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    Alô, alô, Carnaval! Há 90 anos, estreava o filme que passava em revista os grandes astros e estrelas da nossa música popular

    Fernando Krieger

    tocar fonogramas

    “‘Alô... Alô... Carnaval!’, um filme-revista do cinema brasileiro, alegre como os guizos do Carnaval e com as músicas e a voz das principais estrelas do rádio” (O Jornal, 21/01/1936)

    “Não é, ainda, um filme perfeito. Tem ainda algumas deficiências. Mas é, incontestavelmente, o filme brasileiro do gênero revista mais bem realizado, com montagens mais dispendiosas, com melhor iluminação, guarda-roupa e sonoridade”. O anônimo redator de A Noite (22/01/1936) foi bem objetivo em suas considerações sobre o musical, produzido pela Cinédia-Waldow – junção da empresa de Adhemar Gonzaga, também diretor da película, com a do produtor estadunidense Wallace Downey –, rodado nos estúdios da Cinédia, no bairro carioca de São Cristóvão, e estreado oficialmente no Cinema Alhambra do Rio de Janeiro (localizado nas imediações da Cinelândia) no dia 20 de janeiro de 1936, uma segunda-feira, após uma pré-estreia no mesmo local no dia 15.

    “Alô, alô, Carnaval!” tem um roteiro bem simplezinho, piadas datadas que não funcionam nos dias de hoje... Então por que, passados 90 anos do seu lançamento, ele ainda é tão lembrado e até cultuado? Por dois motivos basicamente. O primeiro: o elenco vale o ingresso. Além do grande ator Jayme Costa e dos comediantes Barbosa Júnior, Pinto Filho, Jorge Murad e um então iniciante Oscarito, o time da música popular fala – ou canta – por si. Artistas do primeiro time e outros que em pouquíssimo tempo iriam se tornar grandes cartazes aparecem dividindo a telona: Carmen e Aurora Miranda, Francisco Alves, Mário Reis, Luiz Barbosa, Almirante, Bando da Lua, Joel e Gaúcho, Lamartine Babo, Heloísa Helena, Heriberto Muraro, Irmãs Pagãs, Dircinha Batista e Alzirinha Camargo.

    À exceção de Carmen, que brilharia em 14 longas-metragens estadunidenses, não se tem notícia de muitas imagens em movimento da maioria dos participantes do filme – e este é o segundo motivo: diversas películas daquela época estreladas pelos maiores nomes da nossa música popular – “Coisas nossas” (1931), “O Carnaval cantado de 1932”, “A voz do Carnaval” (1933), “Estudantes” (1935), “Alô, alô, Brasil!” (1935), “Banana da terra” (1939) – não sobreviveram, sendo hoje consideradas irremediavelmente perdidas (da última restou apenas a famosa cena de Carmen cantando, vestida a caráter, “O que é que a baiana tem?”, de Dorival Caymmi). “Alô, alô, Carnaval!” foi um dos únicos filmes deste período que resistiram ao tempo. Mesmo assim não completo: algumas de suas cenas também viraram poeira. Mas as muitas que sobraram dão ao filme um status de tesouro inestimável, uma verdadeira raridade.

    O roteiro é bem simples: Tomé (Barbosa Júnior) e Prata (Pinto Filho) procuram alguém para financiar a montagem da revista teatral deles, “Banana da terra”, no Cassino Mosca Azul. O empresário interpretado por Jayme Costa a princípio se recusa a ajudar os dois aspirantes a revistógrafos, mas é obrigado a recorrer a eles após a desistência de uma companhia europeia que ele havia contratado. O fictício Cassino Mosca Azul era inspirado no Cassino Atlântico de Copacabana, onde algumas cenas seriam filmadas. Um dos cenários montados em São Cristóvão inclusive reproduzia o grill do local. O título original do filme, aliás, seria “O grande cassino”, como informam algumas fontes, entre elas o livro de Luís Antônio Giron, “Mario Reis: o fino do samba” (Editora 34, 2001).

