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Há 95 anos a estreia de dois sambas imortais gerou uma treta entre gigantes da música brasileira

Fernando Krieger

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“Ai, que fruta boa a tal do amor / Põe água na boca da pessoa / Quem a come encontra tal sabor / Que, quanto mais come, mais se cresce a fome”. Este é o estribilho de uma das mais famosas criações de Sinhô, “Cassino Maxixe”. Nunca ouviram falar? Mas certamente a conhecem, só que bem remodelada e com outro título, que será revelado mais adiante – por ora, basta dizer que todos gostam que se enroscam de escutá-la.


Lançada num 78 rotações da Odeon há 95 anos, em janeiro de 1927, na voz de Francisco Alves, e tendo do outro lado o também inédito “Ora vejam só”, do mesmo autor, a música somente alcançou a imortalidade depois que trocou de nome e de letra no ano seguinte. Ambos os sambas lançados neste disco acabariam se tornando pivôs de uma polêmica entre dois titãs de nossa MPB.

 

 

A história começa no teatro de revista, precisamente na comédia “Sorte grande”, de Bastos Tigre, cuja première, em junho de 1926, inaugurava o “Theatro Casino” do Passeio Público. Os jornais cariocas destacavam que “Cassino Maxixe”, “maxixe de salão” composto por José Barbosa da Silva, o popular Sinhô, sendo Bastos Tigre o autor da letra – informação encontrada na capa da partitura impressa mas ausente no rótulo do disco –, apareceria em um dos quadros da peça, servindo de base para um motivo coreográfico “inspirado nos tradicionais passos do ‘jogo da capoeira’” (O Imparcial, 10/06/1926). Os responsáveis por lançar a “nova dança” (como “Cassino Maxixe” foi classificado pelo mesmo jornal) eram o ator Ramos Júnior e a célebre Maria Lina – Maria Del Negri, conhecida anteriormente como Maria Lino –, atriz e dançarina ítalo-brasileira que assombrara Paris, Berlim e Londres no início da década de 1910 mostrando aos europeus o maxixe, nossa “dança excomungada” (na definição de Jota Efegê), ao lado do baiano Antônio Lopes de Amorim Diniz, o Duque.

 

Reprodução da pág. 28 do livro Nosso Sinhô do samba, de Edigar de Alencar (2ª ed, Funarte, 1981)

 

 

 

A composição, cujos versos aludem à velha história de Adão, Eva e seu fruto proibido – o subtítulo constante na partitura era justamente “A maçã prohibida” –, também chegou a ser interpretada ao vivo por seu próprio autor: Sinhô, além de exímio pianista, costumava atacar de cantor, ainda que informalmente. Ele e o bailarino J. Machado organizaram uma “Noite brasileira” no Teatro Lírico em março do mesmo ano; entre choros, tangos e canções, além de apresentações de dança, o Rei do Samba executaria músicas ao piano e mostraria “‘Casino Maxixe’, cantado pelo autor ‘Sinhô’ e seus amigos”, segundo o programa publicado no Correio da Manhã de 06/03/1927 e em A Noite do dia seguinte. Neste mesmo evento, de acordo com os jornais, Sinhô também iria cantar “Ora vejam só”, o samba do outro lado do disco recém-lançado pelo Rei da Voz.

 

Foi em 1928 que a música tirou a sua sorte grande. O jornal A Manhã de 13 de setembro anunciava para aquela noite, no Teatro Recreio, a première da revista “Cachorro-quente”, de Antonio Quintiliano, “com partitura dos festejados compositores Julio Cristobal, Sá Pereira e J. B. Silva (Sinhô)”. Da lavra deste último havia um samba interpretado pela atriz Luiza Fonseca: “Não se deve amar sem ser amado, é melhor morrer crucificado / Deus nos livre das mulheres de hoje em dia: desprezam o homem só por causa da orgia”... Mesma melodia de “Cassino Maxixe”, mas agora com novos versos. Um clássico instantâneo, destinado a se tornar um dos grandes êxitos do Rei do Samba, “Gosto que me enrosco” foi lançado em disco do selo Odeon em novembro daquele ano por Mário Reis, no lado B de outro estrondoso sucesso (seu e de Sinhô), também recebendo seu primeiro registro fonográfico: o samba “Jura”.

