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    Se eu te contar o que é que pode um cavaquinho: histórias de Marijn van der Linden, o holandês que vem formando chorões em Roterdã

    Pedro Paulo Malta

    tocar fonogramas

    Em tempos de guerra, faz bem saber de Roterdã. A cidade holandesa, sede do maior porto marítimo da Europa, tem na arquitetura arrojada uma amostra a céu aberto de sua própria capacidade de reinventar-se. Reduzida a escombros em 14-05-1940, num bombardeio nazista durante a Segunda Guerra Mundial, ela renasceu moderna como a série de estruturas que foram sendo erguidas com o tempo, entre elas a Centraal Station (estação de trem), o Markthal (mercado central) e Erasmusbrug – ponte pênsil que homenageia o morador mais ilustre da cidade, Erasmo de Roterdã (1466-1536), filósofo e teólogo lembrado como referência do Humanismo Cristão.

    Já na música, o roterdamês se reconhece mesmo é no jazz bem cantado por Rita Reys (1924-2013), nas peças de concerto do pianista Louis Andriessen (1939-2021), no repertório pop da cantora Anita Meyer (1954-) ou na batida dançante do DJ e produtor Ferry Corsten (1973-), só para ficar em alguns artistas da música nascidos na cidade. O que pouca gente sabe é que o choro – o nosso choro velho de guerra, há tanto tempo consagrado por Pixinguinha, Jacob do Bandolim e cia. – também tem morada em Roterdã, tocado em rodas, saraus, shows, salas de aulas e até num concorrido festival anual que já está na 13ª edição.

    O protagonista desta história, não menos inusitado do que ela, é simplesmente um chorão holandês: Marijn van der Linden, cavaquinista, violonista e professor de 45 anos de idade que vem fazendo mais pela difusão da música do Brasil do que muitos adidos culturais, produtores e executivos de gravadoras. “A música brasileira tem essa coisa que todo mundo gosta, traz um sorriso para o rosto das pessoas”, destaca Marijn (pronuncia-se Marên), que conseguiu um tempo para falar com a gente em pleno corre da produção do 13º Festival de Choro de Roterdã. “Nesses dias de guerra as pessoas estão precisadas de um pouco de alegria.”

    Pois foi justamente nesse clima que transcorreu o festival, realizado no último dia 22 de março, com shows que reuniram quase uma centena de músicos, entre professores, alunos e convidados especiais – com destaque para o violonista Rogério Caetano e o pianista Cristóvão Bastos, que voaram do Rio de Janeiro para se apresentar no Grounds, casa de shows de Roterdã que, por um dia, foi também a casa dos chorões europeus, com 250 pagantes na plateia. “A comunidade do choro já tem uma história aqui na Europa: além do Clube do Choro de Paris, em atividade há uns 25 anos, tem o de Lille, o de Toulouse, Hamburgo, do Porto...”, enumera Marijn. “Fora os que continuam surgindo por aí e a gente ainda nem sabe.”

    Momentos do 13º Festival de Choro de Roterdã: no centro, Marijn entre Cristóvão Bastos e Rogério Caetano / Fotos de Mario van der Linden / APIBO Production 

    O que se sabe e é perceptível é o crescimento do interesse pelo choro na Europa e, em especial, na Holanda. “Sabe como percebo isso? Pelos novos grupos e rodas que vão surgindo, fora os novos interessados que aparecem a toda hora”, conta o incansável chorão holandês. “O próprio cavaquinho, que até um certo ponto as pessoas viam e não faziam ideia do que era, hoje é mais conhecido”, revela o músico, impressionado com o interesse crescente pelo violão de sete cordas, outro instrumento que há algum tempo era tão desconhecido quanto o repertório básico das rodas.

    “Quando tocávamos choro, era só ‘Brasileirinho’, ‘Noites cariocas’ e ‘Naquele tempo’. Eu falava para os músicos que eles precisavam conhecer mais músicas e eles então me respondiam pedindo: ‘Ensina pra gente!’ Começou assim a nossa escola”, relembra Marijn, que inicialmente queria mesmo era criar um clube do choro, mas teve seus planos atravessados por dois fundadores da Escola Portátil de Música (EPM), a cavaquinista Luciana Rabello e o violonista Maurício Carrilho. “‘Por que você não monta uma escola?’, disseram. ‘Assim, você vai criar uma comunidade em torno de um mesmo interesse. Fora que é um público que se forma: pros seus shows, pros shows dos professores, pro choro.’ E eles tinham razão.”

