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    Triiiim, triiiim! Um alô para a ligação (com trocadilho) entre o telefone, surgido há 150 anos, e a música popular brasileira

    Fernando Krieger

    tocar fonogramas

    São tantas, mas tantas, as composições brasileiras dedicadas a este tema que seria preciso um livro do tamanho das velhas listas telefônicas – aquelas com centenas de folhas, que existiram num passado não muito distante – para que se pudesse dar conta de todas. Somente em discos de 78 rotações, há mais de 60 fonogramas, fora as músicas que surgiriam depois em long-playings, CDs, DVDs, mídias digitais etc. A relação do nosso país com o telefone teve início há 150 anos, graças a um encontro ocorrido nos Estados Unidos entre um jovem inventor escocês e um representante da realeza, em junho de 1876 – e esse momento acabaria mudando a história da telecomunicação mundial.

    Naquele ano, a 10 de março – três dias depois de receber a patente de sua criação, requisitada em 14 de fevereiro –, o inventor, então com 29 anos, havia feito a primeira demonstração oficial do objeto, chamado provisoriamente de “novo aparato acionado pela voz humana”, ao ligar para seu assistente, em outra sala, dizendo: “Senhor Watson, venha para cá. Quero falar com o senhor”. Em maio, apresentou-o na Academia Americana de Artes e Ciências, em Boston. Mas, até aquele instante, nem ele nem seu revolucionário aparelho haviam criado fama.

    Foi na Exposição Internacional de Arte, Manufatura e Produtos do Solo e das Minas, realizada entre maio e novembro de 1876 – através da qual os Estados Unidos comemoraram seu primeiro centenário, numa área de 1,2 milhão de metros quadrados na Filadélfia (quase o tamanho do Parque do Ibirapuera, em São Paulo) –, que os ventos mudariam, apesar das adversidades. Como se inscrevera de última hora, o nome do moço sequer aparecia na programação oficial da exposição e a organização da feira reservou-lhe apenas uma pequena mesa escondida no fundo de um corredor distante. Além disso, parte da fiação que levara com ele de Boston, cidade estadunidense onde morava, extraviou-se junto com sua bagagem.

    Num final de tarde, quando os juízes se preparavam para ir embora sem terem passado pelo local onde estava o aparelho do rapaz, este foi reconhecido por um senhor de barbas brancas e olhos azuis que usava roupas escuras, bengala e cartola. Era o monarca de um país distante, que o conhecera semanas antes em Boston e que estava ali como convidado de honra, ajudando na avaliação dos inventos. Interessando-se pelo do jovem – o tal objeto capaz de transmitir a voz humana –, acabou servindo de assistente numa demonstração, testemunhada por repórteres e pelos juízes.

    Ao se posicionar a cem metros do inventor, sentado numa cadeira, segurando num dos ouvidos uma concha metálica conectada a um fio de cobre, pôde escutar claramente as palavras pronunciadas pelo jovem à distância: “Ser ou não ser”, a famosa frase de “Hamlet”, peça de Shakespeare. “Meu Deus, isso fala! Eu escuto, eu escuto!”, teria exclamado sua majestade, pulando da cadeira para cumprimentar o responsável pela proeza. Laurentino Gomes, que relatou estes fatos em seu livro “1889” (Globo, 2013), conta que o “novo aparato acionado pela voz humana” seria considerado “a maior de todas as novidades apresentadas na Exposição Universal da Filadélfia” e também “um dos marcos mais importantes do século XIX”. E isso graças ao encontro fortuito entre o escocês Alexander Graham Bell e o imperador do Brasil, Dom Pedro II.

    O imperador D. Pedro II (imagem da Coleção José Ramos Tinhorão), seu telefone e Alexander Graham Bell (reproduções da internet)

    Não é realmente de Graham Bell a primazia da invenção, como se sabe hoje em dia. Em 2002, o italiano Antonio Meucci foi reconhecido oficialmente como o verdadeiro responsável, por ter construído em 1856 um telefone eletromagnético chamado de telettrofono, que conectava seu escritório, no primeiro andar de sua casa, ao dormitório localizado no segundo andar. Não entrou com o pedido de patente por causa de dificuldades financeiras, o que acabou sendo feito por Graham Bell, que em tempos anteriores havia dividido um laboratório com Meucci. O escocês chegou a ser processado pelo italiano, mas, com o falecimento deste em 1889, o caso foi encerrado. Outros inventores, como o francês Charles Bourseul, o alemão Johann Philipp Reis e o estadunidense Elisha Gray, também costumam ser apontados como “pais” do telefone.