 

Musicalmente, a versão apresentada por Mário Reis difere bastante da interpretação de Chico Alves para “Cassino Maxixe”. O arranjo deste, executado com muita ginga pela Orquestra Pan American do Cassino Copacabana, parecia realmente feito para se dançar. Já Mário Reis veio com seu característico “canto falado” e uma interpretação mais cadenciada, mais lenta, com acompanhamento de dois violões cheios de bossa. O samba – classificado na partitura impressa como “choro-canção” – seria regravado apenas em 1951, novamente por Mário Reis, e a partir daí ganharia versões em 78 rpm dos mais diferentes intérpretes: Ivon Curi, Sólon Sales [gravação infelizmente ainda indisponível em nosso site], Mozart e sua bandinha, Fred Williams (gaita de boca) e Gilberto Alves.

 

Não é preciso explicar que quando uma música, dois meses após seu lançamento em disco, virava nome de bloco de Carnaval (fundado em janeiro de 1929 por foliões de Vila Isabel) e de burleta carnavalesca (escrita por Luiz Iglezias, segundo anúncio publicado em A Manhã de 19/01/1929), e tinha sua letra aparecendo nos principais periódicos da cidade (caso do Diário Carioca de 1º/02/1929, e do Jornal das Moças e da revista Shimmy, ambos de 07/02/1929), era sinal indiscutível de que havia caído nas graças do povo. Até na terra da garoa sua fama começava a despontar: o Diário Nacional de São Paulo de 12/02/1929, em matéria de Carnaval sobre “A origem religiosa dessa festa pagã”, informava logo de início que, no desfile do rancho carioca Mimoso Alecrim, “as vozes femininas e masculinas do bando” iam cantando o samba, cujo estribilho é publicado na matéria.

 

A expressão “gosto que me enrosco” não foi inventada por Sinhô: em 1916 ela já podia ser encontrada na legenda da charge política feita por K. Lixto para a capa da revista O Malho (edição de 26 de agosto). Mas é certo que a enorme aceitação da música ajudou a popularizá-la. “Deus nos livre das mulheres de hoje em dia” também não era assim tão original: frase semelhante havia sido utilizada pelo próprio Sinhô no título do samba “Deus nos livre do castigo das mulheres”, lançado em outubro de 1928 por Mário Reis. Outra semelhança entre as duas composições: a mulher é chamada em ambas de “parte fraca” por seu autor – embora a letra de “Gosto que me enrosco” indique exatamente o contrário.

 

Aqui, a mulher é quem vai para a orgia, desprezando o homem, que se vê obrigado (“com toda a fortaleza”) a descer de sua nobreza para fazer o que ela quer, numa inversão dos papeis masculino e feminino cantados pela música popular de então, onde o homem (o malandro) é quem ia para a gandaia, e a mulher que o perdoasse se quisesse tê-lo de volta.

 

Este é exatamente o mote de “Ora vejam só”, como explicam Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello em “A canção no tempo – Vol. 1” (São Paulo: Editora 34, 1997): “Sucesso absoluto no Carnaval de 1927, ‘Ora vejam só’ explora o tema ‘amor versus malandragem’, muito em voga na época”. Segundo Edigar de Alencar – em “Nosso Sinhô do samba” – também virou nome de uma revista de autoria de Cardoso de Menezes, estreada no Teatro São José em setembro de 1928.

 

Francisco Alves havia relançado “Ora vejam só” em fevereiro deste ano, novamente acompanhado pela mesma Orquestra Pan American do Cassino Copacabana que participou da gravação original. A nova versão trazia, além da segunda parte já cantada por Chico Alves anteriormente – “A malandragem eu não posso deixar / Juro por Deus e nossa senhora...” –, uma outra segunda parte: “A malandragem é um curso primário / Que a qualquer é bem necessário / É o arranco da prática da vida...”. Uma “esquisita definição de malandragem”, nas palavras de Edigar de Alencar. Mário Reis também fez seu registro da música, com acompanhamento de Vero (Radamés Gnattali) e sua orquestra, em 1951.

 

E a tal treta? Vale explicar que aconteceu num tempo em que os autores não se preocupavam em registrar suas criações até que elas fossem gravadas ou editadas, o que só fez aumentar a confusão. Nas décadas seguintes, a história foi lembrada e relembrada inúmeras vezes pelas mais diversas fontes, não raro com informações desencontradas.

 

Nos seus livros, Edigar de Alencar e a dupla Jairo-Zuza afirmam que o grande compositor e pintor Heitor dos Prazeres, o Lino do Estácio, figura de proa da nossa música popular, reivindicava para si tanto o estribilho de “Ora vejam só” – “Ora vejam só a mulher que eu arranjei / Ela me faz carinhos até demais / Chorando ela me pede: ‘meu benzinho, deixa a malandragem se és capaz’” – quanto a primeira parte do “Gosto que me enrosco”. Em artigo publicado no Jornal do Brasil (Caderno B) de 13/09/1962, o crítico musical José Ramos Tinhorão – que conviveu bastante com Heitor dos Prazeres – diz que Sinhô teria escutado “Ora vejam só" na mítica festa da Penha, onde os maiores nomes da música popular se apresentavam, entre rezas e quitutes das tias baianas.

