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    Ooooooh, Norma, que cantora! Os 90 anos de La Bengell, um talentaço nos palcos, na TV, no cinema... e também no disco!

    Fernando Krieger

    tocar fonogramas

    Norma Aparecida Almeida Pinto Guimarães d’Áurea Bengell. Registro em cartório da mistura de sangues fortes: português, índio, negro, francês e alemão. Brasileira de corpo, alma e coração.

    (Norma Bengell em sua autobiografia – Editora nVersos, 2014)

    “Esta é – decididamente – a girl do ano. Norma Benguel, que Antônio Maria apelidou de ‘Norminha Meu Benguel’, foi a mais comentada, a mais aplaudida e a que fez a carreira mais rápida no teatro da madrugada. A sua história – segundo Stanislaw – é mais ou menos esta: nasceu numa casa de saúde carioca, onde tudo correu bem – como vocês podem notar na foto – no dia 21 de fevereiro de 1935 (...)”. O texto da Manchete de 31/12/1955 apresentava assim a vedete Norma Bengell – na época chamada de Benguel ou Benguell pela imprensa – como uma das “mais bem despidas do Brasil”, uma das famosas Certinhas do Lalau, que o jornalista Sérgio Porto – ou melhor, seu alter ego Stanislaw Ponte Preta – elegeria entre 1954 e 1967. Era o primeiro ano em que Norminha, então com 20 anos, aparecia na lista – o que aconteceria também em 1956 e 1957.

    A garota, apesar do nome de princesa, teve uma infância modesta e complicada – uma “montanha-russa”, definiria anos depois. Ao assistir “Gilda” (1946) no cinema (com a estrelíssima Rita Hayworth), sentiu que seu lugar era ali, naquela telona. Estreou por volta dos 16 anos como modelo – na época se dizia manequim – da Casa Canadá. Dali para o teatro de revista seria um pulo: “(...) aos 19 anos, minha beleza chamou a atenção de Caribé da Rocha, que me convidou para atuar na temporada do show musicado ‘Fantasia e fantasias’, que estrearia no Hotel Copacabana Palace”, recorda Norma em sua corajosa autobiografia, “Norma Bengell”, publicada em 2014, ano seguinte ao do seu falecimento, no Rio de Janeiro – sua cidade natal –, em 09/10/2013, aos 78 de idade, levada por um câncer no pulmão – fumava dois maços de cigarro por dia.

    “Sua presença no palco, dançando, cantando e mostrando as pernas, era o misto de malícia e inocência que, por causa de Marilyn Monroe, todas as mulheres agora buscavam – e Norma tinha de sobra”, afirma Ruy Castro em “A noite do meu bem: a história e as histórias do samba-canção” (Companhia das Letras, 2015), fazendo uma comparação entre a vedete brasileira e sua “xará” estadunidense – na certidão de batismo, a pin up Marilyn, já então uma diva do cinema nos anos 1950, também era Norma.

    Carlos Machado, o rei da noite carioca, chamou-a para participar de seus shows noturnos nas boates Casablanca e Night and Day, no Hotel Serrador, Centro do Rio. “De dia eu continuava desfilando na Casa Canadá. À noite eu dançava, cantava e interpretava. (...) Cada vez que eu entrava em cena, o público ficava sem fôlego. Logo me tornei a atração principal do show, a vedete mais conhecida da boate Night and Day, e fizemos uma turnê que passou por Montevidéu e Buenos Aires. Me tornei uma verdadeira show-woman”, diz na biografia. “Nossa protegida Norma Benguel (...) resolveu também mudar de gênero e fez-se atração cantante do ‘La Boheme’”, anunciava Stanislaw na revista Mundo Ilustrado de 21/05/1958.

    “Quando Norma Benguel canta ‘I love you yes I do’, incorporando à voz e aos gestos um diabólico apelo, os homens que a ouvem quase correm para socorrê-la. (...) Parece que nunca houve, numa casa noturna do Rio de Janeiro, cantora que tenha comunicado mais na voz e no gesto do que Norma Benguel”, derretia-se Aluizio Flôres em reportagem publicada na Manchete de 14/06/1958 sob o título “Norma Benguel: a bossa de Gilda nas noites cariocas”. Continuava o repórter: “Embora reconheça não ter uma grande voz (bem mais grave do que é natural nas mulheres), Norma acha que tem muita bossa, sendo justamente esta qualidade a que a consagrará definitivamente como cantora ‘sexy’ no Brasil e no estrangeiro”.