    Após o encontro na Filadélfia, Dom Pedro II não perdeu tempo, como explica Laurentino Gomes: o novo invento foi “encomendado por ele pessoalmente a Graham Bell enquanto viajava pelos Estados Unidos”, chegando “ao Rio de Janeiro quatro anos mais tarde – antes ainda de ser adotado em alguns países europeus supostamente mais desenvolvidos do que o Brasil”. Fontes diversas, no entanto, afirmam que a instalação do telefone no Brasil se deu ainda em 1877, no Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, residência da família imperial. As linhas interligavam o aparelho de sua majestade – primeira pessoa a comprar ações da companhia de Bell – aos lares dos seus ministros através dos serviços da já existente empresa britânica Western and Brazilian Telegraph, que assim inaugurava o serviço telefônico em nosso país.

    Em 1877, a imprensa brasileira dava grande destaque à novidade. O Diário do Rio de Janeiro de 18 de dezembro anunciava a primeira demonstração pública na então capital do país, comentada no dia seguinte pelo redator da Gazeta de Notícias, que observava: “A grande vantagem ainda do telefone é que serve-se do mesmo fio da telegrafia, podendo-se aplicar por isso a todas as linhas já estabelecidas”. De acordo com Laurentino Gomes, as primeiras cidades brasileiras a adotarem a invenção foram Rio de Janeiro, Petrópolis, Niterói, São Paulo, Santos e Porto Alegre.

    O moderno aparelho batizaria o semanário carioca O Telephone, surgido em maio de 1878 como uma “crônica hebdomadária das letras, política, artes e costumes”, de acordo com a descrição numa de suas páginas internas. Até um “chapéu-telefone” passou a ser vendido pelas casas de moda especializadas. Em abril de 1881, foi autorizado o funcionamento, no Rio de Janeiro, da Brazilian Telephone Company, a primeira exclusivamente voltada para esse serviço em nosso país. Começaram a pipocar nas páginas dos jornais e das revistas da época anúncios oferecendo acessórios para telefones.

    Não sabemos se no Século 19, na época dos cilindros – primeiras mídias sonoras da história, anteriores ao aparecimento dos discos –, foi gravada alguma composição relativa ao tema. Mas, após o surgimento das bolachinhas de cera (fabricadas no Brasil a partir de 1902), o telefone apareceria com uma força impressionante no repertório da nossa música popular. Na página Discografia Brasileira, o mais antigo fonograma sobre o assunto data de 1910: “No telefone”, na verdade uma cena cômica sobre o jogo do bicho interpretada por Cadete (Manoel Evêncio da Costa Moreira).

    Também Jararaca escreveu uma cena cômica musicada, “Telefonando”, que ele e João Rios encenaram em disco em 1930. Monólogos, prosas e declamações eram muito comuns à época: em 1928, o grande ator Procópio Ferreira levou ao acetato “Telefonema”, com versos de Olegário Mariano; já a Miss Paraná de 1929, Didi Caillet, emprestou seu talento de declamadora a “Telefone da vida” (poesia de autoria de Julio Tintor, segundo o anúncio da gravadora Odeon publicado no Diário Carioca de 26/07/1931).

    O famoso cantor Bahiano (Manuel Pedro dos Santos) era bem chegado a uma cançonetazinha maliciosa, caso de “Telefonando”, gravada por ele em 1911 e lançada em 1913: “O priminho Chico mais a Margarida foram passear os dois na avenida / A mamãe procura e torna a procurar / E vai dar com eles, e vai dar com eles, a ‘telefonar’...”. Foi Bahiano, aliás, o lançador, em 1917, de um samba que entraria para a história da nossa música popular, com muita polêmica em torno da sua origem.