 

A controvérsia teria tido início em 1928, durante a temporada de “Cachorro quente” no Recreio, onde Luiza Fonseca encantava com “Gosto que me enrosco”. De acordo com o fascículo dedicado a Sinhô da “Nova história da Música Popular Brasileira” (Abril Cultural, 1977, 2ª ed. revista e ampliada), a peça foi assistida pelo compositor Rubem Barcellos, irmão de Alcebíades Barcellos, o lendário Bide do Estácio. Mano Rubem foi então bater para Heitor dos Prazeres que estavam usando músicas suas de maneira indevida e com a assinatura de outro. Heitor, à época “um simples marceneiro, morador na Praça 11 de Junho”, segundo o texto do fascículo, num primeiro momento teria duvidado, mas após receber outras confirmações foi procurar Sinhô.

 

Tentando encontrar o rival – sem sucesso – na festa da Penha e na Guitarra de Prata, loja de instrumentos frequentada por Sinhô, finalmente descobriu o endereço deste e o surpreendeu em sua residência, em Santa Teresa. O encontro – narrado décadas depois para Tinhorão por Heitor e registrado nas páginas do fascículo da Abril Cultural, do qual o crítico musical era colaborador – “foi extremamente embaraçoso para ambos”: Sinhô falava sussurrando, de modo a não deixar sua companheira, Nair, perceber o teor da conversa; Heitor, antes indignado, “procurava poupar do vexame o desafeto”. Por fim, Sinhô, argumentando ter ouvido os sambas sem conhecer seu dono, teria soltado a frase que se tornou célebre: “De fato, eu apanhei por aí, no ar. Mas você sabe como é esse negócio, Heitor. Samba é como passarinho. É de quem pegar”.

 

O outro acedeu, porém reclamou seus direitos. Ficou então combinado que Sinhô, tão logo recebesse um dinheiro (pois estava “desprevenido” naquele momento) referente à venda de alguns pianos da Casa Carlos Wehrs – ele levava comissão nesta transação –, começaria a pagar sua dívida. Mas Heitor acabou desistindo da cobrança “quando a tuberculose acelerou a decadência física do rival”, que viria a falecer em 04/08/1930 por hemoptise fulminante, aos 41 anos, em plena Baía de Guanabara, na barca que o levava da Ilha do Governador ao antigo Cais Pharoux, na Praça XV de Novembro.

 

Antes disso, como vingança pela suposta apropriação indébita de suas criações, Heitor resolvera não deixar o episódio sem resposta. Dois sambas de sua autoria chegaram ao disco ainda em 1929: “Olha ele, cuidado”, na voz de Alfredo Albuquerque (“Eu fui perto dele pedir o que era meu / Ele, com cinismo comigo, chorava mais do que eu / Olha ele, cuidado / Ele, com aquela conversa, é danado / Olha ele, cuidado / Que aquele homem é danado”); e o que trazia no título a alcunha que teria enfurecido Sinhô, a ponto de este ter usado seu prestígio com as gravadoras para impedir que a letra original – que o citava nominalmente – fosse gravada: “Rei dos meus sambas”. Só no final do ano a composição chegou ao disco, com novos versos e a parceria de I. G. Loiola, também seu intérprete.

 

Em depoimento de Heitor dos Prazeres ao Museu da Imagem e do Som do Rio, no primeiro dia de setembro de 1966 (o sambista-pintor viria a falecer no quarto dia do mês seguinte), noticiado pelo Jornal do Brasil em 02/09/1966, ele contou que conseguiu de Sinhô somente 38 mil réis. Numa conversão aproximada, admitindo-se que mil réis correspondem hoje a cerca de 123 reais, Heitor teria recebido de Sinhô, em valores atuais, R$ 4.674. Muito pouco, haja vista o sucesso extraordinário de ambas as composições. Hoje em dia, com esta indenização, ele poderia comprar mais ou menos 7 cestas básicas (R$ 665,60 no Rio, em novembro de 2021), e ainda sobrariam uns “robustos” 15 reais para pincéis e tintas...

 

 

Imagem que ilustra esse post: Sinhô e Heitor dos Prazeres no final da década de 1920

 

 

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