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    Aurora, Isaura, Colombina... Abram a janela, formosas mulheres, para festejar os 110 anos de Roberto Roberti!

    Fernando Krieger

    tocar fonogramas

    “Como bom carioca, deu à sua terra momentos de felicidade e alegria, brilhando em sucessivos Carnavais com músicas de explosivo sucesso, tais como ‘Abre a janela’, ‘O homem sem mulher não vale nada’ e o antológico ‘Nós, os carecas’ (...). Mas aconteceu-lhe morrer em uma hora errada. Ninguém, quase ninguém, tomou conhecimento do fato (...)”. O obituário escrito por Oswaldo Santiago, publicado no Boletim Social da UBC (União Brasileira de Compositores) de maio-junho de 1968, é na verdade sobre Arlindo Marques Júnior, morto no Rio de Janeiro em 4 de junho daquele ano. Mas poderia perfeitamente ter sido usado quando do falecimento, na mesma cidade e também nas mesmas condições de quase total esquecimento, do seu amigo e parceiro mais constante, Roberto Roberti, em 16/08/2004 – exatamente uma semana após completar 89 anos.

    O compositor não foi o primeiro a ostentar este sonoro nome. Roberto Roberti (1907-1997) foi um pugilista italiano, ativo entre 1926 e 1937, e também o pseudônimo utilizado antes dele por outros dois conterrâneos seus: o ator, roteirista e diretor de cinema Vincenzo Leone (1879-1959), pai do famoso cineasta Sergio Leone, e o sacerdote Roberto Vittori (1575-1624), bispo de Tricarico. É possível que Santo Roberti e Yolanda Lopes não soubessem da existência de tantos homônimos quando batizaram seu filho Roberto, nascido em 09/08/1915, há 110 anos.

    Tanto ele quanto Arlindo eram tijucanos, colegas de Pedro II e estudantes de Direito. Com uma diferença de idade de quase exatos dois anos – Arlindo, mais velho, nasceu em 01/08/1913 –, eles formariam uma das parcerias mais vitoriosas e produtivas da música popular brasileira. Segundo levantamento feito nas páginas Discografia Brasileira e Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB), na internet, e também no acervo de partituras da Coleção José Ramos Tinhorão do IMS, a dupla Roberto Roberti-Arlindo Marques Júnior teve 111 músicas gravadas, sendo 104 na época dos 78 rotações e apenas 7 na era dos long-playings. Foram 74 composições feitas a quatro mãos e 37 criações dos dois juntos com auxílio de outros parceiros.

    O número pode ser maior, considerando as músicas que não chegariam ao disco. Na série biográfica dedicada a Roberto Roberti publicada na Tribuna da Imprensa em três partes (dias 9, 16 e 23 de janeiro de 1978), Osmar Frazão conta que as primeiras composições da parceria Arlindo-Roberto, nunca gravadas, foram o samba “Se o meu barracão falasse” e a marcha “Beijos a granel”. Há mais: o Diário da Noite de 28/06/1935 atribui dois sambas à dupla, “Em nome da lei” e “Para nunca mais”. Algumas fontes – como a Revista do Rádio de 18/11/1952 e A Cena Muda de 14/01/1953 – apontam ainda que a marcha “Tá na cara”, lançada em 1953 por Déo, seria de Wilson Batista com Roberto e Arlindo. No entanto, o selo do disco mostra Carlos Alberto como parceiro de Wilson.

    Quando se conheceram, por volta de 1933, Arlindo Coelho Marques Júnior já tinha quatro músicas suas gravadas em disco – duas valsas e duas marchas –, lançadas entre 1931 e 1932. Contudo, como disse à revista Carioca de 17/02/1940, acabaria se desinteressando pelo ofício de compositor. Foi Roberto o responsável por resgatá-lo. “Da amizade forte que logo se formou entre nós surgiu a ideia da formação da dupla. A persistência de Roberto fez-me resolver voltar às atividades radiofônicas, interrompidas ao primeiro passo”, revelou na entrevista. Duas das primeiras criações da nova parceria chegariam em 1935 ao acetato – e pela voz de uma das maiores cantoras da época.