    A capa do 1º número do semanário O Telephone, de maio de 1878 (Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional), o rótulo do 78 rpm de Carmen Miranda e Mário Reis com a gravação original do samba “Alô... alô?...”, de André Filho (Arquivo Nirez), e a capa da partitura de “Pelo telefone” (Coleção José Ramos Tinhorão/IMS)

    “No final de 1916, Donga levou ao registro de autores da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro uma composição cuja indicação de gênero era ‘samba carnavalesco’. Ela se chamava ‘Pelo telefone’ e a história de sua criação é um dos assuntos da música brasileira que mais tinta fez correr”, ressalta Carlos Sandroni no livro “Feitiço decente” (Jorge Zahar, 2001). Não foi o primeiro samba gravado, como conta o autor: “(...) houve outras composições com essa indicação de gênero registradas ou gravadas em disco antes dessa data; mas passaram despercebidas, não ficaram na memória popular (...). A composição registrada por Donga, ao contrário, é lembrada até hoje; foi o grande sucesso do Carnaval de 1917 e tornou o termo ‘samba’ incomparavelmente mais popular”.

    “A alusão ao ‘telefone’ (...) refere-se a um incidente ocorrido no quadro da campanha contra o jogo na cidade”, explica Sandroni, relembrando: “Em maio de 1913, repórteres do jornal A Noite, para desmascarar a inépcia da polícia do Rio, instalaram em frente à sede do jornal (Largo da Carioca nº 14) uma roleta, convidando os passantes a apostar; e no dia seguinte publicaram uma reportagem com o título ‘O jogo é livre’”. Aparentemente, nada mudara em três anos: o mesmo periódico, em 29/10/1916, noticiava: “conflitos, às vezes sangrentos, explodem diariamente nos clubes de jogo chiques, nas barbas da polícia”.

    No dia 30 de outubro, o então chefe de polícia enviou um ofício ao delegado do distrito – publicado pela imprensa no dia seguinte – ordenando a “apreensão de todos os objetos da jogatina”. Mas recomendava: “antes porém de se lhe oficiar, comunique-se-lhe esta minha recomendação pelo telefone oficial”. O que deixou uma dúvida no ar: a recomendação era para que se avisasse pelo telefone o delegado do distrito ou os diretores dos clubes, para que esses “arrumassem a casa” – nas palavras de Sandroni – antes que as autoridades chegassem? “Foi a última hipótese que caiu na boca do povo (...). O próprio telefone, se em 1916 não era mais uma novidade no Rio de Janeiro, era ainda algo de ‘chique’, na medida em que só uma parcela ínfima da população tinha acesso a ele. Assim, ordenar uma apreensão ‘pelo telefone’ parece uma forma de amortecê-la”, esclarece.

    “O samba foi composto de maneira coletiva, como era costume à época, no decorrer de sucessivas festas em casa de tia Ciata”, recorda Luís Filipe de Lima em “Para ouvir o samba: um século de sons e ideias” (Funarte, 2022). A turma, inspirada pelo memorando da autoridade policial e resgatando o episódio de 1913 – o da roleta da Carioca –, fez nascer a composição: “O chefe da polícia pelo telefone manda me avisar / Que na Carioca tem uma roleta para se jogar”. Mas a letra gravada por Bahiano – burilada por Mauro de Almeida – trazia uma versão diferente, que mostrava o chefe da polícia disfarçado em “chefe da folia”. “O repressor é transformado em chefe dionisíaco”, escreve Sandroni. Através dessa música – uma das mais emblemáticas do nosso cancioneiro – o invento de Graham Bell começaria a tomar de vez o seu lugar de destaque na MPB.

    Nos anos 1930, o objeto se tornou mais acessível, presente em residências e escritórios, com discos giratórios acoplados. Mas o serviço de telecomunicações de então já deixava a desejar: em “As três palavrinhas” (versão para “Three little words”, foxtrote de Bert Kalmar e Harry Ruby), de 1932, Lamartine Babo dá uma cutucada na Light, à época responsável pelo sistema de telefonia no Rio e em São Paulo – aliás, Lamartine não gostava de telefone, como ele próprio diria mais tarde à Revista do Rádio (edição de 16/01/1951). Em agosto de 1951, João Dias iria gravar a versão do mesmo foxtrote feita por Haroldo Barbosa (“Três palavrinhas”), também reclamando do telefone que não colaborava com o romance.