    A Coelhinho – “apelido que lhe valeram os seus dois dentes incisivos superiores, levemente salientes”, na explicação de Aluizio Flôres – era presença marcante nas boates e também em programas de televisão com seus vestidos decotados e cheios de fendas, que desagradavam os censores da época. “Positivamente estou sendo vigiada demais. Tenho a certeza de que as minhas roupas nada têm de mais (ou de menos, como querem alguns)”, defendia-se na Radiolândia de 21/06/1958, já mostrando traços da personalidade forte que iria acompanhá-la vida afora, como bem lembrado no texto da contracapa de sua autobiografia: “Despida não apenas de corpo, mas também de alma, nunca se calou e encarou – muitas vezes, de forma inconsequente – desamores, preconceitos da sociedade, injustiças sociais, ditaduras e, principalmente, os altos e baixos da profissão (...)”.

    Atriz, vedete, produtora e cineasta, super inteligente e talentosa, engajada artística e politicamente, Norma seria atacada e diminuída das mais diversas maneiras em todas as épocas da sua vida por críticos, detratores, pessoas machistas, misógenas, reacionárias e preconceituosas. Não poderia ser diferente em sua atividade como cantora. A Radiolândia de 27/12/1958 publicou um texto que avaliava sua participação no programa “Sr. Ritmo”, da TV Record: “Norma Benguel, vestida e cantando, é um autêntico contrassenso. A recíproca seria, sem dúvida, melhor recebida [sic] pelos espectadores”. Para Nestor de Holanda (Diário Carioca, 28/12/1958), “Apenas quando canta, desafina tanto que até sua imagem fica fora de foco, na TV. Mesmo assim ela insiste”.

    Norma Bengell soltando a voz em fotos de Victor Gomes para a revista Manchete (14-06-1958) e no traço do caricaturista Mendez na Radiolândia (23-04-1960)

    Não foi essa a impressão que Norminha passou quando fez seu début no cinema brasileiro em fins de 1959, personificando/parodiando a polêmica e controversa atriz Brigitte Bardot (que se tornaria musa da nossa música popular, como mostramos neste post) no filme “O homem do Sputnik”, dirigido por Carlos Manga, onde fazia o papel de uma sedutora espiã francesa chamada, não por acaso, BB. Com voz sensual e caliente, Norma dominava a tela e deixava o personagem de Oscarito enlouquecido.

    Ao debutar na telona, já tinha estreado também na indústria fonográfica, contando com uma ajudinha do acaso e – segundo diria mais tarde em entrevista para O Pasquim (28/08/1969) – “na chantagem”. Foi Stanislaw quem chamara a atenção no Mundo Ilustrado de 09/05/1959: “A fábrica de discos Odeon lançou um disco com o conjunto de Mário Gennari Filho (um bom disco dançante, por sinal) e castigou na capa a bela Norma Benguel com aquela roupinha de vedete que tão bem lhe assenta”. E ainda alfinetava: “(...) tem muita gente que vai comprar o disco por causa dela. Mas... e os que já ouviram Norminha na televisão? Estes podem pensar que é ela a cantora do disco e não o vão comprar”.

    “A capa era ilustrada com uma foto linda minha, comprada da revista Manchete, sem o meu conhecimento nem consentimento”, recorda Norma na biografia. “Aí eu fui à Odeon e disse que me tirassem da capa (...). Aí eles disseram: ‘Como, tirar o disco da praça?’. Eu disse: ‘Sim, senhor, e quero dois milhões’, isso em 1959. Menino, eu era ambiciosa”, confessou no depoimento ao Pasquim, onde ela seguiu com a história: foi para casa, pensou melhor e voltou à gravadora dizendo que não queria dinheiro nem a retirada do álbum de circulação, “mas com a condição de que eu gravasse um disco”. Propuseram um 78 rotações; ela exigiu um long-playing.

