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    Roberto Paiva, 105 anos: o injustificável esquecimento de um cantor que lançou clássicos e gravou discos históricos da MPB

    Fernando Krieger

    tocar fonogramas

    “Passa, hoje, a data natalícia do inteligente jovem Helin Silveira Neves, filho do Sr. Alvaro Neves e de sua digna esposa, D. Lucy Silveira Neves”, registrava o Jornal do Brasil de 08/02/1930. O menino de nome diferente, nascido nove anos antes (em 8 de fevereiro de 1921) em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, nem de longe poderia sonhar que, dali a mais sete – e sob um pseudônimo –, começaria a ganhar definitivamente as páginas dos jornais como um dos grandes cantores da nossa música, com um currículo bastante respeitável: 70 discos de 78 rotações – um deles dividido com o Trio Melodia –, num total de 139 gravações, feitas de 1938 a 1961; entre elas, encontram-se alguns clássicos do repertório popular. Dos três long-playings de sua carreira, dois se tornariam discos históricos da MPB.

    Se não chegou a ter sua biografia publicada, viveu bastante tempo – até os 93 anos – para deixar uma relevante contribuição através de depoimentos registrados em vários livros, relembrando fatos importantes e revelando curiosidades diversas não só sobre si mesmo, mas também sobre vários artistas. Os pais queriam que seguisse a carreira militar, da qual desistiria ainda pequeno. Esforçaram-se para que ele se tornasse um médico ou um advogado. Qual nada. Vivia era com os ouvidos colados no rádio, escutando os grandes artistas da época. “Não entrei para o rádio, o rádio entrou em mim”, diria ele futuramente mais de uma vez em entrevistas.

    Numa tarde de 1937, ele e um grupo de alunos do Colégio Pedro II resolveram fazer gazeta (matar aula, no dizer de antigamente) em Niterói. Passando em frente ao estúdio da Rádio Sociedade Fluminense (PRE-6), decidiram entrar. Naquele momento, a emissora transmitia um programa de calouros. Um dos gazeteiros, sabendo que o colega gostava de cantar, instigou-o a “meter os peitos”. Hesitante, o garoto de 16 anos foi fazer sua inscrição para a audição do domingo seguinte. Com receio de que os pais descobrissem, inventou um nome, inspirado no do ator estadunidense Robert Taylor. O sobrenome viria de parentes em terceiro grau de seu pai.

    Roberto Paiva aos 19 anos (Fon Fon, 09-11-1940) e aos 90 (em foto de Simone Marinho n'O Globo, em 08-02-2011).

    “Tome nota do meu nome: Roberto Paiva. Vou cantar ‘A você’, valsa de Ataulfo Alves”, recordaria anos mais tarde, já famoso, à Revista do Rádio (17/04/1951). Com a valsa de Ataulfo – lançada em abril daquele ano por Carlos Galhardo –, conquistou o primeiro lugar e descobriu sua vocação. Foi nessa ocasião – como contaria em 1974 no programa “MPB Especial”, da TV Cultura – que conheceu Cyro Monteiro. “(...) eles não têm condição para fazer de você um profissional. Para mim que sou, é difícil o recebimento do cachê. Então você trata de estudar”, teria escutado do Formigão. Aconselhado por este, decidiu abrir mão do microfone e seguir com seus estudos.

    Ou quase, como se lê na revista Carioca de 26 de junho de 1937: “Roberto Paiva, um cantor juvenil que aparece, lançou, com agrado, no ‘Programa Gato Félix’, na Hora Juvenil da PRD-2 [Rádio Cruzeiro do Sul], o samba de Noel Rosa, ‘Tarzan’”. Em 1938, de passagem pela Mayrink Veiga – em nova gazeta –, reencontrou Cyro, que desta vez deu uma mãozinha ao jovem. Indicado por Cyro, o garoto passou a abafar, com uniforme de colegial e tudo, no famoso Programa Picolino, comandado por Barbosa Júnior – com a cumplicidade da tia, Jandira, que costumava acompanhá-lo ao piano em casa desde criança. No Picolino, “eu travei conhecimento com grandes vultos da música popular brasileira. Um deles, o Nonô [Romualdo Peixoto], tio do Cyro Monteiro, que me acompanhava nesse programa ao piano”, recordou na TV Cultura.

