"Certa vez, numa loja de música, uma senhora pediu ao cavalheiro moreno que estava ao piano que tocasse determinada música de José Maria de Abreu. O cavalheiro moreno tocou. No fim, ainda extasiada com a beleza da composição, a senhora virou-se e então aconteceu o seguinte estranho diálogo:
– Esse compositor ainda é vivo?
– Ainda.
– O senhor o conhece? Gostaria de apertar-lhe as mãos.
– Não seja por isso. Aqui estão elas.
E o cavalheiro moreno recebeu as
homenagens da fã. Era o próprio Zé Maria. Foi um custo, é verdade, para convencer a senhora em questão de que, com aqueles cabelos negros e aquela fisionomia ainda jovem, José Maria de Abreu era ele mesmo. E explicaria mais tarde aos amigos, numa gargalhada.
– Todo mundo pensa que sou velho, que tenho que ser velho. É que ninguém sabe que faço música desde criança."
E de fato fazia. José Maria de Abreu, muito antes de se tornar grande pianista e autor de sucessos da música popular brasileira, tinha apenas onze anos de idade quando criou um hino para a Escola Estadual Peixoto Gomide, onde estudava, na cidade de Itapetininga (SP). Desde então, nunca mais se afastou da música, motivo qual pelo era chamado frequentemente de veterano, conforme disse nesta entrevista à revista Radiolândia (21-05-1955), publicada quando tinha 44 anos. “Realmente, nasci para a música. Desde pequeno me tenho dedicado a ela”, contou à revista Carioca (25-06-1940), relembrando a composição inaugural, criada “no fim do ano letivo, para festejar o encerramento das aulas (...) incitando as crianças ao aprendizado das ciências”.
Pois a música era mesmo seu universo desde as fraldas. A mãe, Leopoldina de Souza, era pianista, e o pai, Juvenal Roberto de Abreu, era maestro, compositor e neto de músico, o também maestro Antônio Francisco de Abreu, fundador da primeira banda de Santa Branca (SP). Mas foi na cidade vizinha de Jacareí, mais conhecida pelos biscoitos da lata azul que eram vendidos nas margens da Via Dutra, que nasceu José Maria de Abreu, há 115 anos (07-02-1911). Já tocava violino e trompete – ensinados pelo pai – quando, aos seis anos de idade (1917), mudou-se com a família para Itapetininga, onde o velho Juvenal, aprovado num concurso público, foi contratado como professor de música.
Aos 15 anos (1926), já era violinista e trompetista da orquestra do Cine Íris, de Itapetininga, acompanhando os filmes na época do cinema mudo. Até que entrou em cartaz o filme “Flagelo da humanidade” e a pianista da orquestra – que era esposa do prefeito – se recusou a tocar, devido aos “assuntos de natureza sexual” da película, como informou Jota Efegê (O Jornal, 19-05-63). O dono do cinema recorreu a José Maria, que teve apenas uma semana para aprender piano. “Desde então o Cinema Íris, de Itapetininga, teve um pianista que, mais tarde, seria o famoso autor de um punhado de valsas de grande sucesso.”
Mas o marco definitivo do encontro de José Maria com a música foi em 1927, quando abandonou o curso de prático de farmácia que vinha fazendo (assim planejava a família, por incrível que pareça) para ingressar numa “companhia teatral que vinha a caminho do Rio, de regresso da Argentina”, como contou à revista Carioca (25-06-1940). “O pianista adoeceu e Otília Amorim, que chefiava a referida companhia, convidou-me para assumir o lugar do músico enfermo. Aceitei sem relutância o oferecimento e, pouco depois, seguíamos para a Cidade Maravilhosa, tendo eu deixado por lá os aventais de farmácia e tudo mais que me prendia a Itapetininga.”
Estabelecido em São Paulo desde 1927, empregou-se na orquestra do Teatro Boa Vista (onde chegou a atuar como regente) e, depois, nas tradicionais lojas de discos Sotero e a Di Franco, como pianista demonstrador. Feitos do precoce José Maria, que ainda estava na adolescência (17 anos) quando deixou de ser inédito em disco: foi em setembro de 1928 que “Recordando”, canção de sua autoria com Salvador Moraes, chegou às lojas no 78 rpm Parlophon 12826, de ninguém menos que Francisco Alves. Já em junho de 1929 foi a vez do cantor Paraguassu gravar “Suspiro”, marcha de sua autoria sem parceiro, num disco da Columbia.
