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‘Carinhoso’ e ‘Rosa’ por Orlando Silva: um dos mais emblemáticos discos da música brasileira completa 85 anos

Fernando Krieger

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Em outubro de 2009, a edição nacional da revista Rolling Stone, comemorando três anos de existência, convocou 92 especialistas, entre pesquisadores, produtores e críticos, para escolher as 100 maiores músicas brasileiras de todos os tempos. “Carinhoso”, de Pixinguinha e João de Barro, ficou em terceiro lugar; “Rosa”, de Pixinguinha, em 84º. O resultado, como costuma acontecer em enquetes deste tipo, teve defensores e detratores. Mas, se houvesse um concurso para apontar o melhor disco de 78 rotações da história da nossa música popular, o Victor 34181 gravado há exatos 85 anos, em 28/05/1937, com ambas as composições interpretadas magistralmente por Orlando Silva, seria um forte candidato ao título.

 

“Carinhoso” – eleita em 2008 pela revista Bravo a canção mais essencial da nossa história – já teve sua origem bastante contada e recontada, inclusive com as contradições que a cercam. A data correta de sua composição é desconhecida – e o próprio autor, Pixinguinha, não ajudava a elucidar o mistério: em seu primeiro depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em outubro de 1966, disse que ela havia sido feita entre 1923 e 1924; no segundo, em abril de 1968, falou que ela surgiu “por volta de 1916 e 1917”; e, para a revista A Cigarra de outubro de 1953, cravou o ano de 1925.

 

Pixinguinha também não definiu o gênero da sua composição. No livro “As vozes desassombradas do museu” (Museu da Imagem e do Som, 1970), que traz uma síntese dos depoimentos do artista ao MIS-RJ, há um trecho de sua fala que mais confunde do que esclarece: “Bem, quando eu fiz o ‘Carinhoso’, era uma polca. (...) eu o classifiquei de polca lenta ou polca vagarosa. Mais tarde mudei para chorinho. Outros o classificaram de samba. Alguns preferiram choro estilizado. Houve uma quinta classificação – samba estilizado – que eu coloquei para fins comerciais. (...) Se eu fizesse o ‘Carinhoso’ hoje, o chamaria de choro lento”. No rótulo do disco de Orlando Silva, a música está classificada como samba; na capa da partitura editada pela Mangione, “samba estylisado” (a tal classificação “comercial”).

 

No entanto, é como choro que ela aparece no selo da sua primeira gravação – instrumental e ainda sem a famosa introdução –, feita em outubro de 1928 pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga e lançada em dezembro do mesmo ano. A composição, que tem duas partes, causou bastante estranheza, como Pixinguinha explicou num de seus depoimentos ao MIS: “Naquela época, o choro tinha que ter três partes. Às vezes a terceira parte era a melhor. A gente pensava que a inspiração havia terminado e surgia a terceira parte bem mais bonita. Então, eu fiz o ‘Carinhoso’ e o encostei. Tocar esse choro naquele ambiente? Ninguém iria aceitá-lo”.

 

O crítico Cruz Cordeiro certamente não aceitou, mas por outro motivo. Ele, que na revista Phono-Arte nº 8, de 30/11/1928, havia chamado a atenção para “a influência das melodias e mesmo do ritmo dos norte-americanos” no choro “Lamentos”, também de Pixinguinha, voltou à carga contra o autor do recém-lançado “Carinhoso” na edição nº 11 da revista, de 15/01/1929: “Parece que o nosso popular compositor anda sendo influenciado pelos ritmos e melodias da música de jazz. É o que temos notado desde algum tempo e mais uma vez neste seu choro, cuja introdução é um verdadeiro fox-trot e que, no seu decorrer, apresenta combinações da pura música popular ianque. Não nos agradou”.

 

Curiosamente, Pixinguinha iria mais tarde admitir a interferência externa: “Compus o ‘Carinhoso’ mais ou menos em 1920. Era uma peça instrumental, com bastante influência do jazz americano”, disse em depoimento ao professor João Baptista Borges Pereira, colhido no Bar Gouveia em 27/04/1966 e publicado em 10/07/1983 no suplemento Folhetim da Folha de S. Paulo.

 

Mesmo “encostada”, a música ganharia mais duas versões em disco, ambas sob o nome “Carinhos”: a da Orquestra Victor Brasileira, dirigida pelo próprio Pixinguinha, em 1929, e a do bandolinista Luperce Miranda, em 1934. Os versos que a eternizaram iriam aparecer apenas em 1936 – e a origem destes seria contada de maneiras diferentes.