    “Um dia papai passou mal e chegou em casa mais cedo. Estava na hora do programa e minha tia estava a postos, ouvido no rádio: ‘Sabe quem está cantando? Preste atenção, é uma pessoa das suas relações’. Meu pai não descobriu. Mas gostou. Titia então contou quem era”, recordou Paiva em entrevista a Ciléa Gropillo (Jornal do Brasil, 26/03/1979). “Deixa ele chegar que vamos ter uma conversa”, disse o pai. “Só que a interferência de Nonô nesse assunto de pai e filho foi fundamental. Não fosse ele, Roberto não estaria cantando até hoje”, escreveu Ciléa. “Ficou um negócio meio na base de só canta se estudar”, complementou Roberto.

    No depoimento para a TV Cultura, lembrou com carinho de outro mestre que conheceu no Picolino: “Laurindo de Almeida, o grande violonista, que foi o verdadeiro culpado de eu chegar um dia a conseguir gravar”. Laurindo o levou para uma audição na Odeon, onde foi escutado sem querer – graças a um microfone que alguém esqueceu ligado – pelo diretor da gravadora e por Francisco Alves. Roberto esperava poder gravar um disco só; em vez disso, ganhou um contrato. Seus dois “padrinhos” musicais estão no selo do seu primeiro 78 rotações, que contém “O último samba” (homenagem de Laurindo a Noel Rosa) e a valsa “Jardim de flores raras”, de Nonô e Francisco Matoso, ambas levadas ao acetato em 2 de setembro de 1938, marcando a estreia fonográfica de Roberto, aos 17 anos.

    Embora adolescente, já possuía uma voz de adulto, encorpada, com um timbre que lembrava muito um dos maiores cantores de então – o que chamou a atenção da imprensa: “Roberto Paiva foi uma estreia auspiciosa da Mayrink Veiga, e conseguiu abafar Sylvio Caldas, de quem é discípulo em linha reta...”, dizia a nota da Revista da Semana de 13/08/1938. Quatro dias depois, outra notinha no mesmo periódico: “Roberto Paiva vem concorrendo seriamente com Sylvio Caldas. As cartas e os telefonemas atestam perfeitamente a sua performance extraordinária”.

    No seu segundo disco de 78 rotações, gravado em dezembro de 1938 e lançado em fevereiro de 1939, Roberto apresentou o samba “Foi um falso amor”, de Dunga (Waldemar de Abreu), compositor que teria mais três músicas registradas pelo jovem, entre elas o samba “Não sei se voltarei”, em 1944. Aos 18 anos, em 1939, colocou na sua terceira bolachinha duas composições da dupla J. Cascata e Leonel Azevedo: um samba, “Longe, muito longe”, e uma valsa-serenata, “Ao cair da noite”. Em 26 de setembro, entrou em estúdio para mais um 78 rpm, o quinto, através do qual lançaria um dos maiores compositores da música brasileira.

    Numa das faces, vinha o samba “Estou cansado de procurar”, de Rubens Soares e Luiz Pimentel; na outra, mais um samba, “Se você sair chorando”, de Nelson Teixeira e Geraldo Pereira, este último debutando em disco. Dele, Roberto Paiva gravaria oito composições em 78 rpm, sendo o responsável pela estreia de seis. Uma delas, um grande sucesso de Geraldo (em dupla com Augusto Garcez), “Lembras-te daquela zinha?” (1941), com letra ligeiramente diferente da que ficaria conhecida: “Tu sabes que aquela zinha” em vez de “Te lembras daquela zinha”. Também de Geraldo é o desconhecido (e ótimo) samba “Já tenho outra” (com Ari Monteiro), de 1943. Roberto poderia, no ano seguinte, ter sido o primeiro intérprete de mais um clássico do compositor mangueirense, mas esse bonde ele perdeu, como mostramos no post sobre “Falsa baiana”.

