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Adelaide Chiozzo, 90 anos: simpatia pra dar e vender!

Fernando Krieger

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“Ela é um encanto de menina. Voz cantante, gestos recatados, medo nas opiniões, feminilidade à beça. Todo mundo tem vontade de ser o namorado dela... mas a garota nem dá bola. Quando nos olha com aqueles olhos de amêndoa, a gente fica com a alma assim de ternura e pureza”. (Seção “Por trás do dial”, resposta dos redatores de “Carioca” à carta enviada pela fã Margô Lamait. Revista “Carioca” nº 579, 09/11/1946, pág. 41)

 

Foi ela o rosto e a voz do “Beijinho doce” (tema de post em nossa página em março de 2020), junto com a amiga Eliana Macedo. Foi cantora, compositora e acordeonista. Foi, assim como Eliana, heroína das chanchadas cinematográficas. Foi uma das “namoradinhas do Brasil”. Foi atriz de novelas. Foi Princesa do Rádio. Foi a Cantora Misteriosa. Foi romântica e também roqueira! Foi e é, acima de tudo, uma das nossas maiores artistas: Adelaide Chiozzo, “a que tem simpatia pra dar e vender”, nas palavras de César de Alencar.

 

Paulistana do Brás, nasceu em 8 de maio de 1931 e foi registrada no dia 13, data que acabou constando na sua certidão, pois o velho Geraldo Chiozzo, indagado pelo tabelião sobre o dia do nascimento da filha, respondeu: “hoje”. Com sete ou oito anos, ajudava o pai, mestre entalhador, em sua oficina nos fundos da casa, cortando madeira, lixando e pintando. “Eu era muito sacrificada. Era aquela menina que tinha de fazer tudo. Eu trabalhava muito”, recordou na biografia “O acordeom e o beijinho doce”, de Patrícia Rodrigues (São Paulo: Imprensa Oficial, 2012). Sacrificada, porém muito vaidosa desde cedo: se não estivesse bem vestida, nem à escola queria ir.

 

Nunca estudou música nem teve professor. Seu relacionamento com esta arte parecia ter algo de espiritual, pelo que se depreende da leitura de sua biografia. Pequena, ponteava numa viola de seis cordas, fazendo dupla com a irmã mais velha, Carolina, ao violão. Proibida de chegar perto de um acordeom que o pai ganhara, mas não conseguia tocar, disse à mãe que, se pegasse a harmônica (a sanfona), tocaria. A contragosto e às escondidas, sua mãe, Leonor Cavallinni, a atendeu: botou o pesado instrumento no colo da filha e segurou as correias. Adelaide então tocou uma valsa – no fim, sua mãe perdeu os sentidos e desmaiou: a menina tocara a valsa inteira, sem errar uma nota e sem nunca ter empunhado antes o instrumento. (Em sua biografia, Adelaide informa que a música era de autoria de seu tio, Luiz Cavallinni, falecido aos 33 anos; mas, em 2012, no programa de TV “Sr. Brasil”, de Rolando Boldrin, ela disse ter sido “Saudades de Matão”, de Jorge Gallati.)

 

Com 10 ou 12 anos, escondida do pai e com o apoio cauteloso da mãe, participou de um concurso na Rádio Bandeirantes e assinou (pelas mãos de dona Leonor) seu primeiro contrato, no programa “Serra da Mantiqueira”. Quando o pai descobriu, impôs uma condição: que o irmão Afonso, mais velho que ela, a acompanhasse na empreitada. Assim surgiu a dupla de acordeonistas Irmãos Chiozzo, muito aplaudida pelas cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais, que naturalmente deu origem à Família Chiozzo, com as adesões de Carolina, fazendo a primeira voz – Adelaide, de timbre grave e canto afinado, ficava na segunda –, e a caçulinha Sylvia (a futura cantora e compositora Sylvinha Chiozzo) dançando.

 

Foi em 1946, quando a família se mudou para Niterói, no estado do Rio de Janeiro – ao casar, Adelaide se instalaria definitivamente na Tijuca –, que a jovem começou a despontar para o estrelato, apresentando-se com o irmão na Rádio Nacional, onde obteve o primeiro lugar no famoso “Papel carbono”, de Renato Murce, imitando o sanfoneiro Pedro Raimundo. Passou por outras emissoras cariocas – Rádio Clube, Tupi, Mayrink Veiga –, até ser contratada definitivamente pela mesma Nacional para o regional de Dante Santoro, em 1948.

