão gostosa de ouvir. Mas ela tinha ensaio marcado para dali a pouco e tivemos que desligar. Ficaram para uma próxima a infância entre Méier e Água Santa, as longas temporadas vividas em São Paulo (sua morada desde 1986) e a regravação bluesy que fez com Milton Nascimento do samba “Me deixa em paz” (de seu parceiro Aírton Amorim e Monsueto), no histórico LP “Clube da Esquina” (Odeon, 1972) (ouça).

Muito obrigado pela entrevista, Alaíde! Que delícia conversar com você. Que seja bom o seu ensaio e...

“Ah, Pedro Paulo... Me dá seu endereço, para eu te mandar meu disco do ano passado, cantando o repertório do Zé Miguel Wisnik. Acho que você vai adorar!”

Obrigado de novo” Mas ó: só aceito se vier com dedicatória, tá?

Foto: Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

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