Compositor inspirado, só de parceria com Haroldo Barbosa, Luís Reis tem mais de 50 músicas (...). Pianista dos bons, se confessa incapaz de ler música. Boêmio, a seu respeito correm mil histórias pelos bares da Zona Sul. Agitadíssimo, já foi visto almoçando coquetel de camarão no Antonio’s e bife à milanesa no Kalil, ao mesmo tempo. (O Globo, 29/08/1973)
Difícil, muito difícil, o ano de 1980 para a música. Só para citar alguns nomes, em dezembro perdemos John Lennon e o nosso Almirante, “a maior patente do rádio”. Em novembro, foi-se embora o grande Cartola, precedido em outubro pelo compositor Leonel Azevedo. John Bonham, baterista do Led Zeppelin, e o cavaquinista Waldir Azevedo se foram em setembro. Vinicius de Moraes despediu-se em julho, assim como Sidney Miller e o cantor Paulo Sérgio. Ian Curtis, do Joy Division, partiu em maio. O clarinetista Abel Ferreira em abril, e Bon Scott, do AC/DC, em fevereiro. Larry Williams, autor de clássicos do rock, encabeçou a lista em janeiro.
No Brasil, quem puxou a fila – muito cedo, aos 53 anos – foi Luís Reis, o Cabeleira dos páreos da Gávea, das colunas de turfe dos jornais, do sambalanço, dos dedos mágicos que, entre baforadas e uísques, percorriam teclas brancas e pretas nas noites das boates cariocas. De seu talento nasceram músicas icônicas da MPB e ao menos um clássico do Carnaval: em homenagem a Mestre André – lendário diretor de bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel, o inventor da paradinha, mais uma perda importante daquele 1980 (em novembro) –, compôs um samba até hoje cantado pelos integrantes no “esquenta” da escola na avenida, eternizado em 1974 pela gigantesca Elza Soares: “Salve a Mocidade”!
Lá vem a bateria da Mocidade Independente
Não existe mais quente, não existe mais quente
É o festival do couro, alegria da cidade
Salve a Mocidade, salve a Mocidade!
Quem imaginaria que o autor desse hino do Carnaval carioca, ele mesmo um autêntico carioca nos hábitos e costumes, tivesse nascido, em 31 de março de 1926 (há exatos cem anos, portanto), em São Luís, no Maranhão? Mais exatamente na Rua Rio Branco 350, como ele informaria em entrevista ao jornal O Dia de 03/12/1967. O “doce, tímido, amável e triste” Luís Reis – assim definido por Artur da Távola n’O Globo de 12/02/1980 –, após vários dias de internação por causa de problemas hepáticos, expirou durante o sono no dia 9 de fevereiro no Hospital Pedro Ernesto, em Vila Isabel, na capital fluminense, cidade que o acolhera desde menino. Na tristeza do momento, surgiram histórias deliciosas sobre a vida de Luís Abdenago (pronuncia-se “Abdênago”) dos Reis.
“Em Luís Reis, não sabia se admirava mais o seu jeito especial de ‘bater’ no piano (num balanço todo especial), suas qualidades de compositor ou o seu jeito todo especial de ser um boêmio tão irrecuperável que sua companheira, Salomé, chegou até a inventar um modo especial de aguardá-lo no automóvel, enquanto ele saltava para entrar no Álvaro’s ou no Degrau dizendo que iria apenas comprar cigarro. Ela comprava um sorvete e dizia para não demorar porque o sorvete poderia derreter”, recordou Sérgio Cabral n’O Globo de 13 de fevereiro.