    “Foi assim que gravei o meu primeiro LP, ‘Ooooooh! Norma’. É um ótimo disco, do qual muito me orgulho. Para a surpresa dos produtores e do público, o disco já tinha uma sonoridade bem próxima da bossa nova e minha voz – sussurrante, aveludada e sensual – foi comparada à da cantora americana Julie London”, escreveu em seu livro. Ruy Castro, em “A onda que se ergueu no mar” (Companhia das Letras, 2001), complementa: “E não apenas seu disco era surpreendente (ela sabia cantar!), como a capa era ‘diferente’: sentada num banquinho invisível sobre fundo preto, Norma parecia estar nua e os oo do título se encadeavam como argolas, sendo que o h servia também como ponto de exclamação”, referindo-se ao design criado por César G. Villela e à fotografia de Francisco Pereira.

    Do repertório do álbum constam standards internacionais – “This can’t be love”, “On the sunny side of the street”, “You better go now”, “That old black magic” e “Fever” (esta entrou por exigência da cantora, que fez uma interpretação de arrepiar) –, cinco faixas bem ao estilo bossa nova – “Sucedeu assim”, Eu sei que vou te amar”, “Eu preciso de você”, “Sente” e “Hô-bá-lá-lá” (com uma pegada latina) –, uma canção em francês (“C’est si bon”) e outra em espanhol (“Drume negrita”). Duas destas músicas, “Sente” e “On the sunny side of the street”, gravadas em 11 de setembro, seriam também lançadas num disco de 78 rotações, o primeiro dos únicos dois de sua discografia. Já “Hô-bá-lá-lá”, “Sucedeu assim”, “Sente” e “Eu preciso de você” sairiam ainda num compacto duplo.

    Uma das maiores cantoras da bossa nova atestaria a qualidade do long-playing. “Será lançado em outubro pela Odeon o LP da vedeta Norma Benguel. Não fazíamos fé nenhuma nele até que Sylvia Telles nos telefonou e disse que ela vai ser a maior surpresa de nossa carreira de crítico de discos: ‘Prepare-se’ – diz-nos Sylvinha – ‘pra cair duro pra trás’”, escreveu Ary Vasconcelos em O Jornal de 20/09/1959, conforme informação do livro “Para ouvir Sylvia Telles”, de Gabriel Gonzaga (Showtime, 2021). “Com repertório escolhido a dedo e ótimos arranjos do maestro Gaya, o disco ficou excelente e tornou-se um clássico. Sylvia assessorou Norma durante o processo de produção, dando aulas informais de canto, corrigindo as melodias dissonantes e revelando truques de trabalho em estúdio”, complementa Gonzaga.

    “Apesar do sucesso, Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, avaliou o disco negativamente”, recorda Norma na biografia. Ela nunca esconderia sua mágoa: no programa “Roda viva”, da TV Cultura, em 1988, ao falar sobre o jornalista e escritor, ela mandou na lata: “(...) todo mundo acha ele divino, eu não acho. Ele arrasou o meu disco e eu fiquei meio traumatizada”. Stanislaw não seria o único: vieram outras pedradas. Mas Norminha colheu elogios também. “Dona Vitrolina”, na Radiolândia de 17/10/1959, não deixou dúvidas: “Parece mentira, mas o fato é que a discutida vedeta (discutida como cantora) está realmente bem em todas as faixas, cantando à vontade, às vezes deliciosamente sexy e – o que é importante – afinadinha da silva. Vocês vão ficar de boca aberta...”.

    Antes mesmo do lançamento de “Ooooooh! Norma”, a cantora foi convidada por André Midani, da Odeon, para participar do 1º Festival de Samba-Session, organizado por estudantes de Direito na Pontifícia Universidade Católica da Gávea – “o primeiro grande show ao vivo de Bossa Nova”, como o define Ruy Castro em “Rio Bossa Nova” (Casa da Palavra, 2006). Mas o reitor da PUC, Laércio Dias de Moura, estrebuchou: show, sim, mas sem Norma. “Pensavam que eu, vedete de ‘má fama’, cantaria de biquíni”, recordaria ela na biografia.

