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Qual é a música? O IMS e a Cinemateca Brasileira convidam você a ajudar na recuperação da trilha do filme ‘Alvorada de glória’, de 1931
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“A Cinemateca Brasileira convoca pesquisadores, cinéfilos e entusiastas da música brasileira para uma missão: ajudar na localização de uma música fundamental do filme ‘Alvorada de glória’ (1931), obra importante do período de transição entre o cinema silencioso e o falado”. Assim começa o texto publicado na página da Cinemateca Brasileira, através do qual a instituição lança o seguinte desafio: há cinco cenas no filme – mudo em sua essência – que mostram os personagens cantando. Como o som original da película se perdeu, as composições interpretadas por eles permaneceram desconhecidas por longo tempo. Mas, graças a “um esforço conjunto entre a equipe técnica da Cinemateca e o site Discografia Brasileira, do Instituto Moreira Salles (IMS), foi possível reconstituir e localizar quatro das cinco músicas originais que compõem a trilha sincrônica da obra”, explica o mesmo texto, salientando que falta ainda “encontrar a última peça deste quebra-cabeça sonoro”. Representando o nosso site nesse “esforço conjunto”, a coordenadora de Música do IMS, Bia Paes Leme, aceitou o desafio de tentar identificar as músicas da trilha sonora. Tendo à sua frente as imagens do filme, ela recorreu à boa e velha leitura labial e ao seu extenso conhecimento do repertório da época. Através de pesquisas feitas aqui na nossa Discografia Brasileira, chegou enfim aos nomes de três músicas, já que uma delas, a famosíssima “Lua branca”, de Chiquinha Gonzaga, é praticamente uma personagem imaterial da trama, o vínculo que mantém vivo o romance entre Nilo e Lygia. A modinha está presente no início e no final do longa-metragem – quando é cantada pelo protagonista – e foi citada em diversas matérias sobre ele publicadas nos jornais e revistas da época. Além de “Lua branca”, de Chiquinha Gonzaga – lançada em 1926 por Paraguassu e regravada em abril de 1929 por Gastão Formenti no disco de 78 rotações Odeon 10420 –, as outras músicas da trilha são: “Mineirinha”, toada sertaneja de Henrique Vogeler, interpretada por Gastão Formenti no disco Odeon 10479 e lançada em outubro de 1929; “Gaúcha” (Odeon 10647), marcha de Alfredo José Alcântara levada ao disco em março de 1930 por Francisco Alves; e a marcha “Ode à revolução” (Odeon 10722), parceria de Júlio Casado e Oswaldo Santiago, cujo registro fonográfico, feito por Alvinho (Álvaro Miranda Ribeiro), chegou às lojas em dezembro de 1930. Estas gravações, que podem ser escutadas na playlist ao final deste post, foram sobrepostas às cenas de “Alvorada de glória”, e o resultado pode ser conferido neste vídeo disponibilizado pela Cinemateca no YouTube. Falta ainda, no entanto, descobrir a identidade da primeira das canções que aparecem no filme, aos 12 minutos de projeção – a cena pode ser vista neste outro vídeo postado no YouTube da Cinemateca. Nela, há soldados empunhando instrumentos populares – dois violões, cavaquinho e flauta –, cantando (e até dançando) bem animados. Para ajudar no reconhecimento, a equipe da Cinemateca elaborou uma legenda “a partir da leitura labial dos atores em cena”, como explica o texto publicado na internet. Há dicas quentes para quem quiser se aventurar. Por exemplo: Bia Paes Leme notou que as quatro músicas identificadas foram lançadas em discos Odeon, todos pertencentes à série 10000 da gravadora. Mas outras pistas surgiram quando este texto estava prestes a ser publicado. Heitor Victor, ator e pesquisador do cinema brasileiro, entrou em contato com a Cinemateca por e-mail para revelar incríveis descobertas. Entre elas, a de que os atores que aparecem na citada cena são, na verdade, renomados artistas da nossa música popular. Escreve ele: “Ao ver o trecho, de prontidão pude identificar a presença de Raul Torres como um dos violeiros principais da cena. Comparei com algumas fotos dele da década de 1930 que possuo e pude constatar a suspeita. Logo, entrei em contato com Edson Nogueira, biógrafo de Torres, que apontou um dado técnico muito importante: a maneira como o cantador do trecho estabiliza o violão é muito similar à do Raul Torres”, o que, segundo Heitor, contribui ainda mais para a confirmação da identificação. E as descobertas não pararam por aí, como conta Heitor: “Edson também reconheceu o instrumentista Garoto (Aníbal Augusto Sardinha) sendo o menino tocando cavaquinho no trecho. A partir deste ponto, tornou-se mais fácil identificar os outros músicos, sendo Atílio Granny (o flautista) e Fernando Chaves (o outro violeiro cantador). Estes