Não bastassem as fantasias, as escolas e seus enredos cantados em ritmo de samba, a alegria dos bailes e os blocos com seus foliões de raça (bebendo ou não o quinto copo de cachaça), tem neologismo entre os legados que devemos ao carnaval: “Alá la ô”. Expressão que pode ser grafada também como “Alalaô” ou “Allah lá ô” (fora as variações hifenizadas) e é coisa nossa, apesar da raiz inegavelmente árabe.
“Mas foi inventada aqui, viu? Sem qualquer significado na língua deles”, garante João Baptista M. Vargens, professor titular em língua árabe da Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de autor de inúmeros livros sobre samba, entre eles as biografias de Candeia e da Velha Guarda da Portela (escrita com Carlos Monte). “Alá é o deus muçulmano, como sabemos. E esse ô está aí para rimar com calor e nada mais", esmiúça o mestre, que consultamos logo no início da pesquisa sobre esta que é uma das mais populares marchinhas – outro bendito legado carnavalesco – e está completando 85 anos de quando foi lançada em disco, lá em janeiro de 1941.
Na imprensa, no entanto, o primeiro registro de “Alá la ô” foi lido um pouco antes, em 17-11-1940, quando o jornal O Radical apresentava os principais lançamentos de Haroldo Lobo para o carnaval de 1941, entre eles a “interessantíssima marcha” na qual o compositor “deposita inteira confiança”. Pouco mais de um mês depois foi a vez da revista Vamos Lêr!, em seu último número de 1940 (26-12), revelar os pedidos que os artistas de rádio tinham feito a Papai Noel, abrindo espaço para o intérprete da marcha: “Carlos Galhardo pediu que, no próximo carnaval, faça muito calor, a fim de assegurar o êxito de ‘Alá la ô’, a marchinha caliente que promete ser o record do ano.”
O simpático semanário do grupo A Noite tinha bons motivos para a aposta certeira: melodia e letra se casavam perfeitamente e os versos, na primeira pessoa do plural, convidavam os foliões a fazerem coro – em pleno calor de fevereiro – para implorar por água a “Alá, meu bom Alá”, nessa mistura sorridente de sagrado com profano que é a cara do carnaval carioca. E pensar que essa história foi tramada num café na esquina da Avenida Rio Branco com Almirante Barroso, em pleno vaivém apressado de pedestres pelo Centro do Rio de Janeiro, num dia qualquer daquele último trimestre de 1940.
O Belas Artes era ponto de encontro dos adeptos do turfe – caso de Haroldo Lobo, o ex-jogador de basquete e guarda municipal que, àquela altura, já se firmava como grande compositor de músicas de carnaval. Pois foi numa das mesas do café que, certo dia, ele cantarolou para o amigo Antônio Nássara a primeira parte de uma marcha que havia feito para o bloco que comandava no Jardim Botânico, no qual os foliões costumavam sair fantasiados de animais. Em 1940, no entanto, o Bloco da Bicharada – esse era o nome da agremiação – havia saído com seus componentes fantasiados de beduínos, cantando os versos de seu líder:
Chegou, chegou a nossa caravana
Viemos do deserto
Sem pão e sem banana pra comer
O sol estava de amargar
Queimava a nossa cara
Fazia a gente suar
Haroldo convidou o amigo para compor a segunda parte e este, valendo-se de suas origens, foi rápido na tarefa. Filho de imigrantes árabes (pai sírio, mãe libanesa), os “Bismillah” (em nome de deus) e “Allah akbar” (deus é maior) que ouviu na infância fizeram parte de sua formação, tanto quanto os blocos de rua que via carnavalizarem sua Vila Isabel a cada novo fevereiro. Pois foi Nássara – cuja história contamos neste post – que trouxe o deus muçulmano para a marchinha, na estrofe que criou ali mesmo, cantando e batucando sobre a mesa do café:
Viemos do Egito
E muitas vezes nós tivemos que rezar
Alá, Alá, Alá, meu bom Alá
Mande água pra ioiô
Mande água pra iaiá
Alá, meu bom Alá
Era isso! Haroldo Lobo gostou tanto, que se viu enrascado. “O problema era a volta à primeira parte”, como conta Carlos Didier na biografia “Nássara passado a limpo” (Editora José Olympio, 2010). “Era como um balde de água fria na fervura de ‘Alá, meu bom Alá’. Os dois parceiros perceberam logo.” Era preciso criar uma nova primeira parte e Haroldo foi rápido, como Nássara contou em 1983, no depoimento que prestou ao Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Ele conta que, ao ouvir o novo trecho, o parceiro adorou a menção a Alá – seis vezes! – e se animou: “Mas que palavra você me arranjou!”