    Perdeu esse bonde, mas outro veículo já o havia levado à glória. Na Fon-Fon de 08/04/1939, o quiromante amador Yves, lendo as linhas das mãos de Roberto Paiva, sentenciou – na verdade, praticamente profetizou: “Roberto está na vida como quem chega a uma estação de entroncamento ferroviário. Há vários ramais. Todos eles podem levá-lo a bom termo. Mas qual o comboio a tomar? (...) convém esperar melhor oportunidade. E quem sabe que ela não virá em 1940? Esperemos, caro Roberto Paiva...”. Pois o cantor embarcaria na locomotiva certa, como mostraria a matéria de O Radical de 16/02/1941, uma das muitas que enfocavam um dos grandes sucessos carnavalescos do momento, gravado pelo jovem de 19 anos em novembro de 1940: “O samba chegou, viu, venceu e abafou. Em pouco tempo, toda a cidade estava fazendo coro com a voz de Roberto Paiva”:

    Patrão, ‘O trem atrasou’, por isso estou chegando agora
    Trago aqui o memorando da Central, o trem atrasou meia hora
    O senhor não tem razão para me mandar embora!

    “O trem da Central, vindo do subúrbio, chegou com um atraso de meia hora. Mas o samba de Paquito, Estanislau Silva e [Arthur] Vilarinho foi lançado no momento exato, impondo-se desde o primeiro dia como uma das melhores produções desta temporada de Momo. E o seu êxito é devido, em grande parte, à magnífica interpretação de Roberto Paiva, o jovem cantor da [Rádio] Ipanema”, destacava o anônimo redator da Carioca de 22/02/1941. Curiosidade: essa música marcou a estreia de Roberto Paiva na RCA Victor e foi escolhida por ele após ter sido rejeitada pela gravadora.

    Roberto Paiva e o radialista Júlio Louzada, 'muso' da 'Marcha do conselho' (O Cruzeiro, 31-01-1953)

    Foi o primeiro grande sucesso de Paquito (Francisco da Silva Fárrea Júnior), de quem Paiva gravaria nove músicas, uma delas a bem-humorada “Marcha do conselho”, parceria com Romeu Gentil, que cita em sua letra o radialista Júlio Louzada, famoso por seu programa “Oração da Ave-Maria”, líder de audiência na Rádio Tupi carioca. Em 1953, segundo O Cruzeiro de 31 de janeiro, ele apresentava a “Pausa para meditação” na Rádio Tamoio. “Esse homem recebia duas a três sacas de aniagem de cartas diariamente”, recordou Roberto no “MPB Especial” de 1974. “Após ele rezar a Ave-Maria, eles sorteavam uma carta, escolhiam uma carta, pedindo um conselho, uma orientação (...)”. Paquito e Romeu Gentil compuseram, em 1953, a marcha que Roberto gravou, agradando em cheio: “A mulher do meu maior amigo me manda bilhete todo dia / Desde que me viu, ficou apaixonada / Me aconselha, seu Júlio Louzada!”.

    Cantor eclético, passou por ritmos diversos, inclusive estrangeiros. Em 1945, fez bonito com duas valsas muito famosas. Uma, “Minas Gerais (Vieni sul mar)”, de Teodoro Cottrau, já havia recebido uma versão de Eduardo das Neves, que a lançara por aqui em 1912 – mas a letra feita por ele saudava um “gigante do mar”, o couraçado Minas Geraes. Em 1942, Manezinho Araújo e De Moraes (José Duduca de Moraes) aproveitaram a melodia para homenagear o estado brasileiro, assim como fez o radialista e locutor Paulo Roberto, criador de novos versos gravados por Roberto Paiva. Este, em entrevista ao Jornal do Brasil de 26/03/1979, brincou: “‘Minas Gerais’ foi a maior praga da minha vida. Nunca fui a uma cidade, por menor que fosse, que não me pedissem para cantá-la. Obrigavam-me”. A outra valsa que estourou em 1945 foi a famosa e popularíssima “Les patineurs”, opus 183, composta em 1882 pelo francês Émile Waldteufel, que no Brasil recebeu letra de João de Barro e virou “Patinadores”.

