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    Uma palhoça que deu samba: os 90 anos de uma ‘cantada’ de breque que não envelhece

    Pedro Paulo Malta

    tocar fonogramas


    Palhoça: segundo o “Dicionário Aurélio”, “casa ou cabana coberta de colmo ou palha, encontrada nas regiões tropicais; palhal, palheiro”. No “Houaiss”, sabe-se também que pode referir-se a uma “casa rústica, pobre, palhota, palhote”. Já Antônio Geraldo da Cunha, em seu imprescindível “Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa”, ensina que o vocábulo teria surgido como uma “alteração de palhaça (< palh•a + -aça), por inflexão de choça”, que por sua vez – de acordo com o Aulete – significa “cabana, casa pequena e simples, feita de ramos de árvores ou de colmo”.

    Na música popular, a palhoça está entre as maracangalhas, os ranchos-fundos, jererés e casinhas lá na Marambaia (só vendo que beleza!) acessíveis a qualquer um como refúgios benditos e necessários, ainda que imaginários, como a Pasárgada de Manuel Bandeira. Já na história do cancioneiro brasileiro ela remete também aos primórdios do samba de breque, quando Moreira da Silva, craque supremo da matéria, ainda não havia se aventurado na arte de aproveitar uma pauta do acompanhamento musical – o breque – para dizer gaiatices, barbaridades ou gírias da malandragem.

    Pois antes de Morengueira teve “Minha palhoça”, o samba de J. Cascata – pseudônimo do carioca Álvaro Nunes, contemporâneo de Noel Rosa na Vila Isabel dos anos 1930 – que, mesmo sem a popularidade de um “Com que roupa” ou “Palpite infeliz”, continua vivinho da silva. E mais do que isso: de tão revisitado e recriado por diferentes gerações de intérpretes brasileiros nos últimos 90 anos, pode-se dizer que virou uma espécie de xodó dos sambistas de bossa.

    Se você quisesse
    Morar na minha palhoça
    – Lá tem troça, se faz bossa
    Fica lá na roça
    À beira de um riachão
    – E à noite tem violão
    Uma roseira
    Cobre a banda da varanda
    E ao romper da madrugada
    Vem a passarada
    Abençoar nossa união

    Isso a partir de outubro de 1935, quando chegou às lojas de música o disco Odeon 11271, trazendo, no lado A, a primeiríssima gravação de “Minha palhoça”. A interpretação era de Sílvio Caldas, o cantor que, com o tempo, ficaria associado principalmente ao cancioneiro romântico (“o Seresteiro do Brasil”), mas na época era também um mestre no telecoteco, conforme demonstrado em sambas de bossa que lançou, entre eles dois clássicos de Ary Barroso – “Faceira (1931) e “Um samba em Piedade (1932) – e um de Wilson Batista: “Lenço no pescoço (1933).

    Na primeira gravação de “Minha palhoça”, realizada em 07-08-1935, Sílvio cantou “magnificamente”, segundo a avaliação da Gazeta de Notícias (27-10-1935), na qual se lia também que o acompanhamento – creditado no rótulo do disco ao grupo Choro Odeon – ficou a cargo do conjunto de Benedito Lacerda. Pena não haver crédito para o clarinetista encarregado da introdução e dos contracantos que costuram o registro inaugural do samba de J. Cascata.

    O compositor, que aliás já não era inédito em disco (sua serenata “O teu olhar” havia sido lançada em abril de 1935, por João Petra de Barros), teve aqui seu primeiro sucesso. Ou melhor, “um sucesso fora do comum”, na avaliação do jornalista Lourival Marques, da revista Radiolândia (07-07-1956), ou “um sucesso retumbante”, segundo o crítico Ary Vasconcelos, n’O Jornal (29-06-1962).

    Em plena evidência, o próprio J. Cascata virou tema de uma reportagem da revista Carioca (12-09-1936), à qual falou de seu início artístico, como cantor no programa do radialista Renato Murce, e deu suas impressões sobre música. “O amor e as suas aperturas sempre foram, em todas as épocas, as maiores causas das inspirações poéticas”, disse o sambista, antes de compartilhar seus próprios bastidores. “Os meus sambas sempre se basearam nesses dois motivos. Amando, compus ‘Minha palhoça’.”

    O compositor falaria outras vezes sobre seu primeiro sucesso, como relatou Ary Vasconcelos n’O Jornal (14-11-1958), com direito a uma justa referência: “O grande J. Cascata, em papo há dias no Juca's Bar, colocou entre suas frases musicais e letrísticas mais felizes aquela de ‘Minha palhoça’: ‘Uma roseira cobre a banda da varanda.’ Infelizmente, ela já havia sido pensada muito antes por Luiz Peixoto que a colocou exatamente assim em música de Hekel Tavares na velha canção ‘Casa de caboclo’.”

     Os criadores da palhoça: o autor, J. Cascata, e seus primeiros intérpretes, Sílvio Caldas e Luiz Barbosa / Reproduções de fotografias do Arquivo Nirez

    Outra referência fundamental nesta história deve ser feita a Luiz Barbosa, o chansonnier do samba que, antes da gravação inaugural de Sílvio Caldas, lançou “Minha palhoça” com sucesso no rádio, nos primeiros meses de 1935. Considerado “um dos sambistas máximos do Brasil”, na definição da revista Carioca (04-01-1936), o cantor era apresentado como “o célebre criador do samba com chapéu de palha” (Gazeta de Notícias, 30-01-1935), em referência ao assessório que transformou em instrumento e marca registrada.

    Falecido aos 28 anos (1938), vitimado por tuberculose, Luiz Barbosa seria lembrado para sempre pelas bossas – vocais e percussivas – com que dizia os sambas. E mesmo que “Minha palhoça” não esteja entre as poucas gravações (42 no total) que deixou, é de se imaginar o quanto deve ter deitado e rolado naquele samba. Afinal, charme ele tinha de sobra para dar conta daquela “cantada cínica e envolvente, bem típica do malandro deste e de outros tempos”, como o músico e pesquisador Luís Filipe de Lima definiu a letra de J. Cascata no livro “Para ouvir o samba” (Funarte, 2022).

    Tem um cavalo
    Que eu comprei em Pernambuco
    E não estranha a pista
    – Lá tem jornal, lá tem revista
    E uma Kodak
    Para tirar nossa fotografia
    – Vai ter retrato todo dia
    Um papagaio que eu mandei
    Vir do Pará
    Um aparelho de rádio batata
    E um violão que desacata

    Os pesquisadores Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello também deram destaque a “Minha palhoça” no referencial “A canção no tempo — vol. 1” (Ed. 34, 1997). “Todas as delícias da vida campestre — o pomar, o riacho, a passarada, a fonte ao pé do monte — são aqui oferecidas à mulher amada, para ela trocar a cidade pelo sertão. Mas, por via das dúvidas, o convite é reforçado com a promessa de alguns bens da civilização — um rádio, uma Kodak… — pois, afinal, conforto nunca faz mal a ninguém. Seguindo a linha ‘rancho-fundo’, tão em moda na época.”

    Mesmo assim, apesar de tantos predicados e do sucesso radiofônico e fonográfico, o samba só teve uma regravação na década de 1930 e esta foi feita na... Alemanha. Isso na gravadora Telefunken, onde o showman santista Bibi Miranda emprestou seu canto suingado – e em bom português – a “Minha palhoça”, em pleno 1939, ou seja: na Alemanha comandada por Hitler e a semanas de estourar a Segunda Guerra Mundial. Bibi, que vinha atuando como baterista em clubes noturnos da Europa, mal teve tempo de fazer a mala e embarcar no vapor Cuiabá, de volta à labuta nos cassinos de Santos.

    Passada a Guerra, só em 1956 a palhoça retornou aos discos, e justamente por Dilermando Pinheiro, aquele que “ouviu Luiz Barbosa, com ele aprendeu a manejar o chapéu de palha, ‘instrumento’ que o sambista carioca inventou e usou, tirando partido até da fita de seda, dos rebordos e do forro de pano”, como escreveu Lúcio Rangel, n’O Semanário (03-05-1956). Depois desta gravação, lançada no LP “Sambas do passado”, Dilermando ainda fez outra de “Minha palhoça”, em dueto com Cyro Monteiro, no disco “Teleco teco opus nº 1”, lançado com o registro do show homônimo, de 1965.

    Já em 2002, quando o telecoteco de J. Cascata ganhou a voz do então estreante Pedro Miranda, no CD coletivo “O samba é minha nobreza”, foi a vez do sucessor de Dilermando garantir a batucada. Este era Zé Cruz, percussionista mangueirense que abrilhantou o registro com seu Arroz – como ele carinhosamente chamava seu instrumento: um chapéu de palha (de arroz) pintado de branco com uma foto de seu professor colada no tampo, por dentro.

    O percussionista Zé Cruz em 2018, a foto de Dilermando Pinheiro no fundo de seu chapéu de palha (em fotos de Pedro Paulo Malta) e Dilermando com o parceiro Cyro Monteiro em 1962 (em foto do Arquivo Nacional)

    Mas foi nos anos 1950 que a palhoça ganhou novo embalo. No mesmo 1956, por exemplo, outro que o regravou foi o paulistano Risadinha, no LP “Na batida do samba”, com arranjos do pianista Vadico. Pena que, entre uma bossa e outra, o cantor tenha arrumado nova localização para a palhoça – perto e não à beira de um riachão – e facilitado suas condições de pagamento: o cavalo, em vez de trazido de Pernambuco, é comprado a prestação na versão de Risadinha.

    Em 1957, “Minha palhoça” ganhou suas primeiras duas gravações instrumentais, por Carolina Cardoso de Menezes e José Marinho e Seu Conjunto, e mais uma cantada. E acelerada – como se ouve no LP “Luiz Bandeira cantando no mid-night do Copacabana”, com o mestre do frevo solando em arranjo do maestro Copinha. Quem aprovou foi o colunista Milton Salles, do jornal A Noite (27-08-1957), animado com o “microssulco dançante” deste “pernambucano bom que é o Lulu”, como anotou o titular da coluna Discos.

    Tem um pomar
    Que é uma teteia, é uma beleza
    É mesmo uma gracinha
    – Criação, lá tem galinha
    Um rouxinol
    Que nos acorda ao amanhecer
    – Isto é verdade, podes crer
    A patativa quando canta faz chorar
    Há uma fonte na encosta do monte
    A cantar chuá, chuá...

    E até Sílvio Caldas regravou “Minha palhoça” – mais ligeira e com ajustes na letra (o pomar, que era “uma teteia, uma beleza” ficou “pequenino, uma teteia”) – em 1958, como que lembrando aos ouvintes de João Gilberto que o samba de breque, inaugurado em 1935 com a composição de J. Cascata, “constituiu-se na ‘bossa nova’ da época”, como salientou o colunista Carlos Alberto no Diário Carioca (10-06-1960), em plena ebulição do samba de banquinho e violão.

    Antes mesmo desta regravação, Sílvio já havia sido elogiado pelo “ritmo vivo, admirável, que a gente moça quase não ouve ou não sabe fazer e que é carioquíssimo, Rio puro”, quando cantou “Minha palhoça” no programa Noite de Gala, da TV Rio, em abril de 1953, conforme registrado na Coluna Rádio & TV do Correio da Manhã (24-04-1953), em texto não assinado e intitulado “Sílvio deu aula”. “Como é que uma terra que tem uma música gostosa assim pode se impressionar com boleradas e outras macaquices de cantores novatos e fiteiros?”

    Pois a regravação seguinte à de Sílvio foi feita pela “mais rebolativa das cantoras do rádio”, como o jornal Luta Democrática (13-11-1959) definiu a cantora Mara Silva, “artista exclusiva da Rádio Tupi” que fez bonito – dizendo a letra com troças e bossas – naquele 78 rotações que marcava sua estreia na gravadora Copacabana.

    Até que em 1961, ano que registra a morte de J. Cascata, de insuficiência renal, aos 48 anos (27-01-1961), sua palhoça reapareceu retrofitada, com jeitão de bossa nova, aliás curiosamente com o mesmo arranjo – de Carlos Monteiro de Souza – servindo a dois intérpretes diferentes. Um deles o virtuose Baden Powell e o outro, Lúcio Alves, com seus graves deslizantes e alguns enfeites – entre eles um “currupaco” de papagaio – que talvez tenham passado do ponto.

    “Nada disso lhe dá o direito de assassinar o samba”, avaliou Claribalte Passos, que assim escreveu na crítica ao LP de Lúcio, “Cantando depois do sol”, no Jornal do Brasil (15-06-1961). “Minha palhoça”, segundo o crítico, “na voz de Lúcio Alves, não é nada daquilo que estamos acostumados a ouvir”. “Achamos natural que o samba se modernize e, por isso, somos admiradores de João Roberto Kelly, Luís Antônio e da dupla Luís Reis-Haroldo Barbosa”, argumentou aborrecido, “mas as páginas da nossa música popular que se tornaram imortais, graças à beleza que mostram e à interpretação dos seus cantores, merecem ser respeitadas, como toda a arte que venceu o tempo e o espaço, apesar das novas tendências, que, quando são úteis, permanecem.”

    Já em clima de gafieira foram os registros seguintes lançados em disco: primeiro em 1962, com Astor Silva (trombone) e Oswaldo Borba (piano), e depois em 1965, com Moreira da Silva, o samba de breque em pessoa, dando seu recado acompanhado de big band. E aí veio o Quarteto em Cy, que em 1968 abriu a palhoça em quatro vozes, como o primeiro de muitos arranjos vocais que ainda seriam gravados, pelos conjuntos Cantolivre (sem ano definido: 1983-90), Trovadores Urbanos (2016) e Nós em Voz (2017).

    A cantora Mônica Salmaso, recordista de regravações de 'Minha palhoça' (em foto de Paulo Rapoport), e o bordado feito por Magna Araújo inspirado no samba (imagem reproduzida do site oficial da artista)

    Mas foi a partir da década de 1990, quando Zé Renato dividiu a palhoça com João Bosco no CD “Arranha céu: sobre as músicas e interpretações de Sílvio Caldas” (1994), que o velho samba ganhou uma nova leva de ótimas regravações. Só a cantora Mônica Salmaso, por exemplo, fez quatro: nos álbuns “Voadeira” (1999), “Nem um ai” (gravado em 2000, lançado em 2008) e o ao vivo “Alma lírica” (2012), além de um duo com Nailor Proveta registrado na série de vídeos musicais “Ô de casas” (2020), produzida para seu canal no YouTube, com direito a um bordado inspirado na palhoça.

    Outros duetos vieram no século 21, como o que Bebeto Castilho fez com Wilson das Neves (ô, sorte!) em 2007 e o da cantora Mart’Nália com o baixista Arthur Maia, este sobrinho-neto de J. Cascata, em 2011. Outros felizes frequentadores da palhoça por esta época foram os cantores Marcos Sacramento (2009) e Luna Messina (2013).

    Além da diva Bibi Ferreira, que matou a saudade do samba de breque ao cantá-lo com orquestra numa gravação de 2017, preocupada se os nova-iorquinos, para quem se apresentaria dali a duas semanas, entenderiam o gênero criado por J. Cascata. “Eu não sei como vou explicar em Nova York como é o samba de breque... Break samba?”, assuntou a eterna dama do teatro musical brasileiro, em breve diálogo com o regente da orquestra, Flávio Mendes, antes de aventar o porquê – “talvez por ser muito carioca” – de o samba de breque andar tão esquecido.

    Será...? Aguardemos as próximas visitas a “Minha palhoça”.

    Na imagem principal: o rótulo do disco Odeon 11271, que trazia a gravação original de "Minha palhoça" / Arquivo Nirez

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