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Elizeth Cardoso: a cantora vista de perto – e sem glamour – através de seu acervo

Pedro Paulo Malta

Elizeth Cardoso brilhou mais uma vez neste ano de 2020, quando a música brasileira comemorou – no dia 16 de julho – os cem anos de seu nascimento. Na Rádio Batuta, a grande cantora foi festejada com uma playlist criada especialmente para a efeméride e a revelação de duas gravações inéditas descobertas pela equipe de Música em suas fitas cassete. Já na Discografia Brasileira, foi tema de posts que relembraram seu primeiro sucesso, sua relação de amizade com os músicos e a gravação rara de Baden Powell e Vinicius de Moraes encontrada num compacto pertencente à sua coleção.

No entanto, nenhum desses olhares sobre o passado da “Divina” a enxerga tão de perto quanto o que se pode ter na Coleção Elizeth Cardoso, acessível no acervo de imagens do Instituto Moreira Salles (opções Música » Coleção Elizeth Cardoso). Ao todo, são 999 itens que pertenceram à cantora, em categorias variadas, com destaque especial para as fotografias, que compõem a maior parte do conjunto: 440 imagens, sendo poucas em p/b e a maioria colorida – algumas avermelhadas pelo tempo.

Quase todas são fotografias amadoras, daquelas guardadas em álbuns, às vezes sem muito compromisso com o foco ou com o enquadramento. Seja como for, a Elizeth que se vê nesses registros tem muito pouco do glamour e dos vestidões que exibia nos palcos. Está mais para a figura simples e informal que é descrita pelos amigos: cochilando no sofá de um camarim, alongando-se numa aula de ginástica, brincando carnaval num bloco de rua e posando de biquíni na praia ou num banho de cachoeira.

Também são muitas as fotografias de viagens: cercada de fãs nos Estados Unidos, curtindo neve na Espanha, conhecendo pontos turísticos na França e fazendo refeições com famílias japonesas. Volta e meia é vista também no aeroporto, dentro do avião ou então sendo entrevistada no saguão do hotel. Entre as companhias mais frequentes estão seus músicos – com destaque para o baterista Wilson das Neves – e a secretária e melhor amiga Lourdes, que apresentava a todos como “minha irmã”.

Há também os amigos cujos nomes vão anotados numa agenda, com endereços, para mandar cartões-postais (são muitos!) de onde estivesse: o produtor Hermínio Bello de Carvalho, o músico Geraldo Vespar e a viúva de Jacob do Bandolim, Adília Bittencourt, entre outros. A mesma agenda tem uma lista de seu repertório com tons: “Refém da solidão” em dó menor, “Violão vadio” em sol maior (assim como “Doce de coco” e “Da cor do pecado”), “Se queres saber” em si bemol e assim por diante. Muitas das letras também aparecem anotadas à mão, em folhas de papel pautado. 

Completam a coleção crachás, passagens e carteirinhas – uma do Cordão da Bola Preta, outra da escola de samba Quilombo. Cartões de Natal da Rádio Nacional (assinado por Paulo Tapajós) e de seu querido Flamengo – pelo presidente Marcio Braga. E ainda cartas para o filho, bilhetes diversos (um de Hebe Camargo), programas de shows (como o que dividiu com Jacob do Bandolim e o Zimbo Trio, em 1968) e uma cola fonética de palco para dar boa tarde (“Con nitiuá”) e boa noite (“Kombamua”) a alguma plateia japonesa, entre outras miscelâneas.

#IMSdeCasa

Voltando às homenagens pelo centenário de nascimento, Elizeth Cardoso foi lembrada pelo projeto “IMS de Casa”, através do qual o site do IMS vem recebendo vídeos gravados e editados no isolamento social dos artistas. Assim, o tributo à “Enluarada” ficou a cargo da cantora Ana Costa e do bandolinista, violonista e arranjador Luís Barcelos, que receberam a missão de revisitar o repertório de Elizeth e apresentá-lo em novas gravações, como as duas que abriram a série no dia do centenário, 16 de julho (veja aqui).

A homenagem do duo a Elizeth se encerra com mais quatro gravações: a primeira do samba "Tempo feliz", parceria de Baden Powell e Vinicius de Moraes lançada em disco em 1964, num compacto simples da cantora feito pela gravadora Copacabana.

  

Dessa mesma época é o lançamento fonográfico do samba “Rosa de Ouro”, composição de Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho feita para o espetáculo de mesmo nome, produzido por Hermínio e dirigido por Kléber Santos em 1965, no Teatro Jovem, na Praia de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. A “Divina” regravou no mesmo ano, numa das faixas do LP “Elizeth sobe o morro”, também produzido por Hermínio.

 

Já de 1970 é o samba “Corrente de aço”: uma composição de João Nogueira lançada por Elizeth Cardoso no LP “Falou e disse” e aqui refeita na interpretação singela da cantora e do bandolinista.

 

O tributo a Elizeth Cardoso se encerra com Ana Costa e Luís Barcelos interpretando “Vem”, samba de Cartola lançado postumamente, em 1981 – ano seguinte à morte do poeta mangueirense. Nesta composição, ele tem como parceiro o professor Arthur Loureiro de Oliveira, também seu biógrafo: é dele em parceria com Marília Trindade Barboza o livro “Cartola: tempos idos”, editado em 1983, pela Funarte.