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Sérgio Ricardo em 78 rpm: a ‘fase romântica’ que abriu caminho para o artista das causas sociais

Pedro Paulo Malta

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“Eu vou morrer e o violão vai ficar.” 

Assim disse Sérgio Ricardo ao jornalista Roberto D’Ávila, numa entrevista para a TV exibida em 2012. Uma fala sorridente, depois de relembrar sua imagem mais emblemática aos olhos do público: o momento em que abandona o III Festival da TV Record (1967) logo após ser impedido – pelas vaias impiedosas do público – de cantar o samba “Beto bom de bola”. A imagem se completa com Sérgio quebrando o violão no palco e atirando-o à plateia, depois de dizer: “Vocês ganharam! Vocês ganharam!” (veja aqui)

Uma imagem que destoava da competição musical que a família brasileira acompanhava pela televisão, mas não do espírito – contestador, inconformado, sem concessões – do próprio Sérgio Ricardo. Mesmo assim, acaba levando a um olhar reducionista sobre sua arte: seja a dos filmes que dirigiu, das peças de teatro que escreveu e também dos poemas, romances, manifestos e outras frentes artísticas e de batalha. E mesmo na música, nem sempre é lembrado pela “fase romântica”, das primeiras composições que lançou, ainda nos discos de 78 rotações.

Composições que, pelo lirismo, remetem ao Conservatório Santa Cecília, onde se deram as primeiras aulas de piano, aos oito anos, em Marília (SP), onde nasceu, há exatos 90 anos (18 de junho de 1932). “Meus pais eram afinados e à noite cantavam canções populares árabes, que meu pai dedilhava num alaúde”, escreveu no livro “Quem quebrou meu violão” (Ed. Record, 1991), relembrando o ambiente musical criado por Maria e Abdalla Lutfi, ele libanês de nascimento, dono de um armarinho. “Juntavam-se em frequentes reuniões alguns parentes e seus novos amigos, dentre eles alguns vizinhos japoneses, animados pela voz de minha mãe.”

O rapaz viveu em Marília até os 17 anos, quando o tio materno Salim Mansur veio cumprir uma promessa que fizera: a de que levaria para o Rio de Janeiro o primeiro sobrinho que completasse o ensino ginasial. No caminho, viveu um tempo em São Vicente, no litoral paulista, onde teve a primeira experiência profissional, como faz-tudo na Rádio Cultura local, de propriedade do tio. “Tínhamos que ligar o transmissor, ler a propaganda, anunciar as músicas, selecioná-las e fazer a operação técnica”, contou no livro, antes de afirmar que o dia-a-dia entre os discos – nacionais e estrangeiros, populares e de concerto – valeu por “um curso intensivo de história da música.”

Já instalado no Rio, aprofunda-se nas duas atividades. A radiofônica, como locutor na Rádio Vera Cruz. E a musical, matriculado no Conservatório Nacional, onde teve professores do quilate do flautista alemão H. J. Koellreutter e do maestro pernambucano Moacir Santos. Também se arriscou como ator, em trabalhos na TV Rio e, mais adiante, na Tupi de São Paulo. Foi lá, em meados de 1954, que ganhou seu nome artístico, criado por locutores da emissora que consideraram “Sérgio Ricardo” mais radiofônico que seu nome de batismo, João Lutfi. “Fui galã por muito pouco tempo”, diria à revista Manchete (22-09-1973). “O apelo da música era bem maior do que as frases apaixonadas das telenovelas.”

De fato, mais duradouro foi o trabalho como pianista da noite carioca, em boates como o Corsário, na Barra da Tijuca, o Cabaré Novo México, na Lapa, e o Posto Cinco, em Copacabana, onde substituiu ninguém menos que Tom Jobim. Com as mãos no teclado, atravessou madrugadas tocando repertório variado (sobretudo estrangeiro), até que no Chez Colbert, também em Copacabana, a proprietária da casa, Eunice Colbert, o incentivou a cantar. 