Dezoito anos em dois cliques: José Maria de Abreu aos 26 (Carioca, 11-09-1937) e aos 44 anos (Radiolândia, 21-05-1955)
Dali a dois meses, o próprio José Maria de Abreu gravava seu piano pela primeira vez no registro original de “A casa onde nasci”, canção de sua autoria – também sem parceiro – interpretada por Januário de Oliveira. Já no Rio de Janeiro, para onde se mudou definitivamente em março de 1933, já em junho fez sua primeira aparição pública ao vencer o concurso de canções juninas do jornal A Noite, com a música “Promessa” (com letra de Ary Kerner), que Gastão Formenti lançaria no mês seguinte, pela Victor. Da proximidade com o meio artístico carioca vieram parceiros como Lamartine Babo, co-autor da jocosa “Antônio, por favor”, marchinha lançada pelo própria Lalá com Castro Barbosa no carnaval de 1935.
Na canção carnavalesca, aliás, os maiores sucessos de José Maria de Abreu viriam pouco mais adiante, nessa mesma década, ambos também em ritmo de marcha. Primeiro na folia de 1938, quando Aurora Miranda lançou “Onde está o dinheiro” (dele com Francisco Matoso e Paulo Barbosa) e, depois, na de 1939, quando o Bando da Lua cantou “Pegando fogo”, só com Matoso. Ambas foram regravadas com sucesso por Gal Costa no começo dos anos 1980 (a primeira em 1984 e a segunda em 1982), permanecendo entre suas músicas mais lembradas nos dias atuais, o que não deixa de ser curioso.
E não só porque não gostava de compor para carnaval (ou melhor: detestava, como informou a revista Manchete, num breve perfil sobre ele, na edição de 04-06-1955), mas porque o gênero musical que se tornou seu carro-chefe nada tinha de serelepe, jocoso ou mesmo animado. José Maria de Abreu ficou conhecido como o “Rei da Valsa”, pela facilidade com que compunha belas melodias com jeito de seresta, em geral cobertas por versos sofridos como os que escreviam seus parceiros. “O Zé Maria tem um mimeógrafo onde faz suas valsas”, brincava-se no meio musical, sobre sua fluência neste gênero – só em discos de 78 rpm foram 65 composições lançadas – e a popularidade alcançada.
“Seu primeiro sucesso foi a valsa ‘Italiana’, que lhe rendeu muito pouco e deu uma grande popularidade a Carlos Galhardo”, anotou Renato Galeno, em sua coluna no Diário Carioca (30-09-1949), sobre a parceria do compositor com Paulo Barbosa e Oswaldo Santiago lançada em agosto de 1936. Galhardo, outro especialista nesse gênero musical, gravou outras tantas composições de José Maria de Abreu, entre elas “Mais uma valsa, mais uma saudade”, feita em parceria com Lamartine Babo e lançada em setembro de 1937.
Anterior às duas é “Meu destino” (com Carlos Rego Barros de Sousa), lançamento de abril de 1935, por Januário de Oliveira, que é “a valsa mais bonita que existe no repertório brasileiro em todos os tempos”, na opinião de Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, grande colecionador de discos e um dos maiores conhecedores da música brasileira gravada em 78 rotações. “Logo nas primeiras notas da melodia ela cativa quem está ouvindo”, afirma Nirez, um dos autores do livro “Discografia Brasileira em 78 rpm (1902-1964)”, editado pela Funarte em 1982 e uma das bases para este site. “São perfeitas melodia e letra.”
“Sim, as valsas são as que têm a minha preferência”, confidenciou José Maria de Abreu à Revista Carioca (25-06-1940). “Questão de temperamento”, explicou, antes de quantificar a predominância do compasso ternário em sua obra de compositor: “Quatrocentas valsas e duzentos sambas.” A revista, então, quis saber se precisa sofrer para compor. “Não há inspirações, nem eu preciso de me recolher para compor. Isso é para os compositores do partido-alto”, minimizou. “Sou da simplicidade e rabisco uma valsa em qualquer lugar e a qualquer tempo.”