    Noel Rosa, ao contrário do Lalá, talvez até simpatizasse com o aparelho, por vezes mencionado em suas músicas. Como no samba “Quero falar com você”, parceria com Gradim (Lauro dos Santos), gravado por João Petra de Barros em 1932 – nos breques, há a voz de uma telefonista: “que número, faz favor?”; “em comunicação”; “não responde”. Ou na “marcha maluca” “A B surdo”, dele e de Lamartine, lançada em 1931: no primeiro breque da gravação, ouve-se o Lalá cantando “70-Sul”, o “telefone do Hospício da Praia Vermelha, número bem conhecido dos cariocas à época”, como explica o texto do encarte da caixa de CDs “Noel pela primeira vez”, produzida por Omar Jubran (Funarte/Universal/Velas, 2000).

    No samba “Não tem tradução” (dele com Ismael Silva e Francisco Alves), de 1933, Noel, avesso a estrangeirismos, cutuca: “E esse negócio de ‘alô’, ‘alô boy’, ‘alô Johnny’, só pode ser conversa de telefone”. E um trecho de outro de seus sambas eternos, “Conversa de botequim” (feito com Vadico), de 1935 – “Telefone ao menos uma vez para 34-4333” – acabaria se tornando, com uma pequena variação, o jingle do famosíssimo número (234-4333) do Classifone do jornal O Globo a partir de 1975 (veja aqui a história e aqui uma propaganda de TV de 1986).

    Reprodução do livro “Noel Rosa: uma biografia”, de João Máximo e Carlos Didier, 1990

    “Alô”, segundo o dicionário Aurélio (Nova Fronteira, 1975), serve “para chamar a atenção” e também “de saudação, especialmente ao telefone”. Foi com essa interjeição que André Filho batizou o samba que se tornaria um clássico da MPB: “Alô... alô?...”, levado ao disco em 1933 por Carmen Miranda e Mário Reis. A Pequena Notável o regravaria nos Estados Unidos com o Bando da Lua em janeiro de 1941 sem uma das estrofes, repetindo duas vezes a segunda: “Alô, alô: continuas a não responder / E o telefone cada vez chamando mais...”. A música também iria parar num comercial de TV, desta vez o da Telebrás, em 1996. André Filho voltaria ao tema em 1936 : “O telefone ‘Não responde’ e eu fico esperando o teu telefonema / Já cansei de pedir ligação, mas tudo em vão: de mim tu não tens mais pena”.

    A interjeição apareceria em diversas ocasiões: nos sambas “Alô, Leonor”, de Valter Rodrigues (1945), e “Alô, Maricota”, de Marino Pinto e Antônio Almeida (1946); no foxtrote “Alô, alô, telefonista”, de Rago e Heitor Carillo (1956); na marcha “Alô, alô, quem fala?”, de Maugéri Neto, Maugéri Sobrinho e Victor Dagô (1957); em “Alô”, versão de Mar Amir para o fox “Alone”, de Morty Craft e Selma Craft (1958); e em “Alô, meu bem”, samba teleco-teco de Osvaldo Nunes que ele mesmo interpretou em 1963: “Alô, meu bem, não desligue, por favor / Alô, meu bem, aqui fala o teu amor / Fale mais alto, amor, e pare de chorar / Alô, meu bem, não tente desligar”.

    A figura da profissional que, do outro lado da linha, atendia aos pedidos de chamadas telefônicas antes das discagens diretas – e que geralmente era uma mulher – povoava a imaginação de muita gente, inclusive da turma da música. Ao menos duas surgiriam com o mesmo título, “Telefonista”: uma marcha de Peterpan (José Fernandes de Paula), que sua cunhada Emilinha Borba gravou em 1947, e o samba de Francisco Alves e David Nasser, através do qual um apaixonado Nelson Gonçalves se declarava em 1952: “Ó minha telefonista, teu nome não está na lista, mas preciso a informação: pra onde devo ligar para poder escutar bater o teu coração?”.