    Quando o projeto saiu do papel, em 2013, Marijn não imaginava a quantidade de rodas, shows e histórias que estavam por vir na EPM Holanda – nome com o qual a escola foi batizada, embora atualmente seja conhecida também como Choro School. “Tem gente que entrou na escola aos seis anos de idade, sem saber rigorosamente nada, e hoje participa da roda com a gente tocando violão, cavaquinho... Choro, né?”, conta o fundador, atualmente com 72 alunos matriculados na escola, entre holandeses, brasileiros e oriundos de outros países europeus. “O choro é a base, mas aqui chega gente interessada em diversas vertentes da música brasileira, como o samba, a MPB, o forró e até capoeira.”

    Pois foi justamente como aluno de capoeira, lá mesmo em Roterdã, que Marijn teve o primeiro contato mais próximo com a cultura brasileira, aos 16 anos (1997/98), quando Araminho, mestre da Abadá Capoeira, o iniciou nos toques do berimbau, na ginga e nos fundamentos da dança-jogo ancestral do Brasil. Do mesmo professor ganhou seu nome de capoeira – “Eu era o Viola, pois já tocava violão, mas nada ainda de música brasileira” – e uma fita cassete que passou a ouvir em loop. “Tinha Caetano Veloso cantando ‘Você é linda’ e outros sucessos da MPB”, recorda o músico, que dali a alguns anos estaria formado em violão e guitarra jazz pelo Conservatório Fontys, de Tilburg (Holanda).

    Outras referências musicais vieram em seguida, quando Marijn conheceu Olga, sua companheira desde 2001, então recém chegada na Holanda com os familiares, vindos de Goiânia. “Eles tinham um conjunto, o Kryia Família, e tocavam muita percussão”, relembra. “Através deles pude prestar mais atenção a outros mestres da música brasileira, como Chico Buarque, Gilberto Gil e Naná Vasconcelos”, enumera o holandês, que já tocava MPB quando, na primeira viagem ao Rio de Janeiro (2005), teve sua aula inaugural de choro, com o cavaquinista Henrique Cazes. Já em 2008, quando participou de um festival no interior de São Paulo, foi adiante no aprendizado de choro e cavaquinho com Luciana Rabello.

    Marijn van der Linden e a madrinha da EPM Holanda, Luciana Rabello, em 2008 / Arquivo pessoal de  Marijn van der Linden

    “Junto com a palhetada, as levadas e os fundamentos, vieram muitas histórias de mestres como Canhoto, Waldir Azevedo, Jonas Pereira da Silva, Jacob do Bandolim, Pixinguinha...”, conta Marijn, como que antecipando o assunto seguinte da nossa conversa: pedimos a ele que fizesse uma playlist no nosso site reunindo suas referências e memórias afetivas do choro. “Comecei achando que fosse encontrar Hamilton de Holanda e Raphael Rabello, mas só então descobri que a época aqui, dos discos de 78 rotações, vai até os anos 1960, ou seja, antes deles. Nesta playlist estão, então, as gravações dos mestres deles, que são meus mestres também, né? E eu adoro música antiga.”

    Nada mal, então, que a seleção tenha começado por Henrique Alves de Mesquita. “O ‘Batuque’ é uma música que sempre mostro aos meus alunos quando me perguntam de onde vem o choro. Porque aí tem algo do começo mais perto do erudito, da influência europeia, e só então vai, com o tempo, se abrasileirando, por gêneros musicais como o maxixe”, situa Marijn. “Outro grande músico lá dos primórdios é Anacleto de Medeiros, o maestro que também ajudou a formatar o choro e ainda por cima tinha composições especiais como ‘Iara’, que acho uma das coisas mais lindas da música brasileira.”

    A seleção de Marijn tem outros dois grandes nomes que, ainda no século 19, ajudaram na formatação do choro: a maestrina Chiquinha Gonzaga, com a polca “Atraente” (na interpretação do Grupo Chiquinha Gonzaga), e Ernesto Nazareth, que interpreta ao piano outro clássico do choro, “Apanhei-te cavaquinho”, de sua própria autoria. O patrono do violão brasileiro, João Pernambuco, é outro presente na playlist, tocando “Sons de carrilhão”, um dos primeiros choros que Marijn conheceu. “Adorei quando ouvi pela primeira vez, mas não tinha partitura. Só depois aprendi a tocar”, diz. “Outro choro que ouvi nessa época foi o ‘Gostosinho’, do Jacob, que eu adoro.”