 

No ano anterior, ela e Afonso estrearam no cinema. Nos seus dois primeiros filmes, “Este mundo é um pandeiro” (1947) e “É com esse que eu vou” (1948), os irmãos acompanhavam Bob Nelson, Adelaide sempre de tranças e vestida de vaqueira. Foram os primeiros dos 13 filmes de que ela tomou parte, cinco deles junto com a amiga e parceira de cinema e música Eliana Macedo (Ely Macedo de Souza, 21/09/1926 – 18/07/1990).

 

Gravou os dois primeiros discos em 1949, ambos pela gravadora Star e com o acompanhamento do acordeonista Alencar Terra, lançados em janeiro de 1950: o primeiro trazia “Pedalando” – polquinha amada pelo público e que na década de 1980 acabaria virando, com outra letra, propaganda de conhecida marca de bicicleta, cantada pelos Trapalhões em seu programa de TV – e “Tempo de criança”; o segundo tinha “Venho de Minas” e “A saudade não me deixa”. “Tempo de criança” foi a primeira música que Adelaide cantou sozinha no cinema, na película “E o mundo se diverte” (1948), não como coadjuvante de Bob Nelson e sim como uma das intérpretes principais – mas sem abrir mão da indefectível trança, desta vez enrolada sobre a cabeça.

 

Foram 19 discos (38 fonogramas) em 78 rotações, lançados entre 1950 e 1958, sendo 10 músicas em dupla com Eliana, como “Beijinho doce”, que ambas gravaram em 1951 para a Star, com relançamento em 1954 pela Copacabana. A valsa de Nhô Pai já tinha sido um dos pontos altos do filme “Aviso aos navegantes” (1950), no qual Adelaide brilha em outros dois números: sozinha, na deliciosa “Sereia de bordo”, e, de novo ao lado de Eliana, na marcha “Recruta biruta”.

 

Eram unidas até nas questões do amor: após a estreia de “Carnaval no fogo” (1949), o radialista Renato Murce convidou as duas atrizes do filme para uma turnê pelas cidades paulistas onde a fita estava sendo exibida. Dessa viagem fez parte o violonista Carlos Mattos (1926 – 1º/11/2006), com quem Adelaide já conversara anteriormente, num show de que ambos haviam participado. O saldo da turnê, além do esperado sucesso, foi este: Eliana se casou com Renato Murce e Adelaide com Carlos Mattos, em 20/01/1951, numa feliz união que durou quase 56 anos e que também se tornou uma parceria musical, com o marido a acompanhando nos palcos.

 

Como mocinha das chanchadas, nunca podia dar um beijinho doce em nenhum dos seus partners da tela grande, por causa da proibição do pai e, posteriormente, dos ciúmes do esposo. Porém, no filme “Garotas e samba” (1957), o diretor Carlos Manga conseguiu driblar a vigilância do marido, que assistia à cena nos bastidores. Manga prometera que o beijo entre Adelaide e o cantor Francisco Carlos, seu par romântico, seria somente insinuado, não filmado; mas, ao final do medley “Nossa toada / Não pense em me abandonar”, a câmera demorou a tirar os dois do enquadramento, e o “beijo” entre eles – um selinho pra lá de inocente – acabou registrado. Foi o suficiente para Carlos surtar: “Ele ficou louco. Aquilo foi um desespero na minha vida. Ele só falava nisso”, revela Adelaide na biografia.

 

Embora diversas fontes informem ter sido ela a primeira “namoradinha do Brasil”, em concurso promovido pela “Revista do Rádio”, não é possível encontrar informação sobre este certame no periódico, nem em outros do acervo digital da Biblioteca Nacional. Fato é que foi uma das diversas artistas que, antes da atriz Regina Duarte, ostentaram este título, como a parceira Eliana e as “namoradas do Brasil” – assim eram chamadas pela imprensa – Celly Campello e a miss Marta Rocha. Franca favorita para vencer a disputa de Rainha do Rádio de 1952, acabou perdendo para Mary Gonçalves numa virada de última hora, tornando-se Primeira Princesa.

