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    Rei da Voz e da folia: uma playlist carnavalesca de Francisco Alves pelo autor de sua mais nova biografia, Caio Franco

    Pedro Paulo Malta

    tocar fonogramas

    Foi em 1933 que Francisco Alves, então o cantor mais popular do Brasil, ficou conhecido como “o Rei da Voz” – apelido que recebeu de Cesar Ladeira, o mesmo que fez de Carmen Miranda “a Pequena Notável” e de Sílvio Caldas “o Caboclinho Querido”, entre outros epítetos. Mas não estaria errado se desse a Chico Alves a coroa de Momo, tamanha era sua ligação com a música de carnaval, presente em sua trajetória desde a estreia fonográfica, num 78 rotações de 1920, e depois desdobrada em inúmeros sucessos de sua discografia.

    Mas qual delas fez mais sucesso? Qual a mais lembrada até os dias de hoje? Há alguma que, apesar da popularidade na época do lançamento, acabou sendo esquecida com o tempo? E quais músicas não podem faltar numa seleção de sucessos carnavalescos lançados em sua voz?

    Para dar conta de tantas questões fomos a um especialista em Francisco Alves: o jornalista Caio Franco, autor da biografia “O Rei da Voz – A vida de Francisco Alves, o maior cantor do Brasil”, lançada em fins de 2025, no formato e-book. A obra, escrita por Franco após sua aposentaria como produtor da TV Globo (com uma década fazendo as pré-entrevistas no Programa do Jô), resulta de sua extensa pesquisa em periódicos e publicações sobre o cantor e a música brasileira na era do rádio.

    O livro se junta a outros dedicados ao cantor, como os referenciais “Francisco Alves: as mil canções do Rei da Voz”, de Abel Cardoso Jr. (Revivendo, 1998), e “Discografia de Francisco Alves”, de Walter Teixeira Alves (Lebasponte, 1988), além de duas biografias: “Minha vida”, com texto do jornalista Mário Cordeiro a partir de depoimento de Francisco Alves (que assina a autoria do livro, publicado em 1936 pela editora Brasil Contemporâneo), e “Chico Viola”, que saiu em 1966 compilando reportagens de David Nasser para a revista O Cruzeiro.

    “Autobiografias são, em geral, muito condescendentes com o biografado, né? Com o Chico não foi diferente”, aponta Caio Franco, que tem 62 anos e, entre as memórias que guarda da infância, está justamente uma das últimas gravações de seu biografado, a “Canção da criança”, lançada em disco em outubro de 1952, um mês após a morte do cantor, num acidente automobilístico da Via Dutra. “As lendas e desinformações que ficaram sobre essa maneira como ele morreu sempre me causaram estranheza. A partir daí veio minha vontade de escrever sobre ele.”

    Está bem. Mas e o carnaval? “Ah, o carnaval era uma das referências dele desde menino, no começo do século 20, quando as grandes sociedades é que dominavam a folia no Rio de Janeiro e ele observava aquela paixão dos foliões pelos Democráticos, Fenianos, Tenentes do Diabo...” Ok, mas quero saber da nossa seleção de carnaval! “Mas já?! Achei que fossemos falar mais do livro!” E quem disse que não falaremos...?

    “Olha, assim que você me encomendou essa playlist, a primeira música que me ocorreu foi ‘Confete’, a marchinha do David Nasser que fez muito sucesso no carnaval de 1952, o último dele”, assinalou Caio Franco. “Depois pensei em ‘Eu brinco’, outra marchinha clássica, mas da época da Segunda Guerra, quando o governo, segurando os gastos por aqui, avisou que não teria verbas pro carnaval. Daí essa alfinetada que Pedro Caetano e do Claudionor Cruz dão no governo...”

    Também de Pedro Caetano – mas com Alcir Pires Vermelho – é “Sandália de prata”, a música de 1942 que estava nos retoques finais quando o cantor, ao entrar num estúdio de ensaio da Rádio Nacional, ouviu pela primeira vez, ainda em ritmo de choro, destinado à voz de Ademilde Fonseca. “Vocês são burros mesmo”, disparou o Rei da Voz, em sua franqueza costumeira, como se lê na nova biografia. “Não estão vendo que isso é um motivo excelente para um samba de carnaval? Mudem logo esse negócio, que eu mesmo posso gravar e vamos fazer sucesso.”

    Confete e serpentina:  Francisco Alves e o carnaval numa foto promocional (O Cruzeiro, 23-11-1952) e no palco, durante uma apresentação em São Paulo (Coleção José Ramos Tinhorão / IMS) 

    E de sucesso Francisco Alves entendia há pelo menos 22 anos, quando estreou em disco com “O Pé de Anjo”, uma das músicas mais cantadas do carnaval de 1920. “Essa marcha é bem um retrato dessa época: o Sinhô tirando sarro dos pés enormes do China, irmão do Pixinguinha, que fazia parte da turma – de Donga, João da Baiana e outros – com que ele tinha uma rivalidade.” Nesta gravação, de 1920, temos um registro do Rei da Voz na fase mecânica (anterior ao microfone elétrico, de 1927), assim como em outras duas músicas escolhidas por Caio Franco: a marcha “Chamas do carnaval” e o samba “Miúdo”, ambas composições de Sebastião Santos Neves, lançadas em 1924.

    Dali a quase uma década, o sucesso de Francisco Alves era tanto que até a maledicência descompromissada dos botequins, cafés e outros pontos de encontro passou a se ocupar de criar e espalhar lendas a seu respeito – havia até quem dissesse que sua voz estava prestes a acabar. A resposta foi tramada pelo próprio Chico numa parceria com Orestes Barbosa em 1933: a marchinha “Há uma forte corrente contra você”.