 

Há um certo consenso com relação a qual seria a verdadeira história do surgimento da famosa letra de João de Barro. Diversas fontes, como o livro “Yes, nós temos Braguinha” (Funarte, 1987), de Jairo Severiano, apontam para o seguinte episódio: em outubro de 1936, o Theatro Municipal do Rio abriu suas portas para um espetáculo promovido pela primeira dama do Brasil, dona Darcy Vargas, em benefício da obra assistencial Pequena Cruzada. A atriz e cantora Heloísa Helena, convidada a participar do evento, pediu a Braguinha uma canção nova. “Não possuindo nenhuma na ocasião, o compositor aceitou então a sugestão da amiga para que pusesse versos numa música já existente, o choro ‘Carinhoso’”, conta Severiano.

 

Braguinha procurou Pixinguinha no dancing onde este se apresentava, o Eldorado – hoje o Centro Cultural Carioca, ao lado do Teatro João Caetano, no Centro do Rio –, e escutou a melodia tocada pelo seu autor. Em depoimento a Jairo Severiano, disse Braguinha: “No dia seguinte, entreguei a letra à Heloísa que, muito satisfeita, me presenteou com uma bela gravata italiana”.

 

“A maioria não estava interessada em gravar o ‘Carinhoso’. Todos queriam gravar ‘Rosa’”, recordou Pixinguinha em depoimento ao MIS. Francisco Alves e Carlos Galhardo não se interessaram. Então a incumbência ficou a cargo de Orlando Silva – que, segundo Pixinguinha, também estava mais interessado na valsa “Rosa”. O Cantor das Multidões não teria levado muita fé na letra do choro, a julgar pelo depoimento do compositor Pedro Caetano em seu livro de memórias, “54 anos de música popular brasileira – O que fiz, o que vi” (Pallas, 2ª edição, 1988).

 

Pedro Caetano confessou que o irmão de Orlando, o também cantor Edmundo Silva, pediu a ele uma outra letra, porque Orlando ainda não estaria “muito compenetrado da mesma”. Caetano acabou fazendo novos versos, não utilizados. Anos depois, ao publicar a letra em seu livro – “Na mansidão / Do teu olhar / Meu coração / Viu passear / Uma feliz e meiga bonança / Quis alcançar / Sentiu esperança / Mas viu fugir / Sem lhe sorrir...” –, confidenciou: “(...) hoje, sinceramente não acho graça nenhuma, pelo sentido um tanto piegas dos versos e a cafonice de palavras já em desuso”.

 

Antes da letra de João de Barro, houve uma outra, como Sérgio Cabral revela no livro “Pixinguinha – Vida e obra” (Lumiar Editora, 1997). Cabral disse que ela foi criada pelo “compositor paulista Benoit Certain, que chegou a cantá-la num programa radiofônico, mas, pelo que se viu depois, não deve ter recebido a aprovação do autor da música”.

 

Em diversas ocasiões, Orlando Silva afirmou ter sido dele a iniciativa de convidar João de Barro para letrar o choro, levando-o ao dancing onde Pixinguinha se apresentava. No programa MPB Especial da TV Cultura, em 1973, o cantor deu a sua versão e exprimiu seu ponto de vista: “Aí surgiu um monte de história, teve um depoimento não sei onde que o Mário Lago dissera que o ‘Carinhoso’ foi feito primeiro para uma mulher cantar em teatro. Mas não é verdade. Tanto que ‘Carinhoso’ não tinha letra. Se fosse criação de uma mulher, não seria ‘Carinhoso’ e sim ‘Carinhosa’, certo?”.

 

As versões letradas de “Carinhoso” e “Rosa” foram gravadas por Orlando Silva em 28/05/1937 e lançadas num mesmo 78 rpm dois meses depois. O choro, com versos simples e despretensiosos, é daquelas músicas que todo mundo já nasce sabendo cantar: “Meu coração / Não sei por quê / Bate feliz / Quando te vê / E os meus olhos ficam sorrindo / E pelas ruas vão te seguindo / Mas mesmo assim / Foges de mim...”. Não se pode dizer o mesmo de “Rosa”, valsa-canção (conforme é classificada no selo do disco) com expressões um tanto complicadas e pernósticas: “mais ativo olor”, “a rósea cruz do arfante peito teu”, “alma perenal”, “sândalos olentes”, “láctea estrela”, “remir meus desejos”...