    Gags e piadas se sucedem o tempo todo, entremeadas por 23 números musicais. Embora não seja exatamente um filme carnavalesco, há um clima de folia permeando o longa, presente não só nos desenhos dos painéis criados por J. Carlos e nos cenários de Emilio Casalegno, mas também no próprio repertório musical: são nada menos do que 15 marchinhas, além de três sambas, um samba-choro, um foxtrote, duas paródias e uma divertida apresentação solo de Heriberto Muraro ao piano, cheia de malabarismos, que nada fica a dever ao espetacular Chico Marx.

    Dez dessas músicas levam a assinatura de João de Barro, o Braguinha, e Alberto Ribeiro – autores do argumento do filme –, feitas tanto em dupla (seis delas, mais uma dos dois junto com Lamartine, “Cantores de rádio”) quanto sozinhos ou com outros parceiros. A tecnologia então usada era uma novidade. “Foi o primeiro filme brasileiro a utilizar o playback – o som previamente gravado, que o cantor apenas dublava ao filmar –, mas isso só aconteceu em alguns números musicais. E, naqueles em que foi usado, gravou-se também o som direto, o que acabou produzindo uma maçaroca sonora”, explica Ruy Castro em “Carmen: uma biografia” (Companhia das Letras, 2005). “A primazia de uso do playback coube a Heloísa Helena cantando ‘Tempo bom’, de Braguinha e dela própria. Carmen foi a segunda, com ‘Querido Adão’”, revela, explicando ainda que “cada número de ‘Alô, alô, Carnaval!’ foi filmado num só take, com três câmeras”.

    “Filmes como ‘Alô, alô, Carnaval!’ nem precisavam ser bons para bater recordes de bilheteria pelo país”, afirma Castro. De fato, no próprio dia da estreia o público lotou as sessões, como se pode ver nas fotografias publicadas em jornais da época, entre eles o Diário Carioca e A Nação do dia 21 de janeiro e o Correio da Manhã do dia 23. Foram diversas semanas em cartaz no Rio, sempre com ótima bilheteria, o que se repetiria em muitos cinemas país afora naquele ano. “Era a única chance de os brasileiros dos grotões mais remotos, longe dos cassinos e dos auditórios, verem de corpo inteiro os ídolos que eles só conheciam pela voz e por fotos em revistas como A Voz do Rádio. É verdade que, em certos casos, seria melhor que continuassem a não vê-los – porque, às vezes, até os artistas mais habituados às plateias tremiam diante da câmera”, observa Castro.

    O público na porta do Cinema Alhambra para a estreia de “Alô, alô, Carnaval!” nas páginas do Diário Carioca e d'A Nação (ambos em 21/06/1936) / Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

    Foi o caso das Irmãs Pagãs, espantosamente encabuladas, como lembra ele. Na época da filmagem, Rosina e Elvira Pagã (a futura vedete que incendiaria a imaginação dos homens na década de 1950) estavam respectivamente com 16 e 15 anos, mas já eram da pá virada. Mesmo assim, aparecem quase estáticas em cena. “O Bando da Lua parecia rigorosamente engessado”, diz Castro. Sobre Joel e Gaúcho, ele afirma que “pareciam desconfiados, com o rabo do olho inquieto, como se uma câmera lateral fosse atacá-los à traição (...)”. Chico Alves, protagonista em três cenas, está mais solto como o professor na sala de aula em “A.M.E.I.” e quando dança com Dulce Wheyting em “Comprei uma fantasia de Pierrô”, mas parece uma estátua com um paletó a tiracolo em “Manhãs de Sol”.