“Alegre, sempre, permanentemente, falando com alvoroço, fazendo questão de dar uma ‘pala’ das composições que iria lançar (...), era, na validade do tratamento que lhe davam carinhosamente, no prado e ao ouvi-lo no piano, um ‘garotão’”, escreveu Jota Efegê em texto publicado no mesmo periódico três dias depois, revelando a origem do epíteto famoso: “Seu apelido de ‘Cabeleira’ lhe foi dado por um colega de jornal e também compositor popular vitorioso, o Antônio Nássara” – com quem Luís Reis faria as carnavalescas “Batalhas de confete” e “O craque do tamborim”. Sozinho ou com parceiros, ele legaria à MPB pelo menos 90 composições – sem contar as que permaneceriam inéditas –, segundo pesquisa feita nas páginas Instituto Memória Musical Brasileira e Discografia Brasileira, na internet, e no acervo de partituras da Coleção José Ramos Tinhorão do Instituto Moreira Salles.
Destas, mais da metade – 47, para ser mais exato – foram feitas com Haroldo Barbosa; 15 com Luiz Antônio, o segundo parceiro mais constante; 4 com Miguel Gustavo e também com Pedro Caetano; com Nássara e Vespasiano Luz, foram duas com cada um; Jorge Veiga, Ethmar Vieira, Aloísio Silva Araújo, Monsueto Menezes, Grande Otelo e N. Nunes fizeram com ele apenas uma música cada. Sozinho, melodia e letra, Luís Reis seria o autor de dez: além da já citada “Salve a Mocidade”, estão na lista “20 anos de caviar” – homenagem ao cronista social Ibrahim Sued –, “A roupa do Gonça”, “Coco seco”, “Crioulo branco”, “Samba do desligado”, “Samba maroto”, “Samba no Leblon”, “Vale ouro” e “Vai, Salgueiro”.
Na entrevista dada ao jornal O Dia de 03/12/1967, Luís Reis contou que chegou ainda menino, com seis anos, a Niterói, mudando um ano depois com sua família para a então capital do país, o Rio de Janeiro. O motivo: “seu pai, Humberto Reis, elegera-se deputado federal pelo antigo Partido Republicano”, informa o fascículo da “Nova história da Música Popular Brasileira” dedicado a ele e a Luiz Antônio, Djalma Ferreira e Haroldo Barbosa, publicado em 1979 pela Abril Cultural. “Na música, começou cedo, de pandeiro na mão, e já aos dez anos ganhava um cavaquinho de presente”, segue o texto.
Num piano alugado, onde a irmã executava peças dos chamados compositores “eruditos”, ele certa vez escutou uma tia tocando “A jardineira”, uma marchinha popular. Foi uma epifania! Ele mesmo – para desgosto do pai – passou então a arriscar umas notas e uns acordes, sem abandonar a percussão: pandeiro, cuíca e frigideira. Por essa época, nasceria outra grande paixão, esta pelos cavalos, contou Cláudio Lysias n’o Cruzeiro de 09/08/1972: “Luís Reis vai às corridas desde os nove anos”. A terceira paixão tinha as cores vermelho e preto, como atestou Ruy Porto no Jornal dos Sports de 13/02/1980: “(...) o Cabeleira era de um sorriso doce-triste, só mudando quando o Flamengo ganhava”.
Foi em Belo Horizonte, para onde seguiu com a família aos 17, que sua carreira artística de fato começou, dividindo-se entre o pandeiro, acompanhando um amigo em festas, e o piano, numa orquestra que animava os bailes da União dos Empregados no Comércio. Em pouco tempo, atuava no dancing Capitólio e em cabarés locais. “(...) passava um lapizinho no bigode para ficar mais velho”, confessaria ao jornal O Dia. Um ano depois, de volta ao Rio, ganhou 100 cruzeiros como calouro da “Hora do pato”, na Rádio Nacional, e a nota máxima no programa de Ary Barroso, conseguindo um contrato como pianista na “Hora do guri”. Logo vieram as boates. “Comecei a trabalhar no Tasca, que agora se chama Drink”, disse a O Dia. Na mesma época, abraçaria também outra profissão.
“Comecei minha vida no trabalho em redação de jornal com a idade de 18 para 19 anos, na velha Folha Carioca, na Rua da Constituição”, contou ele em 1967, na entrevista ao jornal O Dia. “Na Folha do Dia, já com 19 anos, eu era o chefe da seção de turfe, por incrível que pareça, garoto ainda, né?”. Sua coluna de turfe ele posteriormente levaria, sob diferentes títulos, para diversos veículos da imprensa: Diretrizes, Diário Carioca, Ultima Hora (“O Coruja – Espia de noite e conta de dia...”), A Noite, Jornal do Brasil (“Conversa de paddock” e “Pista leve”), Jornal do Comércio etc. Iria se tornar não só cronista, mas também personagem da crônica turfística carioca, citado por vários colegas em matérias sobre o assunto – não raro chamado (sempre de brincadeira) por nomes que derivavam do seu apelido: “Cabejera, el terrível”, para o pessoal do Diário de Notícias, e “Cabejerita” no Jornal dos Sports.
Cronista de turfe: Luís Reis com o jóquei Luiz Rigoni nos anos1940 (Vida Turfista, julho de 1957) e na redação do Diário Carioca, em 1961 (Coleção José Ramos Tinhorão / IMS)
Aos 22, destacava-se tanto no rádio, como mostrou A Cena Muda (25/05/1948) – “O pianista Luís Reis continua atuando com sucesso no programa ‘Sambas e outras coisas’, de Henrique Batista” –, quanto no Hipódromo da Gávea, de acordo com a revista Esporte Ilustrado (05/08/1948) – “(...) Luiz Reis revelou-se um bom locutor de assuntos turfísticos”. Aqui seu nome aparece grafado com “z”, o que, de acordo com Jota Efegê (O Globo, 16/02/1980), seria o correto: “Luiz (com z, na forma antiga)”. Mas era com “s” que ele assinava suas colunas de turfe e também como costumava aparecer na imprensa em geral, por isso a opção por essa grafia neste post.
“Luís Reis – repórter de turfe, nas horas perdidas da noite borboleteia pelas boates e, esquecendo por algum tempo as corujadas da Gávea, vai para o piano e comanda com a sua classe de intérprete arejado das músicas modernas a dança dos boêmios. A Tasca, o Five O’Clock, o Siroco, o Mandarim e o Chez Ruffin já convidaram o Luís Reis para pianista efetivo, mas ele prefere as canjinhas de dez a quinze minutos (...)”, revelou Braga Filho n’A Cena Muda de 28/08/1952. J. Fomm, na Ultima Hora de 24 de dezembro daquele ano, falou sobre algumas características inconfundíveis do instrumentista: “Todos conhecem o Luiz Reis, que vive nos bares de Copacabana, tocando piano, com seu inseparável cigarro no canto da boca. Criou fama com os bebops (...)”.
Escrevendo para o Jornal do Brasil, o Cabeleira ganhou, em 1958, o prêmio de melhor reportagem sobre o Grande Prêmio Brasil, em concurso promovido pela Associação dos Cronistas de Turfe e pelo Jockey Club. Conseguiria o bicampeonato no mesmo concurso em 1959, ano em que cobriu as férias de Haroldo Barbosa – também compositor e cronista de turfe, 11 anos mais velho que Reis – na coluna Pangaré, que Haroldo publicava no jornal O Globo. Era o prenúncio de uma parceria que faria história na música popular – mas esperaria ainda um ano para acontecer. Naquele mesmo 1959, Luís Reis finalmente estrearia na indústria fonográfica como pianista, lançando pelo selo Copacabana um disco de 78 rotações com dois sambas de José Batista, “Moro na roça” (parceria com Arnaldo Passos) e “Vou ver iaiá” (com Norival Reis).
