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Aracy de Almeida e o moreno que ‘fez bobagem’: os 80 anos de um clássico de Assis Valente

Pedro Paulo Malta

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O baiano Assis Valente (1911-1958) foi não só um dos maiores compositores da sua prendada geração – a mesma de seu conterrâneo Dorival Caymmi e mais Noel Rosa, Wilson Batista e tantos outros mestres do samba. Foi também um dos que mais se dedicaram a escrever sambas na voz feminina, num tempo em que as compositoras ainda não tinham vez na canção brasileira. E no caso de Assis a voz feminina tinha nome: Carmen Miranda, cantora que o tinha na conta de seu compositor favorito. São dele uma penca de sucessos dela: “Goodbye”, “Camisa listada”, “E o mundo não se acabou” e “Recenseamento”, só para citar aqueles em que a mulher é o sujeito da letra.

Até que veio maio de 1939 e Carmen se mudou para os Estados Unidos, trocando o samba pelo sucesso como atriz de Hollywood. A novidade desconsertou Assis, que até conseguiu emplacar “Brasil pandeiro” (feito sob medida para ela) numa gravação dos Anjos do Inferno (1940), mas ficou desnorteado sem a cantora-musa-porta-voz de seus sambas.

E assim chegamos ao disco-tema deste post: o 78 rotações da Victor que chegou às lojas há exatos 80 anos, em março de 1942, com o encontro dos talentos de Assis e outra grande cantora de seu tempo: Aracy de Almeida, também saudosa de um amigo genial e decisivo em sua carreira, Noel Rosa, falecido precocemente em 1937. Assis já tinha até passado pelo repertório de Aracy – com a marchinha “A folia já chegou” e o samba “Não sei se é”, ambas para o carnaval de 38 – mas faltava um sucesso.

Aracy de Almeida relembrou o encontro de 1942 na entrevista que deu a Fernando Faro 30 anos depois, em 1972, no programa MPB Especial, da TV Cultura de São Paulo: “O Assis Valente era um autor que só dava as músicas pra Carmen Miranda. Então, um dia ele encontrou comigo e eu disse: ‘Assis, dá uma musiquinha pra mim!’ Porque, realmente, pra Carmen Miranda ele deu uma série de músicas geniais. Como 'Camisa listada' e outras músicas. ‘Goodbye amor’, músicas lindas mesmo. Mas pra mim então ele disse: ‘Tem uma musiquinha e tal. Tem dois sambas. Você quer fazer um disco?’ Eu digo: ‘Faço.’”

Na biografia do compositor, “Quem samba tem alegria” (Ed. Civilização Brasileira, 2014), o autor Gonçalo Junior conta que o encontro se deu no Largo da Carioca e que Assis teria convidado Aracy para ir à sua oficina de protético – sua ocupação diurna – ouvir os sambas. Um deles, intitulado "Fez bobagem", fisgou a cantora na mesma hora: assim como vários sucessos da Pequena Notável, era mais um exemplar da obra de Assis Valente na voz feminina, este parecendo sob medida para a voz chorosa de Aracy, que entrou em estúdio para gravá-lo no dia 20 de janeiro de 1942. O acompanhamento foi entregue a Luiz Americano e Seu Regional, no qual se destaca o pandeiro de João da Baiana, presente na gravação em alto e bom som.

O lançamento, em março de 1942, foi no disco Victor de número 34.882, trazendo no lado B o outro samba oferecido por Assis à cantora: o sacudido “Amanhã eu dou”, que apesar da ótima interpretação de Aracy (valorizando a letra marota e as bossas do samba), não teve nem de perto a repercussão do lado A, passando praticamente em brancas nuvens.

O sucesso de “Fez bobagem” foi como uma resposta aos que consideravam Assis Valente liquidado desde a última vez que seu nome havia circulado pra valer na imprensa. Isso depois de 13 de maio de 1941, quando ele tentou suicídio atirando-se do Corcovado: enganchado entre as árvores da encosta à direita da estátua do Cristo, foi salvo pelos bombeiros e virou personagem de um sem-número de matérias nos jornais e nas revistas que especulavam o motivo. Dívidas? Vícios? A distância de Carmen Miranda, agora estrela de Hollywood, desinteressada de seus sambas?

Seja como for, o novo sucesso na voz de Aracy levantou a bola do compositor Assis Valente, que seguiria tendo suas músicas gravadas nos anos seguintes, nenhuma dela com o sucesso dos anos 30 – a que mais se aproximou disso foi o samba “Boneca de pano”, lançado em 1950 pelos Quatro Ases e Um Curinga.

Assis tentou novamente contra a própria vida em maio de 1954, cortando os pulsos com uma navalha de barbeiro e sendo socorrido a tempo de evitar o pior. Até que no dia 11 de março de 1958 – há exatos 63 anos – veio a última tentativa, num copo de guaraná com formicida que bebeu num banco da Praça do Russell, no Flamengo, pouco antes das 18h. Tinha 47 anos. 

“Vestia calças azul-marinho e blusão amarelo. Em seus bolsos foram encontrados um par de óculos, uma carteira de identidade com o retrato rasgado, uma carta para a polícia e duas notas velhas de 5 cruzeiros”, descreveu Ary Vasconcelos na revista O Cruzeiro (22-03-1958), antes de contar que, na carta, Assis dizia estar “seriamente endividado”. “Pedia ainda a Ary Barroso que pagasse o aluguel atrasado de duas residências e acrescentava: ‘Vou parar de escrever pois estou chorando de saudade de todos e de tudo.’”

Sua obra, que já vinha sendo regravada na década de 1950 (com destaque para a marcha “Boas festas”, até hoje o grande hit natalino do repertório brasileiro), ganhou novo fôlego com outras regravações. Entre os sambas, um dos destaques foi justamente “Fez bobagem”, que virou uma espécie de queridinho das vozes femininas, ganhando novas interpretações de cantoras como Elza Soares (1961), Nara Leão (1969), Marlene (1970), Márcia (1973), Zezé Motta (1980), Olívia Byington (1997), Ana Martins (2005) e Verônica Ferriani (2009). E também do cantor Marcos Sacramento, que gravou “Fez bobagem” em 1994 e 2003

Foto: Aracy de Almeida, em 1948, por Chico Albuquerque / Acervo IMS

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