    A turma sertaneja iria bulir com o objeto em 1937, na moda de viola “A mulher e o telefone”, de Ariowaldo Pires (o Capitão Furtado), Alvarenga e Ranchinho. Os dois últimos seriam os intérpretes, em 1940, da valsa “Telefone cruel”, de Antenógenes Silva e Ernâni Campos, relançada em 1961 por Alberto Calçada e seu conjunto. Ainda nos anos 1930, um samba triste, “O telefone do amor”, de Benedito Lacerda e Jorge Faraj, ganharia a voz de Silvio Caldas em 1935. Benedito voltaria ao tema (com Popeye do Pandeiro) em 1941, num delicioso número de Isaurinha Garcia: “O homem do armazém veio avisar: menina, ‘O telefone está chamando’ / Fui atender para ver quem era: era o samba que estava me convidando pra cantar, pra sambar / Eu vou, eu não posso faltar”.

    Já Murillo Caldas (irmão de Silvio) fez um samba inspirado numa situação bastante comum de antigamente, quando alguém, ao fazer uma ligação, acabava participando da conversa alheia, fenômeno chamado de “Linha cruzada”. Em 1939, Murillo e Lolita França se encontraram (em disco, claro) numa delas, que começou com uma discussão mas terminou com paquera e a marcação de um encontro. Murillo e Linda Marival repetiriam a encenação em 1955 com o mesmo samba ganhando título diferente, “Alô, meu bem”. A dupla Jeanette e Fernandinho, ainda em 1939, também caiu numa linha cruzada (desta vez uma marcha), iniciando uma “Conversa de telefone” – mas, no fim, a censura cortou a ligação... “Conversa de telefone” também batiza um samba de Edison Borges gravado por Gasolina (Antônio Monte de Souza) em 1956.

    “Preto, só telefone”, de Raul Marques e Geraldo Queiroz, usava o humor em 1946 para tratar de um assunto sério: o preconceito sofrido pelo personagem da letra ao dar uma xavecada numa loura na Avenida Rio Branco. Já o “triiiim, triiiim” característico do toque do aparelho costumava aparecer em 78 rpm como “Tirrim... tirrim...”, tanto no samba de Peterpan e Afonso Teixeira, de 1943, quanto na marcha “Ninguém faz tirrim”, de Milton Sales, R. Reis e P. Guimarães (1961). O samba, aliás, parece ser o ritmo preferido dos compositores que levaram o tema aos 78 rotações. Temos diversos exemplos (além dos já citados).

    Entre eles estão “Telefone depois das dez” (Haroldo Lobo e Cristóvão de Alencar, 1941), “O chapéu do compadre” (Paquito e Francisco Santos, 1941), “Não faças caso, coração” (Custódio Mesquita e Evaldo Rui, 1944), “Telefona lá pra casa” (Benedito Lacerda e Herivelto Martins, 1947), “Meu telefone” (Luiz Soberano, Carvalhinho – José Prudente de Carvalho – e Humberto Carvalho, 1950), “Quem telefona” (J. Piedade e Wilson Goulart, 1952), “Negro telefone” (Herivelto Martins e David Nasser, 1953), “Telefone” (Denis Brean e Osvaldo Guilherme, 1957), “Telefona, amor” (Norival Reis e Jorge Duarte, 1957) e dois intitulados “Telefonei”, o primeiro de 1958, dos compositores salgueirenses Geraldo Babão, Noel Rosa de Oliveira e Moacir Vieira, e o outro de 1960, de Oscar Belandi e Paulo Guedes.