    Do outro lado deste disco está “Lá vem a baiana”, samba do mesmo João de Barro que os Anjos do Inferno haviam gravado no ano anterior, 1944. O samba seria o ritmo mais interpretado por Roberto Paiva em sua carreira: somente em 78 rotações, seriam 80 registros neste gênero (incluídos aqui alguns poucos sambas-canção). Fazem parte desta extensa lista, entre outros: “Mangueira querida” (1941), de Secundino (Constantino Silva); “Castigar eu não sei” (1944), de Ari Monteiro e Raul Longras; “Nossa história” (1945), de Ciro de Souza; “Agonia de amor” (1954), de Adelino Moreira e Waldir Machado; e “O maior espetáculo da Terra” (1954), de Guido Medina e Rui de Almeida.

    De Roberto Martins é o samba “Elza” (parceria com Wilson de Souza, 1945), cuja personagem-título “jogava” no mesmo time das “mulheres de verdade” “Emília” (1941) e “Amélia” (1942). No depoimento de 1974, Paiva relembrou o primeiro encontro com o xará: “Ele foi à minha estreia como profissional na Rádio Mayrink Veiga, mas foi criada entre nós uma inimizade porque eu estreei fardado de colégio. Eu era um menino pobre e não tinha um terninho bonitinho para me apresentar (...)”. Roberto Martins brincou então com uma amiga em comum: “eu vim aqui ver um cantor, não vim ver um soldado”. Anos mais tarde, acabariam não só se entendendo, como Martins seria o autor mais gravado por Paiva em 78 rpm: 16 músicas, uma delas o samba “Maria Dolores” (com Arnaldo Passos), em 1953.

    Foi neste ano que Roberto Paiva – então já casado com a primeira mulher, dona Emy, e pai de Robertinho, como atestava a Revista do Rádio de 17/04/1951 – se aventurou por um ritmo com o qual não estava nada familiarizado, uma toada: “O menino de Braçanã”, destinada a se tornar um clássico da MPB. Não pela sua voz, mas pela de outro intérprete, como explicou seu criador, Luiz Vieira (que a assina em parceria com Arnaldo Passos), na Ultima Hora de 29/07/1983:

    “Foi meu primeiro grande sucesso como autor. A primeira gravação foi com Roberto Paiva, que fez sucesso, mas que gravava numa fábrica [Sinter] que não podia suprir o mercado. Foi quando Ivon Curi, que estava com toda a corda, gravando na Victor, gravou a música. (...) Aí a música realmente estourou”. Na mesma ocasião, Vieira explicou o título da música: “Eu tinha um tio (...) que tinha uma fazenda em Braçanã. Passei muitas épocas lá, perto de Rio Bonito. (...) Muita gente pensou que fosse uma coisa inspirada no Nordeste, mas Braçanã fica no estado do Rio (...)”.

    “É Roberto Paiva torcedor do Flamengo, turfman [obs: apreciador de turfe], já praticou natação e hipismo, adora a cozinha italiana, gosta de cinema e teatro (...)”, informava a Revista do Disco de fevereiro de 1955. Exatamente um ano depois (em 03/02/1956), o cantor entraria em estúdio para registrar, segundo palavras dele ao mesmo periódico em março de 1956, “uma das músicas mais honestas das que já apareceram falando do Mengo”: o “samba-consagração” “Meu Flamengo, meu Brasil”, de Hianto de Almeida e Jurandy Prates, lançado em abril. Para continuar no jargão futebolístico, naquele mesmo ano Paiva marcaria dois golaços.