Dali a algum tempo saía seu primeiro disco, em setembro de 1957: um 78 rotações da RGE trazendo duas interpretações de Sérgio para composições de outros autores: o samba-canção “Sou igual a você” (Nazareno de Brito e Alcir Pires Vermelho) e a toada “Vai jangada” (Geraldo Serafim e Newton Castro). O jornal A Noite (04-12-1957) o apontou como uma das revelações do ano, como escreveu Milton Salles, na coluna Discos, destacando o “promissor Sérgio Ricardo, que estreou com esse belo número que é ‘Vai jangada’”.

Já na boate Dominó, outra de Copacabana em que trabalhou, teve na plateia a cantora Maysa, levada por Nazareno de Brito, amigo em comum dos dois. Ela ouviu Sérgio Ricardo interpretar a canção romântica “Buquê de Isabel”, de autoria dele, e saiu determinada a gravá-la, como o fez no início de 1958, num disco da mesma RGE – marco do lançamento fonográfico de Sérgio como compositor. Já em 1959 ele teria outra composição lançada num 78 rpm de Maysa: “Esse nosso olhar”.

Esta última foi regravada logo depois pelo próprio Sérgio, com o nome de “O nosso olhar”, num disco que tinha na outra face mais um exemplar de sua fase romântica: o samba “Ausência de você”. Ambas as gravações foram incluídas no repertório do LP “A bossa romântica de Sérgio Ricardo”, lançado no início de 1960. “É um valor esse rapaz dentro na nova trilha artística da música. E um valor respeitável, diga-se de passagem”, escreveu no Diário Carioca (29-07-1960) o crítico Alberto Rego, para quem “o musicista e letrista é superior ao cantor”, embora goste de sua voz, “num estilo novo de interpretação, à maneira de João Gilberto”.

“O nosso olhar” funcionou como um cartão de visitas para Sérgio dentro do próprio meio artístico. Dori Caymmi, que até ali só tinha ouvidos para João Gilberto, foi um que passou a prestar atenção àquele “jovem romântico de Marília”, como disse numa postagem no Instagram. Já Caetano Veloso, na mesma rede social, inclui a música entre suas favoritas: “João Gilberto cantava lindamente”, “mas não a gravou (e deixou de cantá-la cedo) por causa da palavra ‘veneno’”, escreve o compositor baiano. “Era uma recusa estética que soava como uma superstição.”

João Gilberto foi, de fato, um dos bons amigos de nosso personagem na década de 1950, antes do estouro da bossa nova e das reuniões em apartamentos como o de Nara Leão – João chegou a se abrigar em sua casa por um tempo. Assim, nada mais natural que Sérgio se aproximasse não só da estética, como do repertório bossa-novista. Como no 78 rotações que fez em dezembro de 1960, interpretando de um lado o clássico “Fim de noite” (Chico Feitosa e Ronaldo Bôscoli) e, do outro, “Esquecendo você” (Tom Jobim). 

Na noite, Sérgio Ricardo seguiu com as apresentações nas casas noturnas, divulgando sobretudo suas próprias composições. Foi o caso do samba “Rosa do mato” (parceria com Geraldo Serafim) e da toada “Cafezinho”, ambos lançadas num 78 rotações de 1957, com direito a crítica no Jornal do Commercio (09-12-1957), que os define como os “números mais aplaudidos nas boates e rádios em que ele atua”.

Outro desses números foi o que Dick Farney ouviu e, imediatamente, se interessou por gravar. Antes, porém, resolveu perguntar a Sérgio se ele toparia mudar um acorde da harmonia. “Só não podia imaginar que ao manifestar meu desacordo ele fosse desistir da música”, relatou o compositor no livro “Quem quebrou meu violão”. “Perdi assim a minha primeira chance de ser gravado pelo maior ídolo da música romântica brasileira.”