    Em contrapartida, a pré-adolescente Dircinha Batista, aos 13 anos, mostra uma desenvoltura espantosa nos seus dois números musicais, o mesmo acontecendo com Aurora Miranda. Heloísa Helena, vestida de baiana – antes mesmo de Carmen Miranda começar a usar a indumentária no cinema, em “Banana da terra” –, defende com bastante animação seu samba, assim como a estreante Alzirinha Camargo faz com a marcha de Lamartine. Luiz Barbosa (batucando em seu inestimável chapéu de palha) é o desembaraço em pessoa em suas duas aparições, e Mário Reis mostra a elegância de sempre. Lamartine faz uma aparição-relâmpago impagável, ao lado de Almirante. Mas quem rouba a cena mesmo é Carmen, “um prodígio de expressão em ‘Querido Adão’, dizendo a letra com os olhos e enchendo a tela com os braços”, na definição de Ruy Castro.

    Dentre as cenas perdidas, uma é a que mostrava Mário Reis cantando “Fra Diavolo no Carnaval” – a marcha de João de Barro, Alberto Ribeiro e Carlos A. Martinez faz alusão ao pseudônimo utilizado pelo poeta, jornalista e advogado paraibano Aprígio dos Anjos, irmão de Augusto dos Anjos. Na cena, Mário “lidera um animado bloco carnavalesco”, segundo conta seu biógrafo Luís Antônio Giron. Já o número com “Palpite infeliz”, samba de Noel Rosa, nem chegou a ser filmado, como lembram, entre outros autores, Giron e Ruy Castro. Segundo este, “Aracy de Almeida, 21 anos, de lenço na cabeça e vestidinho chinfrim, cantaria lavando e esfregando roupa num tanque. Não um tanque estilizado, cheio de quinas aerodinâmicas, mas o próprio tanque de cimento do estúdio, usado pelas lavadeiras de São Cristóvão”, numa cena sugerida por Noel.

    Ao saber que para ela havia sido reservado este script, Aracy confabulou com Francisco Alves e decidiu meter o pé. Chamou todo mundo, falou impropérios bem a seu estilo e se escafedeu dali. “Tenta-se ainda entregar a parte a uma das Irmãs Pagãs, Rosina, muito bonita mas desconfortável numa letra que parece sob medida para Aracy”, revelam João Máximo e Carlos Didier em “Noel Rosa: uma biografia” (UNB/Linha Gráfica Editora, 1990). Resultado: o clássico de Noel fica de fora do filme.

    Existe ainda outro samba que aparentemente estaria na película, mas acabaria deixado de lado. No acervo de partituras da Coleção José Ramos Tinhorão do IMS há exemplares de uma série de músicas do filme lançadas para canto e piano pela editora Mangione. No verso de duas, “Muito riso, pouco siso” e “Não resta a menor dúvida”, encontra-se uma listagem contendo os títulos de composições presentes no filme. Entre elas está “Vem meu amor”, de Braguinha, Bide (Alcebíades Barcellos) e Mano Décio da Viola. Outra curiosidade: na listagem publicada no verso da primeira, a marcha “As armas e os barões” aparece intitulada como “Cantando espalharei”.

    Duas das músicas apresentadas em “Alô, alô, Carnaval!” nunca seriam lançadas em disco – não contam neste caso a citada apresentação malabarística ao piano de Muraro e as duas paródias: a primeira, uma versão bem-humorada da “Canção do aventureiro” (“Senza tetto, senza cuna”), ária da ópera “O guarani”, de Carlos Gomes, que o hilário Barbosa Júnior canta, acompanhado pelo piano de Muraro; a segunda, a famosa “Serenata” de Schubert (com uma divertida letra em português) interpretada em falsete por Francisco Alves e dublada por Jayme Costa travestido de cantora lírica. As canções que não chegariam ao acetato são um foxtrote de Ary de Calazães Fragoso chamado de “Mimi” por algumas fontes e de “Fox-mix” por outras – cuja letra é basicamente uma colagem de nomes de personalidades famosas na época: Ramón Novarro, Edmund Lowe, Al Jolson, Greta Garbo, Ralph Graves, Boris Karloff... – e o samba “Tempo bom”, de Braguinha e Heloísa Helena. Este último foi, no entanto, editado em partitura: há um exemplar na Coleção Tinhorão do IMS, cuja capa indica, sem especificação, uma gravação em disco (talvez planejada mas nunca realizada).