Sucessos de José Maria de Abreu: os rótulos dos discos originais de "Boa noite, amor" (por Francisco Alves, 1936), "Tome polca" (por Marlene, 1950) e "Alguém como tu" (por Dick Farney, 1952). Rótulos Acervo Nirez / Fotos de Otacílio de Azevedo
Entre estas, a preferida do compositor era “Boa noite, amor”, a valsa que Francisco Alves lançou em maio de 1936 e virou prefixo e sufixo do programa que o Rei da Voz apresentava aos domingos, na Rádio Nacional, a partir de 1941, quando foi contratado pela emissora. “Na carícia de um beijo / Que ficou no desejo / Boa noite, meu grande amooooor”, entoava o cantor na abertura e no encerramento da atração, por mais estranho que pudesse parecer – o Programa Francisco Alves ia ao ar ao meio-dia. É uma das 35 composições que fez com um de seus parceiros mais importantes, Francisco Matoso, co-autor também de outro grande sucesso de Chico Alves, o fox “Ao ouvir esta canção hás de pensar em mim”, lançado em março de 1940.
Nessa época, já trabalhava na Rádio Clube do Brasil, a emissora em que ingressou em 1938, substituindo o pianista Augusto Vasseur, e depois passou a também fazer arranjos para a orquestra da emissora. Foi lá que conheceu Jair Amorim, o jornalista/radialista com quem passou a compor após a morte precoce de Francisco Matoso, em 1941 (aos 28 anos), vitimado por tuberculose. Com o novo parceiro, o repertório romântico continuou em alta em suas preferências – fosse em ritmo de valsa, fox (como “Brigamos outra vez”, que Orlando Silva lançou em setembro de 1945) ou samba-canção, gênero musical predominante entre os sucessos desta nova etapa.
Foram ao todo dez anos de parceria e outra grande voz brasileira a entrar na discografia de José Maria de Abreu: Dick Farney, o cantor e jazzman recém contratado pela Continental – gravadora em que Abreu já vinha trabalhando como pianista e orquestrador. Em seu vozeirão de barítono ao pé do ouvido, saíram sambas-canção de sucesso como o romântico “Um cantinho e você” (em julho de 1948) e o fatalista “Ponto final” (em março de 1949), este gravado também na Argentina, tornando-se “uma autêntica coqueluche no meio artístico portenho”, segundo a revista Carioca (05-07-1952).
Entre os entusiastas de “Ponto final” está o crítico musical Zuza Homem de Mello, que no livro “Copacabana: a trajetória do samba-canção (1929-1958)” (Ed. 34, 2017) o define como “seguramente, um ponto culminante na história do samba-canção”. “Eis uma obra-prima”, afirma o escritor, que destaca ainda o fato de Dick, nesta gravação, ser “acompanhado pela Orquestra de José Maria. De Abreu, logicamente”.
Outro clássico da dupla Abreu-Amorim que Dick Farney gravou primeiro na Argentina (em setembro de 1952) foi “Alguém como tu”, o samba-canção que Dircinha Batista lançou no Brasil (no mês seguinte) e só então, no início de 1953, saiu por aqui num disco brasileiro de Dick. Para Claribalte Passos, da revista Carioca (07-02-1953), a melhor das três gravações foi mesmo a última, com arranjo de Radamés Gnattali: “Esse disco, pois, veio apontar sem qualquer dúvida o autor que deveria receber a grande distinção de o melhor compositor de 1952! E este, a nosso entender, é o veterano autor de tantas valsas inesquecíveis – José Maria de Abreu – a quem, através desta especializada, rendemos a nossa mui sincera e imparcial homenagem.”
O canto de Dick pôde ser ouvido também em “Ser ou não ser”, samba-canção da parceria de José Maria de Abreu com Alberto Ribeiro lançado em julho de 1948. Da mesma dobradinha de compositores é a “Canção de aniversário”, lançada pela Continental exatamente um ano depois, na voz de Nilo Sérgio, como uma das alternativas brasileiras à estadunidense “Happy birthday to you”. Ainda em 1949, José Maria de Abreu teve pela primeira vez seu nome estampado como intérprete – José Maria e Seu Conjunto – no selo de um disco, no caso o 78 rpm 16.016 da Continental, no qual gravou dois choros de sua autoria, entre eles “Vermelho 32”.
Depois deste disco, José Maria de Abreu gravou outras vezes como intérprete, com destaque para o único LP de sua discografia, “Enquanto ela não chega”, lançado em 1958 pela Continental. No repertório, que ele toca ao piano acompanhado de trio, há apenas três músicas de sua autoria, “Você”, “Conselheiro” e “Cidinha”, entre músicas de outros compositores – nacionais e estrangeiros.