A música era “Poema azul”, que acabou sendo gravada duas vezes em discos de 78 rotações: primeiro em 1959, pela cantora Heleninha Costa, e depois em 1960, pela cantora e atriz Lueli Figueiró. Esta última, gaúcha na nascimento, foi casada com Sérgio Ricardo, de quem também gravou “O relógio da vovó”, em 1959, e “Amor ruim”, em 1961.

Até que veio “Zelão”, o samba que começou a nascer durante um temporal, quando Sérgio viu uma casa desabar na favela que olhava pela janela de seu apartamento, no Humaitá, zona sul do Rio de Janeiro. Mais tarde nesse mesmo dia, a ideia se completou enquanto assistia a um telejornal em que o repórter perguntou a uma desabrigada pela chuva sobre como levaria a vida após o temporal. “Aqui não vai ter muito problema com isso não”, disse a entrevistada, como Sérgio escreveu em seu livro de memórias. “Um pobre ajuda o outro pobre até melhorar.”

“Zelão” chegou às lojas em dois discos de 78 rotações de 1960: primeiro um do próprio Sérgio Ricardo, lançado em junho pela Odeon, e depois num dos Cariocas, que saiu em outubro pela Continental. Era um marco na carreira do artista, não só por ser seu primeiro – e possivelmente o maior – sucesso, mas também por abrir um novo capítulo em seu repertório: o da arte comprometida com a realidade social dos brasileiros. “Não, eu não sou mais o Sérgio Ricardo da época da bossa nova. O mundo se transformou e, com ele, a minha visão das coisas”, diria à coluna Gente, do Jornal do Brasil, em 17-11-1969.

Nesta época, já era conhecido também por trilhas sonoras como a do filme “Deus e o diabo na terra do sol”, obra-prima de Glauber Rocha (1964). Por LPs de carreira como “Dançante nº 1” (1959), o já citado “A bossa romântica de Sérgio Ricardo” (1960) e também “Depois do amor” (1961), “Um SR. talento” (1963) e “A grande música de Sérgio Ricardo” (1967). E por sua trajetória de cineasta: já havia feito o curta “O menino da calça branca” (1962) e o longa “Esse mundo é meu” (1964), e ainda faria “Juliana do amor perdido” (1970) e “A noite do espantalho” (1974).

E ainda pela participação no famoso show de bossa nova no Carnegie Hall, em Nova York, em novembro de 1962. Além, claro, pelo festival da Record em 1967, com o violão quebrado em público – gesto pelo qual, ao contrário do que lhe pedira a emissora, nunca se desculpou. E nem teria por que. “A partir daí, eu fui o cara mais perseguido da censura, tanto assim que meu nome desapareceu do mercado e hoje em dia ninguém sabe quem sou”, disse a Charles Gavin em 2015, no programa O Som do Vinil, do Canal Brasil. 

Seguiu lutando em frentes diversas: lutando pelo direito autoral – como em 1973, com a criação da Sociedade Musical Brasileira, a Sombrás (rebatizada Amar-Sombrás em 1980). Liderando o bem-sucedido movimento pela posse de terra para os moradores do Vidigal, morro da Zona Sul do Rio onde passou a viver em 1979. Abrindo espaço para novos artistas no “Palco Livre”, iniciativa que criou em Niterói, nos primeiros anos do século 21. Escrevendo livros, criando novas trilhas sonoras, dirigindo programas de TV e dedicando-se à pintura.

Linguagens artísticas múltiplas que, após sua morte (aos 88 anos, em 23 de julho de 2020), mostram o quanto seu legado vai além das lembranças do festival de 1967. “Continuo sonhando com a salvação de meu país”, escreveu em seu livro de memórias, “e por isto às vezes carrego nas tintas contra aqueles que retardam seu processo, descrentes ou desinteressados na transformação e evolução do nosso povo, os que chamo de abutres, os senhores no sapato flutuante.”


>> Além das fontes de pesquisa citadas no texto, outra fundamental para esta postagem foi o site Sérgio Ricardo Memória Viva, criado e mantido pela família do artista, a quem agradecemos pela riqueza das informações prestadas. 
 

Foto: Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

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