quatro músicos tiveram algumas formações como grupos sertanejos, sendo os Chorões Sertanejos e o Grupo Verde e Amarelo. Como os Chorões, gravaram alguns discos pela Parlophon, a maioria não disponível no site do IMS; já como o Grupo Verde e Amarelo, gravaram acompanhamentos para um outro cantor paulista, o Paraguassu”. Portanto, graças a Heitor Victor e a Edson Nogueira, as identidades dos quatro músicos são agora conhecidas: Atílio Granny (o flautista), Garoto (realmente um garoto, com o cavaquinho), Fernando Chaves (o violonista que canta os primeiros versos) e Raul Torres (o segundo violonista cantador). Prossegue Heitor no mesmo e-mail: “Chequei toda a discografia dos quatro artistas no site do IMS e não pude encontrar qual a música que cantam no trecho. Uma das possibilidades, apesar de improvável, é que tenha sido um disco gravado especialmente para o filme, não tendo sido lançado comercialmente”. O que remete à informação do Diário de Notícias de 10/12/1931: “‘Alvorada de glória’ é um filme com som gravado separadamente, como se fazia no princípio (...)”. Outra valiosa pista fornecida por Heitor é a seguinte: “Vale citar que Raul Torres e seu conjunto também fizeram uma participação no filme ‘O Babão’, dirigido pelo mesmo Luiz de Barros e lançado no mesmo ano que ‘Alvorada de glória’. Acontece que ‘O Babão’ era sonorizado por discos Odeon, porém a música que o conjunto cantou nesse filme em específico foi lançada comercialmente em selo Parlophon. O que faz pensar que a canção do trecho de ‘Alvorada de glória’ possa estar entre os fonogramas gravados pelos Chorões Sertanejos sob o selo Parlophon”. Voltemos, então, ao texto-convocação da Cinemateca: “Os interessados devem analisar o trecho e as pistas fornecidas. Informações sobre a música podem ser enviadas através dos canais oficiais de comunicação da instituição, em especial do e-mail comunicacao@cinemateca.org.br”. O texto termina com um anúncio super bacana: “Como reconhecimento pela contribuição, o primeiro participante que identificar corretamente a música e fornecer as informações necessárias para sua localização será devidamente creditado na cópia do filme e receberá uma assinatura anual gratuita do Programa de Amigos da Cinemateca Brasileira”. Já a página Discografia Brasileira, do IMS, oferecerá exemplares físicos dos dois primeiros volumes da série “Os Pioneiros”, de Sandor Buys: os livros Discos Phoenix e Casa Faulhaber (também disponíveis para download aqui em nosso site, na versão eletrônica). “Alvorada de glória” é um filme mudo com partes cantadas produzido pela Victor Film, de São Paulo, e lançado há quase 95 anos, em outubro de 1931. Foi codirigido por Victor Del Picchia – sobrinho do poeta, jornalista, escritor e pintor Menotti Del Picchia, um dos principais personagens da famosa Semana de Arte Moderna de 1922, que colaborou no longa-metragem (de 55 minutos) como autor do argumento e diretor de produção – e Luiz de Barros, o mais produtivo cineasta brasileiro: ele teria participado (como diretor, roteirista, montador ou produtor) de mais de 250 filmes, perdidos em sua grande maioria – apenas cerca de 35 de suas obras acabariam recuperadas por completo. A trilha sonora original foi feita pela renomada pianista Antonietta Rudge, na época companheira de Menotti. A história é bem simples e tem como pano de fundo dois acontecimentos reais: a Revolta Paulista de 1924 – deflagrada por militares tenentistas entre 5 e 28 de julho com o objetivo de derrubar o governo do presidente Artur Bernardes – e a chamada “Revolução” de outubro de 1930, um golpe de Estado que levaria Getúlio Vargas a assumir o lugar do presidente deposto Washington Luís. Lygia (a atriz Lygia Sarmento, debutando na telona) conhece Nilo (interpretado por Nilo Fortes) na piscina do Club Paulistano e elogia a gravação de “Lua branca” feita por ele em disco. A partir daí, nasce um romance que é interrompido quando o moço, envolvido com o conflito armado de 1924, acaba exilado do país, retornando apenas quando explode o de 1930. “Separados pelas circunstâncias históricas, ambos enfrentam perdas, saudade e esperança. A música surge como elo afetivo que mantém viva a ligação entre eles”, diz a sinopse publicada pela Cinemateca. Do elenco fazem parte Corita Cunha, como irmã de Nilo, Nelson de Oliveira (interpretando Nelson, amigo do protagonista), Uby Alvorado e Raul Gentil. Foi exibido extra-oficialmente no cinema Paramount, de São Paulo, em outubro de 1931, numa “sessão especial, com a presença do interventor federal, secretários do governo e altas autoridades civis e militares”, como informou o Diário Nacional (São Paulo) de 25/10/1931. “O trabalho da Vitor Filme, que foi superintendido por