Como compositor, sua primeira música gravada teria sido – segundo ele mesmo contaria a Carlos Imperial (Revista do Rádio, 30/03/1963) – “Alô, brotos”, num long-playing de Sônia Delfino de 1960. Seria também a estreia da dupla Luís Reis-Haroldo Barbosa em disco. Ao jornal O Dia, o Cabeleira contou que a primeira música feita por eles foi “Projeção”. Em 78 rotações, debutou ao lado do colega Vespasiano Luz (o cronista de turfe Vespa) no final de 1960, com a toada “Lá na Praia Grande”. Da mesma dupla é o samba “Chega de barulho”, que ganharia a voz de Ary Cordovil em 1961.
Em janeiro de 1961, a parceria Reis-Barbosa chegou aos 78 rotações através do cantor Gasolina, intérprete de “Fiz o bobão”. O samba recebeu, apenas neste ano, 13 versões diferentes, tanto em 78 rpm quanto em LPs – a de Dóris Monteiro tinha uma letra ligeiramente modificada. Foi Dóris, segundo matéria publicada na Revista do Rádio de 15/04/1961, a lançadora de um dos maiores êxitos não só da dupla, mas da própria música brasileira – embora Luís Reis tenha dito a Carlos Vinhaes (Ultima Hora, 03/06/1976) que o primeiro a gravar foi Ivon Curi, só que o disco de Dóris acabou chegando antes nas lojas. Fosse como fosse, no primeiro semestre estavam circulando nada menos do que 10 gravações de “Cara de palhaço, pinta de palhaço, roupa de palhaço / Foi esse o meu amargo fim...”. Outras dezenas viriam em seguida.
“‘Palhaçada’, de Luís Reis e Haroldo Barbosa, é uma das músicas mais solicitadas na Europa à União Brasileira de Compositores. Já está gravada em Londres, Paris, Bruxelas, Roma, Madri, Lisboa, Genebra e vai dar enorme quantia em direitos autorais aos seus autores”, destacava José Mauro na Ultima Hora de 5 de dezembro de 1961. O samba iria se tornar uma das assinaturas musicais de Miltinho, um dos principais intérpretes de Luís Reis e o responsável pela versão até hoje mais famosa deste clássico absoluto da MPB.
Elizeth Cardoso, que também o gravou, foi outra artista muito presente na vida do Cabeleira. Levou para o disco um clássico da parceria dele com Haroldo, “Tudo é magnífico”, “uma espécie de resposta (cheia de modéstia) da cantora àqueles que a chamavam de Magnífica”, afirma Sérgio Cabral em “Elisete Cardoso – Uma biografia” (Lumiar, 1999, 2ª edição). De ambos, a Divina ganharia ainda um dos seus carros-chefes, um samba-canção que a acompanharia vida afora, outro petardo da MPB: “Nossos momentos” (“Momentos são iguais àqueles em que eu te amei...”). O Cabeleira e o Pangaré (apelido de Haroldo, originado de sua coluna no jornal) estavam realmente vivendo momentos incríveis.
“Haroldo Barbosa e Luís Reis, a dupla de compositores de maior sucesso no momento”, atestava Sérgio Cabral no Jornal do Brasil de 20/04/1961. “O popular Mário Reis tomando um ‘drink’ no Country e afirmando que ‘Luís Reis e Haroldo Barbosa formam atualmente a melhor dupla da verdadeira música popular brasileira’”, revelava Jean Pouchard no Diário Carioca de 12/01/1962. Entre 1961 e 1963, eles enfileiraram diversos sucessos em 78 rotações. Tirando o bem-humorado pasodoble “Toureiro suburbano”, a marcha “Alguém” e “Canção da manhã feliz”, um samba-canção, os demais eram todos sambas, e da melhor qualidade: “Notícia de jornal”, “Vedete certinha”, “Só vou de mulher” – que batizaria a revista homônima estreada no Teatro Recreio em 1962 –, “Samba de improviso”, “Meu nome é Ninguém”, “Moeda quebrada” e “Faço um lé lé lé”. Em long-playings, a dupla seguiu mandando ver no samba e no sambalanço, com muita bossa e muito suingue, como em “Devagar com a louça (Que eu conheço a moça)”.
Discos de Luís Reis: 'Samba de balanço...' (1962) e 'Samba a quatro mãos' (1964), com João Roberto Kelly / Reproduções da internet
Esta é a faixa que abre “Samba de balanço... – Luiz Reis e seu ritmo contagiante” – aqui seu nome aparece grafado com “z” –, LP de 1962 produzido por Haroldo Barbosa, onde o Cabeleira mostra todo o seu talento ao piano e também soltando a voz neste vinil que é cem por cento sambalanço. Como também o é o LP “Samba a quatro mãos”, de 1964, com Luís Reis e João Roberto Kelly cantando e tocando – como bem sugere o título – num mesmo piano a quatro mãos. “Ora com Kelly à direita do piano, ora com Luís Reis, os dois largam uma impressionante brasa, na gravação do melhor disco instrumental lançado no Brasil este mês”, sacramentou Sérgio Porto – o Stanislaw Ponte Preta – na Ultima Hora de 13 de abril.
Na Gávea, permanecia fiel aos cavalinhos, como comentarista de turfe, formando dupla nos páreos com o locutor Ernani Pires Ferreira, na Rádio Jornal do Brasil, e depois com Geraldo Luiz na Eldorado. A vida boêmia ia de vento em popa, relatou ele a Luiz Carlos Sarmento para a revista Joia de abril de 1962: “Para que eu fique em dia comigo mesmo, é preciso que esteja em dia com a noite. Caso contrário, não estarei em dia com a música. Ando de boate em boate, como um beija-flor, à procura de boa melodia. Bebo de tudo: da batida ao scotch”. Seria assim até o fim da vida: em janeiro de 1980, antes de sua internação, tocava regularmente no Baco, minúsculo piano-bar do restaurante Real Astória, no Leblon. “O copo ao lado, cigarro na boca, aquela cinza enorme caindo pelo teclado”, descreveu o texto do fascículo publicado em 1979 pela Abril Cultural.
Em 1967, sua marcha “Se correr o bicho pega” (feita com Luiz Antônio) obteve um certo destaque nos dias de folia, como mostra Edigar de Alencar no livro “O Carnaval carioca através da música” (Francisco Alves, 1979, 3ª edição). O ás do samba e do balanço acabaria abraçando essa nova “causa”. Em entrevista a O Globo de 22/11/1976, ele contou: “Eu não fazia música de Carnaval. Comecei a fazer para festivais. Participei do Festival da TV Excelsior em 1968 e fui classificado com o samba ‘O craque do tamborim’, de parceria com Nássara. Em 1969 participei do Festival da TV Tupi e fui classificado em 4º lugar com ‘Olha o leite das crianças’ [em parceria com Pedro Caetano], gravação de Marlene, e em 3º com ‘Bloco de sujo’ [com Luiz Antônio] (...). Em 1970, de parceria com Miguel Gustavo, participei do Festival da Tupi com ‘Bloco da Lua’, também classificado em 3º lugar”.
Luís Reis passou a enfileirar um punhado de composições feitas para a festa de Momo: “Batalhas de confete” (com Nássara, 1968); “Samba arrasta multidão” (com Luiz Antônio), interpretado por Antônio Borba na I Bienal do Samba, em São Paulo (1968); “Zé do Surdo” (com Ethmar Vieira, 1968); “Trocadilha” (com Luiz Antônio, 1970); “Tobogando” (com Luiz Antônio), uma valsa carnavalesca, que Carlos Henrique defendeu na final do 5º Concurso de Músicas para o Carnaval em 1971; “Chico da Cuíca” (com Luiz Antônio), cantada por Dina Gonçalves no mesmo concurso, em 1971; “Samba no Leblon”, concorrente na II Bienal do Samba em SP, 1971; “Beija-flor” (com Luiz Antônio), finalista do 6º Concurso de Músicas para o Carnaval em 1972, defendida por Roberto Audi; “Tem que dá olé” (com Luiz Antônio, 1972); “Império do frevo” (com Jorge Veiga, 1974); “A roupa do Gonça” (1975); “Vale ouro”, finalista da Convocação Geral – Carnaval 77, evento promovido pelas organizações Globo; “Ventarola” (com Luiz Antônio, 1977); “O samba vai esquentar” (com Grande Otelo), finalista do Concurso de Músicas de Carnaval da Riotur em 1978.