Os parceiros Haroldo Lobo (em fotografia reproduzida do Boletim da Sbacem) e Antônio Nássara (reprodução da internet).
Foi nesse embalo que Haroldo, segundo o relato dos pesquisadores Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello no livro “A canção no tempo – vol. 1” (Editora 34, 1997), criou a expressão que dá nome à marchinha e, logo em seguida, completou a nova primeira parte, aproveitando alguns elementos da “Caravana” original:
Alá-lá-ô, ô-ô-ô ô-ô-ô
Mas que calor, ô-ô-ô ô-ô-ô
Atravessamos o deserto de Saara
O sol estava quente
E queimou a nossa cara
“Olha, Seu Haroldo, acertamos no milhar”, exultou Nássara, conforme recordou ao radialista Luiz Carlos Saroldi, em entrevista para a Rádio Jornal do Brasil (14-10-1980). Neste mesmo depoimento – transcrito no livro de Carlos Didier – Nássara ainda comentou sua parte na composição: “Quer dizer, surrealismo: ‘Mande água pra ioiô’, no meio de ‘Alá’. Aquela coisa, não é?’” Já A Noite Ilustrada (28-01-1941), num texto apresentando os lançamentos daquele carnaval, salientou com graça a referência velada a Ary Barroso: “Iaiá e ioiô foram fazer turismo na África, abandonando a Baixa do Sapateiro.”
O arranjo é outro capítulo à parte na história de “Alá la ô”, como Nássara descreveu em depoimento transcrito por Isabel Lustosa no livro que publicou sobre ele em 1999, na série Perfis do Rio (RioArte / Ed. Relume Dumará). “Levei a partitura para o imortal Pixinguinha, que residia na Rua do Chichorro, 84, em Catumbi. Sabe como é o Catumbi, ao meio-dia no verão? O sol chega a furar o asfalto. Encontrei Pixinguinha de cuecas, ao piano, suando por todo lado”, recordou. “Pixinguinha mandou eu cantar e leu a melodia. E falou: Nássara, tudo errado! E rasgou a parte feita para piano cuja melodia não caía perfeitamente”, prossegue. “Escreveu novamente toda a melodia e fez o arranjo que todos conhecem.”
Na data da gravação (21-11-1940), a reação geral foi de espanto no estúdio da Victor, como contou Nássara, ainda no depoimento transcrito por Isabel Lustosa: “Eu e Carlos Galhardo ficamos estarrecidos, Pixinguinha tinha dividido a melodia em compassos marcantes, saltitantes, brejeiros, originais, vestindo-a com roupagem da alma popular.” Quem também gostou foi a crítica musical do jornal O Imparcial (19-01-1941): “Mestre Pixinguinha deu uma orquestração de mexer com o sistema nervoso do mais plácido londrino”, destacou o impresso, em texto não assinado. “A marcha pegou mais depressa que visgo de jaca dura”.
Pois foi no disco Victor 34.697, que chegou às lojas há 85 anos (janeiro de 1941), que o grande público conheceu não só o arranjo, como a própria marchinha, cantada por Carlos Galhardo com acompanhamento de “orquestra”, creditada assim no rótulo do 78 rpm, sem mais detalhes sobre a regência e direção musical da faixa. Já no B Galhardo gravou “Cuidado com essa mulher”, samba de Ataulfo Alves e Antônio Almeida.
Pixinguinha (em foto do Acervo Pixinguinha / IMS) e Carlos Galhardo (em foto da Coleção José Ramos Tinhorão / IMS)
Não espanta que “Alá la ô” tenha sido uma das premiadas na categoria das marchinhas – juntamente com “Aurora” (Roberto Roberti e Mário Lago) – no concurso de músicas carnavalescas da Prefeitura do Distrito Federal, que também premiou os sambas “Helena, Helena” (Antônio Almeida e Secundino) e “O trem atrasou” (Paquito, Estanislau Silva e Vilarinho). Completam a concorrência de respeito “O bonde de São Januário” (samba de Wilson Batista e Ataulfo Alves), “O passo do canguru” (marcha de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira) e “Nós queremos uma valsa”, inusitada valsinha carnavalesca de Nássara e Eratóstenes Frazão, entre outros lançamentos para a folia de 1941.