    Na telona, duas orquestras – a de Hervé Cordovil e a de Simon Bountman – revezam-se no acompanhamento dos artistas, com algumas exceções, como em “Tempo bom”, com Heloísa Helena e Os Bêbados, “Muito riso, pouco siso”, tendo Dircinha Batista o reforço dos Quatro Diabos, e “Molha o pano”, onde Aurora se apresenta com Benedito Lacerda e seu regional – e que regional: Benedito na flauta, Carlos Lentine e Ney Orestes nos violões, Canhoto (Waldiro Tramontano) no cavaquinho, Russo do Pandeiro e, na cuíca, o lendário Bide do Estácio (o já citado Alcebíades Barcellos). Já o Bando da Lua acompanhava a si próprio. Em disco, no entanto, nove gravações receberiam o auxílio luxuoso dos Diabos do Céu, conjunto dirigido por Pixinguinha. A Orquestra Odeon estaria presente em cinco fonogramas e o Grupo Odeon e o regional de Benedito Lacerda em uma música cada. Isso explica a diferença existente entre algumas das versões mostradas no filme e as suas equivalentes fonográficas.

    Dez das músicas apresentadas em “Alô, alô, Carnaval!” – se contarmos com a hoje perdida “Fra Diavolo” – chegariam aos 78 rotações (pelos selos Victor e Odeon) ainda no ano de 1935, todas lançadas em janeiro de 1936. Apenas duas seriam gravadas antes mesmo do início das filmagens, a 14/10/1935: as marchas “Teatro da vida”, de A. Victor, interpretada por Mário Reis, que a levou ao disco em 9 de setembro, e “Querido Adão”, de Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago, eternizada por Carmen Miranda em 10 de outubro. Conta Ruy Castro que, após a gravação, Carmen e Aurora embarcaram para Buenos Aires, de onde só retornariam em dezembro.

    Capas das partituras de “Molha o pano” (reproduzida da internet) e “Não resta a menor dúvida” (Coleção José Ramos Tinhorão / IMS) publicadas pela editora Mangione

    Precisando “trabalhar” a música – já que o disco só estaria nas lojas em janeiro de 1936 –, os autores chamaram Alzirinha Camargo, paulistana de 19 anos recém-chegada ao Rio de Janeiro, para executá-la em emissoras de rádio, bailes, salões etc. Ela acabou recebendo o convite para fazer parte do filme – e, por sentir-se quase “dona” de “Querido Adão”, achou que seria para cantar a marcha. Só que a verdadeira dona, Carmen, retornou de viagem, deu um telefonema para Benedito Lacerda e recuperou seu direito de mostrá-la no filme, deixando Alzirinha desolada – mas esta acabaria fazendo bonito com uma divertida marchinha de Lamartine, “Cinquenta por cento”, cuja história contamos recentemente neste post.

    No primeiro dia de dezembro – já com as filmagens em andamento –, o Bando da Lua entrou em estúdio para registrar duas divertidas marchas que fariam parte de um mesmo disco: “Não resta a menor dúvida”, de Noel Rosa e Hervé Cordovil, e “Negócios de família”, de Assis Valente. Nos dias 3 e 6 respectivamente, foi a vez de Mário Reis deixar no acetato as duas faixas que iriam compor mais um 78 rpm seu, contendo de um lado “Fra Diavolo no Carnaval” e do outro o grande sucesso “Cadê Mimi?”, de João de Barro e Alberto Ribeiro, inspirada (assim como havia sido “Linda Mimi”, de autoria só do primeiro) numa vendedora de discos que chamava-se realmente Mimi, trabalhava numa loja da Rua do Ouvidor e tinha, segundo Braguinha, “os olhos rasgados, um tipinho assim oriental”, segundo depoimento dele a Jairo Severiano para o livro “Yes, nós temos Braguinha” (Funarte, 1987).