Trinca de parceiros: Francisco Matoso, Jair Amorim e Luiz Peixoto. Fotos reproduzidas da internet
Ainda em sua discografia em 78 rpm, teve também choro cantado, como a “Esposa modelo” que Marlene interpretou – com letra espirituosa de Carlos Rego Barros de Sousa – em seu disco de novembro de 1950. Do outro lado deste mesmo 78 rpm (Continental 16309), a “Favorita da Aeronáutica” canta “Tome polca”, historinha ainda mais divertida com jeito de cena do teatro de revista. Pois aqui, seu parceiro é outro mestre dos palcos, Luís Peixoto, o revistógrafo autor de “Ai ioiô” (com Henrique Vogeler), “Na batucada da vida” (com Ary Barroso) e “Disseram que eu voltei americanizada” (com Vicente Paiva), entre outros sucessos.
Com José Maria de Abreu, apesar da obra curta (foram apenas oito parcerias gravadas), há ótimas parcerias, como “Isso é Brasil”, tardio samba-exaltação (1947) lançado por Maria da Graça, e o maxixe “Nego, meu amor”, verdadeira esquete musical com Marlene e Ivon Curi. Este segundo, gravado com acompanhamento da Orquestra Tabajara, saiu em disco em março de 1950 – mesmos mês e ano do lançamento de “Ai, Gegê” (com letra de João de Barro), a marchinha que clamava pelo retorno de Getúlio Vargas (enfim, eleito!) à presidência da República, no pleito marcado para o fim daquele ano. “Ai, Gegê! Que saudades nós temos de você”, dizia o refrão, com jeitão de jingle, cantado por Jorge Goulart.
Além dos fatos da política, a obra de Abreu também antecipou uma grande carreira fonográfica da música brasileira: a de Dóris Monteiro, que tinha acabado de completar 17 anos quando lançou seu disco de estreia, em outubro de 1951. Aqui, o pianista comparece com “Fecho meus olhos, vejo você”, que acabou no lado B (o menos importante) do 78 rpm que tinha como aposta principal o samba “Se você se importasse”, de Peterpan, à revelia de Dóris. “A própria cantora reconheceu a superioridade do samba-canção de José Maria de Abreu, um dos poucos com letra e música de sua autoria”, escreveu Zuza Homem de Mello em seu “Copacabana: a trajetória do samba-canção (1929-1958)”. Para ela, Abreu era “o Tom Jobim daquela época”, como se lê no texto de Zuza.
E não estava errada. “De cabelos lisos, repartidos pelo lado direito”, na descrição do livro, “tinha hábitos refinados e bom padrão de vida”. E com trabalhos paralelos na Rádio Clube (depois transformada em Mundial), na gravadora Continental e no teatro, era “um workaholic da música”. Na intimidade, no entanto, era “um cidadão de hábitos pacatos, gostando imensamente da sua vida doméstica, com as conversas ao redor da mesa da sala de jantar e não dispensando a sesta na varanda, entre begônias e trepadeiras”, como informou a revista Carioca na edição de 24-12-1938.
“É o mais fecundo compositor nacional e o arranjador mais rápido que se conhece”, definiu Jair Amorim, em sua coluna na Revista do Rádio (07-04-1953), como que atualizando o perfil de seu querido parceiro, quinze anos depois das sestas, begônias e trepadeiras. “Músico até a medula, compõe melodias com a mesma facilidade com que ingere um chope duplo. Gosta de anedotas, de ossobuco, de andar de bonde e da voz de Silvio Caldas. E hoje em dia, após sucessos sem conta, conseguiu uma coisa dificílima: ser mais importante que os biscoitos de sua cidade.”
Após sua morte, enfartado aos 55 anos (12-05-1966), no Rio de Janeiro, foi homenageado em Jacareí, onde o Largo da Matriz, famoso ponto de encontro das festividades locais, no centro do município, passou a se chamar Praça José Maria de Abreu – um tributo de sua cidade natal que, infelizmente, não se viu em outros lugares do Brasil. “Não li nos jornais notícias maiores sobre sua morte. No entanto, perdemos excelente compositor popular”, lamentou o jornalista Nestor de Holanda Cavalcanti, também compositor, em sua coluna Telhado de Vidro, no Diário de Notícias (02-06-1966). “É triste verificar que esquecemos, com facilidade espantosa, todos os que nos causaram bons instantes de emoção, com frutos de seu talento, de sua sensibilidade.”
Na foto principal: retrato de José Maria de Abreu por Mamede, na Coleção José Ramos Tinhorão / IMS