    Também o samba-canção mostrou-se um gênero bem adequado para falar das ligações românticas, das cantadas ao pé (ou melhor, ao fone) do ouvido, dos pedidos de desculpas, das marcações de encontros... Neste gênero também existem muitos representantes: “Não me telefones” (Osvaldo Rosa e Gadé, 1953), “Telefone mudo” (Mariza Pinto Coelho, 1954), “Aconteceu em São Paulo” (Antônio Maria, 1954), “Telefona outra vez” (Sátiro de Mello e Almeida Batista, 1955), “Amor próprio” (F. A. Bezerra de Menezes, 1955), “Telefonema” (Ivon Curi, 1955), “Telefone do amor” (Elizário Teixeira e João Matos, 1960). Um deles receberia várias regravações na época: “Se alguém telefonar”, de Alcyr Pires Vermelho e Jair Amorim, que foi lançado por Lana Bittencourt em 1957 e recebeu em sequência versões de Carlos José, Ted Moreno e Trio Nagô (todas de 1958) e Waldir Calmon e seu conjunto em 1959.

    Linha cruzada: no sentido horário, Elizeth Cardoso, Emilinha Borba, Ary Barroso e Ivon Curi (fotos da Coleção José Ramos Tinhorão/IMS)

    O samba-choro daria o ar da graça em 1945 com “Quem mandou telefonar”, de Romeu Gentil e Elpídio Viana, onde Violeta Cavalcante se zangava com um rapaz mais saidinho: “Quem foi que mandou você telefonar pro meu apartamento, seu atrevidão? / Se ainda não lhe dei nem pretendo dar a minha necessária autorização”. Receber ligações de pessoas inconvenientes ou de números desconhecidos não é um infortúnio moderno, assim como não o é o famigerado “Trote”, como mostraram Monsueto Menezes e Dilermando Rodrigues neste bem-humorado choro de 1958. Ao menos uma vez na história, um trote telefônico teria uma consequência positiva: foi assim que a cantora Aurora Miranda conheceu seu marido, Gabriel Richaid.

    Já vimos que as marchas também bateram um fio para o tema – e seguiriam nos anos 1950 e 1960, como se ouve na “Marcha do conselho”, de Paquito e Romeu Gentil (1953), e nas congêneres “Amor por telefone”, de Jayme Florence (Meira) e Augusto Mesquita (1957), “Cadê o telefone?”, de Carlos Moraes (1961), e “Telefonema anônimo”, de O. Santana e Antônio Cirino, que Odete Amaral e Cyro Monteiro Júnior (mãe e filho) lançaram em 1962. O baião se fez presente em 1954 com “Falando ao telefone” (motivo popular oriental com arranjo de Tito Madi e Georges Henri).

    Os ritmos estrangeiros igualmente se renderam ao assunto, caso do mambo “Telefonando”, de Getúlio Macedo e Bené Alexandre (1953), do cha-cha-chá “Um beijinho por telefone”, de Marcos Pedromo e Alberto Ribeiro (1956), e do tango “Noite amarga”, de Luiz Lemos, Hilton Simões e Milton Gomes, com uma letra dramática, bem representativa do gênero: “O telefone está tocando, porém a mim não mais importa / Pois deve ser esta malvada que partiu sem dizer nada, quanta ingratidão...”.

    A juventude roqueira não conseguia viver longe do aparelho. Sua rainha, Celly Campello, reclamava em 1959, em “Lacinhos cor de rosa” (versão de Fred Jorge para “Pink shoe laces”, de Micki Grant): “Brotinho enxuto, um amor / Mas não me liga, que horror!”. “Pillow talk”, de Buddy Pepper e Inez James, virou “Conversa de telefone” – mais uma versão feita por Fred Jorge –, que ganhou, em 1960, as vozes de Célia Vilela e Elza Ribeiro. Neste mesmo ano, o rock “Non occupatemi il telefono”, de Gian Franco Reverberi e Franco Franchi, virou “Meu telefone”, com letra em português de Augusto César.

    O barulhinho característico da discagem aparece no início do rock-balada “Telefone ocupado (Comunicando)”, de Palomar, Quiroga Segovia e Ramalho Neto, que Ivon Curi levou ao disco em 1960. Dois anos depois, Regina Célia mandaria muitos “Beijos pelo telefone” (versão de Lourival Fernandes para o calipso-rock “Kissin’ on the phone”, de Earl Wilson e Leonard Whitcup). Também em 1962, o twist passou a fazer parte da conversa através de “Se tu me telefonas”, adaptação de Miguel Gustavo para “Si tu me telephones”, de Geoges Garvarentz e Clement Nicolas.