    A imponente marcha “Manhãs de Sol”, de Braguinha e Alberto Ribeiro, ganhou a voz de Francisco Alves no dia 12 de dezembro. Quatro dias depois, Aurora Miranda emprestaria sua ginga ao samba “Molha o pano”, de Getúlio Marinho e Cândido Vasconcelos. Fechando o registro das gravações feitas em 1935, encontramos, num mesmo disco de Joel e Gaúcho, duas marchas levadas ao acetato em 26 de dezembro: a famosíssima “Pierrô apaixonado”, com estribilho de Heitor dos Prazeres e segundas partes criadas por Noel Rosa – esta é a única música que os bambas fariam em parceria –, e “Maria, acorda que é dia”, mais uma de João de Barro e Alberto Ribeiro.

    Já em 1936, Francisco Alves gravou, no dia 7 de janeiro – às vésperas da pré-estreia da revista musicada –, duas canções que fariam parte de dois diferentes 78 rotações, chegados às lojas em fevereiro (mês em que seriam lançadas as músicas do filme levadas ao disco nesse início de ano): o “samba tristonho” “Comprei uma fantasia de Pierrô”, obra-prima de Lamartine Babo e Alberto Ribeiro, e a linda marcha “A.M.E.I.”, de Antônio Nássara e Eratóstenes Frazão. No dia seguinte, 8 de janeiro, Alzirinha Camargo faria sua estreia em disco com a mencionada “Cinquenta por cento”, de Lamartine.

    A esfuziante Dircinha Batista – ainda aos 14 anos incompletos – emprestou sua voz, no dia 15 (data da pré-estreia), a duas marchas de Braguinha e Alberto Ribeiro que seriam reunidas no quinto disco de sua precoce carreira: “Muito riso, pouco siso” e “Pirata”. De Alberto Ribeiro – com um quê lamartinesco – é a marcha “As armas e os barões”, que toma emprestados dois versos das duas primeiras estrofes do célebre poema “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões (“As armas e os barões assinalados” e “Cantando espalharei por toda parte”). Foi interpretada tanto na telona quanto na cera (gravada no dia 16) por Almirante e Lamartine Babo, com um detalhe: no filme, Almirante e Lamartine haviam cantado duas estrofes (na última o Lalá zoava a si mesmo) que acabariam não entrando na versão em disco.

    Antes do lançamento oficial do musical no Cinema Alhambra, Carmen Miranda entrou em estúdio para gravar, no dia 18, “Alô, alô, Carnaval!”, marcha de Hervé Cordovil e Lamartine Babo que não está presente no filme, embora seu título faça alusão direta a ele – por isso foi integrada à playlist que acompanha este texto. Envolvidos na gravação da marcha estavam quatro artistas cuja presença na película havia sido fundamental: os autores Hervé e Lalá, a intérprete Carmen e o diretor da Orquestra Odeon que a acompanha, Simon Bountman. Foi a última das músicas lançadas em fevereiro de 1936, ainda na esteira do sucesso do longa-metragem e a tempo de brigar por um espaço nos festejos de Momo.

    Do repertório do filme, faltaria ainda chegar ao disco as únicas composições gravadas quando “Alô, alô, Carnaval!” já havia causado furor nas salas de projeção. “Não beba tanto assim”, marcha de Geraldo Décourt – futuro pintor, ator, escritor e criador do futebol de botão –, finalmente foi levada ao estúdio pelas Irmãs Pagãs no dia 11 de março. Exatamente uma semana depois, no dia 18, Carmen e Aurora fariam o registro sonoro da segunda das duas músicas que gravariam em dupla em toda a sua carreira, a imortal marcha “Cantores de rádio”, número que se tornou não só a assinatura visual de “Alô, alô, Carnaval!”, mas também uma das imagens mais conhecidas do cinema nacional, com as irmãs Miranda vestindo cartolas e casacas de lamê dourado confeccionadas por Carmen.