    Foi uma tripla estreia: a de Roberto (aos 19 anos) na indústria fonográfica, a da nova parceria Arlindo Marques Júnior-Roberto Roberti em discos e a de Carmen Miranda na gravadora Odeon, após cinco anos na Victor. Na bolachinha estavam a marcha “Foi numa noite assim” – primeira a ser registrada em estúdio, no dia 29/04/1935 – e o samba “Queixas de Colombina” – gravado no dia 1º de maio –, com uma curiosidade na letra: aqui, a Colombina deixa o Arlequim de lado e resolve se declarar ao Pierrô. A “madrinha” da dupla levaria ao acetato outras quatro criações deles, como Arlindo recordaria na Carioca de 17/02/1940: “Carmen Miranda interpretou quase todas as nossas primeiras produções: ‘Capelinha do coração’, ‘Não fui eu’, ‘Deixa esse povo falar’ (...)” – esta última, uma aula básica de interpretação e bossa de Carmen, cujo êxito nos Estados Unidos seria celebrado em 1940 por Roberto Roberti e Humberto Porto em “Você é o sucesso da semana”.

    Roberto, ainda no início da carreira, passou pelo teatro de revista, fazendo música para as peças “Beco sem saída” (1937), de Luiz Peixoto e Gilberto de Andrade, e “Olá, seu Nicolau” (1938), de J. Maia e Arlindo Marques Júnior. Neste mesmo 1938, participou da criação da Sociedade Brasileira dos Compositores Musicais. Durante sua vida artística, ele estaria, de alguma maneira, ligado à causa do direito autoral: em 1941, segundo O Radical do dia 6 de abril, foi eleito subinspetor da Associação Brasileira de Compositores e Autores (ABCA). No ano seguinte, seria um dos sócios-fundadores (o de número 13) da União Brasileira de Compositores (UBC) e, em 1952, do Sindicato dos Compositores Musicais do Rio de Janeiro, do qual foi também tesoureiro.

    Ainda que praticamente inseparáveis, Roberto e Arlindo vez por outra resolviam “dar um giro com outros parceiros” – expressão usada por Arlindo Meira na Carioca de 17/02/1940. A primeira “pulada de cerca” de Roberto foi com Antônio Almeida, com quem fez em 1937 o samba “Por esta você passa”, gravado pelo Bando da Lua. Também com Almeida viria outro samba, “Não vou pra casa”, em 1940, pelas vozes de Joel e Gaúcho. Mas o primeiro grande estouro de Roberto teria que ser mesmo com Arlindo, na interpretação de um certo Cantor das Multidões que ambos haviam conhecido no lendário Café Nice e que já levara ao acetato, em 1936, quatro composições da dupla: os sambas “Se a orgia se acabar” e “Primeira mulher” e as marchas “Viva a liberdade” – editada em partitura com o título “Independência ou morte – Marcha de liberdade” – e “Dom Quixote”.

    “‘Abre a janela, formosa mulher / E vem dizer adeus a quem te adora’ (...). Ótimo na letra e na melodia, ‘Abre a janela’ foi o primeiro grande sucesso de Arlindo Marques Júnior e Roberto Roberti, uma boa dupla de autores carnavalescos. Este sucesso seria ajudado ainda pela interpretação de seu lançador Orlando Silva”, escrevem Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello no primeiro volume de “A canção no tempo” (Ed. 34, 1997). Gravado em dezembro de 1937 e lançado em fevereiro de 1938 – ou seja, às vésperas da folia –, foi um rolo compressor no Carnaval daquele ano, como recordava o seu intérprete, citado por Jonas Vieira em “Orlando Silva, o cantor das multidões” (Funarte, 2004, 3ª edição): “Era a música mais cantada por um bloco que saía na Casa da Moeda, com a participação de um grande número de foliões. Quando esse bloco escolhia e cantava uma música, era sinal de sucesso popular”, revelou Orlando.