    Um deles estaria nas prateleiras já em janeiro, como noticiou a Revista do Disco daquele mês: o primeiro long-playing do cantor, contendo o “duelo musical travado entre Noel Rosa e Wilson Batista”, nas palavras de Nássara, autor do texto da contracapa e das caricaturas da capa de “Polêmica”, disco de 10 polegadas que reunia pela primeira vez a treta entre Noel, cujas composições foram interpretadas por Francisco Egydio, e Wilson, pela voz de Roberto. Este iria repetir a experiência – só que dessa vez cantando o repertório do seu conterrâneo de Vila Isabel – em 1974, no LP “Noel Rosa x Wilson Baptista” – Série Temas e Figuras da Música Popular Brasileira, volume 1, tendo Jorge Veiga se encarregado da parte destinada a Wilson Batista.

    No futuro, “Polêmica” acabaria sendo considerado um álbum histórico da MPB, assim como o segundo LP – o outro golaço – de Roberto Paiva, lançado no mesmo ano. “(...) o cantor de rádio formado pela escola das grandes vozes (Francisco Alves, Orlando Silva, Silvio Caldas) foi o divisor de águas entre um modo e outro de cantar Música Popular Brasileira. Ou seja, foi o primeiro a gravar a dupla Tom & Vinicius, que dois anos depois serviria de ponto de partida para a voz e o violão de João Gilberto criarem a bossa nova”, observou João Máximo n’O Globo de 08/02/2011, em reportagem sobre os 90 anos do artista.

    Roberto Paiva em dez polegadas: 'Orfeu da Conceição' (com arte de Raimundo Nogueira) e a 'Polêmica' de Noel Rosa com Wilson Batista (no traço de Nássara), ambos lançamentos da Odeon em 1956 / Imagens, respectivamente, da Coleção Aloysio de Alencar Pinto /IMS e da Coleção João Máximo / IMS. 

    O LP era “Orfeu da Conceição”, com a trilha sonora da peça homônima de Vinicius de Moraes, encenada em setembro de 1956 no Theatro Municipal do Rio. Pela voz de Roberto Paiva, foram lançados neste disco alguns clássicos da estreante dupla Tom Jobim-Vinicius de Moraes – e, por que não dizer?, da própria música brasileira: “Um nome de mulher”, “Se todos fossem iguais a você”, “Mulher, sempre mulher”, “Eu e o meu amor” e “Lamento no morro”. Esta última sairia também em 78 rotações, só que numa pegada mais sambão, mais a cara de Roberto Paiva, em contraste com a versão cool do álbum, onde ele canta (lindamente, aliás) acompanhado pelo violão de Luiz Bonfá.

    Foram os últimos grandes momentos de Roberto em disco. Em 1958, ele ainda teria chance de rebater a marcha “Fanzoca de rádio”, de Miguel Gustavo (gravada por Carequinha no ano anterior), que fazia troça com as pejorativamente chamadas “macacas de auditório”: moças, em sua maioria profissionais de serviços domésticos, que lotavam as plateias dos programas de rádio da época. “Ela é fã da Emilinha, não sai do César de Alencar (...) / O dia inteirinho ela não faz nada / Enquanto isso, na minha casa, ninguém arranja uma empregada”. A “Resposta da fanzoca” de Miguel Lima e Gil Lima, pela voz de Paiva, foi certeira: “Macaco é o gaiato que chamou / Esta é a história da fanzoca que responde a essa gente mascarada”.

    Em 1961, apresentou na TV Rio nas noites de domingo, ao lado de Marília Batista e Osvaldo Sargentelli, uma série de programas sobre Noel Rosa, com boa recepção por parte de público e crítica. Em setembro deste ano, chegou ao público seu último 78 rpm (pelo selo Mocambo), contendo dois sambas menos conhecidos de Nelson Cavaquinho, com parceiros variados: “Chega de sofrer” e “Deixa ela rolar”. Roberto Paiva já havia lançado, em 1954, um clássico absoluto do compositor da verde e rosa, “Mangueira de bambas” (de Nelson e Geraldo Queiroz), posteriormente rebatizado com seu nome definitivo, “Sempre Mangueira”: “Ôô, ôô, foi Mangueira que chegou / Mangueira é celeiro de bambas como eu / Portela também teve o Paulo, que morreu / Mas o sambista vive eternamente no coração da gente”.