    Detalhe de dois folhetos de “Alô, alô, Carnaval!”: a capa e quarta capa com a listagem das músicas (entre elas “Palpite infeliz”) e duas páginas internas (Coleção José Ramos Tinhorão / IMS)

    Conta Jairo Severiano que a marcha de João de Barro, Alberto Ribeiro e Lamartine Babo “foi composta num ônibus, após uma noitada malsucedida de seus autores no Cassino da Urca”. Em depoimento para o livro, Braguinha disse que ele e os parceiros viajaram de graça, “pois o motorista aderiu à cantoria e acabou dispensando o pagamento das passagens...”. Já Ruy Castro revela que Carmen detestou a hoje icônica sequência de “Cantores de rádio”: “Em quase todos os ângulos, seu rosto estava escondido por um enorme microfone falso, que servia para embutir um pequeno microfone de verdade usado no som direto, embora a sequência tivesse sido filmada com playback. Carmen só descobriu o desastre na pré-estreia de gala do filme, no Alhambra, à meia-noite do dia 15 de janeiro de 1936, com a Rua do Passeio toda iluminada e gente pendurada até nos Arcos”, exagera ele.

    A última composição a sair das telas para ganhar vida nas vitrolas – e também a única editada por um selo diferente, Columbia – foi o samba-choro “Seu Libório”, da dupla João de Barro e Alberto Ribeiro. Seu intérprete no filme, Luiz Barbosa, acabou não conseguindo levá-lo ao disco, derrotado pela tuberculose em outubro de 1938, aos 28 anos. A tarefa caberia a seu sucessor, o sensacional Vassourinha, que estrearia na indústria fonográfica aos 18 anos, em junho de 1941, com este samba. A vida do cantor paulistano seria ainda mais breve que a de Luiz Barbosa: Vassourinha faleceria na capital paulista aos 19 anos, em agosto de 1942.

    Considerado um dos precursores das popularíssimas chanchadas dos anos 1940 e 1950, “Alô, alô, Carnaval!” seria relançado em 1952, levando ao cinema a magia de tempos que não voltariam mais: integrantes do elenco já haviam inclusive falecido, como Luiz Barbosa e Carmen Miranda – naquele mesmo ano, perderíamos Francisco Alves, que originalmente encerrava o filme, dançando com Dulce Wheyting em “Comprei uma fantasia de Pierrô”. Restaurado em 1974, o longa teve algumas piadas retiradas e a ordenação das músicas alterada: a cena de “Cantores de rádio” com Carmen e Aurora, por exemplo, passou a fechar a obra. Numa nova restauração, coordenada pela filha de Adhemar, Alice Gonzaga – então diretora da Cinédia –, as cenas excluídas foram reintroduzidas, mantendo-se o final com “Cantores de rádio”. Esta nova versão fez sua estreia nos cinemas em setembro de 2001, no Festival do Rio.

    Tecnologia precária para os padrões atuais, roteiro simples, piadas datadas, cenas perdidas, artistas “engessados”... Não importa. “Alô, alô, Carnaval!” é uma deliciosa viagem no tempo. Graças a estas preciosas imagens em movimento, podemos assistir à performance de alguns dos maiores artistas de então, apoiados por um time de compositores de primeira linha. Nas palavras – ainda oportunas – de José Amádio n’O Cruzeiro de 20/12/1952, quando do primeiro relançamento da obra: “O filme, pelas luzes de hoje, é tecnicamente impossível, mas vale como raridade, como lembrança de uns certos Carnavais que, dizem, foram os maiores. Reminiscências, ainda, de um Rio de Janeiro que era bom de ser olhado e respirado, gostoso de ser passeado e vivido”.

    Na imagem principal: o cartaz de "Alô, alô, Carnaval!" (reprodução da internet)

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