Menotti Del Picchia, conquanto apresentasse muitas falhas, coisa inevitável no nosso cinema, ainda em estado embrionário, não deixou, todavia, de impressionar a seleta assistência”, afirmou o anônimo redator do periódico. No dia 16 de novembro, enfim estreou oficialmente no mesmo Paramount. Passaria ainda em 1931 pelas salas do Olímpia e do São José, chegando à capital federal, Rio de Janeiro, em dezembro. No ano seguinte, entre janeiro e março, estaria em cartaz em diversos cinemas paulistas: Glória, São Paulo, América, Fênix, Paraíso e Esperia. Ainda em março, iria para Vitória, capital do Espírito Santo. Em maio, seria exibido em Porto Alegre e Curitiba, e em Pernambuco a partir de junho. Para além da dramaturgia, centrada no romance entre Nilo e Lygia, a película tem um valor histórico, pois traz, entre suas cenas, imagens reais da Revolta Paulista e do golpe de outubro de 1930. A expressão que aparece no título do filme era bastante comum à época: já em 1922, em nota sobre a atuação dos religiosos Joaquim Arcoverde e Sebastião Leme, o redator da Gazeta de Notícias (8 de outubro) escrevia: “E cremos que os bons chefes espirituais aí estão agora a revelar-se, numa ‘alvorada de glória’, despertando o povo para o cumprimento do dever”. Cinco anos depois, em matéria sobre o 7 de Setembro, o periodista de A Federação (10/09/1927) fazia referência ao “maior dia da nossa Pátria, data que festejávamos entre ruidosos hinos, na alvorada de glória da Independência do nosso amado Brasil”. “Alvorada de glória” batiza uma marcha patriótica de Zequinha de Abreu editada em partitura em 1930 pelos Irmãos Vitale, dedicada aos “heróicos patrícios que, com tanta bravura e patriotismo, souberam promover a liberdade do nosso querido Brasil”, lançada em disco apenas em 1932 pela Orquestra Arte-Fone. Era também o título de um texto de Nestor de Alencar publicado no Diário de Pernambuco no dia 10/10/1930, em pleno fervor dos acontecimentos que culminariam na chamada “revolução” de 1930. Por ser uma obra cívica – trazendo inclusive, em sua última legenda, um eufórico “Viva o Brasil!” –, era natural que o filme de Menotti e Barros se apropriasse da expressão usada tantas vezes antes. Como parte da estratégia de lançamento do filme, sua trilha sonora foi mostrada na Rádio Educadora Paulista em novembro de 1931 (segundo informava no dia 12 a Tribuna, de Santos, e nos dias 12 e 13 A Gazeta, de São Paulo), sob a organização do maestro Ítalo Tabarin, com os números musicais do filme executados por Antonietta Rudge, Ítalo Tabarin, Annita Gonçalves Caccuri e Zaccaria Autuori, além da participação de Menotti Del Picchia fazendo uma palestra sobre o cinema brasileiro (como anunciava A Gazeta do dia 13). Os press-releases oficiais, reproduzidos pela imprensa, apresentavam o “drama de amor e de civismo” como “o maior e o melhor filme até hoje feito no Brasil”. Opinião não necessariamente compartilhada pelos críticos. João Sem Tela, em suas colunas dos dias 18, 19 e 20 de novembro no Diário Nacional, desceu a lenha sem meias palavras, chamando-o de “fracasso”. Fábio, em suas “Notas sociaes” n’A Gazeta do dia 24, elogiou: “Essa obra de brasilidade comove e entusiasma”. Xiz, no Diário da Noite de 10 de dezembro, apontou diversas falhas, ressaltando no entanto que “‘Alvorada de glória’ não é um trabalho que faça a gente se levantar do cinema aborrecido: pelo contrário, comenta-se favoravelmente a fotografia de Victor Del Picchia (...).”. No jornal A Província, do Recife, edição de 29/06/1932, Aldo não perdoou: “‘Alvorada de glória’ não merece o menor elogio. (...) As fotografias deste filme são lamentáveis. O operador deve ser um diletante [um amador]”. Críticas que ecoam apenas no passado. Quase 95 anos após sua exibição, deve-se comemorar o resgate do filme por vários motivos. O primeiro remete ao próprio caso de Luiz de Barros, mencionado anteriormente: muitas obras cinematográficas nacionais feitas naquela época acabariam não sobrevivendo até os dias de hoje. Há o lado histórico de “Alvorada de glória”: à parte toda a questão cívica e ufanista, o longa exibe imagens raras e reais dos acontecimentos de 1924 e 1930, pano de fundo da narrativa. E é gratificante ver um clássico de nossa música popular, “Lua branca”, aparecendo com destaque, sendo o elo que mantém Lygia e Nilo conectados durante toda a trama. “Lua branca”, “Mineirinha”, “Gaúcha”, “Ode à revolução”... Quatro músicas da trilha sonora já são conhecidas. Falta identificar apenas uma. Quem topa o desafio? Na imagem principal: Nilo Fortes e Lygia Sarmento desenhados em um anúncio de 'Alvorada de glória' publicado no Diário Carioca (06/12/1931) / Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional