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Vale a pena ouvir Helena! Os cem anos da ‘deusa da noite’ Helena de Lima, rainha das madrugadas, das boates e das canções românticas

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Do berço, trouxe uma personalidade contundente. A natureza brindou-lhe fino trato, beleza, elegância, muita simpatia. No Rio de Janeiro, Helena constituiu um caso – poderemos dizer assim – ‘sui generis’. Não foi ‘revelação’ de rádio, nem de teatro, nem de televisão. Surgiu dentro da noite, cantando e encantando. E cantando o que é bem nosso: o Samba!(Denis Brean – A Gazeta Esportiva, 21/01/1958) “Preferia o aplauso de uma dúzia de pessoas à consagração artificial dos auditórios de rádio. Cantei algumas vezes em um programa ou outro, e recentemente fiz temporada na TV Continental, mas jamais me habituei fora do meu ambiente”. O ambiente a que Helena de Lima se referia nessa entrevista concedida à Revista do Rádio (29/08/1964) era o das noites, das boates, das madrugadas. Dois anos antes, na edição de 08/12/1962 da mesma Revista do Rádio, ela já confessava: “Realmente eu me sinto melhor cantando em boate, onde sinto o público do qual dependo. Ademais, canto na madrugada. Nessas horas as pessoas são mais sinceras”. Em entrevista a Gilse Campos feita para o Caderno B do Jornal do Brasil (03/04/1970), ela reafirmou: “Gosto de boate porque não me assusta, os maestros sempre têm tempo de ensaiar como eu gosto. E me sinto melhor cantando à noite, aquele tipo de música de poesia, do ouvidinho, da cabeceira. Na televisão, não consigo cantar como eu gosto. Fico em pânico, nunca a gente ensaia direito. (...) Tive muita chance de me adaptar. Mas você não imagina a aflição, as mãos geladas. Sou a cantora do conjunto pequeno: piano, bateria, guitarra e órgão. Orquestra, só em último caso”. Contou Gilse Campos na mesma ocasião: “Ela não sabe cantar sem tomar conta da boate. Preocupa-se com a comida, com a qualidade do uísque, a limpeza, os garçons. Faz questão de receber as pessoas, uma perfeita hostess. Talvez por isso seja carinhosamente chamada de A Dama da Noite”. Tais preocupações talvez tenham tido origem em seu próprio ambiente familiar: seus pais eram o garçom Alfredo Vitor de Lima e a dona de casa Maria Francisca. Nascida há exatos cem anos – no dia 17 de maio de 1926 – na Rua Tavares Bastos, no Catete, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro, Helena de Lima mostrou inclinação para o canto desde sua época de estudante no Colégio Deodoro, na Glória, como ela mesma recordou em depoimento para o Museu da Pessoa em 2016: “Todo fim de ano tinha festa de encerramento do ano, né? Eu era sempre escolhida pra cantar, porque eu sempre fui muito extrovertida. Eu é que cantava as músicas que as professoras escolhiam pra gente cantar”. “Percebendo a beleza de sua voz, uma professora de piano, amiga da família, prontificou-se a ensinar canto clássico para a menina. Depois de algumas aulas, Helena perguntou à professora se ela não ministraria aulas de canto popular, ela queria cantar um samba. A mestra respondeu que não, somente música erudita. Helena simplesmente perdeu o interesse e avisou sua mãe que não queria mais estudar música”, conta Thais Matarazzo Cantero – autora que nos deixou tão precocemente, aos 40 anos, em janeiro de 2023 – em seu livro “Vozes do Brasil” (Editora In House, 2014). Helena abandonaria os estudos musicais, mas não a vocação: o jornal A Noite de 12/06/1938 anunciava o nome de uma certa “Helena Lima” como uma das finalistas de um programa de calouros da Rádio Nacional que procurava “estimular os valores que precisam de ser lançados”. Segundo fontes diversas, seria o Gente Nova, comandado naquela emissora por Celso Guimarães, embora também haja informações de que ela teria começado num programa de César Ladeira, na mesma rádio. “Continuou sua vida, seus estudos e cantando nas festas familiares”, de acordo com Thais. Em entrevista para o livro desta, Helena afirmou: “A minha família não se opôs à minha carreira. Pelo contrário, eram meus fãs e incentivadores”. A estreia profissional viria em 1948, numa boate de Copacabana, como lembra Ruy Castro no livro “A noite do meu bem” (Companhia das Letras, 2015): “(...) o Pigalle, de Waldemar Schiller, na Rua Belfort Roxo (...), tinha tudo pra ficar. Seu diretor musical era o exuberante pianista Bené Nunes (...). Entre suas atribuições no Pigalle estava a de selecionar os crooners, e sua maior descoberta foi uma carioca do Catete, 22 anos: Helena de Lima. Ao ser testada por Bené, Helena cantou ‘Quem há de dizer’, de Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves, então sucesso de Francisco Alves (...). Foi aprovada no ato e, pelos quarenta anos seguintes, nunca passou uma madrugada longe de um microfone”. Das madrugadas ela acabaria se afastando um dia, mas o microfone ela de fato nunca mais largou. Em 2021, aos 95 anos, era “a cantora mais idosa em atividade no Brasil hoje, ainda com um vozeirão”, como destacou o pesquisador Rodrigo Faour em seu canal no YouTube. Do Pigalle, Helena foi para o Copacabana Palace. “Depois do Copacabana fui para a Rádio Globo, levada pelo maestro Oswaldo Borba. E a seguir passei para a boate Oásis, em São Paulo. Voltei ao Rio e fiz temporadas em quase todas as boates cariocas”, resumiu ela na Revista do Rádio de 08/12/1962. No meio desse entra e sai de boates, Helena estreou em disco, aos 24 anos. Não com músicas românticas ou com algum samba-canção, gêneros que marcariam sua trajetória, mas sim com ritmos nordestinos: o baião “Bodocongó”, de Humberto Teixeira e Cícero Nunes, e “Oi, que tá bom, tá”, remelexo de Humberto com Lauro Maia, ambos gravados em 25 de julho de 1950 e lançados num mesmo 78 rotações em outubro pela Todamérica, a primeira das muitas gravadoras pelas quais ela passaria. No segundo disco, lançado no mês seguinte, estava mais uma composição de Humberto Teixeira, desta vez um samba, “Martírio” – parceria com Oldemar Magalhães –, e uma marcha de Luiz Antônio, Jota Júnior e Paulo Gesta, “Cachopa”, que chamou a atenção da imprensa e chegou a ter algum destaque no Carnaval. No terceiro 78 rpm de Helena, chegado às lojas em abril de 1951, foram apresentados o “Baião do Salvador” (outra de Humberto Teixeira, em parceria com Sivuca) e o samba-baião “Feliz matrimônio”, de Luiz Antônio e Jota Júnior. O próximo, pela Continental, viria só em outubro, com “Vamos balancear” (mais um baião da dupla Humberto Teixeira e Lauro Maia) e “Samba que eu quero ver”, de João de Barro e do pianista Djalma Ferreira, este último responsável, com seu conjunto Milionários do Ritmo, por acompanhar Helena – “sua nova crooner”, como destacava Ney Machado na revista Carioca de 01/11/1951 – nas duas músicas. Foi como cantora do grupo de Djalma que ela estreou em long-playings em 1953, nas duas últimas faixas do disco de 10 polegadas “Parada de dança vol. 1”: “Tanto quanto eu” (de Nestor Campos e W. Santos) e “Eu já não sei” (de Djalma Ferreira e C. Nunes). “Dolores Duran, Helena de Lima, Gigi e seu acordeon e o pianista Walter Gonçalves (...) são as excelentes atrações do bar Bacará”, anunciava Stanislaw Ponte Preta – o jornalista Sérgio Porto – em sua coluna na Manchete de 30/04/1955. Sobre a época da boate Baccarat, Helena revelaria décadas depois a Cláudia Martins (Jornal do Commercio, 20 