    Waldir Azevedo é outro que Marijn fez questão de incluir em sua lista, embora saiba que parte dos chorões – entre eles alguns discípulos de Jacob do Bandolim – não gostem tanto. “É comercial...? É, mas também é muito bonito. E pode ser uma boa entrada para o público em geral ouvir choro”, argumenta. “Sou cavaquinista, poxa! E Waldir foi o cara que levou o cavaquinho a outro lugar, dando popularidade ao instrumento e ao próprio choro no mundo todo”, explica o músico, que, além do hit “Brasileirinho”, incluiu a romântica “Pedacinhos do céu” em sua playlist. Já o genial Garoto, que também gabaritava o violão, o bandolim, a guitarra e o violão tenor, é lembrado por sua “Desvairada”.

    Outro mestre do cavaquinho na seleção do chorão holandês é Nelson Alves, o integrante dos Oito Batutas que assina a autoria dos choros “Ficou calmo”, em sua própria interpretação, e “Serpentina”. Este último é tocado por Waldiro Tramontano, o popular Canhoto – cavaquinista que fez história também como líder de conjunto: o Regional do Canhoto, de tantas e tantas gravações. Aqui, eles comparecem interpretando “Casinha pequenina” (do repertório tradicional) e “Gingando” (do próprio Canhoto com Dino Sete Cordas), além de acompanharem Isaurinha Garcia em “Aperto de mão”, samba de Dino com Augusto Calheiros e Jaime Florence, o Meira.

    Samba e choro: casa cheia na Roda da Holanda, uma das mais concorridas do país / Reprodução do Instagram: @rodadaholanda

    “Fiquei feliz quando achei o nome do Dino nessa busca: por tudo que ele representa não só no choro, mas na música popular brasileira”, exalta. “Naqueles discos do Cartola, por exemplo, o trio dele com Meira e Canhoto é uma verdadeira aula de acompanhamento”, destaca o músico, que também gostou de encontrar o samba “Quem me vê sorrindo” interpretado por Cartola, “um gentleman na maneira como canta”, na sua definição. O também mangueirense Nelson Cavaquinho, representado na playlist com “Negaste um cigarro”, é outro dos preferidos de Marijn, que chegou a gravar um álbum – “Notícias do Nelson”, com a cantora Femke Smit, sua conterrânea – dedicado ao sambista.

    Noel Rosa foi outra grata descoberta brasileira do músico holandês, que, quando ouviu ‘Gago apaixonado’, percebeu que se tratava de um sambista especial. “Eu, que sou de prestar mais atenção à música, fiquei preso naquele negócio de ‘mu-mu-mulher’, ‘fi-fi-ficando’... O que era aquilo? Quando descobri fiquei doido”, relata. “Outra coisa sensacional dessa gravação é aquele lápis no dente que está entre os instrumentos que acompanham Noel. Genial!” A parte cantada do repertório se completa com “Tico-tico no fubá”, no canto ligeiro de Ademilde Fonseca, e com Sílvio Caldas entoando “No rancho fundo”.

    “Essa eu ouvi pela primeira vez como música sertaneja, da qual me aproximei através da família da minha companheira, lá em Goiás, onde pude conhecer as coisas mais antigas, tradicionais: as modas de viola, o canto em terças, a viola caipira... Achei lindo”, contou. “Só depois eu soube que ‘No rancho fundo’ era um samba-canção que, originalmente, foi gravado com acompanhamento de regional de choro”, disse o músico, antes de uma última – e providencial – lembrança. “Pixinguinha é outro obrigatório, né? Mestre da composição e de melodias lindas como a do choro ‘Ainda me recordo’”, ensina o professor holandês. “E esses duetos que ele fez com Benedito Lacerda são como aulas de suingue e contraponto: é só ouvi-los tocando “Um a zero” para entender o que estou falando.”

    E assim Marijn segue espalhando a palavra de Pixinguinha, Jacob, Waldir e cia. Seja na EPM Holanda, nos festivais de choro de Roterdã ou até mesmo nas viagens ao Brasil. “Me lembro de quando a Casa do Choro foi inaugurada (2015), com aquele festival lindo na Praça Tiradentes”, descreve. “Num certo momento puxei papo com um vendedor de cerveja que estava ali curtindo à beça, maravilhado com aquela música. Perguntei se já conhecia choro e me respondeu que não, pois estava mais acostumado ao funk. Nessa hora pensei: como fazer o choro, que afinal tem origem popular e sempre foi popular, voltar a ser conhecido pelo povão...?”

    Na foto principal: selfie de Marijn van der Linden na EPM Holanda

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