    Mas e aquela história de que Francisco Alves não compunha e só aparecia como autor das músicas por motivos comerciais? É fato ou fake?

    “Isso é, de fato, uma questão na trajetória do Chico, apesar da musicalidade comprovada que ele tinha e do fato de ter sido parceiro, por exemplo, do Orestes, que até onde se sabe era letrista, como também o David Nasser”, ressalva o biógrafo. “Mas esse acordo, de entrar na parceria de músicas que ele gravava, era uma prática da época e não foi ele seu inventor. Também, não era o único a fazer isso.”

    Pois o Rei da Voz, além de farejar possíveis sucessos, era um mestre na divulgação das músicas que lançava. “No carnaval, por exemplo, aproveitava as batalhas de confete mais concorridas da cidade, como da Rua Dona Zulmira e do Boulevard 28 de Setembro, e ficava ali ao lado com seu carro, no qual estavam dois megafones acoplados a um toca-discos”, relata o escritor. “Era uma das maneiras como ele caitituava as músicas que tinha gravado pro carnaval, como conta o Mário Lago num trecho do livro dele, ‘Na rolança do tempo’ (Ed. José Olympio, 1977), que transcrevi no meu.”

    Já no ramo dos negócios, Caio Franco relembra a transação com Noel Rosa, a quem Chico teria vendido um carro, com a dívida sendo amortizada à base de sambas que o Poeta da Vila compunha e dava parceria ao cantor. Ou marchinhas, como “Gosto, mas não é muito” (deles com Ismael Silva), outra incluída na playlist. Outra de Noel é “Fita amarela”, mais um “classicaço de carnaval”, na definição do escritor. Este samba está entre as 25 gravações que Francisco Alves fez com Mário Reis, no dueto que lançou outras selecionadas, como a marcha “Formosa” (de Nássara e J. Rui) e a “Marchinha do amor”, de Lamartine Babo.

    Entre as composições de Lalá que passaram pelo gogó de Chico Alves há mais três na lista de Caio Franco: o samba “Comprei uma fantasia de pierrô” (com Alberto Ribeiro) e as marchinhas “Moreninha sweepstake” (com Hervé Cordovil) e “Grau dez” (com Ary Barroso), esta última “entre as primeiras que escolhi para a playlist, pois é outro clássico do carnaval, muito cantado até hoje”. Já a marcha “Dá nela” (só de Ary), hoje cancelada, foi um dos maiores sucessos de 1930, quando foi lançada. “Era muito aplaudida, inclusive, pelas mulheres”, observa. “É importante observarmos que era outra época.”

    Haroldo Lobo é outro mestre da canção carnavalesca presente na seleção do biógrafo de Francisco Alves, com as marchinhas “Estou com tudo” (co-assinada por Milton de Oliveira e pelo próprio Chico) e “Retrato do velho” (com Marino Pinto), que “muitos dizem que serviu de jingle na campanha presidencial de Getúlio Vargas, mas não foi bem assim”, ensina o escritor. “Essa música foi lançada depois de Getúlio eleito, tornando-se um dos maiores sucessos do carnaval seguinte, em 1951.”

    Já na folia de 1939 (ano que terminaria com a Europa em guerra), a política internacional serviu de mote para “Nada de novo na frente ocidental”, deliciosa marchinha da mesma dupla de autores – os geniais João de Barro e Alberto Ribeiro – da patriótica “Manhãs de sol”. Esta última, lançada no comecinho de 1936, chegou ao público não só como faixa do 78 rpm de Francisco Alves, como também pelo cinema: foi um dos números musicais do filme “Alô alô carnaval”, comédia da Cinédia-Waldow (Adhemar Gonzaga + Wallace Downey) na qual o cantor era uma das atrações principais. Em outra cena, Chico faz as vezes de professor enquanto canta “A.M.E.I.”, marchinha de Nássara e Eratóstenes Frazão.

    Já no filme “Laranja da China”, produzido por Wallace Downey e dirigido por Ruy Costa em 1940, eram três os solos de Francisco Alves, entre eles “Despedida de Mangueira” (Aldo Cabral e Benedito Lacerda), samba que seguirá para sempre em seu repertório. O mesmo pode ser dito do samba “Odete” (Herivelto Martins e Dunga), que no cinema – no filme “Berlim na batucada” (Adhemar Gonzaga, 1944) – foi cantado por Leo Albano. Herivelto, aliás, foi dos compositores que mais contribuíram para o repertório do Rei da Voz, com sucessos como “Que rei sou eu” (dele com Valdemar Ressurreição, em 1945), “Palhaço” (com Benedito Lacerda, 1947) e “A Lapa” (também com Benedito, 1950).

    “Viu só como esse cara é inesgotável...? A discografia dele às vezes parece que não tem fim”, arremata Caio Franco, certo de que não foram poucas as marchinhas e os sambas que ficaram fora de sua playlist. Também, pudera: não há repertório carnavalesco maior e mais representativo que o do Rei da Voz – ou seria Momo, o rei da folia...?

    >>  Para adquirir o e-book “O Rei da Voz – A vida de Francisco Alves, o maior cantor do Brasil” , de Caio Franco, acesse o seguinte link, na plataforma Google Play

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    Na imagem principal: Caio Franco fotografado por Gabriel Mazoni. Em suas mãos, foto de Francisco Alves e Sua Embaixada do Morro (1939) da Coleção José Ramos Tinhorão / IMS 

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