Outra medida do sucesso da marchinha de Haroldo Lobo e Nássara foi a quantidade de Alás, Maomés, sultões, tapetes voadores, areias e calores escaldantes que apareceram nos carnavais seguintes, como denunciou a revista Vamos Lêr!. “Esta história de insistir num motivo somente porque agradou muito, no ano tal, está fora da lógica, ou melhor, da falta de lógica dos adeptos de Momo. E se alguém duvidar, compare ‘Tapete de Badgad’ com ‘Ala-la-ô’”, queixou-se a crítica musical do impresso semanal (12-02-1942), destacando esta outra marcha de Haroldo Lobo – aqui sozinho – gravada também por Carlos Galhardo.
Curiosamente, mais um “Tapete de Bagdad” – composto por Ciro de Sousa e Hélio Sindô – tentou fazer seu voo rasante no carnaval carioca, numa gravação da Dupla Ouro e Prata em 1951. E na folia de 1946 a dupla Pedro Caetano e Claudionor Cruz trouxe de volta o deus muçulmano – em “Alá Alá” – ao suadouro dos foliões, que desta vez queriam matar a sede não com água, mas com chope, como se ouviu nas vozes de Joel e Gaúcho.
A popularidade de “Alá la ô” também inspirou relatos criativos sobre a composição, como um em que se lia que “Haroldo Lobo estava lendo um comunicado de guerra da Líbia quando lhe veio a inspiração para a sua grande marcha”, como se leu na edição de 22-02-1941 da revista O Cruzeiro. “O relato do quartel general do Cairo falava numa grande caminhada pelo deserto escaldante. O sol queimara os rostos dos soldados. E, talvez por blague, um correspondente de guerra afirmara que Alá tinha sido invocado.”
Já o jornalista e compositor David Nasser ficou incomodado ao não ver seu nome entre os autores da marchinha: ele dizia ter contribuído na composição de “Caravana” – sendo o criador da expressão “Alá la ô” – e chegou a consultar um advogado para avaliar as chances de um eventual processo. “É pouco, David…”, teria respondido o causídico, demovendo-o da ideia de pleitear seu nome ao lado de Haroldo Lobo e Nássara como autores da famosa marcha.
Nasser reuniu suas queixas sobre o episódio num texto publicado na revista Manchete (01-03-1980), no qual situa o “era uma vez” desta história no Carioca Esporte Clube, na Rua Jardim Botânico, onde visitou certo dia o amigo Haroldo. Este lhe contou da música que estava fazendo: uma marchinha que, inspirada na fantasia que o Bloco da Bicharada preparava para o carnaval (um lençol branco e uma faixa preta na cabeça), versava sobre Mahatma Gandhi e os hindus. O visitante, então, apontou o erro ao amigo – a roupa não era de indiano, mas de árabe – e, em seguida, fizeram “Caravana”, a meia marchinha que acabaria sendo apagada, mas que, segundo Nasser, já tinha na letra a expressão “Alá la ô”, que seria uma criação sua.
Revista Manchete, 01-03-1980
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
Compositor de sucessos como o samba “Canta, Brasil” (com Alcir Pires Vermelho) e a valsa “Fim de ano” (com Francisco Alves, seu padrinho artístico), David Nasser foi o repórter mais famoso do Brasil nas décadas de 1940 e 50, com matérias sensacionais – embora nem sempre factuais – publicadas em revistas como O Cruzeiro e, depois, Manchete. “Nasser adorava acrescentar fantasias às reportagens que fazia”, afirma seu biógrafo, Luiz Maklouf Carvalho, no livro “Cobras criadas: David Nasser e o Cruzeiro” (Senac SP, 2001). “Ele inventava coisas pra poder valorizar as reportagens”, diz, no mesmo livro, o jornalista Freddy Chateaubriand, que chefiou veículos dos Diários Associados, conglomerado empresarial de seu tio, o magnata da mídia Assis Chateaubriand.
No fim do texto sobre “Alá la ô”, Nasser conclui que não tinha mesmo que estar entre os autores da marchinha, afinal não participou da “ourivesaria carnavalesca” da composição. Mesmo assim, não deixa de lamentar o desfecho: “‘Alá la ô’ foi o grito que perdi”, resmungou, dando mote para o título da matéria.