e 21/07/1986): “Dolores era minha amiga, minha irmã. Eu pedia a ela que me ensinasse tudo o que sabia fazer. Ela me perguntou se eu queria mesmo aprender. Foi assim que se tornou minha mestra e com ela aprendi tudo que sei fazer hoje, de todo coração”. Entre 1956 e 1958, conta Thais Matarazzo Cantero que Helena se apresentou com frequência na boate Jirau, onde Ary Barroso ia sempre prestigiá-la. Sem contar o barulho estrondoso que ela fez em São Paulo em 1957. “Como santo de casa não faz milagre, Helena de Lima (que no Rio é ‘crooner’) é ‘big name’ em São Paulo. Sua temporada no Captain’s marcou um sucesso somente comparável ao que ali tiveram Jorge Veiga, Ataulfo Alves e Isaurinha Garcia”, destacava Stanislaw na Manchete de 03/08/1957. “São Paulo descobriu Helena de Lima e fez dela uma de suas favoritas”, confirmou Mister Eco (Eustórgio Antônio de Carvalho Júnior) no Diário Carioca de 11/09/1957. Às vezes ela sumia. “Quando sentia-se exausta de tanto trabalho, Helena retirava-se da noite sem avisar e não dava explicações nem aos amigos. Viajava, descansava e, quando se julgava disposta, voltava e enfrentava a luta”, explica Thais. À Revista do Rádio de 29/08/1964, a própria cantora falou sobre um de seus sumiços: “Desapareci porque me sentia cansada, o trabalho constante de noite após noite me afetara o sistema nervoso. Então me desliguei totalmente, inclusive dos amigos, e um dia, refeita e novamente disposta a enfrentar a luta, voltei e aqui estou (...)”. Talvez isso explique por que também ficava alguns períodos sem gravar. Helena voltaria ao estúdio apenas em dezembro de 1955, com dois “sambas-prelúdio” da dupla Vadico e Marino Pinto fazendo parte de um mesmo 78 rotações: “Coração, atenção” e  “Prece”, este um grande sucesso de sua carreira. A bolachinha chamou a atenção da crítica. Na Revista do Disco de maio de 1956, Newton Pinheiro tascou no título de sua coluna: “Nota máxima para um nacional”. Em novembro, no mesmo periódico, ele sentenciava: “Para os discófilos de todas as classes, aconselhamos essa gravação, a nosso ver a melhor de 1956, interpretada por Helena de Lima, a grande desconhecida de nossa música”. Mais ou menos nessa linha seguiu Marino Pinto ao escrever o texto da contracapa do primeiro LP solo da artista, “Helena de Lima dentro da noite...” (1956): “Ela não é o que habitualmente costumam chamar um ‘cartaz’, todavia não é uma desconhecida. Nunca teve atividade permanente em emissoras do país. (...) Não estudou formas extravagantes de interpretação. Seguiu, isto sim, os imperativos da emoção, amoldando as suas canções à alma romântica que tem”. No álbum, Helena igualmente estreava como autora, com “Não há de quê”, feita com Marino e Mário Rossi. Já o segundo LP, “Vale a pena ouvir... Helena” (1958), trazia quatro sambas-canção também lançados em 78 rpm: a regravação de “Prece”, “Por causa de você” (parceria de sua amiga Dolores Duran com Tom Jobim), “Nunca é tarde” (de João Pinto) e “Ausência”, este último da própria Helena de Lima em dupla com Maria Eugênia. “Eu fico um pouco cerimoniosa, com tanta coisa bonita que esses compositores todos, esses valores todos, estão compondo. Fico meio temerosa de mostrar minhas coisas. Mas qualquer dia vou perder essa inibição e mostrar minhas músicas”, confessaria a Cláudia Martins em 1986. De autoria de Helena de Lima existem pelo menos oito, todas com parceiros diversos, de acordo com levantamento feito nas páginas Discografia Brasileira e Instituto Memória Musical Brasileira na Internet e no acervo de partituras de José Ramos Tinhorão do IMS. Neste último são encontradas duas, assinadas por Helena e César Pacheco Pereira e publicadas pela editora Euterpe em 1970 no álbum “Carnaval 1971”: a da marcha “Vou pra Lua” e a do samba “Meu sonho” – gravadas, segundo informações das próprias partituras, no obscuro selo Tema, a primeira por Helena e a segunda por Paulo Marquez. Além das quatro já citadas, outras quatro de Helena foram lançadas em vinil por ela mesma: “Atende, amor” e “Gosto de gostar de você”, ambas com Eny de Oliveira, presentes no disco “Uma noite no Drink” (1969); a marcha-rancho “São flores” (com Orlando Henriques), do LP “Helena de Lima e a Banda da Polícia Militar do Estado da Guanabara” (1967); e, em 1964, “Sinfonia do Carnaval” (com Concessa Lacerda), que receberia outras regravações, entre elas uma da própria Helena, faixa bônus do CD “Sentimentos” (2007), em versão ao vivo mostrada na Sala Baden Powell em 08/11/2006. Apesar de uma carreira tão longeva, não é extensa a discografia de Helena: são apenas 10 discos de 78 rotações – 20 faixas no total – entre 1950 e 1961 e, segundo a base de dados do Instituto Memória Musical Brasileira, 13 LPs entre 1956 e 1976 e um CD em 2007, além de nove compactos (simples e duplos) e participações em outros discos e coletâneas. Amiga de muitos compositores, gravaria “mais músicas de Luiz Antônio e Fernando César do que de outros”, segundo o Jornal do Brasil de 07/07/1967. Do primeiro ela levaria ao disco 33 canções; do segundo, 21. “Haroldo Barbosa e Luís Reis são amigos que a cantora guarda no coração”, destacou ainda Rodrigo Faour na Tribuna da Imprensa de 15/06/1998. Um samba da dupla, “Fiz o bobão”, estava no 78 rpm que Helena gravou para a Mocambo em 1961. O outro lado trazia a música que seria o maior êxito de sua carreira. “Surgiu num momento de euforia de Paulo Soledade, em dezembro de 1960, quando, após ter estado convalescente de uma cirurgia de alto risco, sentiu-se completamente recuperado”, revelam Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello no segundo volume de “A canção no tempo” (Editora 34, 1998). Contam eles: “Vinte e dois anos depois, em depoimento concedido ao Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, Paulo afirmou: ‘Foi uma composição que fiz em quinze minutos, sem violão, sem nada, e que representa para todos que a ouvem um hino de recuperação’”. Muita gente se recusou a gravar a marcha-rancho, inclusive artistas do seu círculo de amizade. Coube a Helena de Lima a primazia de levar ao disco essa obra-prima imortal: “Vê, ‘Estão voltando as flores’ / Vê, nessa manhã tão linda / Vê como é bonita a vida / Vê, há esperança ainda...”. Entre 1961 e 1962, já lançando um long-playing após o outro, Helena de Lima viu chegar às lojas, pela gravadora RGE, seus últimos dois discos de 78 rotações: em julho de 1961, o que continha o samba-canção “De agosto a setembro”, de Armando Cavalcanti e Victor Freire, e o samba “Notícia de jornal”, de Luís Reis e Haroldo Barbosa, ambos presentes no LP “A voz e o sorriso de Helena de Lima” (1961). Em novembro, veio o derradeiro, com duas marchas-rancho de Luiz Antônio: “Pierrô” – lançada também como faixa do LP “O céu que vem de você” (1962), que trazia ainda uma nova versão de “Estão voltando as flores” – e “Pedro das Flores”, sobre a qual escreveu Thais Matarazzo Cantero: “A música faz referência a um vendedor de flores das noites cariocas chamado Pedro, que se tornou uma figura ilustre, sempre muito elegante trajando com smoking”. Nesse período, Helena de Lima havia começado uma das fases mais marcantes não só de sua carreira, mas da própria noite carioca. “A Helena conseguiu manter lotada uma casa em Copacabana, das 22 às 5 da madrugada, com três entradas, enquanto a bossa nova nascia no Beco das Garrafas, bem ao lado”, recordou