    A força do samba seria tanta que, mais de três décadas depois, serviu como música incidental no início do samba-enredo “Lapa em três tempos”, que a Portela, segunda colocada no Grupo 1 do Carnaval carioca em 1971, levou à Avenida Presidente Vargas naquele ano. Os próprios Roberto e Arlindo não resistiriam a pegar carona no próprio sucesso, lançando no início de 1939, novamente através de Orlando Silva, o samba “O homem sem mulher não vale nada”, de nítida inspiração em “Abre a janela”, desde a melodia instrumental do início até o seu desenvolvimento harmônico.

    Neste ano, a parceria estava de vento em popa, chegando não só com marchas – como “Dona Laura”, cujo estribilho traz uma letra muito semelhante à do jingle que um certo banco usaria décadas depois para divulgar sua poupança: “O tempo passa, o tempo voa, e a dona Laura continua sempre boa” –, mas também com ótimos sambas: “Ai, amor”, na voz de Carlos Galhardo, “Música, maestro”, por Dircinha Batista, e “Você me maltrata”, que Mário Reis gravou em dezembro e lançou em janeiro de 1940, no primeiro retorno do cantor à vida artística após seu afastamento em 1936. Em outubro de 1939, a já famosa dupla Arlindo Marques Júnior-Roberto Roberti foi o destaque do programa “Vida pitoresca e musical dos compositores”, apresentado por Lamartine Babo na Rádio Nacional.

    Parceiros: com o fiel Arlindo Marques Jr. (ao piano) e com Mário Lago, co-autor de 'Aurora', em fotos da revista O Cruzeiro – edições de 17-05-1952 e 22-02-1941, respectivamente

    O Carnaval de 1941 traria outro estouro retumbante para Roberto Roberti, desta vez ao lado de Mário Lago: uma marchinha que, por si, valeria um post inteiro, para que se pudesse contar as curiosidades desse megasucesso, como as diferentes versões sobre a sua origem. Tendo vencido a barreira do tempo é até hoje cantada com força nos blocos carnavalescos –, rompeu também as fronteiras geográficas, como mostrava a Carioca em suas edições de 05/07/1941 – “‘Aurora’, a popularíssima marcha de Mário Lago e Roberto Roberti, venceu nos Estados Unidos. (...) O big hit lançado por Joel e Gaúcho já mereceu, até agora, nada menos de dezesseis gravações” – e de 11/10/1941 – “E, de acordo com o depoimento do industrial João Daudt de Oliveira, é um dos maiores cartazes de propaganda do Brasil na terra de Tio Sam”.

    Na versão em inglês de Harold Adamson, há uma introdução cantada apresentando Aurora como uma moça do Rio de Janeiro que dança num pequeno café de rua. Vem então a melodia original, com nova letra: “You’re a sweetheart in a million, oh oh oh oh, Aurora...”. Pelas vozes das Andrews Sisters, a insincera pequena foi parar no filme “Segure o fantasma” (“Hold that ghost”), de 1941, da dupla de comediantes Abbott e Costello (ouça no final do trailer). Outra das muitas versões feitas nos Estados Unidos foi a da popular cantora Helen O’Connell. Alguns anos depois, “Aurora” chegaria ainda mais longe, de acordo com A Cena Muda de 04/03/1947: “Segundo informa ‘Variety’, o grande semanário americano, ‘Aurora’, a célebre marchinha de Roberto Roberti, é, presentemente, um grande sucesso em Paris (...)”. Em 1952, Roberto e Arlindo, ao lado de Antônio Almeida, iriam reutilizar o famoso “ô ô ô ô, Aurora” na marcha “Saudade da Aurora”, também lançada por Joel e Gaúcho.