 

Viajou bastante pelo país desde a dupla com o irmão nos anos 1940, rotina que continuou na década de 1950, desta vez em companhia do marido e parceiro musical e, não raro, de seus colegas de microfone. Em depoimento para o “Almanaque da Rádio Nacional”, de Ronaldo Conde Aguiar (Casa da Palavra, 2007), contou: “Chegamos a fazer shows em mais de novecentas cidades. Quando chegávamos, éramos ovacionados, a multidão ficava enlouquecida. Tanto que, após alguns shows, fui obrigada a dormir na cadeia da cidade. Se ficasse no hotel, os fãs invadiriam, quebrariam tudo”. A idolatria de seus admiradores nada ficava a dever à dos fãs de Emilinha e Marlene. Em Belém, no Pará, precisou ir ao médico fazer curativo, pois, além de partes de suas roupas, tentaram arrancar... um pedaço de sua perna com as unhas!

 

Em 1956, quando a irmã caçula completou 18 anos, surgiu nova dupla na Rádio Nacional, as Irmãs Chiozzo, que já cantavam informalmente em eventos e shows. Em 1958, gravaram “Ele esqueceu”, a resposta ao “Beijinho doce”, e “Cabecinha no ombro”. No mesmo ano, Adelaide gravou seu único long-playing, “Lar... doce melodia”. Sylvinha casou em 1959, retirando-se da vida artística.

 

Na década seguinte, por conta da escassez de shows, a cantora do rádio precisou se reinventar. Por sugestão do marido, formaram um grupo de rock, Eles e Elas, por volta de 1967, com Carlos na guitarra, Adelaide no baixo elétrico e voz, Cristina Maria – filha do casal, então com 12 anos – na guitarra base e voz e, na bateria, o sobrinho Marco Antônio. No fim da década, atuou por onze meses no programa de Flávio Cavalcanti, na TV Tupi, como a Cantora Misteriosa, com direito a máscara, véu e um compacto duplo lançado em 1970.

 

A morenice brejeira deu lugar aos cabelos louros no documentário “Assim era a Atlântida” (1974), do qual foi personagem e anfitriã, conduzindo toda a narrativa. Estrelou shows memoráveis, como “Cada um tem o acordeom que merece”, 10 meses de sucesso nos teatros cariocas entre 1975 e 1976. Novamente com sua irmã nas artes, Eliana, fez em 1980 uma temporada na Sala Funarte e o Projeto Pixinguinha, como madrinhas dos gaúchos Kleiton e Kledir. Adelaide e Carlos chegaram a trabalhar como corretores de imóveis nesse período: “Nós estávamos fazendo poucos shows, então tínhamos de arranjar uma outra forma de sobreviver”, recordou em sua biografia.

 

A dupla dinâmica mais charmosa das chanchadas foi revivida na novela “Feijão maravilha” (Rede Globo, 1979), uma homenagem àquele gênero do cinema: as inseparáveis Eliana e Adelaide Chiozzo – esta no papel de Leonor, o que a deixou emocionada, pois era o nome de sua mãe – pintaram e bordaram. No último capítulo, cantaram “Escute aqui”, parceria de Carlos Mattos com Adelaide (de 1971, época do conjunto de rock), com direito a um show de dança das duas em ritmo de discoteca. Na mesma emissora, Adelaide fez ainda uma participação especial em “Cambalacho” (1986) e atuou em “Deus nos acuda” (1992).

 

Talentosa e carismática, a artista – que nos deixou em 4 de março do ano passado, aos 88 anos – nunca se afastou do público que a idolatrava, tampouco dos palcos: “o chão do palco é o meu chão”, dizia. Na playlist a seguir, selecionamos 15 canções que ajudaram a fazer a história de Adelaide Chiozzo na música brasileira, entre elas as iniciais “Pedalando” e “Tempo de criança”, os baiões “A saudade não me deixa” e “É noite, morena”, alguns dos duetos com Eliana – como “Beijinho doce”, “Cabeça inchada” e “Sabiá na gaiola”, esta do filme “Aí vem o barão” (1951) –, a rancheira “Tempinho bom” – do filme “O petróleo é nosso” (1954) – e “Nós três”, composição do Trio Surdina que ganhou letra de Adair Badaró em homenagem ao casal Adelaide e Carlos e à sua filha recém-nascida, Cristina.


Foto: Coleção Walter Silva / IMS

 

 

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