    Fechamos nossa edição de bolso em 78 rotações das velhas listas telefônicas com duas músicas. A primeira, “Vingança de pobre”, samba de Hianto de Almeida e Chico Anysio que, em 1956, já tinha um gostinho de bossa nova. Esta se faria representar em 1963 através de um clássico de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, “Telefone” – gravado pelos Cariocas e por Agostinho dos Santos –, onde os autores contam a história do rapaz que não conseguia se comunicar com a moça que lhe passou seu número: “Eu já estou desconfiando que ela deu meu telefone pra mim”.

    Como já foi dito, “O telefone tocou novamente” – um grande sucesso de Jorge Ben, de 1970 – muitas e muitas vezes em LPs, CDs, DVDs e mídias digitais. Acabou se tornando parte da paisagem: em quase toda esquina do país podia-se encontrar um telefone público, o famoso orelhão, cantado por Carlinhos Vergueiro e J. Petrolino em “Orelhão de avenida”. Nessa época, 1978, ainda era de ficha; 20 anos depois, já seria de cartão, como mostrou o Farofa Carioca em “São Gonça”, composição de Seu Jorge. Mais tarde, em 2009, o icônico telefone público – que começou a ser retirado definitivamente das ruas no último mês de janeiro, com previsão de desaparecer por completo até 2028 – seria lembrado por Alcebias Flausino, Douglas Mello, Flavinho Tinto e Nando Marx em “Orelhão”, na interpretação de Michel Teló.

    Rita Lee e Roberto de Carvalho tentaram uma comunicação intergaláctica em 1980 – dois anos antes do “ET phone home” do filme de Spielberg – com “Alô, alô marciano”, sucesso de Elis Regina. Nesta década – quando surgiram os primeiros modelos sem fio –, um hit que invadiu as rádios foi “Telefone”, de Júlio Barroso – do refrão “Oh, meu amor, isso é amor” –, pela voz do grupo Gang 90 e Absurdettes em 1983, mesmo ano do inesquecível “Telefone mudo” de Franco e Peão Carreiro, eternizado pelo Trio Parada Dura. Outro hit, no ano seguinte, foi “Me liga”, de Herbert Vianna e seus Paralamas do Sucesso. Em 1986, o “Telefone” de Nelson Kaê e Beto Corrêa ganharia o vozeirão de Tim Maia (cantor cujo nome futuramente seria homônimo ao de uma operadora). Curiosidade: a voz feminina nesta gravação é a da cantora Rosana “Como uma deusa” Fiengo.

    Os Mulheres Negras (Maurício Pereira e André Abujamra) atacaram de poesia concreta em “Só tetele”, de 1990. Já Gilberto Gil navegou “Pela internet” em 1997, fazendo uma alusão ao “Pelo telefone” de 1917: “Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular / Que lá na Praça Onze tem um videopôquer para se jogar”. Cem anos após a gravação do icônico samba atribuído a Donga e Mauro de Almeida, Mallu Magalhães mostrou em 2017, em plena era do celular, o seu próprio “Pelo telefone”, um samba com roupagem moderna, onde ela chama o objeto ainda pelo nome antigo: “Você me ouviu chorar pelo telefone / Sabe que eu não ando bem / Vem me visitar”. Hoje o substantivo “telefone” continua a ser usado, mas geralmente para se referir ao número cadastrado em cada celular: “Eu só ligava no ‘Seu telefone’”, cantaram em 2025 os rappers Maui e Cristal, também coautores da música (ao lado de Pedro Lucas e Gabriel Duarte).

    Quem imaginaria, cento e cinquenta anos atrás, quando surgiu aquela engenhoca trazida para o Brasil por Dom Pedro II, que ela fosse tocar (com trocadilho, por favor) de maneira tão contundente dezenas de compositores e intérpretes e fazer tanto barulho (triiiiiim, triiiiiim!) na nossa música popular?

    Na imagem principal, Lana Bittencourt ao telefone (Coleção José Ramos Tinhorão / IMS)

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