    Depois de uma série de protestos, matérias incendiárias na imprensa e a solidariedade de cantoras participantes, como Nara Leão, Alaíde Costa e Sylvinha Telles – esta, segundo Ruy Castro em “Chega de saudade: a história e as histórias da Bossa Nova” (Companhia das Letras, 1990), teria dito: “Se a Norma não puder cantar, não tem show” –, o espetáculo “proibido” acabaria transferido para o anfiteatro da Faculdade de Arquitetura, na Praia Vermelha – “mais liberal”, nas palavras de Castro e Norma –, ao qual compareceu uma verdadeira multidão no dia 22 de setembro de 1959. “(...) eu entrei, de tailleur, luvas e meias, toda vestida de preto, com o corpo coberto da cabeça aos pés”, detalha ela em seu livro.

    Norminha participaria, junto com a turma da Bossa Nova, da Segunda Samba-Session, na Escola Naval, em 13 de novembro; do Primeiro Festival Nacional da Bossa Nova, no Teatro Record de São Paulo, entre 10 e 15 de maio de 1960; e, no dia 20 deste mês, novamente na Faculdade de Arquitetura, no Rio, do espetáculo “A noite do amor, do sorriso e da flor” (ouça a sua participação aqui, a partir dos 10’15’’) – “sem pernas de fora”, frisava a Ultima Hora de 23/05/1960. Na TV, causava frisson com um vestido de fenda enorme no comercial de um certo achocolatado, como informava Catão na Luta Democrática de 06/10/1960: “Em matéria de jingle, esse simpático ‘tomou seu Toddy hoje’ etc. com Norma Benguel (cantando afinadinho) é uma gostosura. Procurem ouvir com atenção”.

    Começara o ano excursionando como cantora pela Europa e pela Austrália, e lá pelo final, em 29/11/1960, gravaria as duas músicas que iriam compor seu segundo e último disco de 78 rotações: o mambo “Coração (Heart)” e o foxtrote “Lua de mel na Lua (Luna de miel en la Luna)”. As pedradas e pauladas continuavam – mas La Bengell era afiadíssima no revide. Num programa de televisão, deu uma resposta certeira a seus críticos, transcrita na coluna de Mister Eco (Eustórgio Antônio de Carvalho Júnior) no Diário Carioca de 12/10/1960: “Eles ganham dois mil cruzeiros para escrever que eu canto mal; eu ganho cem mil cruzeiros para cantar”.

    “Se tudo correr como espera, Norma Benguel não tem dúvida de que 1961 será o seu grande ano cinematográfico”, escreveu Leila Dora na revista Cinelândia de maio. Norminha errou por pouco: ela iria estourar mesmo em 1962, como a prostituta Marli no vitorioso “O pagador de promessas”, de Anselmo Duarte, e principalmente no filme “Os cafajestes”, de Ruy Guerra – no qual protagonizou o primeiro nu frontal da história do cinema brasileiro. Que a abraçaria totalmente, e vice-versa. Norma brilharia na tela grande como atriz em mais de 60 filmes (seria premiada por muitos deles) e ainda como diretora de documentários e dos longas “Eternamente Pagu” (1988) e “O guarani” (1996). Também faria bonito na televisão, em novelas e seriados – impossível esquecer da hilária Deise Coturno, que ela incorporou em “Toma lá, dá cá” entre 2008 e 2009.

    Embora mergulhada de cabeça na sétima arte, não deixaria de lado nem o teatro nem a música. No fatídico 1964, ano do início da ditadura que mais tarde a perseguiria e mandaria prendê-la (algumas vezes) como “subversiva”, Norma participou do LP “Dick Farney” como convidada especial, cantando sozinha “Vou por aí”, de Baden Powell e Aloysio de Oliveira (também dono da gravadora Elenco, que lançou o álbum), e, num duo deliciosíssimo com o anfitrião, o samba bossa nova “Você”, de Roberto Menescal – que havia sido seu namorado alguns anos antes – e Ronaldo Bôscoli, faixa de abertura do disco.

    “Durante a gravação da música ‘Você’, Dick Farney fazia caras e bocas enquanto cantávamos. Achava muito engraçado. No fim da música, não aguentei, e soltei uma gargalhada, que entrou na gravação. O Aloísio gostou, pois deu um toque de descontração à canção, e deixou”, conta Norma em sua biografia. “Depois dessas gravações, passei a fazer vários shows com João Gilberto, Vinicius de Moraes e Roberto Menescal. Também cantava com o pianista Luizinho Eça, (...) Baden Powell e Rosinha de Valença”.

