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Todos os sambas que o samba tem, no novo livro de Luís Filipe de Lima

Pedro Paulo Malta

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O frequentador ou frequentadora desta Discografia Brasileira que digitar a palavra “samba” no campo “gênero” de nossa busca há de levar um susto: pois além de sambas propriamente ditos, vai encontrar também seus incontáveis subgêneros: o samba-coco, o samba de roda, o samba-canção, o samba-rock... e mais uma infinidade de modalidades que dão uma medida do quanto é amplo – e igualmente complexo – o universo do samba.

Um sem-número de levadas, diferenças rítmicas, sotaques sonoros e outras nuances que podem causar uma certa desorientação a quem se vir neste emaranhado de caminhos. Pois cabe informar ao (ou à) visitante que já existe o guia pros que quiserem entender e conhecer essa história tão rica: o livro “Para ouvir o samba: um século de sons e ideias”, do violonista, arranjador e produtor musical Luís Filipe de Lima.

Publicação recém lançada pela Fundação Nacional de Artes, a Funarte, que apresenta em 320 páginas o resultado de um trabalho que vai muito além dos dois anos pandêmicos em que o autor se dedicou ao texto. Antes deles, vieram as rodas de samba que começou a frequentar na adolescência (na virada entre os anos 1970-80) e os múltiplos shows, discos e musicais que já produziu e/ou dirigiu já neste século. Fora as aulas que deu sobre o gênero (a convite do Museu da Imagem e do Som e da própria Funarte) e os estudos, pesquisas e teses que já fez – Filipe é doutor e mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

“O samba, afinal, é uma árvore frondosa e calçada por raízes profundas, repleta de ramos”, define o autor na apresentação da obra, nesta metáfora botânica e genealógica que traduz com precisão a amplitude de seu objeto de estudo. “Uns têm mais folhagem que outros. Uns florescem mais perto do tronco, outros se distanciam e engancham em outras árvores.” Todos esses ramos estão devidamente distribuídos e destrinchados nos 18 capítulos do livro, cada qual com seu panorama histórico e exemplares comentados.

De galho em galho, a condução do leitor ou leitora segue “um percurso seguro e inspirado”, como garante o compositor Martinho da Vila na quarta capa do livro. Já Nei Lopes, também compositor e escritor (como Martinho e Filipe), define a obra em seu prefácio como “uma espécie de enciclopédia da cultura do samba.” Outro mestre que avaliza “Para ouvir o samba” é o produtor e escritor Haroldo Costa, autor do texto da orelha: “O segredo da multiplicidade do samba reside em sua mutação permanente.”

Que ninguém espere, portanto, ler sobre o “samba puro”, “o samba autêntico” ou – pior – o “samba de raiz”. Afinal, como o próprio Filipe esclarece: “O samba é negro, mas também é branco. O samba é arcaico, mas também é contemporâneo. O samba é profano, mas também é religioso. O samba é proletário, mas também é de bacana. O samba se basta em si mesmo, tão diverso que é, mas também dialoga proveitosamente com outras expressões musicais. O samba é brasileiro da gema, mas está aberto para o mundo.”

Pedimos a ele uma seleção de fonogramas de nosso site que exemplificassem as modalidades de samba listadas em seu livro. O resultado vai na lista abaixo e também – para ouvir – na playlist associada a este texto. Antes, ele apresenta a seleção neste vídeo que gravou especialmente pra nós.

Divirtam-se!



1. Samba maxixado:
“Um samba na Penha” (Assis Pacheco, Álvaro Peres e Álvaro Colas), com Pepa Delgado e Mário Pinheiro. Odeon, 1904;

2. Samba do Estácio: “O que será de mim?” (Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves), com Francisco Alves e Mário Reis. Odeon, 1931;

3. Samba-choro: “Conversa de botequim” (Vadico e Noel Rosa), com Noel Rosa. Odeon, 1935;

4. Samba de breque: “O relógio lá de casa” (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins), com Moreira da Silva e Inezita Falcão. Odeon, 1945;

5. Samba sincopado: “Se você sair chorando” (Geraldo Pereira e Nelson Teixeira), com Roberto Paiva. Odeon, 1939;

6. Samba de gafieira: “Ginga número três (Ginga das palmas)” (Maestro Carioca), com Carioca e sua Orquestra. Repertório, 1956;

7. Samba-exaltação: “Isto aqui, o que é?” (Ary Barroso), com Moraes Neto. Odeon, 1941;

8. Samba de terreiro: “Falam de mim” (Noel Rosa de Oliveira, Éden Silva e Aníbal da Silva), com Zé e Zilda. Continental, 1949;

9. Samba-enredo: “Tiradentes [Exaltação a Tiradentes]” (Estanislau Silva, Penteado e Mano Décio), com Roberto Silva. Copacabana, 1955;

10. Samba carnavalesco: “O trem atrasou” (Paquito, Estanislau Silva e Arthur Villarinho), com Roberto Paiva. Victor, 1941;

11. Samba-coco: “Como tem Zé na Paraíba” (Manezinho Araújo e Catulo de Paula), com Jackson do Pandeiro. Philips, 1962;

12. Samba-canção: “Risque” (Ary Barroso), com Aurora Miranda. Continental, 1952;

13. Bossa nova: “Desafinado” (Tom Jobim e Newton Mendonça), com João Gilberto. Odeon, 1959;

14. Sambalanço: “Bolinha de sabão” (Orlandivo e Adilson Azevedo), com Sônia Delfino. Philips, 1963;

15. Samba-rock: “Mas que nada” (Jorge Ben Jor), com Jorge Ben Jor. e os Copa 5. Philips, 1963;

16. Samba-jazz: “Influência do jazz” (Carlos Lyra), com Célia Reis. Philips, 1962;

17. Partido-alto: “O samba é bom assim” (Norival Reis e Hélio Nascimento), com Jamelão. Continental, 1960;

18. O samba de todo o Brasil: “Samba do Arnesto” (Adoniran Barbosa e Alocin), com Adoniran Barbosa. Continental, 1953.

Foto: Pedro Paulo Malta

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