Tantas composições carnavalescas... mas só mesmo “Salve a Mocidade” (1974) passaria à posteridade. Sérgio Cabral, n’O Globo de 13/02/1980, comentou sobre a frustração do amigo, após mais uma premiação em concursos do tipo: “Poucos dias antes do Carnaval, ele me telefonou para fazer a seguinte proposta: devolveria o dinheiro do prêmio à Riotur em troca da divulgação do seu samba. O que adiantava ganhar concurso de música carnavalesca se ninguém ouvia a sua música?”.
Luís Reis em três cliques: no ofício de pianista da noite à esquerda (O Cruzeiro, 11-02-1978) e à direita (Ultima Hora, 03-06-1976); no centro, com Marlene no 3º Festival de Músicas para o Carnaval (Manchete, 22-02-1969)
Nos anos 1960 e 70, como informa o texto do fascículo da Abril, “diversificou sua produção, acrescentando-lhe jingles, prefixos musicais para rádio e a trilha sonora do filme ‘Onde a terra começa’, de Rui Santos, em 1964”. Fez vários programas de televisão, veículo onde chegou pelas mãos de Miguel Gustavo, como informou Carlos Vinhaes na Ultima Hora de 03/06/1976. Luís Reis entraria novamente em estúdio em 1972 – após o falecimento do parceiro – para cantar e tocar uma música inédita de ambos, “A estrada”, que seria uma das faixas do LP “Homenagem a Miguel Gustavo”, lançado naquele mesmo ano. Atuou ainda como diretor de Relações Públicas da escola de samba Mangueira (segundo seu depoimento a O Dia em 1967) e, como jurado, no IV Festival Internacional da Canção (1969) e no desfile do 2º grupo das escolas de samba do Rio (1974).
Sérgio Cabral, n’O Globo de 13/02/1980, revelou que o Cabeleira “andava um pouco amargurado porque não conseguia gravar suas obras no mesmo ritmo em que eram produzidas”. De fato, Luís Reis deixaria um bocado de músicas inéditas. Cabral, na mesma ocasião, disse que ele havia sofrido muito “com a morte de Haroldo Barbosa, de quem não era mais parceiro mas por quem mantinha um sentimento (...). É provável que, cientificamente, sua morte não tenha nada a ver com a de Haroldo, mas seus amigos sabem muito bem que ele já não era mais o mesmo depois da perda do amigo”, que faleceu em 5 de setembro de 1979. Cinco meses depois, em 9 de fevereiro de 1980, foi-se embora o Cabeleira. Que, como não podia deixar de ser, no mês seguinte foi homenageado pelo Jockey Club carioca com a criação do Prêmio Luís Reis.
Partindo o Cabeleira, foi-se embora também toda uma época, como assinalou Artur da Távola n’O Globo de 12 de fevereiro: “Esse Luís só teria sido possível naquele Rio de Janeiro que o formou, com o enorme Luiz Antônio, compositor fabuloso, com o Haroldo Barbosa, o outro grande amigo e parceiro dele, com Antônio Maria, com Dolores Duran, com Elizeth cantando sempre, com Helena de Lima, com Miltinho, com Carminha Mascarenhas, linda, com Sérgio Porto, cronista de gênio, com Sacha no piano, com Lúcio Alves cantando. Talvez o que esteja morto, infelizmente morto (salvo na lembrança), é o tipo de vida, de gente e de cidade que gerou uma alma tão grande quanto a de Luís Reis (...)”.
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