    Roberto foi um dos compositores que aderiram – assim como parte dos jornais e revistas da época à cruzada antimalandragem do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado no final de 1939 pela ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas para “centralizar a relação com os jornais e as rádios, coordenar a propaganda oficial, censurar os espetáculos e a imprensa, organizar campanhas e manifestações cívicas e fortalecer a imagem do regime”, como explica Franklin Martins no primeiro volume de “Quem foi que inventou o Brasil?” (Nova Fronteira, 2015). O autor segue contando: “Uma das primeiras campanhas do DIP foi a da valorização do trabalho. (...) Compositores e intérpretes foram estimulados a cantar as excelências do trabalho honesto e produtivo e a recriminar o ócio e a malandragem”.

    “As melodias fazendo o elogio da malandragem estão sendo substituídas, felizmente, pelas produções que apontam as vantagens do trabalho produtivo. Basta citarmos, entre outros exemplos, o samba ‘Eu trabalhei’, de Jorge Faraj e Roberto Roberti, incluído no repertório de Orlando Silva”, apontava a revista Carioca de 11/01/1941, um dos muitos periódicos que louvaram a mudança de perspectiva e de posição dos compositores populares. “O batente faz bem!”, exclamava Marcello Vianna no título da reportagem de sua autoria publicada na mesma Carioca em 1º de fevereiro daquele ano, que mostrava Orlando Silva numa fotonovela, “interpretando”, através de fotografias, a letra do samba de Faraj e Roberti.

    Revista Carioca, 01-02-1941 (Coleção José Ramos Tinhorão/IMS)

    Este último lançaria pelo menos mais três sambas em apoio à iniciativa do DIP: um deles era “Trabalha” (1944), em parceria com Pedro Camargo. O outro foi “Deixa passar o trabalhador” (1946), ao lado de Arlindo. Já o terceiro, feito a quatro mãos com Herivelto Martins, gravado por Francisco Alves em novembro de 1944 e lançado em janeiro de 1945, seria mais um golaço na carreira de Roberto, como explicam Jairo e Zuza:

    “Tudo o que Herivelto Martins compunha nos anos quarenta era logo gravado e, quase sempre, transformado em sucesso. (...) E essa preferência justificava-se, pois as composições eram animadas e bem feitas, como ‘Isaura’, que, em 1977 [OBS: na verdade, 1973], mereceu uma revisitação de João Gilberto” – ao lado de Miúcha, em participação especial. Com estribilho de Roberto Roberti – “Ai, ai, ai, Isaura, hoje eu não posso ficar / Se eu cair nos seus braços, não há despertador que me faça acordar (eu vou trabalhar)” –, o samba, segundo Jairo e Zuza, “trata do dilema de um indivíduo que reluta em ficar com uma mulher, porque teme perder a hora do trabalho (...). Mas na segunda parte – só de Herivelto – o sujeito parece optar pelo trabalho, embora admita uma alternativa: ‘Se você quiser eu fico / Mas vai me prejudicar...’”.

    Vez por outra, Roberto abria a janela para a política entrar em seu repertório (mas sempre com muito bom humor), como em 1942, quando ele e Haroldo Lobo ridicularizaram as tropas nazistas do deplorável führer alemão na marcha “Que passo é esse, Adolfo?”. Anos depois, ao lado do onipresente Arlindo, ele iria compor duas marchinhas favoráveis a Getúlio Vargas, eleito presidente pelo voto popular em 1950: “O pequenino é o maior” (parceria deles com J. Batista), louvando a volta do ex-ditador ao poder, e “Se eu fosse o Getúlio” (1954). Mas também haveria espaço para a crítica, como no baião “Tudo sobe, minha gente” (1952) e na “Marcha da saúva” (1954), ambos também de autoria da dupla.

    Que obteve mais uma consagração popular no Carnaval de 1942 através de uma marchinha super maliciosa: “Nós, ‘Nós, os carecas’, com as mulheres somos maiorais / Pois, na hora do aperto, é dos carecas que elas gostam mais”. Foi gravada pelos Anjos do Inferno em 10/12/1941. No dia seguinte, outra marcha de Roberto Roberti, “Pequena sapeca”, em cima do mesmo mote – desta vez feita a seis mãos com Russo do Pandeiro e Humberto Porto –, seria levada ao estúdio por Nilton Paz: “Oh, que pequena sapeca / Só gosta de velho careca”.