Pois David Nasser não foi o único incomodado com o sucesso de “Alá la ô”. Logo após a folia de 1941, a revista Careta (15-03-1941) publicou uma crítica assinada por Micrômegas – pseudônimo do/da colunista – na qual avalia que o sucesso das músicas carnavalescas lançadas naquele ano comprovava que “nossas camadas populares precisam urgentemente de instrução”. Afinal, só assim para aceitarem aquele “ritmo característico que denuncia influências étnicas; digna do acompanhamento desempenhado pela cuíca e pela lata de querosene”.
“Desta vez até o deus muçulmano foi inquietado, numa invocação africanamente arrastada”, dispara Micrômegas, mirando o sucesso de Haroldo Lobo e Nássara, com sua letra “de uma parvoíce que chega a ser cômica: ‘Atravessamos o deserto do Saara / O sol estava quente / E queimou a nossa cara’. Misericórdia!” Mais adiante, lê-se no texto que “o carnaval de rua está morrendo, ao passo que o carnaval dos salões ganha terreno. É um bom sintoma. Opera-se espontaneamente a seleção. Talvez os salões acabem repudiando, por outras menos chulas, essas canções inqualificáveis que todos os anos são impingidas à ingenuidade do povo.”
Para a tristeza de Micrômegas, o carnaval de rua cresceu, outras tantas marchinhas caíram na boca do povo e “Alá la ô” permaneceu no repertório carnavalesco, como um de seus sucessos vitalícios e mais regravados. Só Pixinguinha escreveu outros dois arranjos, para as gravações que fez com sua banda em 1957 e em 1962. E o próprio Nássara também deixou seu registro, em sua participação no programa MPB Especial, da TV Cultura, em 1975.
Detalhes da partitura original, editada pela Irmãos Vitale / Reprodução da internet
Outro registro emblemático foi o da primeira regravação de “Alá la ô”, feito por Zaccarias e Sua Orquestra em 1955, pouco antes do cantor Blecaute enfileirá-la com outras marchas em 1959. Nos pot-pourris carnavalescos, aliás, a marchinha de Haroldo Lobo e Nássara virou presença obrigatória, como se pode ouvir em gravações da Banda Gol (2016), de Luiz Bandeira (1966), Beth Carvalho (1984) e Juliana Diniz, em um dos blocos temáticos do musical “Sassaricando: e o Rio inventou a marchinha” (2007).
A marchinha de Haroldo Lobo e Nássara ficou registrada também em outras vozes femininas, como a da carioca Mart’nália (2016) e das baianas Daúde (2002), Márcia Freire (2019) e Maria Bethânia, esta desconstruindo com delicadeza os alalaôs, ioiôs e iaiás numa gravação ao vivo em 2009.
Já o Monobloco fez seu “Ala la ô” funkeado em 2017, aprofundando e aprimorando a batida que Os Raimundos já haviam ensaiado em 1995, quando cantaram o hit carnavalesco no especial “Carnaval é legal”, do canal televisivo MTV. Mas o batidão dos bailes aparece mesmo em gravações mais recentes, como uma de Gorilla e Preto (2006), outra do MC Sapão (2014) e ainda uma terceira, nas vozes de Dennis e MC Jefinho (2018).
Pois a marchinha-sensação lá de 1941 também se prestou – e eis mais um traço de sua popularidade – a paródias diversas, como duas recentes que encontramos no YouTube. Durante a pandemia de Covid-19, embalou uma campanha do grupo cearense Nas Garras da Patrulha contra a aglomeração: “Tinha gente aglomerando lá na praça / Faltava álcool em gel, mas tinha muita era cachaça!” Já no canal Aisneiro, rendeu uma crônica de protesto à recente invasão de Donald Trump à Venezuela: “Atravessamos o Caribe até Caracas / Petróleo vem pra gente e também as terras raras...”
Não à toa, “Alá la ô” está entre as primeiras na relação que o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (o Ecad) divulgou em 2021, com as 50 músicas de carnaval mais tocadas no Brasil entre 2010 e 2020. Ficou em oitavo lugar, atrás do hino “Cidade Maravilhosa” (André Filho) e à frente de “Ta-hi (Pra você gostar de mim)” (Joubert de Carvalho), na lista que só tem marchinhas da primeira (“Mamãe eu quero”, de Jararaca e Vicente Paiva) à 19ª colocada (a já citada “Aurora”).
Na imagem principal: o rótulo do disco Victor 34.697, com a gravação original de "Alah la ô" / Arquivo Nirez.