    A diva em capas de discos:  'Ooooooh! Norma' (1959), 'The six tracks' (1964) e 'Norma canta mulheres' (1977)

    Ainda em 1964, lançou o EP “The six tracks” – entre as faixas estavam seus dois registros feitos para o disco de Dick Farney – e se casou com o ator italiano Gabriele Tinti, de quem se divorciaria três anos depois, após um relacionamento conturbado. Neste mesmo 1967, chegou às lojas um compacto seu, também da gravadora Elenco, com “Canto de Ossanha”, de Baden e Vinicius, e “Água de beber”, de Tom e Vinicius – esta última ela já cantara em 1966 no piloto da série estadunidense “T.H.E. Cat”, da NBC, onde também mostrou, em inglês, a “Garota de Ipanema” dos mesmos autores.

    Distante do Brasil entre o final de 1971 e o início de 1975, exilada na Europa por força da ditadura militar – “Eles conheciam meus hábitos, minha casa, minha vida e minha sexualidade. Era enlouquecedor. (...) Só me deixavam em paz quando eu não trabalhava. Todas as minhas peças estavam proibidas (...)”, desabafaria em seu livro –, apenas em 1977 voltaria às gravações, como explica na biografia: “Realizei uma pesquisa com a compositora e violonista Rosinha de Valença e reunimos canções de doze mulheres, de diferentes épocas (...). Queríamos revelar o lado feminino da história, sempre tão sufocado”.

    Nasceu assim seu segundo – e último – LP, “Norma canta mulheres”. “Roberto Menescal queria que o álbum tivesse outro nome, porque este tinha duplo sentido. ‘Vamos colocar ‘Ponto de vista’’, sugeriu. ‘Não, porque eu não sou ótica’, revidei”. Mauro Ferreira, na página “Notas musicais” da internet, destacou em 2013: “Com seu repertório antenado, ‘Norma canta mulheres’ foi disco que, de certa forma, anunciou dois anos antes a explosão feminina que aconteceria na MPB em 1979”.

    Um LP “feminino e feminista”, como a própria artista destacaria em várias das reportagens feitas à época. “Acho que no Brasil existe uma grande prevenção contra a palavra feminismo. O homem deve entender que ninguém o está discriminando. Ele já encontrou seu caminho e nós estamos lutando para encontrar o nosso”, resumiu à revista Manchete (16/07/1977). Vieram elogios e críticas – desta vez, mais ao “imerecido tratamento” que o disco recebeu do que à atuação de Norma, como apontou Maria Helena Dutra no Jornal do Brasil de 24 de junho: “(...) um dos piores trabalhos técnicos e musicais já realizados neste país. (...) Uma confusão que chega ao cúmulo, em todas as faixas, de encobrir com garbo a proverbial inteligência e garra de Norma”.

    À parte as deficiências técnicas do LP, Norma Bengell, que passeia com desenvoltura por gêneros diversos, canta melhor do que nunca – sendo inclusive capaz de uma ousadia (como se ela não fosse sinônimo disso): no meio de um time de autoras do quilate de Dona Ivone Lara, Luhli e Lucina, Marlui Miranda, Dolores Duran, Chiquinha Gonzaga, Rosinha de Valença, Glória Gadelha, Sueli Costa, Rita Lee, Joyce Moreno e Maysa Matarazzo, ela ataca de compositora, com “Em nome do amor” (parceria com Glória Gadelha). E, apesar de não haver nada em seu passado que a condenasse, a letra do rock existencial de Rita Lee “O futuro me absolve” parece ter sido feita sob medida para ela:

    Não é de hoje que eu estou aqui
    Tentando voltar pro lugar de onde nunca eu saí
    Eu já fui pedra, eu já fui planta
    Eu já fui bicho
    Eu sou uma pessoa envolvida
    Pelas vidas que vivi

    (...)

    Estou aqui cercada de ouro por todos os lixos
    No meio do mato, andando na rua
    Em cima das nuvens, ouvindo um disco
    No lado oculto de todas as luas

    (...)

    Eu sou criança, eu sou menina
    Eu sou moça, eu sou uma mulher
    E sou curiosa desde a hora em que nasci.

    Foto principal: reprodução da revista Radiolândia (18-02-1960), fotografia de Francisco Pereira.  

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