Lúcio Alves em entrevista a Ciléa Gropillo (Jornal do Brasil, 16/07/1979). A casa em questão foi lembrada em matéria do mesmo JB em 07/07/1967. “(...) sua melhor temporada foi no Cangaceiro, quando bateu o recorde de permanência numa só boate: seis anos seguidos, dos quais cinco com o pianista Raul Mascarenhas”. Impossível falar de Helena de Lima sem mencionar a boate da Rua Fernando Mendes, em Copacabana, onde ela estreou em novembro de 1960. “Se Helena saísse e descesse cantando pela Rua Fernando Mendes em direção à praia, as pessoas a seguiriam, de copo na mão, pela areia e para onde ela fosse. Havia um caso de amor entre Helena de Lima e seu público”, assegura Ruy Castro em “A noite do meu bem”. Além de proporcionar uma casa lotada todas as noites, a cantora seria ali a pioneira de dois futuros modismos, como informou Elizabeth Orsini no Jornal do Brasil de 10/06/1986: “Em seu currículo carrega a honra de ter sido a primeira a gravar ao vivo em boate, e também a primeira a introduzir o pot-pourri nesse tipo de casa noturna”. O disco que resultou dessa gravação, feita em 1964, foi o emblemático “Uma noite no Cangaceiro”, um sucesso tão estrondoso que obrigaria a cantora a lançar mais dois álbuns ao vivo: “Outra noite no Cangaceiro...” (1965) e “Uma noite no Drink” (1969). Sobre o surgimento dos pot-pourris, ela própria explicaria, em entrevista a Antonio Abreu (Tribuna da Imprensa, 15/01/1996): “Como eu estava sempre lá no Cangaceiro, os autores me mostravam as canções em primeira mão. Eu decorava as músicas e as apresentava no dia seguinte. (...) Como os amigos sempre pediam para cantar as músicas, se eu os atendesse o show não teria mais fim. Por isso, inventei a coisa de cantar apenas um pedacinho das canções para deixar todos satisfeitos”. Helena participou, como intérprete, de alguns festivais de música popular: o da TV Record, de São Paulo, o I Festival Internacional da Canção Popular, no Maracanãzinho (Rio), ambos em 1966, e a I Bienal do Samba, também em São Paulo, em 1968, além do Concurso de Músicas para o Carnaval promovido no Rio em 1969, ano em que brilhava na boate Drink, da qual chegou a ser dona – ela comprou o estabelecimento de Cauby Peixoto. Na década de 1970, passaria a conquistar outros públicos: “Helena de Lima, apresentando-se pela primeira vez na Zona Norte, está cantando de quinta a domingo na Churrascaria Tijucana, acompanhada pelo trio de Lauro Miranda”, anunciava o Jornal do Brasil em 26/10/1972. Voltaria às boates apenas em 1979. “(...) fiz muito clube, muita churrascaria, um trabalho que, eu gostaria que todos soubessem, não desmerece ninguém. (...) Sou uma profissional da noite. Gosto de cantar em ambientes fechados, para um público restrito”, disse a Ciléa Gropillo em entrevista publicada naquele ano (16 de julho) no JB. “Sobre sua vida sentimental ela se nega a falar, mas posso informar que Helena de Lima tem 53 anos, nunca casou e mora num apartamento do Posto Seis de Copacabana”, contou Jeff Thomas na revista Fatos e Fotos do dia 01/10/1979, mês em que a cantora retornava ao palco do Le Club após algumas semanas hospitalizada por causa de uma operação de clavícula. Com o grande amigo Miltinho, fez em 1980 o Projeto Seis e Meia da Sala Funarte. Em 1982, ela mostraria seu lado de atriz na remontagem do grande sucesso “Brasileiro, profissão: esperança”, de Paulo Pontes, ao lado de Ítalo Rossi. “A dupla está lotando a casa – Sambão, do Rio – do Ivon [Curi] todas as noites”, informou Jorge Mascarenhas n’O Cruzeiro de 15/06/1982. Quatro anos depois, estreou na casa noturna Un, Deux, Trois, no Leblon, o show “Estão voltando as flores”, mais um gol de placa em sua extensa trajetória. A marcha-rancho de Paulo Soledade, eterno carro-chefe de Helena, também batizaria o espetáculo que ela e Tito Madi levaram ao Teatro Dulcina em 1992 e ao João Caetano em 1996. “Mesmo tendo feito toda a sua carreira na madrugada, Helena de Lima nada tem de boêmia. Nas noites em que não atua, vai dormir bem cedo, ‘pois não há nada mais belo do que as manhãs de Sol, na praia de Copacabana’”, revelou Nélson Pais Barreto na Manchete de 07/12/1963. A própria Helena, na entrevista a Gilse Campos em 1970, confirmou: “Durmo muito bem durante a manhã, tenho os dias certos para fazer as coisas, as tardes são geralmente em casa, arrumando (tenho mania de arrumação). Apenas meu horário é diferente”. Outras curiosidades foram apontadas por Cláudia Martins na reportagem de 1986: “A cantora tem certos traços muito particulares em sua personalidade: sempre toma um cálice de vinho do Porto antes de subir ao palco, adora bichos e sempre tem um gatinho. O atual tem o nome de Cré-Cré de Lima, e adotou com carinho uma gata que mora na boate Un, Deux, Trois, a quem Helena sempre mandava um beijinho na hora de agradecer ao público”. Público fiel até o fim, como apontou Rodrigo Faour em seu canal no YouTube: “Ela sempre teve um fã-clube muito devoto, pessoas que a adoravam. Porque, nos anos 60, o grande point da Helena foi justamente o Cangaceiro (...). Ali foi o ápice da carreira da Helena. E esses fãs que iam prestigiar a Helena no Cangaceiro acompanharam a Helena até o fim da vida”. Mesmo afastada das noites, nunca abandonaria os palcos. Às vésperas de completar 80 anos, estava em plena atividade, como anunciava a nota do JB de 09/05/2006 sobre uma de suas apresentações: “A cantora, acompanhada por piano e violão, resgata seus velhos sucessos em show do ciclo ‘Terças melhores’, dedicado ao público da terceira idade”. “Cantei muito, mas nunca fui sucesso para o grande público. Para quem sempre se apresentou sem suporte de divulgação, posso dizer que estou satisfeita”, declarou ela a Ciléa Gropillo (JB, 16/07/1979). Mas admitiu: “Na verdade, sempre fui um pouquinho acomodada”. Faour, em 2021 no YouTube, contou que a memória da artista começou a falhar em 2007, ano em que ela lançou o CD “Sentimentos”. No entanto, fez uma ressalva: “Ela já não lembra muito da vida dela, das coisas, das pessoas, mas quando ela vai pro palco é muito emocionante, porque ela lembra de todas as melodias, de todas as letras, sem ler. (...) E a voz se mantém”. Em 2013, Helena foi morar no Retiro dos Artistas (veja aqui um vídeo dela falando sobre o local e convidando para o “Samba do Retiro” e aqui uma entrevista feita com ela em 12/11/2013 no auditório do Retiro). De lá, ela costumava sair apenas para comemorar seus aniversários, sempre em companhia da fã número um, Marina Teixeira, criadora da página Acervo Helena de Lima no YouTube. Aos 16 anos (em dezembro de 1963), Marina foi levada pelo pai a um show de Helena no Cangaceiro e acabaria se tornando, mais do que sua grande amiga, praticamente uma filha. Helena aproveitava as comemorações para matar a saudade do microfone, como se vê nesse registro feito por Rodrigo Faour, onde ela canta “Janelas abertas”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, no seu aniversário de 93 anos, em 2019. Foi o último que ela comemorou com festa: em 2020 e 2021, a pandemia não permitiu. Se não tivesse partido há exatos quatro anos, em 16 de maio de 2022 – justamente na véspera de fazer 96 –, certamente estaria comemorando seu centenário do jeito que mais amava: ao lado dos amigos, soltando sua bela e potente voz. Foto principal: Helena de Lima fotografada por Mafra (Coleção José Ramos Tinhorão/IMS)