    “Nós, os carecas” foi mais uma das criações de Roberto que teriam vida longa, não só nos Carnavais vindouros: em 1950, os mesmos Anjos do Inferno a apresentaram no filme mexicano “Pobre corazón” bem a caráter – ou seja, com as cabeças devidamente despeladas. Roberto e Arlindo ainda voltariam ao tema em 1952, com a marcha “O careca não tem cabelo”.

    Os 'carecas' Anjos do Inferno no filme 'Pobre corazón', em foto do Boletim Social da UBC (outubro de 1950) – Coleção José Ramos Tinhorão/IMS

    Somente de Roberto, sem parceiros – caso raro em sua discografia –, é um também raro fox, “Dos meus braços tu não sairás”, cuja gravação, feita por Nelson Gonçalves em 1944, alcançou tanta popularidade que o cantor a escolheria como prefixo de suas audições no rádio. Mas as marchas e os sambas eram mesmo o forte de Roberto, que nos anos 1940 chegou com ótimos representantes deste segundo gênero.

    É o caso de “Diga” (dele e Roberto Martins), “Olha a saúde, rapaz” (com Ataulfo Alves), “Se eu tiver que escolher” (de Roberto e Arlindo com o baluarte Ismael Silva), “Lá vem o Ipanema” (de Arlindo e Roberto com Wilson Batista) – homenagem ao “bonde que nunca viaja vazio”, transportando Isabel, Marina, Iracema e “as mais lindas cabrochas do Rio”; Roberto e Alberto Ribeiro já haviam tratado do tema “bonde” na marcha “Ela era boa”, de 1946 –, “Praça da Bandeira” (de Roberto, Arlindo e Américo Seixas) e, fechando a década em 1950, “Vem para os braços meus” (da dupla dinâmica Roberto-Arlindo com Sátiro de Melo).

    Ao lado de outro baluarte do samba, Nelson Cavaquinho, Roberto e Arlindo fariam, em 1952, “Palhaço” – “Quem é você pra criticar o que eu faço? Quem é você pra me chamar de palhaço?” (não confundir com o samba homônimo do mesmo Nelson Cavaquinho, em parceria com Osvaldo Martins e Washington Fernandes, gravado no ano anterior por Dalva de Oliveira: “Sei que é doloroso um palhaço se afastar do palco por alguém...”) – e, em 1955, “Mangueira”. A Estação Primeira seria ainda lembrada por Roberto e Arlindo em “Enquanto houver Mangueira”, que Odette Amaral gravou em 78 rotações em 1959 e também no LP “Fala Mangueira!”, de 1968.

    Sucessos de Roberto Roberti: as capas das partituras de 'Abre a janela', 'Aurora' e 'Eu trabalhei' (em reproduções da internet)

    O último grande sucesso da dupla seria, nas palavras de Rodrigo Faour em “História da música popular brasileira, sem preconceitos” (Record, 2021), um samba “que emulava uma atmosfera de suspense de cinema noir, com direito a sonoplastia de passos da mulher amada que em seu delírio voltava toda noite para atormentá-lo (...). Uma ousadia algo ‘pop’ (...)”. Ou, para seu xará Rodrigo Alzuguir, em “Wilson Baptista: o samba foi sua glória!” (Casa da Palavra, 2013), “um samba-canção melodramático e arrepiante, com uma deliciosa pitada de mau gosto”. É Alzuguir quem revela em seu livro os detalhes da história desta música tão singular.

    Em 1953, Wilson Batista encontrou Roberto na porta da UBC e mostrou a ele um samba que havia começado com Arlindo – ambos queriam colocar Roberto na parceria. Este adorou o que ouviu e imediatamente se lembrou da segunda parte de um bolero, “O amante”, que ele e Arlindo tinham na gaveta e que se encaixaria como uma luva na composição. Encontraram-se os três na UBC e terminaram o samba. Dias depois, mostraram-no a Orlando Correia na escadaria do Palácio Monroe, na Cinelândia, durante o intervalo de uma apresentação do cantor no Dancing Avenida, na Rio Branco. Orlando ficou fascinado, pediu uma orquestração ao maestro Pachequinho e, dali a dias, estreava a música no seu programa na Rádio Tupi. No dia 16 de junho, o samba “esquisitão” era levado ao disco.

    Conta Alzuguir que, para o técnico de som da gravação, Norival Reis – o Vavá da Portela, homenageado anos depois por Paulinho da Viola com o samba “No pagode do Vavá” –, “‘Sistema nervoso’ pedia uma sonoridade específica, puxada para o fantasmagórico” – por isso o samba acabou sendo gravado no banheiro do estúdio. A faixa foi implementada com sonoplastia: “Sons de carrilhão, tic-tacs de relógio e sapatos pisando o chão de madeira deram ao samba-canção de Wilson, Arlindo e Roberto ares de novela de rádio e um toque involuntário de humor. Contrariando a expectativa da Todamérica, ‘Sistema nervoso’ foi um arraso. Só no primeiro trimestre, vendeu mais de cinquenta mil discos. Nos próximos três anos, cem mil. A crítica se derreteu (...). Fechou o ano faturando o segundo prêmio de melhor gravação de 1953, na escolha dos cronistas de disco cariocas”.

    O trio de autores ainda tentaria pegar carona no próprio sucesso, lançando, no final do ano, o samba “Martírio”, com uma frase retirada de “Sistema nervoso”: “Ela toda noite aparece, me beija e foge através da vidraça”. Não fez barulho como o seu antecessor, o derradeiro grande êxito da carreira de Roberto Roberti. Sua última música lançada em 78 rotações foi a obscura “Marcha do chinês” (com Barbosa da Silva e Nilo Barbosa), em 1962. Na época dos long-playings, continuou em atividade até os anos 1980, embora nunca mais tenha conseguido um grande triunfo.

    Com novos parceiros – entre eles Álvaro Castilho, Walter Levita, Flora Mattos, Raul Marques e principalmente Ayrton Borges –, teve diversas composições – grande parte delas voltada para o Carnaval – lançadas entre 1963 e 1984 (foram ao menos 17, segundo levantamento feito em periódicos, em partituras da Coleção Tinhorão e na página do IMMuB) pelas vozes de intérpretes como Nora Ney, Vicente Celestino, Romeu Fernandes, Carequinha, Haroldo de Andrade, Alcides Gerardi e Orlando Dias, não raro em gravadoras menos conhecidas: Tiger, Albatroz, Imagem. Ele chegaria a participar de dois concursos carnavalescos, ambos em parceria com Ayrton Borges: em 1978, com a marcha “Divórcio já está aí”, finalista do IV Concurso Nacional de Músicas Carnavalescas promovido em Brasília, e em 1985 com “Carnaval”, samba defendido por Jamelão no Festival Manchete Riotur de Músicas de Carnaval.

    Nesta época, com 69 anos, o hoje praticamente esquecido compositor já havia deixado para trás os dias de glória – embora seus sucessos eternos continuassem ecoando pelos quatro cantos do país. Não vivia mais os bons tempos do Nice, do Amarelinho, do Café Atlântida, todos nas cercanias da Cinelândia. Bons tempos de ver o dia clarear na velha Lapa. Tempos que Bruno Ferreira Gomes, em “Wilson Batista e sua época” (Funarte, 1985), resumiu assim: “Quando raiava o dia, Roberto Roberti, o grande autor de ‘Isaura’, ‘Nós, os carecas’, ‘Aurora’ e outras mais, dizia olhando a claridade no horizonte anunciando a aurora (esta a verdadeira!): ‘agora podemos dormir. Vamos pra casa, pois derrotamos a noite. Cumprimos a obrigação de um boêmio...’”.

    Na foto principal: Roberto Roberti, em foto reproduzida da internet.

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