    Metido em “mercado de capitais” entre 1970 e 1973 – como contaria ao JB de 26/03/1979 –, Roberto Paiva reapareceria, após o LP de 1974, como um dos finalistas do VIII Concurso de Músicas para o Carnaval, com “o pagode ‘Samba verde e rosa’, uma homenagem à Mangueira, dos compositores Pedro Caetano e Santelmo (Anselmo Mazzoni)”, informava a Luta Democrática de 07/01/1978. Participando de coletâneas fonográficas aqui e ali, fazendo shows aqui e acolá, Roberto Paiva foi levando a vida. Por vezes era lembrado e celebrado, como na extensa entrevista publicada pelo JB em 26/03/1979. “Todos os especialistas em música popular brasileira o consideram um dos nossos melhores intérpretes de todos os tempos, mas apesar disso Roberto Paiva é hoje um nome quase esquecido”, lamentava Ciléa Gropillo na abertura da matéria.

    “Roberto Paiva não ficou rico com a carreira, mas leva uma vida tranquila na Tijuca com a mulher, Teresa. Faz shows esporadicamente”, contou Monique Cardoso em outra matéria de página inteira para o mesmo Jornal do Brasil (17/06/2007). O cantor se tornaria presença constante nos famosos bailes carnavalescos do Centro do Rio, mesmo com a idade avançada: “Inteiraço, com seus 80 anos recém-completados, ele sempre que pode ainda solta sua bela voz, como fará durante o Carnaval carioca num coreto, em plena Cinelândia, ao lado de outros ícones de sua época, como Marlene, Emilinha Borba e Roberto Silva”, destacou Rodrigo Faour em 09/02/2001 na página Clique Music da internet.

    No dia em que completou 90 anos (08/02/2011), ganhou matéria no jornal O Globo, assinada por João Máximo, sob o título “A última voz da Época de Ouro do rádio”. Ali, Roberto confessou: “O curioso é que cheguei até aqui levando a vida mais desregrada do mundo. Bebi, fumei, joguei, fiz de tudo. Sempre fui um homem da madrugada, mesmo quando tinha de acordar cedo para as aulas no Pedro II”. Continuaria a pleno vapor nos palcos mesmo nonagenário, como deixa claro o seu obituário publicado em 31/07/2014 pelo Diário Brasil Digital: “Cantor era atuante no Carnaval na Cinelândia carioca até o ano passado, aos 92. Roberto Paiva, cantor que pertencia ao elenco da Rádio Nacional, morreu na tarde desta quinta-feira, 31 de julho”.

    A informação contraria as fontes oficiais, que cravam a data do óbito como sendo 1º de agosto. Mas é corroborada por Lourdes Nassif, que escreveu em 2 de agosto, na página do Jornal GGN: “Morreu na quinta-feira última [31 de julho] o cantor Roberto Paiva, aos 93 anos de idade. A passagem se deu no Rio de Janeiro e o enterro foi no Cemitério São João Batista. A morte não foi notícia de jornal, sendo anunciada apenas por Osmar Frazão, em seu perfil social”.

    Uma partida injustamente discreta para quem teve uma trajetória tão importante. No livro “História da música popular brasileira, sem preconceitos” (Record, 2021) – lançado por acaso no ano do centenário do artista –, seu autor, Rodrigo Faour, comenta com um certo tom de lamento: “o eclético cantor carioca Roberto Paiva, apesar da vida e carreira extensas, nunca alcançou o sucesso merecido”.

    Na imagem principal, Roberto Paiva fotografado por Halfeld, em imagem da Coleção José Ramos Tinhorão / IMS.

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