 

 

Lançada em disco em 1917 pelo “Chôro Pechinguinha” – como grafado no rótulo do disco –, com o próprio autor na flauta aos 20 anos de idade, esta versão ainda instrumental traz a valsa – que inicialmente chamava-se “Evocação” – na sua forma original, com a terceira parte que hoje é praticamente desconhecida, já que só as duas primeiras receberiam versos. A história da origem da sua letra também é confusa. A partitura de “Rosa” foi editada pela Mangione em 1937, e Pixinguinha, assim como nos selos dos discos de Orlando Silva e do Choro Pixinguinha, aparece como único autor. Mas ele próprio admitiu, num dos depoimentos ao MIS, que os versos seriam de Otávio de Souza, “um mecânico do Engenho de Dentro e muito inteligente”, que havia falecido bem jovem. Disse ainda que foi Otávio o responsável pelo novo nome da composição.

 

“Entrando no mérito da letra, é visível e até escandalosa a influência de Cândido (Índio) das Neves”, escreve Sérgio Cabral na sua biografia de Pixinguinha, corroborando a opinião de diversos pesquisadores, para os quais o verdadeiro responsável pelos versos seria alguém que se espelhava em Cândido das Neves, ou talvez fosse o próprio, autor de clássicos – “Noite cheia de estrelas”, “Jura de cabocla”, “A última estrofe”, “Apoteose do amor” – e parceiro de Pixinguinha em composições como “Foi muamba”, “Página de dor” e “Saudade de Pierrô”.

 

José Lino Grünewald fez uma análise bastante curiosa de “Rosa”, publicada no Correio da Manhã de 02/12/1964: “Seus versos traduzem o esfuziante delírio rococó de um primitivismo metafórico sem qualquer compromisso com o bom senso. ‘Rosa’ não faz sentido, é quase surrealista à outrance, com sua adjetivação à la diable. (...) É poesia, um círculo concêntrico de imagens, isoladamente de mau gosto, mas que, relacionadas, criam o élan inocente da irrealidade referencial”. Não obstante a dificuldade imposta pela letra quilométrica e exageradamente rebuscada, a melodia foi sempre uma das mais apreciadas da produção de Pixinguinha. A valsa, nos últimos anos, tornou-se mais popular após seu resgate por Marisa Monte, que a incluiu no LP “Mais” (lançado em 1991).

 

Em nossa base de dados existem 21 fonogramas de “Carinhoso” – grande parte trazendo a versão instrumental do choro –, lançados na época dos 78 rotações. “Rosa” foi levada a estúdio cinco vezes no mesmo período, ganhando inclusive uma infeliz e sem graça paródia feita por Zé Fidélis, com uma (possivelmente intencional) péssima imitação de sotaque português.

 

Vinte e quatro anos após o histórico 78 rpm, Orlando Silva regravaria, em setembro de 1961, as duas músicas, juntadas novamente num mesmo disco em novembro daquele ano. “Carinhoso” foi seu carro-chefe por toda a vida, chegando a nomear um de seus mais famosos LPs. Mas o Cantor das Multidões deixou de interpretar “Rosa” depois do falecimento de dona Balbina, sua mãe, em 20/07/1968. Por diversas vezes, ele explicou a razão, como fez em sua participação no programa MPB Especial de 1973: “De cinco anos pra cá, eu nunca mais cantei ‘Rosa’. (...) dentro do meu repertório, que é imenso, a música que mamãe mais gostava era ‘Rosa’. E eu já tentei, em casa (...), mas não consigo; me vêm logo as lágrimas e eu não consigo cantar”.

 

O fato foi testemunhado pelo jornalista pernambucano Samir Abou Hana. No Suplemento Social do Diário de Pernambuco de 25/12/1971, ele relatou um encontro para lá de especial que teve com o artista: “(...) como na opinião de muitas pessoas Orlando Silva não canta ‘Rosa’ porque sua voz não alcança mais os agudos e graves quase simultâneos da melodia, eu perguntei ao ‘cantor das multidões’ se esse detalhe é verídico. E Orlando Silva abriu a garganta e cantou um dos trechos mais difíceis da composição (‘Tu és divina e graciosa, estátua majestosa do amor, por Deus esculturada e formada numa flor [sic]’). Depois começou a chorar...”.

 

 

Fotos: Coleções José Ramos Tinhorão e Pixinguinha / Acervo IMS 

Carinhoso e Rosa também estão em nosso site pixinguinha.com.br



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